FAZER LOGINZara Nox
O relógio marcava seis da tarde quando fechei meu computador pela última vez naquele dia. Meus dedos doíam de tanto digitar relatórios, mas meu peito estava leve - mais um dia como assistente do Lorenzo Castellani tinha terminado, e eu sobrevivi.
Encontrei Liz na portaria, se espreguiçando igual um gato cansado.
- Eu tô morta - ela reclamou, jogando a bolsa no ombro. - Se eu tiver que ouvir mais uma bronca do setor de contabilidade, juro que peço demissão.
- Relaxa - respondi, rindo. - Que hoje é sexta, e depois vem o paraíso do fim de semana.
Ela riu junto, e eu senti uma pontinha de alegria por finalmente ter alguém que dividisse as pequenas vitórias do meu dia.
- O que você vai fazer hoje, Zara?
- Curtir um pouco minha casa nova - respondi, abrindo um sorriso meio tímido.
- Casa nova? - Liz arqueou as sobrancelhas. - Ah, é mesmo! Às vezes esqueço que você acabou de chegar do internato.
- Pois é. E agora é a minha vez de escolher os móveis, o perfume do ambiente, a playlist... tudo. - Suspirei, sentindo aquele misto de liberdade e medo. - Sabe o que é viver 18 anos num lugar que não era seu?
Ela assentiu devagar.
- Quer ir pra lá comigo? Fazemos uma noite das meninas. Você é a primeira amiga que tenho em 18 anos.
Liz me olhou com um sorriso sincero, depois me puxou para um abraço.
- Então é oficial. Hoje é o início da nossa tradição.
- Noite das meninas? - brinquei.
- Com direito a fofoca, vinho e filme ruim.
Rimos juntas, e por um segundo esqueci que tinha passado o dia inteiro tentando entender o humor imprevisível do meu chefe.
- Adoraria, mas preciso passar em casa pra pegar umas roupas.
- Relaxa, vamos direto. Roupa é o que não falta - falei, sem pensar.
- Jura? Tá tentando me seduzir com guarda-roupa emprestado? - ela provocou.
- Só quero companhia, garota. - Ri, empurrando-a de leve. - Vamos antes que eu mude de ideia.
Descemos os degraus da entrada principal e, por impulso, olhei para trás.
Lorenzo saía do elevador, terno impecável, passos firmes, olhar fixo em algum ponto distante. Aquilo me deu um frio no estômago.
Ele exalava uma presença... difícil de ignorar. Não era apenas beleza - era controle. E eu, que nunca tivera nada, me sentia minúscula diante de alguém como ele.
Apertei o passo.
Liz percebeu.
- Fugindo de quem?
- De mim mesma. - Foi tudo o que consegui dizer.
Entramos no táxi e seguimos até meu novo prédio.
- Boa noite, seu Juca - cumprimentei o porteiro, que já me conhecia desde o dia da mudança.
- Boa noite, meninas. Cuidado com o frio, hein? - ele avisou, sorrindo.
No elevador, Liz falava sobre um cara que conheceu na academia - alto, moreno, e que provavelmente mentiu a idade. Eu fingia interesse, mas minha cabeça ainda estava na figura do Lorenzo, no modo como ele havia me olhado quando entrei na sala dele pela primeira vez: curioso, intenso, como se me conhecesse há anos.
A porta do elevador se abriu, e a brisa gelada do último andar me fez arrepiar. Abri a porta do apartamento e deixei Liz entrar primeiro.
- Meu Deus do céu, Zara! - ela exclamou, girando sobre os próprios pés. - Que apê é esse?
Sorri, meio sem graça.
- Eu ganhei quando saí do internato. Não sei de quem. Só recebi as chaves e os documentos.
Liz parou no meio da sala, completamente boquiaberta.
O apartamento realmente era um sonho: piso de mármore branco, janelas enormes com cortinas translúcidas e uma vista que parecia abraçar a cidade inteira. Um piano de cauda ocupava o canto da sala - algo que eu nunca tinha tocado, mas que me dava a sensação de pertencer àquele lugar.
- Sortuda você - ela disse, rindo e girando pelo espaço. - Meus pais são ricos, mas nem eles têm uma vista dessa. Isso aqui é o estilo Castellani de ser.
- Como assim? - perguntei, me servindo de vinho.
