O ritual doentio se repetiu. Assim que Olívia teve a certeza, através da tela do celular, de que Sandro havia borrifado o perfume no corpo de Daniela, ela fechou o aplicativo sem hesitar.
A sensação de repulsa que a havia feito vomitar antes ainda estava muito viva em sua memória, e ela não tinha a menor intenção de passar por aquele tormento físico outra vez.
Enquanto isso, no interior do escritório, Daniela se dedicava de corpo e alma ao seu "tratamento" especial para Sandro. No meio do processo, uma coceira incômoda surgiu em sua pele, forçando-a a dar uma leve arranhada.
Em poucos segundos, a sensação se espalhou, como se milhares de insetos invisíveis estivessem rastejando sobre ela. O incômodo se tornou insuportável, fazendo com que a mulher começasse a se contorcer e a se coçar de forma desesperada por todos os lados.
— Sandro, eu estou com muita coceira... — Reclamou ela, ofegante.
O homem abriu um sorriso malicioso, interpretando o comentário com duplo sentido.
— Coceira de desejo, é? — Provocou ele.
Daniela se afastou de supetão, esfregando o próprio peito com força.
— Não é isso! O meu corpo inteiro está coçando, parece que eu vou morrer de tanta agonia!
O ambiente estava imerso em penumbra, iluminado apenas pelo brilho fraco de uma luminária que imitava a chama de uma vela. Era o clima intimista que Sandro tanto adorava.
Diante do desespero da amante, ele puxou a fita de cetim que cobria os seus olhos e acendeu a luz principal do cômodo. Quando a claridade inundou o espaço, os dois recuaram em choque.
— Sandro, o que... o que está acontecendo comigo? — Gaguejou Daniela, apavorada.
A pele da psicóloga, antes impecável, agora estava coberta por uma infinidade de manchas vermelhas e calombos. A erupção cutânea era tão densa que dava a impressão de que um exército de formigas carnívoras estava devorando a mulher viva. Era uma visão perturbadora.
— Você comeu alguma coisa que te deu alergia? — Perguntou Sandro, com os olhos arregalados de espanto.
— Claro que não! Eu não comi nada de diferente! — Respondeu ela, à beira das lágrimas.
Daniela forçou a memória em busca de uma explicação, até que o seu olhar recaiu sobre o frasco de vidro repousado na beira da mesa.
— Será que o problema é esse perfume novo? Sandro, você devia saber que a Olívia não tem capacidade para criar nada que preste! Com certeza foi essa essência barata e de péssima qualidade que causou essa reação em mim!
A essa altura, a coceira já havia levado a mulher ao limite da sanidade. Ela arranhava a própria pele sem parar, enquanto as manchas vermelhas continuavam a se espalhar, subindo do peito para o pescoço até tomarem conta do seu rosto. A aparência dela era deplorável, lembrando alguém acometido por uma doença contagiosa grave.
— Vem, eu vou levar você para o hospital agora mesmo! — Decidiu Sandro, ignorando as críticas da amante sobre o perfume da esposa.
Ele vestiu as roupas às pressas e arrastou Daniela para fora de casa, rumo ao pronto-socorro.
...
Ao contrário do casal em apuros, Olívia teve uma noite de sono maravilhosa. O descanso revigorante se refletiu em seu apetite, fazendo com que ela comesse no café da manhã muito mais do que de costume.
Como era de se esperar, nem Sandro nem Daniela apareceram na sala de jantar nas primeiras horas do dia. Foi apenas quando Olívia já havia terminado a refeição e se preparava para sair rumo ao estúdio que a psicóloga desceu as escadas, tentando esconder o rosto de todas as formas possíveis.
Apesar das tentativas de Daniela de evitar o contato visual, Olívia conseguiu ver com clareza as marcas vermelhas que ainda cobriam a pele da outra. Assumindo uma postura de falsa preocupação, ela se aproximou.
— Doutora Daniela, o que aconteceu com o seu rosto? — Indagou ela, com um tom carregado de inocência fingida.
