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Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia

Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia

By:  TJCompleted
Language: Portuguese
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A nonagésima nona coisa que minha irmã adotiva, Isabella, me tirou foi um jazigo banhado pelo sol. Mesmo após pagar o sinal, o cemitério não se atreveu a me vender o jazigo, porque a princesa da Família Moretti queria aquele lugar para o cachorro morto dela. Como eu adorava aquele lugar, resolvi ligar para a minha mãe, a chefe da Família Moretti. A voz dela esfriou assim que mencionei o jazigo: — Adriana, você ainda não desistiu de fingir ter câncer no estômago? A Isabella acabou de perder o cachorro e já sofreu demais. Precisava mesmo tentar tirar mais alguma coisa dela? Meu pai rejeitou minha ligação. Já meu irmão, Luca, atendeu enquanto ajudava Isabella a escolher a lápide do cachorro. — Você não cansou de comprar jazigos para nos assustar? Por que sempre foi tão mesquinha? Ver sua irmã com alguma coisa boa te incomodava tanto assim? Olhei para o laudo do oncologista que segurava nas mãos. Só me restavam sete dias, talvez menos. Mesmo enquanto eu estava realmente morrendo, ninguém acreditava. Escolhi o único jazigo que restava, numa ponta do cemitério onde a luz do sol nunca chegava, e assinei o contrato. Depois, bloqueei meus familiares, um por um. Eles tinham razão. Eu precisava parar de implorar para que se importassem comigo e sair da vida deles de uma vez por todas. Sete dias depois, morri sozinha. Só então os Moretti finalmente acreditaram em mim e enlouqueceram com o arrependimento.

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Chapter 1

Capítulo 1

Assim que quitei o saldo do meu jazigo, uma foto enviada por Isabella apareceu no meu celular.

Ela estava junto ao jazigo que ficava sob o velho carvalho, o qual eu havia escolhido primeiro, e segurava contra o peito a urna de prata do cachorro. Meus pais estavam com Isabella, posicionados como guarda-costas, um de cada lado. Atrás deles, meu irmão conversava com um escultor ao lado de três placas de mármore importado da Itália.

Logo depois da foto, Isabella mandou um áudio.

— Adriana, o Caesar já morreu. Por favor, eu só queria que você não me obrigasse a disputar com você até o lugar onde eu ia enterrá-lo.

A voz dela tremia com delicadeza, um tanto quanto comovente. Qualquer outra pessoa poderia acreditar que era ela quem estava sendo maltratada.

Apaguei a mensagem e a bloqueei. Depois, saí do Cemitério São Miguel e voltei para o hospital.

O Dr. Bennett me esperava no consultório, com meus exames de imagem mais recentes abertos na tela.

— Quanto tempo os exames me deram?

Ele tirou os óculos.

— No máximo, uma semana. Talvez menos.

Assenti como se ele comentasse a previsão do tempo. O Dr. Bennett deslizou uma pasta pela mesa, na minha direção.

— Sua família não veio? Eles precisavam entender a gravidade do seu estado.

Um sorriso amargo surgiu nos meus lábios. Eu havia contado a eles sobre o diagnóstico inúmeras vezes, mas nunca acreditaram em mim.

Para eles, o câncer terminal não passava de mais uma mentira para disputar com Isabella o amor da família. Minha mãe me acusou de usar um laudo falso para castigá-la. Luca disse que qualquer um podia baixar um laudo de câncer na internet e trocar o nome, enquanto meu pai nem se deu ao trabalho de ler o documento.

Os Moretti confiavam mais nas lágrimas de Isabella do que no diagnóstico de um oncologista.

Uma batida na porta nos interrompeu, e um administrador do hospital entrou com um documento nas mãos.

— Senhorita Moretti, minhas desculpas, mas o escritório da Família Moretti retirou a autorização para seus cuidados paliativos particulares. O cancelamento também atingiu o serviço de enfermagem que começaria hoje à noite.

Ergui os olhos.

— Quem retirou a autorização?

— O escritório da Família Moretti. O nome do Don Moretti constava como responsável financeiro.

Por um instante, fiquei em silêncio. Era bem provável que meu pai estivesse tentando me castigar por tentar tomar o jazigo de Caesar. Ele estava mesmo convencido de que o diagnóstico era uma falsificação minha e não via motivo para desperdiçar o dinheiro da família com mais uma encenação.

