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CAPÍTULO 2

Auteur: Rosa Carmesim
Na noite em que seu primeiro filho foi levado, três anos antes, Cecília já tinha pensado em morrer.

Ela era a única filha de Vicente Vasconcelos, o chanceler imperial. Desde pequena, tinha lido incontáveis livros e tinha se tornado famosa em toda a capital por sua erudição.

Se o novo imperador não tivesse acabado de assumir o trono em meio a uma corte instável, e seu pai não a tivesse enviado ao palácio sob o argumento de que os ministros civis deveriam permanecer unidos ao soberano, ela teria se casado com um homem culto e levado uma vida livre e refinada.

Entrar no palácio nunca tinha sido sua vontade.

Mas, naquela época, o novo imperador tinha conquistado o império pelas armas, enquanto a corte continuava instável e o império ainda não estava em paz.

Seu pai liderava os ministros civis. Aquele casamento era o símbolo de uma aliança entre o trono e os ministros civis, por isso Cecília tinha aceitado o decreto imperial.

No fundo, porém, existia uma expectativa secreta que ela mesma não queria examinar. Afinal, Cecília realmente tinha admirado Afonso.

Tinha admirado o general que tinha voltado da fronteira norte, o herói que tinha esmagado a rebelião e tinha permanecido diante do grande salão, jovem e imponente, recebendo a reverência de todos os ministros.

Ela tinha entrado no palácio com aquela esperança escondida, acreditando que ao menos receberia um pouco de sinceridade.

Até que, no quarto mês de gravidez, ouviu Afonso falar com Isadora atrás de uma formação rochosa no jardim imperial:

— Isadora, fique tranquila. Meu coração pertence apenas a você. Cecília só está aqui para dar herdeiros à família imperial. Quando a criança nascer, será levada para você criar.

Cada palavra era uma lâmina que cortava todas as suas ilusões.

Naquela noite, ela permaneceu sentada em seus aposentos até o amanhecer, sem derramar uma única lágrima.

Ela não tinha se casado com um herói. Tinha se tornado uma peça política, um ventre.

Cecília tinha pensado em morrer, mas, naquela época, o império tinha acabado de se estabilizar e a corte ainda era frágil.

Se tirasse a própria vida, o suicídio de uma consorte seria considerado um crime grave e poderia envolver seu pai.

Se fingisse a morte para escapar, trairia a harmonia entre o soberano e os ministros que ele tanto tinha se esforçado para conquistar em nome do império.

Por isso, só podia continuar suportando dentro daquele palácio.

Sua única esperança diária era comparecer diante da imperatriz e ouvir, do outro lado do biombo, os sons indistintos do filho pequeno.

Mesmo uma sombra vaga da criança era suficiente para fazê-la aguentar mais um dia.

Agora, três anos tinham passado.

Ela também tinha dado à luz uma filha, e as duas crianças tinham se tornado filhos legítimos da imperatriz.

O império estava em paz. A corte estava estável.

Cecília já tinha cumprido sua função como peça política e tinha deixado herdeiros para a família imperial.

Finalmente poderia se libertar.

Deitada na cama, ela calculava os dias.

Seu pai voltaria à corte em sete dias, depois de terminar uma inspeção na região sul.

Nos últimos três anos, ele tinha viajado pelo império em nome de Afonso, acalmando os ministros civis e reorganizando a administração. Enquanto isso, Cecília representava no harém o papel da consorte virtuosa e obediente.

Pai e filha, um na corte e a outra no palácio, tinham encenado até o fim aquela harmonia perfeita entre soberano e ministro.

Agora, o império estava em paz, a fronteira norte tinha sido estabilizada, as calamidades no sul haviam terminado e, embora ministros civis e militares ainda divergissem de vez em quando, a situação geral estava sob controle.

A peça política que ela era já tinha cumprido sua função.

Três dias depois, a pequena princesa completou um mês de vida.

A comemoração foi extremamente grandiosa.

O salão principal do Palácio da Imperatriz estava todo iluminado. Quase todas as esposas dos dignitários de terceiro escalão ou superior compareceram.

Quando Afonso entrou ao lado de Isadora, levava o príncipe nos braços.

Lúcio já tinha três anos. Vestia uma pequena túnica amarela e segurava o pescoço de Afonso enquanto o chamava de Pai.

Quando Isadora estendeu os braços, o menino se lançou obedientemente em seu colo e a chamou, com a voz infantil:

— Mãe.

