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CAPÍTULO 3

Author: Rosa Carmesim
Quando Afonso apareceu naquela noite, já estava perto da meia-noite.

Cecília se preparava para dormir. Ao ouvir o anúncio, vestiu um manto e se levantou.

Dália começou a arrumar os cabelos de Cecília, mas ela fez um gesto.

— Não precisa.

Afonso entrou trazendo no corpo o frio da noite. Ao vê-la apenas com a roupa de dormir, os cabelos longos soltos sobre as costas, interrompeu os passos por um instante.

— Majestade.

Cecília fez uma reverência.

— Se levante.

Ele se sentou à mesa e serviu uma xícara de chá para si mesmo.

— A imperatriz escolheu um nome para a princesa: Serena. Pensei que, como mãe biológica, você deveria ser consultada.

Cecília baixou os olhos.

— A imperatriz é a mãe da princesa. O nome escolhido por ela só pode ser bom.

Os dedos de Afonso se apertaram ao redor da xícara.

Uma brasa estalou no salão.

— É bom que pense assim. — Ele pousou a xícara. — Também vim falar de outra coisa. Lúcio completou três anos e está na idade de iniciar os estudos. A imperatriz escolherá pessoalmente um professor para ele.

Cecília ouviu em silêncio.

Afonso hesitou.

— Pensei que... a partir de agora, seria melhor você evitar encontrar Lúcio. Ele ainda é pequeno. Caso descubra que tem outra mãe biológica, isso pode causar problemas. Será melhor para todos que reconheça apenas a imperatriz como mãe.

Cecília ergueu a cabeça e o encarou.

Sob a luz das velas, seus olhos estavam tão imóveis quanto um lago no fim do outono.

— Obedecerei à ordem de Vossa Majestade.

Afonso sentiu uma irritação repentina.

Preferia que ela chorasse, fizesse uma cena ou perguntasse, com lágrimas nos olhos, por que ele estava fazendo aquilo, como antigamente.

Qualquer coisa seria melhor do que aquela obediência sem alma, como se Cecília tivesse se transformado numa marionete vazia.

— Você guarda ressentimento? — Perguntou ele, com a voz mais fria.

— Eu jamais ousaria.

Afonso sentiu o peito apertar. Aquela postura submissa e resignada, como se nada do que ele dissesse pudesse alcançá-la, o deixava ainda mais sufocado do que as súplicas entre lágrimas de antes.

— Cecília, está agindo assim porque guarda ressentimento? Se sente tanta revolta, como poderá continuar dando herdeiros à família imperial com tranquilidade?

Os lábios de Cecília pareceram se mover muito levemente. Talvez fosse ironia, talvez apenas cansaço.

— Se Vossa Majestade está preocupado com a sucessão, pode tomar outras consortes e escolher mulheres virtuosas para o palácio. Sou incapaz e temo não corresponder às expectativas imperiais.

— Você!

Afonso se levantou de repente.

— Eu fiz uma promessa à imperatriz! Ao tomar você como consorte, já quebrei a promessa de que seríamos apenas nós dois por toda a vida. Como poderia falhar com ela outra vez?

Assim que as palavras saíram, o salão mergulhou num silêncio mortal.

O próprio Afonso ficou imóvel.

Ele viu o rosto de Cecília perder ainda mais a cor. Viu Cecília morder o lábio inferior com tanta força que todo o sangue desapareceu dali. Sob os cílios trêmulos, um brilho úmido surgiu e sumiu tão rápido que ele quase pensou ter imaginado.

Então percebeu a monstruosidade que tinha acabado de dizer.

Diante da mulher que tinha dado à luz dois filhos para ele e ainda estava debilitada pelo parto, Afonso tinha exaltado o amor eterno que sentia por outra.

Um silêncio constrangedor se espalhou pelo aposento.

Cecília sustentou o próprio corpo, deslizou devagar até a beirada da cama e se curvou, encostando a testa no chão.

— Eu... falei demais. O amor e a lealdade entre Vossa Majestade e a imperatriz serão lembrados por gerações. Eu me despeço de Vossa Majestade.

Ela permaneceu curvada no chão. O corpo magro tremia sob a luz fraca, mas nenhuma outra palavra saiu de sua boca.

Afonso observou a figura vestida de azul-esverdeado e sentiu a irritação se misturar a uma dor abafada que não conseguia compreender.

De repente, se lembrou de Cecília três anos antes, quando ela tinha acabado de entrar no palácio.

Naquela época, ela ainda sorria. Colhia um ramo de flores de ameixeira no jardim imperial para colocar num vaso e permanecia ao lado dele, preparando tinta enquanto Afonso examinava os memoriais.

Certa vez, ele ergueu o rosto e a encontrou observando-o às escondidas. Quando seus olhares se cruzaram, Cecília baixou a cabeça depressa, mas as pontas das orelhas ficaram vermelhas.

Quando ela tinha deixado de olhar para ele?

Afonso quis estender a mão e ajudá-la a se levantar. Quis dizer alguma coisa para consertar o que tinha feito. No entanto, o orgulho imperial e a culpa que sentia por Isadora o mantiveram preso no lugar.

No fim, apenas sacudiu a manga com força, se virou e saiu em passos largos. Levava consigo a raiva que ainda não tinha passado e uma vergonha que nem ele queria admitir.

A porta se abriu e tornou a fechar. Uma corrente de ar gelado invadiu o aposento.

Dália correu para dentro e ajudou Cecília a se levantar, chorando.

— Senhora, por que precisa se submeter a isso...?

Cecília deixou que a aia a deitasse. Manteve os olhos abertos, fitando o dossel sem expressão.

Muito tempo depois, duas lágrimas deslizaram de repente pelos cantos dos olhos e desapareceram entre seus cabelos.

No início, ela apenas chorou em silêncio, com os ombros tremendo de leve. Depois, soluços contidos e partidos escaparam de sua garganta, como o gemido de um pequeno animal ferido.

Cecília puxou a colcha e mordeu o tecido com toda a força, abafando ali cada som. Só seu corpo continuou a estremecer de forma violenta.

— Senhora, chore de verdade. Não guarde tudo aí dentro... — Dália sentia o coração se partir.

Ninguém soube quanto tempo passou até que os tremores finalmente diminuíssem.

Cecília afastou a colcha e revelou um rosto coberto de lágrimas, mas estranhamente sereno.

Ela olhou para Dália, cuja visão também estava turva, e falou com a voz rouca, pronunciando cada palavra com clareza:

— Dália, será só esta vez.

— O quê?

— Vou chorar apenas esta vez. — Cecília limpou com força as marcas molhadas do rosto. Seus dedos estavam gelados. — Depois de hoje, não vou mais chorar.

Seu olhar passou por Dália e se perdeu no vazio. Ela repetiu, sem que se soubesse se falava com a aia ou consigo mesma:

— Não vale a pena.

— Por ele, não vale a pena nem um pouco.

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