— Entendi. — Respondi baixinho.

Voltei para o apartamento de dois quartos em Tribeca, onde eu morava havia um ano. O imóvel pertencia a uma das empresas imobiliárias dos Moretti e contava com porteiro, bancadas de mármore e vista para o rio Hudson.

Tinha tudo, menos a sensação de estar em casa.

Meu pai me mandou para lá após Isabella dizer que já não conseguia respirar debaixo do mesmo teto que eu. Mas nem sempre foi assim, houve uma época em que meus pais morriam de medo de me perder.

Aos doze anos, desmaiei com febre num abrigo infantil mantido pela Fundação Moretti. Por acaso, minha mãe estava visitando o abrigo naquela tarde e viu a marca de nascença em forma de meia-lua atrás da minha orelha.

A marca era idêntica à que aparecia em todos os avisos de desaparecimento que os Moretti fizeram circular discretamente durante doze anos. Um exame de DNA confirmou o que ela já sabia: eu era Adriana Moretti, a filha do Don mais temido de Nova York, a criança que desapareceu do próprio berço.

Minha mãe passou duas noites ao lado da minha cama no hospital. Quando o resultado saiu, ela me abraçou com tanta força que eu mal conseguia respirar. Disse que nunca desistiu de me procurar e prometeu passar o resto da vida compensando cada ano que perdemos.

Por um tempo, ela cumpriu a promessa que fez.

Meu pai incluiu meu nome no fundo fiduciário da Família Moretti e me apresentou como sua filha a todos os capitães da máfia em Nova York. Luca se mudou para o quarto em frente ao meu porque eu tinha medo de dormir sozinha. Minha mãe se sentava ao meu lado sempre que eu tinha um pesadelo, até que parei de acordar convencida de que estava de volta ao abrigo.

Eles me amavam, e eu tinha certeza disso. Então, Isabella começou a desmoronar.

Isabella foi adotada um ano depois que eu desapareci. Quando voltei, fazia onze anos que ela chamava meus pais de "mamãe e papai", e tratava meu irmão como se fosse seu irmão biológico.

Quando cheguei em casa, ela parou de comer. Acabou desmaiando e os médicos encontraram um bilhete debaixo do travesseiro dela:

"Desde que a Adriana voltou para casa, nenhum de vocês precisou mais de mim."

Minha mãe chorou por três dias. Luca me pediu que não aparecesse nos jantares em família até que Isabella se sentisse mais segura. Meu pai me lembrou de que ela continuava sendo filha deles e de que minha volta não diminuía seu lugar na família.

Até minha mãe me pediu paciência. Eu devia dar tempo para Isabella entender que não estava ali para tomar o lugar dela.

No começo, aqueles pedidos pareceram temporários, então concordei. Mas, sempre que Isabella chorava, me pediam que eu abrisse mão de mais alguma coisa. Com o tempo, deixaram de pedir e passaram a esperar que eu simplesmente cedesse espaço.

Esperei dez anos para que a família que um dia me amou voltasse a me escolher. Agora, só me restavam sete dias e, mesmo assim, eles continuavam não me escolhendo.

Naquela noite, liguei para uma funerária. Cuidar dos preparativos da minha própria morte foi mais fácil do que imaginei.

Escolhi a cremação direta, sem velório e sem cerimônia na igreja. Uma urna simples cor de marfim e uma única fotografia para os registros do cemitério. Nada de obituário.

Para a lápide, escolhi apenas meu nome, sem "filha amada" ou "irmã querida".

O agente funerário fez uma pausa ao chegar à última parte do formulário.

— Quem deveríamos contatar para a entrega dos seus restos mortais?

Fiquei olhando para a linha em branco. Os Moretti sepultavam cada membro da família com padres, rosas e homens armados de guarda nos portões do cemitério, mas ninguém viria me buscar.

— Eu queria que enviassem diretamente para o Cemitério São Miguel. O sepultamento já foi pago. — Respondi.

— Precisaríamos de uma declaração assinada com suas instruções para a destinação final dos seus restos mortais.

— Poderia me enviar?

O documento chegou poucos minutos depois, ele autorizava a funerária a cremar meu corpo e transferir minhas cinzas diretamente para o cemitério. Não seria necessário esperar a permissão da minha família.

Assinei meu nome no fim da página.

Adriana Moretti.

Pela primeira vez na vida, decidi sozinha onde era o meu lugar.
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