O quintal da mansão da família Castro abrigava um jardim deslumbrante, um verdadeiro santuário onde Olívia cultivava diversas espécies raras de flores para as suas criações na perfumaria. Ela dedicava um cuidado extremo a cada planta, nutrindo-as com o mesmo zelo que uma mãe teria com os próprios filhos.
Enquanto descia as escadas correndo, impulsionada pelos gritos de desespero da governanta, a sua mente trabalhava a mil por hora, criando os piores cenários possíveis.
"Será que Daniela, movida pelo rancor da alergia causada pelo perfume, ordenou que a filha destruísse os canteiros?", pensou ela.
No entanto, ao chegar ao local, o cenário que encontrou era mais devastador do que qualquer pesadelo. Rosana não havia apenas arrancado algumas pétalas; a garota havia ateado fogo em tudo. As flores raras, que Olívia levara três longos anos para cultivar com tanto sacrifício, agora eram devoradas por chamas implacáveis, transformando-se em cinzas diante dos seus olhos.
Daturas, alecrim, rosas negras, cardamomo, gerânios e sálvia. Todas as plantas, das mais conhecidas às mais exóticas, haviam sido reduzidas a galhos retorcidos e carbonizados, espalhados pelo chão em um cenário que lembrava um campo de batalha após um massacre silencioso.
A poucos metros da destruição, Rosana abria o berreiro, chorando a plenos pulmões.
— Me desculpa, senhora Olívia, eu juro que não foi de propósito! — Soluçava a menina, esfregando os olhos para forçar as lágrimas. — Eu só queria assar um ovo na terra para ver se saía algum bicho de dentro, mas o fogo fugiu do controle...
Ainda trêmula, a governanta se apressou em tentar explicar a tragédia.
— Senhora, ela disse que vinha brincar no quintal, e ninguém imaginou que fosse mexer com fogo. O vento forte espalhou as chamas muito rápido, e quando percebemos, já não dava mais tempo de apagar.
O sangue de Olívia pareceu congelar nas veias, enquanto um zumbido ensurdecedor tomava conta dos seus ouvidos. A imagem do rosto cínico de Daniela piscou em sua mente, despertando uma vontade avassaladora de despedaçar aquela mulher com as próprias mãos.
Interrompendo os seus pensamentos sombrios, Rosana se aproximou devagar e puxou a barra da sua blusa.
— Me perdoa, senhora Olívia, eu...
— Tem certeza de que não foi de propósito?! — Berrou Olívia, cortando a fala da garota com uma fúria incontrolável.
Ela sempre fora uma mulher de temperamento sereno, dona de um controle emocional invejável. Aquele grito repentino e carregado de ódio direcionado a uma criança assustou até mesmo a governanta.
Encolhendo-se de medo, Rosana aumentou o volume do choro, sem coragem de articular mais nenhuma palavra. A raiva rugia dentro do peito de Olívia, exigindo ser libertada para destruir tudo ao redor. Contudo, com um esforço sobre-humano, ela engoliu a fúria, fechou os olhos e puxou o ar com força para os pulmões, obrigando-se a manter a postura.
Com movimentos lentos e pesados, ela se agachou perto da terra queimada e estendeu a mão para tocar os restos da sua preciosa rosa negra.
Aquela flor era o ingrediente principal da fragrância que ela estava criando para a competição do mês seguinte, cujo tema era "Terra Desolada". Olívia havia desembolsado uma fortuna dois anos atrás para comprar as únicas duas mudas disponíveis de um floricultor estrangeiro. O cultivo exigiu dedicação extrema para adaptar a espécie rara ao clima e ao solo locais, até que desabrochassem as exóticas pétalas escuras.
Apesar da aparência sombria, o aroma que exalavam era inebriante e absoluto. Ela tinha a certeza de que aquela essência garantiria o primeiro lugar no torneio, mas agora o seu sonho estava reduzido a cinzas.
Ao menor toque dos seus dedos, o caule carbonizado da rosa se esfarelou, sujando a sua palma de fuligem. Olívia cerrou os punhos com tanta força que as unhas quase feriram a pele.
— Onde está a Daniela? — Perguntou, com a voz fria e cortante.
A governanta deu um passo à frente, hesitante.
— A doutora Daniela saiu faz mais de uma hora. Ela disse que tinha um compromisso importante.
"Que momento conveniente para sair de casa", pensou Olívia, com um sorriso amargo. "Será que ela acha que essa ausência forjada a livra de qualquer suspeita?"
Erguendo-se do chão, ela lançou um último olhar gélido para a garota que continuava a choramingar e se virou para a governanta.
— Ligue para o Sandro agora mesmo e avise que o quintal pegou fogo.