A mulher forçou um sorriso rígido, visivelmente constrangida.
— Eu... bem...
Antes que ela pudesse inventar uma desculpa, Sandro, que descia os degraus logo atrás, tomou a frente e respondeu no lugar da amante.
— Fui eu quem deu um frasco do seu perfume para a doutora Daniela ontem à noite. Aliás, Olívia, eu estava mesmo querendo falar com você sobre isso. Que tipo de ingredientes você colocou naquela mistura? Como é possível que tenha causado uma reação alérgica tão agressiva nela?
Em circunstâncias normais, Sandro jamais admitiria para a esposa que havia entregue o perfume dela para outra mulher. No entanto, ele não teve escolha. Durante o atendimento no hospital na madrugada anterior, o médico foi categórico ao afirmar que precisava conhecer a fórmula exata do produto para receitar o tratamento adequado. Sem essa informação, eles só conseguiriam aliviar os sintomas de forma passageira, sem curar o problema pela raiz. Encurralado, o empresário precisou engolir o orgulho e fazer a pergunta.
Olívia precisou fazer um esforço colossal para não cair na gargalhada ali mesmo. Em vez disso, ela arregalou os olhos, moldando uma expressão de choque e incredulidade.
— Sandro, eu ouvi direito? Você vive dizendo que o meu estúdio é uma piada e que os meus perfumes são estranhos e sem valor comercial. Como você teve a coragem de dar um produto tão medíocre de presente para uma profissional tão renomada, cheia de prêmios e admirada em todos os congressos acadêmicos? Sandro, oferecer algo meu para a prestigiada doutora Daniela é uma ofensa gravíssima a ela!
O sarcasmo afiado deixou o homem sem palavras. Ele sentiu o rosto queimar, como se tivesse levado um tapa com as costas da mão.
Daniela, por sua vez, cravou as unhas nas palmas das mãos para conter a raiva, percebendo que precisava intervir para amenizar o clima tenso.
— Olívia, a culpa foi minha. Eu senti o aroma do seu perfume ontem, achei maravilhoso e pedi para o Sandro conseguir um frasco para mim. O problema é que o meu organismo não reagiu bem a algum dos componentes, e o resultado foi esse desastre.
— Ah, então foi isso... — Murmurou Olívia, fingindo ter compreendido a situação. Ela deu um passo à frente, analisando as manchas no rosto da rival com um olhar clínico. — Nossa, a reação foi feia mesmo. Parece que a doutora tem uma pele muito sensível. É bom tomar mais cuidado no futuro e não sair pegando qualquer coisa que não lhe pertence.
— Sobre a fórmula do perfume... — Tentou pedir Daniela, engolindo a seco.
— Fique tranquila, eu mando a lista de ingredientes para o seu celular em alguns minutos. Você pode mostrar para o seu médico e descobrir o que causou isso.
— Certo, muito obrigada. — Agradeceu a psicóloga, a contragosto.
Olívia deu dois tapinhas amigáveis no ombro da outra mulher.
— Eu é que devo agradecer. É uma honra saber que alguém com o seu status e prestígio deixou os perfumes de grife de lado para usar a minha criação exclusiva. Pelo visto, a sua previsão estava certa. O meu trabalho logo vai ganhar o reconhecimento que merece!
Após desferir o golpe, ela lançou um olhar de soslaio para o marido, que continuava paralisado de constrangimento.
— Não é verdade, meu amor? — Provocou ela.
Deixando os dois com expressões de pura derrota, Olívia virou as costas e saiu de casa com passos leves e vitoriosos.
Daniela permaneceu plantada no meio da sala, com o rosto retorcido de raiva.
— Sandro, vê se aprende a lição. Nunca mais ouse borrifar essas misturas caseiras e sem procedência em mim! — Esbravejou ela.
