Accueil / Romance / Sua segunda opção / 01_uma descoberta inusitada

Partager

Sua segunda opção
Sua segunda opção
Auteur: Bia.l.f

01_uma descoberta inusitada

Auteur: Bia.l.f
last update Date de publication: 2025-07-08 20:46:43

O canto dos pardais foi a primeira coisa que invadiu minha consciência. Um alegre trinado que anunciava o amanhecer daquela manhã de primavera. Raios de sol dourado filtravam-se pelas frestas das pesadas cortinas de veludo, iluminando motes de poeira que dançavam no ar como fadas minúsculas. Era um dia que, em qualquer romance que eu lesse, prometia desdobramentos extraordinários.

— Senhorita Sophia? — uma voz suave, familiar, quebrou o silêncio do meu quarto. Era Aby,minha serva pessoal. Ela entrou com a discrição de quem conhecia bem meu amor pela solidão. Vestia seu uniforme de sempre: um vestido negro, austero, contrastando com o branco imaculado do avental e das rendas delicadas na gola e nos punhos.

— O senhor Jonas aguarda a senhora na sala de visitas.

Jonas. Meu noivo. O termo ecoou vazio dentro de mim. Nosso compromisso fora um arranjo do meu pai, uma cortina de fumaça para esconder o fato de eu, a primogênita, estar prestes a tornar-se uma solteirona aos vinte e dois anos, enquanto minha prima, Alessia, brilhava no noivado reluzente com Philip. Minha relação com Jonas era polida, distante, como um lago superficial congelado pelo primeiro sopro do inverno.

Terminei de me arrumar com gestos mecânicos. O espelho refletiu a imagem de sempre: uma pele de tom pálido e quente, que alguns chamavam de âmbar; cabelos castanho-escuros, com reflexos da terra após a chuva; e olhos profundos, grandes e escuros como a noite sem lua. Uma moldura adequada para uma vida que parecia ser sempre vivida nos bastidores.

Enquanto caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, tentei moldar a ideia do casamento com Jonas. Talvez não fôssemos um casal de livros, loucos de paixão. Talvez pudéssemos construir algo diferente, uma parceria tranquila, um porto seguro mútuo. A possibilidade não era excitante, mas era... segura.

Ao entrar na sala de visitas, ele estava sentado, elegante em seu terno de linha cinza, a xícara de chá equilibrada entre os dedos. Seus olhos amendoados encontraram os meus, e um sorriso tranquilo — quase profissional — surgiu em seu rosto de feições suaves e cabelos cor de caramelo. Notavelmente, seu terno combinava com as nuances do meu vestido de seda cor de amêndoa. Uma coincidência irônica.

— É um prazer revê-la, Sophia. —O sentimento é recíproco. O dia está magnífico, não acha?

A troca de trivialidades era nosso ritual. Mas hoje, o ar entre nós estava carregado de uma tensão invisível. Lembrei-me do que Aby dissera. A aliança. O pedido oficial. Meu olhar vagueou por suas mãos, procurando por um pequeno relevo em seu bolso, qualquer sinal.

— Senhor visconde, sobre o nosso futuro casamento... — comecei, deliberadamente vaga.

A reação foi instantânea. Ele tossiu, engasgando-se com o chá, e um fio do líquido quente manchou o impecável tecido cinza. O constrangimento pintou seu rosto.

— A senhorita parece... apressada. Não precisamos ser tão precipitados.

Está evitando. As empregadas podiam fofocar, mas não sem um fundo de verdade. Uma calma fria desceu sobre mim. Ele não queria fazer o pedido. Ele queria desfazer o noivado.

— Então, o senhor visconde planeja romper o nosso acordo, não é? — perguntei, minha voz surpreendentemente estável.

Ele fitou a xícara como se ela contivesse todas as respostas, tomando outro gole num gesto claramente nervoso.

— Como... como a senhorita sabe?

Não sabia. Apenas sentia. Era óbvio. Se havia uma aliança e eu não a tinha visto, ela não era para mim. Uma pontada de irritação, não pelo coração partido, mas pelo constrangimento, pela humilhação de ser posta de lado, surgiu. Mas brigar? Fazer uma cena? Isso só tornaria a farsa mais patética.

— Acho que o senhor visconde já ouviu falar do sexto sentido peculiar de uma mulher — disse, oferecendo-lhe um sorriso pequeno e sereno.