Os três pareciam uma família feliz e unida.

Cecília baixou os olhos e ergueu a xícara de chá.

O líquido estava quente, mas seus dedos tremiam levemente.

— A Consorte Cecília veio? — Perguntou Isadora, sorrindo. — Pensei que não apareceria por estar indisposta.

— A celebração do primeiro mês de vida da princesa é uma ocasião feliz. Naturalmente, eu deveria comparecer.

Cecília se levantou e fez uma reverência. Sua voz permaneceu estável.

— Ainda bem. — Isadora fez um gesto. — Lúcio, venha cumprimentar a Consorte Cecília.

O príncipe desceu da cadeira, correu com suas pernas curtas até Isadora e ergueu o rosto para Cecília. Seu olhar era completamente estranho.

— Lúcio, esta é a Consorte Cecília. — Disse Isadora com doçura.

A criança piscou e falou com a voz suave:

— Meus cumprimentos, Consorte Cecília.

As mãos de Cecília estremeceram sob as mangas, mas ela manteve o sorriso.

— O príncipe Lúcio tem ótimas maneiras.

— Pode se sentar, Cecília. — Disse Afonso.

O olhar dele se deteve nela por um instante antes de se afastar.

O banquete continuou. As damas faziam elogios, dizendo que a princesa era delicada e adorável, que a imperatriz era amorosa e que Sua Majestade governava com sabedoria.

Cecília permaneceu em silêncio. De vez em quando, levava um pouco de comida à boca, mas não sentia sabor algum.

Depois de algumas rodadas de vinho, Isadora comentou de repente:

— Pensando bem, Cecília é a mãe biológica da princesa e ainda não teve a chance de segurá-la, não é?

O salão ficou em silêncio por um instante.

Cecília ergueu os olhos e encontrou o olhar sorridente de Isadora.

— Hoje ela completa um mês. É justo que você a segure um pouco.

Enquanto falava, Isadora realmente se levantou com a bebê nos braços e caminhou em sua direção.

As damas da corte voltaram os olhos para elas.

Cecília se levantou e estendeu os braços.

O embrulho estava quente. O pequeno rosto permanecia exposto, com os olhos fechados num sono profundo.

Era sua filha.

Ela a segurou por apenas alguns segundos antes que a bebê soltasse um choro agudo.

Isadora imediatamente a tomou de volta e começou a balançá-la.

— Pronto, pronto, não chore. A mamãe está aqui.

Estranhamente, assim que voltou aos braços de Isadora, o choro da criança foi diminuindo.

Algumas pessoas começaram a cochichar pelo salão.

— No fim das contas, mãe é quem cria...

— Dar à luz não vale tanto quanto criar.

— A Consorte Cecília ainda é jovem. Não sabe segurar uma criança.

Cada frase era uma agulha cravada no peito de Cecília.

Ela continuou parada, com os braços ainda na posição em que tinha segurado a filha, mas agora vazios.

Enquanto acalmava a criança, Isadora disse num tom de desculpa:

— Não leve a mal. A princesa estranha quem não conhece.

— Fui desajeitada e assustei a princesa. — Cecília baixou os olhos, mantendo a voz estável. — Agradeço à imperatriz por todo o esforço para cuidar dela.

Depois, se voltou para Afonso.

— Majestade, não estou me sentindo bem. Peço permissão para me retirar mais cedo.

Ele observou seu rosto pálido e hesitou por um instante.

— Pode ir. Descanse bem.

— Obrigada, Majestade.

Cecília fez uma reverência e se retirou.

Sentia os olhares em suas costas. Alguns demonstravam pena, outros desprezo, e outros mal escondiam a satisfação com sua desgraça.

O céu já estava escuro quando ela deixou o Palácio da Imperatriz.

Dália a amparou e disse em voz baixa:

— Senhora, vamos voltar aos seus aposentos.

— Sim.

Depois de alguns passos, Cecília parou e olhou para trás.

O interior do palácio estava iluminado, e risos felizes atravessavam as janelas.

Ela viu Afonso se aproximar de Isadora e baixar os olhos para a bebê. Isadora ergueu o rosto e sorriu para ele, enquanto Lúcio abraçava sua perna.

Pareciam mesmo uma família.

Mas aquela felicidade familiar pertencia a outras pessoas.

Não tinha nada a ver com ela.

Cecília voltou o rosto e continuou andando.

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