Sandro, no entanto, ignorou a reclamação da amante. A sua mente estava imersa em pensamentos confusos. Ao recordar a discussão que tiveram na mesa de jantar dias atrás e conectá-la ao tom irônico usado por Olívia naquela manhã, Sandro ficou com uma pulga atrás da orelha. Seria tudo aquilo uma mera coincidência? Parecia conveniente demais.
"Será que a Olívia descobriu alguma coisa?", ele se questionou em silêncio. Logo em seguida, balançou a cabeça, descartando a ideia. "Impossível! Por mais que ela seja louca por mim e capaz de perdoar qualquer coisa, se tivesse descoberto a verdade, já teria feito um escândalo. Ela é apaixonada demais para aceitar dividir a minha atenção sem dar um chilique. Com certeza é coisa da minha cabeça..."
O seu devaneio foi interrompido pelo toque estridente do celular em sua mão. Sandro olhou para o visor, reconheceu o número do escritório e atendeu.
— Senhor Sandro, temos um problema grave! As ações do Grupo Lumina abriram em forte queda e entraram em leilão por oscilação excessiva!— Anunciou a voz desesperada do outro lado da linha.
...
O caos financeiro tinha nome e sobrenome. Durante os curtos quinze minutos do leilão de abertura da bolsa de valores, Olívia utilizou diversas contas laranjas sob o seu controle para inundar o mercado com ordens de venda das ações do Grupo Lumina. O volume despejado era muito superior à média normal de negociações da empresa.
Ao notarem a pressão vendedora brutal, os pequenos investidores entraram em pânico, acreditando que alguma notícia desastrosa sobre a companhia estava prestes a vazar, e começaram a vender os seus papéis a qualquer preço. As ordens de compra foram engolidas em questão de segundos, fazendo a cotação despencar em queda livre.
Enquanto as suas ordens continuassem pressionando o lado vendedor, seria difícil conter a queda da cotação, sem que ninguém conseguisse reverter a situação.
"Dizem que o homem que maltrata a esposa afasta a própria fortuna. Já que você se recusa a aprender essa lição por bem, Sandro, eu vou ensinar da pior maneira possível", pensou ela, com um sorriso de satisfação.
Com o humor nas nuvens, Olívia seguiu para o seu local de trabalho. O estúdio ficava em uma rua histórica e arborizada às margens do rio. Era um sobrado charmoso de dois andares, feito de tijolos aparentes e com a fachada tomada por trepadeiras floridas. Na porta de entrada, uma placa de latão envelhecido exibia os dizeres: "Ateliê Olívia".
O espaço interno era acolhedor e bem dividido. O andar térreo abrigava o laboratório particular onde ela criava as suas fragrâncias, enquanto o piso superior servia como um vasto estoque de matérias-primas e especiarias.
Após vestir um avental rústico de linho e prender os cabelos longos em um coque frouxo, ela se posicionou diante do destilador de cobre. Com movimentos precisos e delicados, começou a extrair o óleo essencial puro das pétalas de flores que haviam passado pelo processo de resfriamento.
Daqui a um mês, ela participaria da "Era das Essências", uma renomada competição internacional de perfumaria. O evento era organizado pela Orla, o maior conglomerado de luxo do país, cujo império abrangia roupas, joias, artigos de couro e, principalmente, uma linha de fragrâncias de alto padrão.
Olívia estava levando aquele desafio muito a sério. Se conseguisse sair vitoriosa, além de conquistar um contrato de parceria com a gigante do mercado, ela também garantiria o seu próprio espaço sob os holofotes. Deixaria de ser apenas a sombra de Sandro, a esposa invisível que ninguém reconhecia quando estava longe do marido.
Era verdade que, se a sua identidade secreta como uma das maiores operadoras do mercado financeiro viesse a público, a fama seria instantânea.
No entanto, ela não queria colher aplausos por causa de especulações na bolsa de valores. O seu envolvimento com o mundo das finanças havia sido um sacrifício feito exclusivamente para ajudar Sandro no passado.
Aquilo não era um motivo de orgulho, mas sim uma lembrança amarga de sua própria ingenuidade. Além disso, ela detestava a frieza dos números, capazes de enlouquecer as pessoas e destruir famílias inteiras em um piscar de olhos. O seu verdadeiro desejo era brilhar através do seu talento e da sua arte.
