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CAPÍTULO 5

Auteur: Rosa Carmesim
— O que está acontecendo aqui?! — Uma voz grave e furiosa atravessou a praça.

Ninguém tinha percebido quando Afonso tinha surgido junto ao portão. Parecia ter acabado de sair da audiência da manhã e ainda vestia o traje oficial.

Seu olhar passou por Cecília, ajoelhada no chão gelado com o rosto inchado, e depois alcançou Isadora, que estava tomada pela raiva. Ele franziu a testa.

A expressão de Isadora mudou no mesmo instante. Seus olhos ficaram vermelhos, e ela se aproximou com ar magoado.

— Majestade, olhe para a Consorte Cecília! Eu apenas tentei orientá-la, e ela usou o nome do Chanceler Vasconcelos para me intimidar. Contestou cada palavra e não demonstrou nenhum arrependimento! Eu me irritei e acabei...

Afonso olhou para o ferimento no rosto de Cecília. O inchaço vermelho sobre a pele pálida era doloroso de ver.

Seu coração se contraiu, tomado por uma dor fina e insistente.

Mas então viu as lágrimas nos olhos de Isadora e se lembrou de tudo o que ela tinha feito por ele, além da dor de nunca mais poder ter filhos. A pontada foi reprimida.

Ele não podia repreender a imperatriz em público e destruir sua autoridade.

Por isso, se voltou para Cecília com a voz dura.

— Consorte Cecília, reconhece seu erro? A imperatriz governa o harém. Orientar as consortes faz parte de suas obrigações. Você a enfrentou, desrespeitou alguém de posição superior e a deixou furiosa. Que punição merece?

Cecília ergueu lentamente os olhos para ele.

Aquele olhar era mais frio do que o gelo sob seus joelhos e mais cortante do que o vento ao redor. Atingiu Afonso em cheio.

Não havia ódio nem súplica. Apenas a compreensão vazia de quem já não esperava mais nada.

Cecília se curvou devagar até encostar a testa no chão gelado. Sua voz estava assustadoramente calma.

— Reconheço... minha culpa. Vossa Majestade e a imperatriz podem... dispor de mim como quiserem.

As palavras foram ditas com leveza, mas atingiram o peito de Afonso como um golpe pesado.

Ele se lembrou do que ela tinha dito na noite anterior.

"Vossa Majestade pode tomar outras consortes."

Aquela raiva inexplicável voltou a subir por dentro dele.

Afonso fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, já tinha recuperado a indiferença de um imperador.

— A Consorte Cecília agiu de forma imprópria e desrespeitou a imperatriz. A partir de hoje, será transferida para o Palácio do Exílio, onde deverá refletir sobre seus erros. Não poderá sair sem um decreto meu.

O Palácio do Exílio ficava no ponto mais afastado da ala oeste, abandonado havia muitos anos e pouco diferente de uma ala de reclusão.

Um lampejo de satisfação surgiu nos olhos de Isadora.

Cecília se curvou até o chão.

— Agradeço a benevolência de Vossa Majestade.

Ao observar a figura curvada diante dele, Afonso foi tomado por outra onda de irritação.

Sacudiu a manga.

— Vamos embora!

A comitiva imperial se afastou.

Cecília se levantou devagar. A dor nos joelhos parecia perfurá-la até os ossos.

Dália correu para ampará-la, enquanto as lágrimas caíam sem parar.

— Senhora, vamos voltar aos seus aposentos...

— Sim. — A voz de Cecília estava muito baixa. — Arrume nossas coisas. Vamos nos mudar.

O Palácio do Exílio estava realmente em ruínas.

O pátio era tomado por ervas daninhas, e teias de aranha cobriam o interior.

Dália passou o dia inteiro coordenando a limpeza até que o lugar se tornasse minimamente habitável.

À noite, ela preparou uma compressa para o rosto de Cecília.

Cecília observou o próprio reflexo no espelho de bronze. Metade do rosto estava vermelha e inchada, e uma crosta de sangue tinha se formado no canto dos lábios. Sua aparência era miserável.

Mas seus olhos permaneciam imóveis, como o mar antes de uma tempestade de neve.

— Dália, você acha que fui tolerante demais durante todos esses anos?

A aia ficou surpresa.

— Meu pai me ensinou a vencer a força com suavidade e a pensar no bem maior.

Cecília falava tão baixo que parecia conversar consigo mesma.

— Suportei tudo por três anos. Suportei que levassem meus filhos, que me fizessem ajoelhar na neve, que me humilhassem e, hoje, suportei este tapa...

Ela se virou para Dália.

— Mas o que recebi em troca?

Dália se calou. Ao encontrar no espelho aquele olhar desconhecido de sua senhora, sentiu o coração se apertar sem saber por quê.

— A senhora fez tudo por seu pai e pelo bem maior...

— Por meu pai. Pelo bem maior...

Cecília repetiu em voz baixa e passou a ponta dos dedos pela superfície fria do espelho.

— Isso significa que devo continuar como carne sobre a tábua, esperando ser cortada por qualquer um? Que não posso proteger nem meus próprios filhos? Que até o nome honrado de meu pai pode ser pisoteado à vontade?

Ela afastou a mão. Seus dedos estavam gelados.

— A tolerância só me trouxe humilhações cada vez piores e perdas que nunca terminam.

Cecília olhou para Dália. Algo em seus olhos parecia se quebrar e se reconstruir ao mesmo tempo.

— Traga a caixa de madeira escura que trouxe comigo da residência dos Vasconcelos.

A caixa fazia parte de seu dote e tinha permanecido guardada no depósito desde a entrada no palácio.

Dália a trouxe e abriu. Dentro havia alguns objetos antigos: livros, uma pilha de poemas e vários selos.

No fundo, estava um rolo de pintura.

Cecília o retirou e o abriu lentamente sobre a mesa.

A pintura mostrava um jovem general cavalgando pela neve. Era Afonso, na ocasião de seu retorno vitorioso três anos antes.

Ela a tinha pintado na noite anterior à entrada no palácio.

Agora, ao vê-la, só sentia que tudo aquilo era ridículo.

Cecília foi até a escrivaninha, preparou o papel e a tinta e escreveu uma frase na pintura.

As letras eram muito pequenas e ficaram junto à barra da roupa do homem retratado. Quase não podiam ser percebidas sem atenção.

Ela soprou levemente para secar a tinta, enrolou a pintura de novo e a entregou a Dália.

— Guarde. Tome cuidado para não sujar nem danificar.

Dália ficou sem entender.

— Guarde muito bem. — Cecília fitou a noite escura do lado de fora, com o olhar distante. — Um dia, ela será útil.

Aquele olhar fez Dália estremecer.

— Senhora, o que pretende...?

— Não pretendo nada.

Cecília se levantou e caminhou até a janela.

— Quando Sua Majestade irá inspecionar as tropas nas Colinas do Oeste?

— Daqui a três dias.

— Ótimo. — Ela fitou os galhos secos do lado de fora. — Preciso que faça uma coisa por mim.

Naquela mesma noite, Cecília enviou Dália secretamente para fora do palácio.

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