O alívio que inundou seus traços foi quase palpável. Ele se tornou novamente aquele homem de aparência gentil, lembrando um golden retriever — leal, mas não a mim.

— Obrigado, senhorita Sophia. Prometo retribuir sua generosidade, por findar nosso noivado de forma tão abrupta e... inadequada.

Com novas e elaboradas desculpas, ele partiu. Fiquei sozinha na sala de visitas, o silêncio preenchido pelo tilintar distante de talheres e o cheio adocicado dos doces intocados.

A tranquilidade que se seguiu não era tristeza. Era algo mais complexo: um misto de alívio e resignação. A confirmação do rompimento não partiu meu coração—ele mal havia sido envolvido. Em vez de angústia, senti um vazio peculiar, como o silêncio que permanece após uma orquestra terminar sua sinfonia.

Caminhei pelos corredores da mansão onde cresci, meus passos silenciosos ecoando sobre mármores polidos. A opulência ao meu redor—os retratos a óleo de ancestiais de rostos severos, os vasos chineses, as tapeçarias bordadas—sempre me fizera sentir uma estranha em minha própria casa. Após anos sendo relegada ao papel de coadjuvante na narrativa familiar, aprendi a buscar refúgio na invisibilidade. Talvez, admiti para mim mesma, eu apreciasse minha própria companhia mais do que a etiqueta permitia.

A biblioteca surgiu como um santuário natural. O aroma familiar de papel envelhecido e couro foi um bálsamo. Meus dedos percorreram as lombadas familiares até pausar em uma mais nova, modestamente encadernada. Ao puxá-la, reconheci imediatamente a obra: era um dos romances que eu mesma escrevera, publicado sob o pseudônimo de "Sia". A edição finalmente chegara com a última remessa de livros novos.

Um sorriso involuntário—largo, genuíno, talvez até desproporcional—iluminou meu rosto. Era a expressão de uma conquista íntima, um segredo que ninguém naquela casa grandiosa podia decifrar. Aquele livro era meu refúgio final, minha voz verdadeira encadernada em papel.

Levei-o para o jardim, direto para meu refúgio predileto: o abraço generoso de um carvalho centenário, onde um balanço de madeira suspenso parecia esperar por mim. À sua frente, o lago espelhava o céu, suas águas plácidas sussurrando promessas de paz. Ali, encostada no tronco nodoso, posicionei-me de modo a ficar completamente oculta da vista da casa.

Respirei fundo, o ar puro da noite que se aproximava enchendo meus pulmões. Então, abri o livro na primeira página e mergulhei na história que eu mesma tecera—um mundo de magia, coragem e uma heroína que tudo faria para salvar o que amava. Era, em sua essência, o antídoto perfeito para a realidade que eu vivia

O mundo de Gia e Theo era tão vívido que o tempo perdeu seu significado. Segui cada passo deles pela Floresta dos Sussurros, cada desafio enfrentado em busca da Pedra de Lumina. Foi neste mergulho literário que o cansaço finalmente me venceu, e adormeci sob a proteção do carvalho, o livro aberto sobre meu colo.

Não sei por quanto tempo dormi. Despertei abruptamente, com o pescoço rígido e um frio noturno penetrante. A luz da lua, agora alta no céu, banhava o jardim em tons de prata e sombras profundas. Consultei meu relógio de bolso: 2:32 da madrugada. A propriedade estava envolta em um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pelo canto noturno de grilos.

Movendo-me com cuidado, marquei a página do livro — Gia e Theo haviam acabado de decifrar o primeiro enigma do Oráculo — e massageei meu pescoço dolorido. A quietude era tão intensa que cada pequeno ruído me soava como um alarme. Calcei meus sapatos com movimentos lentos e iniciei a caminhada de volta em direção à mansão adormecida.

Minha rota de fuga era a mesma de sempre: a porta lateral, escondida atrás de uma cortina de glicínias. A chave, como sempre, estava escondida no vaso de gerânios — um pequeno segredo meu. Ao pegá-la, os dedos encontraram o metal frio, familiar. Girei a chave na fechadura com um clique suave, quase inaudível.

Foi então que a voz chegou até mim.

Sussurrada, mas inconfundível. Alessia.