A notícia do incêndio fez com que o empresário largasse tudo e voltasse para casa em tempo recorde. Assim que cruzou a porta da sala, ofegante e com os olhos varrendo o ambiente, a sua primeira preocupação não foi o patrimônio ou a esposa.
— Onde está a Rosana? — Perguntou ele.
Sem palavras, a governanta apenas apontou na direção do jardim destruído. Quando Sandro chegou à área externa, encontrou Rosana ajoelhada no chão, com o corpo miúdo encolhido em uma postura de total submissão. Vista de longe, a menina parecia a imagem da fragilidade, com os ombros tremendo a cada soluço.
O coração do homem se apertou de pena. Ele correu até a garota, abaixando-se ao seu lado.
— Rosana, o que você está fazendo ajoelhada na terra? Levanta logo daí! — Pediu ele, cheio de aflição.
Talvez pela frustração de não ter os próprios filhos, ou talvez porque a menina sabia como cativá-lo no dia a dia, a verdade era que Sandro nutria um carinho genuíno por ela. Ele estendeu os braços para erguê-la, mas Rosana resistiu, fazendo um drama impecável.
— Não, senhor Sandro, eu não posso levantar. Eu queimei o jardim da senhora Olívia sem querer e preciso ficar de castigo aqui até ela me perdoar.
— Deixa de bobagem. É só um pedaço de mato, não tem problema nenhum ter queimado. O chão está gelado, você vai acabar pegando um resfriado se continuar aí. Vem comigo para dentro. — Decidiu Sandro, pegando a criança no colo com firmeza e caminhando de volta para a casa.
Ao entrarem na sala de estar, Rosana continuava com o rosto escondido no ombro de Sandro, choramingando baixinho. Naquele exato momento, Olívia descia os degraus da escada.
A visão da esposa despertou uma fúria irracional no empresário, que não hesitou em disparar acusações antes mesmo de entender a situação.
— Como você tem coragem de deixar uma criança ajoelhada no relento a essa hora? Você não tem coração? — Esbravejou ele, com o rosto vermelho de indignação.
Foi então que Olívia percebeu a encenação barata que a garota havia armado no quintal. Mesmo sabendo do caráter do marido e não esperando mais nada dele, uma dor aguda rasgou o seu peito. Era uma dor física, latejante, como se uma agulha fina e comprida atravessasse as suas costelas, perfurasse os pulmões e cravasse direto na espinha dorsal. A cada respiração, o ferimento parecia afundar um pouco mais.
O homem com quem ela havia se casado, o amor de toda a sua juventude, não ofereceu uma única palavra de consolo ao ver o trabalho de anos destruído. Em vez de apoiar a esposa, ele preferiu vir com sete pedras na mão para defender uma criança que nem sequer era do seu sangue. A situação era tão absurda que Olívia sentiu vontade de rir.
— Por que você não pergunta para ela? Fui eu quem mandou ela se ajoelhar? — Retrucou Olívia, fixando um olhar gélido na menina.
Rosana levantou a cabeça na mesma hora, balançando-a de um lado para o outro em negativa.
— A senhora Olívia não me obrigou a nada. Eu fiz uma coisa muito feia e achei que merecia ser castigada.
A confissão desarmou Sandro, que percebeu o erro grosseiro que havia cometido. Ele colocou a criança no chão, e um lampejo de constrangimento cruzou o seu olhar.
— Me desculpe. Eu acabei me precipitando e entendi tudo errado. — Murmurou ele, tentando amenizar o clima.
— Ótimo. Já que agora você entendeu tudo certo, o que pretende fazer a respeito do meu jardim? — Questionou ela, cruzando os braços, sem nutrir qualquer esperança de que ele fizesse justiça.
Sandro, que já havia sido informado sobre o incêndio pelo telefone, tentou passar o braço ao redor dos ombros da esposa, exibindo um sorriso apaziguador.
— Meu amor, a Rosana é só uma criança e não fez por mal. Não precisa fazer essa tempestade em copo d’água por causa de uma brincadeira que deu errado.
— Você não tem noção do quanto aquele jardim era importante para mim? — Rebateu ela, afastando-se do toque dele.
Não era falta de conhecimento. Sandro sabia muito bem o valor daquelas plantas, mas, para ele, as paixões da esposa não passavam de caprichos irrelevantes. Com o tom de superioridade de sempre, ele desdenhou do trabalho dela.
— E para que serve ficar misturando esses matos o dia inteiro? Você acha mesmo que tem talento para virar uma perfumista famosa? Para de sonhar acordada, Olívia. O seu lugar é aqui, cuidando da nossa casa. Assim que eu terminar o meu tratamento de saúde, vamos ter o nosso próprio filho. A sua maior glória na vida deve ser cuidar bem do seu marido e educar as nossas crianças. Isso sim é importante.