- Ui, que delícia - ela murmurou, pegando uma taça. - O Lorenzo Castellani é o maior proprietário de arranha-céus da cidade. E o seu apartamento é no último andar, com uma vista panorâmica. Coincidência?
Eu parei de respirar por um segundo.
- Tá dizendo que ele... - deixei a frase morrer.
- Que ele pode ter te dado esse apê? - Liz completou, rindo. - Vai saber. O homem é cheio de segredos.
Me sentei no sofá, tentando ignorar o aperto no peito.
- Ele é estranho - confessei. - Um dia parece distante, no outro... parece que quer saber tudo sobre mim.
- Zara Nox, não vai me dizer que tá afim dele!
- Claro que não, Liz! - respondi rápido demais. - Ele é meu chefe. E eu mal comecei lá.
Ela riu.
- Ok, mas não precisa mentir pra mim. Ele é bonito demais pra ser só "meu chefe".
- Ele é um homem complicado - murmurei, girando o vinho na taça. - E eu já tive complicações demais na vida.
Liz se jogou no sofá ao meu lado.
- Então vamos falar de coisa boa. - Ela pegou o controle da TV e colocou um filme qualquer de comédia romântica. - Regrinha da noite das meninas número um: nada de assuntos sérios.
- E número dois?
- Beber até esquecer o nome do ex inexistente.
Caímos na risada.
As horas passaram leves - rimos, comemos pizza fria e reclamamos da vida. Em algum momento, Liz adormeceu no sofá, o cabelo caindo sobre o braço da poltrona.
Fiquei observando a cidade pela janela. As luzes piscavam como constelações artificiais.
E, por algum motivo, pensei em Lorenzo.
Lembrei do modo como ele me olhou mais cedo, como seu olhar parecia atravessar a fachada profissional e tocar algo que nem eu sabia explicar.
Era desconcertante.
Perigoso.
"Não, Zara", murmurei pra mim mesma. "Ele é seu chefe. Foco."
Mas uma parte de mim - aquela que nunca teve ninguém olhando por ela - se perguntava por que ele parecia tão... protetor.
TrizO avião tocou o solo com uma suavidade que parecia simbolizar mais do que apenas o fim de um voo. Era o fim de uma fase, mas também o começo de algo ainda maior. Após um ano inteiro de intercâmbio, Hector e eu finalmente estávamos de volta. E, apesar da saudade que sentíamos da família, a ansiedade por reencontrá-los era maior ainda.- Finalmente... - murmurei, segurando a mão dele enquanto caminhávamos pelo terminal. O coração batia acelerado, misturando felicidade e nervosismo.- Eu sei... Triz - disse Hector, apertando minha mão. - Agora é hora de voltarmos para casa.Ao sairmos pelo portão de desembarque, fomos recebidos por uma cena que me fez o coração quase explodir. Lorenzo, Zara, Liz, Rômulo, Bianca e Vittorio nos esperavam, com sorrisos imensos, alguns chorando de emoção. Hector e eu corremos para eles, e foi como se nenhum dia tivesse passado.- Meus filhos! - gritou Zara, me abraçando com força. - Vocês estão finalmente de volta!- Nós sentimos tanta falta de vocês -
TrizO vazio que Hector deixou quando embarcou ainda doía dentro de mim. Cada canto da casa parecia ecoar a ausência dele, cada manhã sem o som da sua voz era um lembrete cruel de que a distância tinha chegado. Eu tentei me ocupar com estudos, amigos, passeios com a família... mas no fundo, nada conseguia preencher aquele espaço que era só dele.Sentada na sala, com as mãos sobre o livro que eu fingia ler, respirei fundo e decidi que era hora de ser honesta com todos. A verdade, por mais que me assustasse, precisava sair. Eles mereciam saber quem eu realmente era, quem eu amava.- Eu... eu preciso falar pra vocês - comecei, a voz trêmula. - Eu e Hector... nós nos apaixonamos. E namoramos por três anos. Mas ele... ele foi embora, e terminamos... e eu tinha decidido esperar para contar quando ele voltasse. Mas... eu não consegui mais esperar.O silêncio que se seguiu foi quase doloroso. Olhei para minha mãe, Zara, que estava encostada no batente da porta, com o olhar suave, mas atento.