Era coming da direção da varanda principal. Um frio que não tinha relação com a noite percorreu minha espinha. O que ela estaria fazendo acordada a essa hora? E, mais importante, com quem estaria falando?

Deixei meus sapatos no parapeito, os pés descalços amortecendo meus passos no mármore frio do corredor. Aproximei-me como uma sombra, mantendo-me nas áreas escuras, até alcançar a coluna de mármore que marcava a entrada para a varanda.

E então eu os vi.

Dois vultos entrelaçados sob a luz prateada da lua. Alessia... e Jonas.

O mundo desabou. O ar saiu dos meus pulmões em um suspiro rouco.

A dona do anel... O pensamento cortou-me como uma lâmina. Mas ela já anunciou o noivado com Philip!

A raiva surgiu então, quente e repentina, substituindo o choque inicial. Que afronta! Que traição vil! Lembrei-me, então, dos olhares prolongados de Jonas durante as caminhadas matinais de Alessia no jardim. Eu, ingênua, atribuíra aquilo à mera apreciação estética.

"Por favor, não seja o que estou pensando", roguei silenciosamente, meus dedos se apertando contra o mármore frio da coluna.

Mas então ouvi as palavras, carregadas de emoção, sussurradas por Jonas:

"—...não podemos continuar assim, Alessia. Precisamos contar a verdade."

A resposta dela veio em um tom suplicante, que eu nunca lhe ouvira usar: "Mas Philip...e Sophia... Jonas, é complicado demais!"

Complicado? Quase soltei uma risada amarga. Era mais do que complicado — era uma teia de mentiras e traição, e eu, sem querer, havia me tornado uma peça nesse jogo perverso.

Meu coração batia forte contra as costelas, um ritmo acelerado de indignação e descoberta. Ali, naquela varanda, sob a luz pálida da lua, não testemunhava apenas um caso ilícito — testemunhava o desmoronar de duas vidas que não eram as minhas, mas que, de repente, me concerniam profundamente.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • Sua segunda opção    19 A Armadilha do Tempo: A Perspectiva de Philip

    O tic-tac do relógio de parede no meu escritório era como um martelo batendo em meu crânio. Tempo, tempo, tempo. A palavra ecoava na minha mente, mesclando-se com o prazo final que Sophia me dera. "Na segunda-feira, você tem até às 18:00." A voz dela, tão doce e ao mesmo tempo tão firme, assombrava-me. Aquela decisão me deixara louco de angústia. Foram noites difíceis de engolir, noites em que a lealdade que jurei a Alessia se confundia com a verdade crua que Sophia tentara me mostrar. Eu estava imerso em documentos importantes da casa, tentando afogar a confusão em trabalho, quando a porta do meu escritório abriu sem cerimônia. Era Alessia. Sua presença, outrora um farol de alegria, agora parecia... estudada. Ela entrava com um vestido branco simples que deveria transmitir inocência, e seu sorriso era amplo, angélico, como se iluminasse o cômodo sombrio. Mas algo naquela luz me parecia artificial, como a chama constante de uma vela, sem o oscilar natural do fogo. "Philip! Est

  • Sua segunda opção    18 o primeiro passo adiante

    O Primeiro Passo Adiante Era minha vez de seguir em frente. A decisão ecoava dentro de mim como um mantra, um feitiço de sobrevivência. Usei todo o encanto que consegui reunir, cada sorriso, cada gesto gracioso, como uma armadura sobre a pele ainda dolorida. Meu coração, é verdade, ainda não se recuperara do primeiro golpe—a ferida que Philip infligira ainda latejava, uma dor surda e profunda. Mas eu não deveria, não permitiria, me deixar abalar. Não mais. A Sophia que esperava estava morta; a que caminhava agora era outra. O príncipe e eu perambulamos pela galeria, um casal de aparência impecável sob o olhar silencioso das obras-primas. Ele, com uma honestidade desarmante, confessou ser "um analfabeto quando o assunto é apreciar estas coisas", com um gesto amplo que abrangia os quadros. "Mas," e aqui seus olhos azuis brilharam com um respeito genuíno, "tenho uma admiração profunda pelos artistas. A coragem de criar algo do nada... é um tipo diferente de bravura." Enquanto ele fa