Olívia ouviu o discurso machista em um silêncio mortal. A memória da época em que namoravam invadiu a sua mente.
Quando ele dizia "eu cuido de você", a jovem de dezoito anos achava que era a declaração de amor mais linda do mundo, enchendo o coração de gratidão. Hoje, com a maturidade, ela compreendia que não era uma promessa de carinho, mas sim uma sentença.
Uma sentença que a aprisionaria na mediocridade das tarefas domésticas, enquanto ele ficava livre para aplaudir e financiar os sonhos de outras mulheres. Um sorriso amargo e sem alegria escapou dos lábios dela.
A reação inusitada causou um desconforto estranho em Sandro, que tentou mudar a abordagem para acalmar os ânimos.
— Tudo bem, se você gosta tanto de fazer perfumes, pode continuar fazendo. Mas o que queimou, queimou. Não adianta descontar a frustração na menina. Eu prometo que mando importar um lote novo de flores para você na semana que vem.
— Então é assim que resolvemos as coisas? A criança destrói o meu trabalho, não tem idade para assumir a culpa, e os adultos fingem que nada aconteceu? Quem não educa os filhos é conivente com os erros deles. O mínimo que eu espero é um pedido de desculpas sincero da mãe dessa garota! — Disparou Olívia.
Os olhos dela se cravaram no corredor escuro perto da porta de entrada. Ela sabia que Daniela estava escondida ali, ouvindo cada palavra.
Percebendo que havia sido descoberta, a psicóloga saiu das sombras e caminhou a passos firmes até o centro da sala. Após lançar um olhar indecifrável para a filha, ela assumiu uma postura serena.
— Eu escutei tudo o que aconteceu. — Declarou Daniela, sem alterar o tom de voz.
— E então? Vai assumir a responsabilidade e pedir desculpas no lugar da sua filha? — Exigiu Olívia, sem recuar um milímetro.
Sandro franziu a testa, incomodado com a cobrança.
— Olívia, não precisa ser tão dura. Eu já disse que vou comprar plantas novas para você. Deixa isso para lá.
— Eu passei três anos cuidando daquelas flores para ver tudo virar cinzas em minutos. Exigir um simples pedido de desculpas é ser dura demais? — Rebateu ela, com a voz afiada como uma navalha.
Sem argumentos para defender o indefensável, o empresário engoliu em seco. Um silêncio tenso pairou no ar por alguns segundos, até que ele cedeu, fazendo um sinal com a cabeça para a amante.
— Doutora Daniela, por favor, peça desculpas para a Olívia. Ela deu muito duro para cultivar aquele jardim.
Em vez de pronunciar qualquer palavra de arrependimento, Daniela puxou a filha pelo braço com força. Em um movimento brusco e inesperado, ela ergueu a mão e desferiu um tapa estalado no rosto da criança.
O barulho ecoou pela sala, seguido pelo choro estridente e desesperado de Rosana. Apenas depois da agressão, a psicóloga se virou para a dona da casa, mantendo a expressão fria.
— Me desculpe, Olívia. Mesmo que você não tivesse exigido, eu faria questão de me retratar. A culpa foi toda minha por não ter educado a minha filha direito.
O choque paralisou Sandro por um instante. Assim que recuperou os sentidos, ele correu para abraçar a menina, que soluçava de dor.
— Você perdeu o juízo? Eu pedi para você se desculpar, não para espancar a criança! — Gritou ele, furioso com a atitude da mulher.
Daniela fuzilou a filha com o olhar, encenando o papel de mãe rigorosa com perfeição.
— Hoje ela colocou fogo no jardim, amanhã pode muito bem incendiar a casa inteira. Esse tapa foi necessário para que ela aprenda a lição e nunca mais passe vergonha por falta de educação.
A cena partiu o coração de Sandro em mil pedaços. Ao ver a marca vermelha dos dedos da psicóloga desenhada na bochecha pálida de Rosana, ele esticou a mão para fazer um carinho no rosto machucado.
A garota, no entanto, deu um passo para trás, forçando-se a engolir o choro em um ato de bravura calculada.
— Senhor Sandro, está tudo bem... Eu mereci. Não está doendo, eu juro que não está doendo... — Murmurava ela, enquanto grossas lágrimas escorriam pelo seu rosto, desmentindo cada palavra.
O teatro dramático de mãe e filha atingiu o alvo em cheio, manipulando as emoções do empresário com maestria.
Cego pela pena, Sandro se levantou num solavanco, transbordando de raiva contra a esposa.
— Você está satisfeita agora, Olívia? Era esse o espetáculo que você queria ver? Você é tão amarga que não consegue ter compaixão nem por uma criança! Eu devo ter ficado cego quando decidi me casar com você!