HectorO dia finalmente chegou. Depois de três anos intensos, cheios de risadas, olhares roubados, segredos e promessas silenciosas, eu estava prestes a embarcar para um intercâmbio que mudaria a minha vida. Eu mal dormi na noite anterior, e mesmo assim, quando acordei, o nervosismo tomou conta do meu corpo como se eu fosse um iniciante num palco gigantesco, sem roteiro e sem ensaio.O sol da manhã entrava pelas cortinas do meu quarto, mas não conseguia aquecer o frio que sentia no peito. Triz estava na cozinha, preparando café com aquele jeitinho dela de sempre - tentando agir normal, mesmo sabendo que algo estava prestes a mudar. Eu tentei sorrir, mas era impossível. Cada passo em direção à porta parecia me puxar de volta, cada respiração me lembrava de que os próximos meses seriam longe dela. E eu não sabia se meu coração iria sobreviver a isso.- Bom dia, Hector. - Triz apareceu na porta, ainda com a camiseta grande que usava para dormir, e um sorriso tímido no rosto. - Dormiu bem
HectorMeses se passando... e o mundo virando de cabeça pra baixo.As coisas mudaram muito rápido. Rápido demais, pra ser sincero.Alguns meses atrás, eu e a Triz ainda estávamos escondendo nosso namoro, achando que ninguém desconfiava - embora todos provavelmente soubessem. Nós achávamos que éramos ótimos em disfarçar, mas éramos só dois adolescentes bobos, apaixonados, tentando não chamar atenção.Mas tudo isso ficou pequeno perto do que aconteceu com a minha mãe e com a tia Liz.As duas grávidas ao mesmo tempo - de novo - e agora com as barrigas tão enormes que parecia que carregavam o planeta Terra dentro delas. Às vezes eu olhava e pensava que, se elas espirrassem, iam entrar em trabalho de parto. Só que obviamente eu nunca falava isso em voz alta, porque eu gostava de ter meus dentes completos.Eu observava a minha mãe de longe naquele dia. Ela estava rindo de algo que a tia Liz tinha falado, segurando a barriga, como se rir já fosse difícil demais.- Hector... - Triz me cutucou
HectorNunca pensei que me sentiria assim. Confuso, animado, nervoso e ao mesmo tempo feliz. Tudo isso ao mesmo tempo. Eu e Triz tínhamos um segredo. Um segredo que nem Lorenzo, nem Zara, nem ninguém da família sabia: nós estávamos namorando escondidos.Tudo começou de forma inocente. Crescemos juntos, brincando, estudando, crescendo lado a lado. Sempre fomos muito próximos, mas nos últimos meses algo mudou. Eu comecei a perceber cada gesto dela, cada sorriso, cada risada, de uma forma diferente. Meu coração acelerava quando ela estava por perto, e eu sabia que não era apenas amizade.- Hector, você está estranho hoje - disse Triz um dia, com aquele sorriso provocador. - Parece que vai explodir a qualquer momento.- Eu... não sei do que você está falando - tentei disfarçar, mas minha voz traiu meu nervosismo.Ela riu, aproximando-se de mim na biblioteca da escola.- Ah, vamos, não se faça de bobo. Eu sei quando você está pensando em mim.Eu senti meu rosto esquentar, mas tentei manter
Zara NoxA manhã começou calma na mansão Castellani, mas dentro de mim havia um turbilhão de emoções. Hector brincava na sala com Triz, já acostumados com o mundo que nós, mães, estávamos construindo para eles. Liz estava ao meu lado, segurando minha mão, nervosa, ansiosa. Nós duas sabíamos que aquele momento seria especial - e também carregado de expectativa.- Então... é hoje - sussurrei, quase sem ar.Liz assentiu, mordendo o lábio, o gesto denunciando a ansiedade que também sentia.- Eles vão reagir... bem, espero - disse ela, tentando rir, mas seus olhos brilhavam de emoção.Respirei fundo. Hoje iríamos contar para Lorenzo e Rômulo que as duas estavam grávidas. Dois bebês chegando, quase ao mesmo tempo. A sincronia era inacreditável, e eu não poderia guardar segredo por mais tempo.- Vamos fazer isso agora? - perguntei. - Antes que a emoção nos derrube.Liz concordou. Levantamo-nos, e eu segurei Hector pelo braço, caminhando até a sala onde Lorenzo e Rômulo estavam trabalhando. O