  • Sua segunda opção    17_ primeiras impressões

    Primeiras Impressões: Um Encontro Sob o Céu Noturno A lua cheia reinava soberana no céu, um farol prateado cercado por um cortejo de estrelas cintilantes que pareciam fazer reverência à sua majestade. No entanto, à medida que a carruagem se aproximava da galeria, todo o esplendor celestial foi ofuscado por uma explosão de luz terrestre. Os grandes candelabros de cristal e as inúmeras tochas cuspiam labaredas douradas que se refletiam nos altos vitrais, criando um portal de ouro líquido que desafiava a própria noite. Era um espetáculo de poder e opulência, mas o coração de Sophia batia num ritmo ansioso e desencontrado. Uma parte dela, teimosa e frágil, ainda sussurrava uma esperança tola: talvez ele estivesse lá. Talvez Philip tivesse aparecido no último momento, ofegante e arrependido. Afinal, ela estava atrasada – seria injusto ele não a esperar? Era um devaneio perigoso, um fio de ilusão que ela teimava em manter. Com um esforço, desviou os olhos da janela, concentrando-se em a

  • Sua segunda opção    16_tic tac

    Era tudo ou nada. Sophia sabia disso tão bem quanto qualquer um que já tivesse apostado o coração em uma única carta. A semana havia passado num turbilhão de ansiedade e expectativa, cada dia um passo mais perto do precipício. Agora, em meio à própria confusão, ela encontrava um refúgio peculiar: sua própria história. A história que escrevia com uma determinação feroz, como se cada palavra fosse um prego fixando sua sanidade em um mundo que desmoronava. Apesar de sua mãe, a Princesa Herdeira Isabella, ser uma figura ausente em sua vida cotidiana, seu apoio era como a espada de um general—distante, mas decisiva. Foi através dos contatos e da influência silenciosa de sua mãe que ela conseguira publicar seu livro tão facilmente, dando vida a "Sia". Agora, mergulhada nas novas informações dos próprios personagens que criara, ela encontrava não apenas uma fuga, mas uma forma de colocar sua cabeça para funcionar, de organizar o caos interno em tramas ordenadas. E, invariavelmente, sempre a

  • Sua segunda opção    15_ A sentença

    A Ceifa da Inocência A frase saiu de seus lábios como um golpe baixo, um reflexo visceral do pânico gelado que lhe percorrera a espinha. — Seu pai nunca permitiria. Foi a primeira vez que ele brandiu aquela arma contra ela—a arma cruel de sua própria irrelevância dentro daquela casa, a confirmação de que seu valor era ditado pela permissão de outro. Mas a investida, em vez de findar a batalha, arrancou de Sophia uma risada despretensiosa e suave, que ecoou sob a abóboda da figueira como um som estranhamente puro naquele campo de batalha emocional. — Você acredita mesmo na falsa preocupação do meu pai comigo? — ela perguntou, e a pergunta pairou no ar como a piada de mau gosto que era. Seus olhos, agora límpidos e secos, brilhavam com uma lucidez que cortava mais fino que qualquer lâmina. — Você mesmo esteve ali, Philip. Você testemunhou. Quantas vezes ele me diminuiu? Quantas vezes desdenhou de qualquer coisa que eu fizesse, por mais irrelevante que fosse? Ela não esperou por uma

  • Sua segunda opção    14_ ultimato

    O Peso da Verdade e o Ultimato Sophia respirou fundo, o ar noturno fresco enchendo seus pulmões como se fosse a última vez que respirasse antes de mergulhar em águas profundas. Quando finalmente falou, sua voz saiu suave, mas carregada de uma dor antiga, como se ela contasse não uma história, mas uma ferida aberta. — Lembro-me de cada detalhe daquela varanda, — começou ela, seus olhos fixos em algo distante, além dos galhos da figueira. A luz da lua prateada... o modo como eles se emaranhavam... os sussurros que não eram para serem ouvidos. Ela fechou os olhos por um breve instante, como se revivendo a cena. Aquilo me causou um enjoo tão profundo, Philip. Um enjoo que vinha não só do estômago, mas da alma. Ela o fitou novamente, e viu em seus olhos verdes uma tempestade de emoções. A surpresa era evidente, mas mais profunda ainda era a dúvida teimosa que persistia, como se seu cérebro se recusasse a processar uma realidade onde aquela Alessia—a que ele pensava conhecer—pudesse e

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status