Nos últimos dois dias, o seu foco havia sido desviado pela necessidade de dar uma lição no marido traidor e na amante dele, o que acabou atrasando o seu cronograma. A partir daquele momento, ela precisava mergulhar de cabeça na preparação para o torneio. Daqui a um mês, ela não apenas provaria o seu valor. Seria o seu renascimento das cinzas.
...
No fim da tarde, Olívia retornou para casa após um longo dia de trabalho. Assim que cruzou a porta de entrada, Rosana, a filha de Daniela, veio saltitando em sua direção com um pedaço de papel nas mãos.
A garotinha ergueu o rosto e abriu um sorriso que transbordava uma falsa inocência. Se Olívia não conhecesse a índole manipuladora daquela criança, poderia muito bem ter se deixado enganar por aquela carinha angelical.
— Senhora Olívia, eu acabei de desenhar uma galinha! Olha só, ficou parecida? — Perguntou a menina, estendendo o papel.
Olívia abaixou o olhar para analisar a obra. O desenho exibia uma galinha gorda e com um olhar vazio, sentada no meio de um ninho completamente oco. A mensagem oculta naqueles traços infantis era óbvia.
Antes mesmo que Olívia pudesse comentar qualquer coisa, Rosana se adiantou, rindo com deboche.
— Essa galinha velha não consegue botar ovos. Ela só serve para ocupar espaço no ninho. É uma galinha inútil que não dá filhotes!
Compreendendo a provocação venenosa, Olívia curvou os lábios em um sorriso contido. Ela precisava admitir, Daniela era uma verdadeira mestre na arte de seduzir homens casados, mas o seu talento para envenenar a mente da própria filha beirava a perfeição.
Sem demonstrar qualquer irritação, Olívia se agachou para ficar na altura dos olhos de Rosana. Pegou o desenho das mãos da menina, fingiu analisá-lo com bastante atenção por alguns segundos e respondeu com um tom amável.
— Ficou muito bom. Sabe, eu também sou ótima em desenhar galinhas. Quer que eu faça uma para você ver?
— Quero! — Concordou a garota, sem hesitar.
Olívia pegou a caneta colorida que a criança segurava e caminhou até a mesa de centro da sala. Em um espaço em branco do papel, com poucos traços rápidos e precisos, ela esboçou uma ave tão robusta.
A grande diferença era que, debaixo daquela segunda galinha, havia um ovo. O detalhe macabro era que a casca do ovo estava pintada de preto, com rachaduras profundas de onde escorria um líquido que lembrava pus, e algumas moscas sobrevoavam a sujeira.
Com um sorriso sereno no rosto, Olívia apontou para a sua criação.
— Preste atenção, querida. A sua galinha pode até não botar ovos, mas a minha bota. O problema é que o ovo dela nasceu podre e estragado. Por isso, chamamos essa aqui de a mãe do ovo podre.
Apesar da pouca idade, a capacidade de compreensão de Rosana foi suficiente para perceber que aquela explicação não era um elogio. A mulher estava chamando ela de podre! Com o rosto vermelho de raiva, a menina arrancou o papel da mesa e saiu correndo, batendo os pés pelo corredor.
Satisfeita com o desfecho da conversa, Olívia subiu as escadas rumo ao seu quarto. Tudo o que ela mais queria era mergulhar em um banho quente de banheira para lavar o cansaço do corpo. A temperatura da água estava tão relaxante que, sem perceber, ela acabou adormecendo ali mesmo. Se não fossem as batidas desesperadas na porta do banheiro, ela provavelmente teria dormido até o dia seguinte.
Olívia despertou sobressaltada, vestiu um roupão às pressas e abriu a porta. Do lado de fora, a governanta da casa tremia dos pés à cabeça, com os olhos arregalados de pânico.
— Senhora, aconteceu uma tragédia! Por favor, venha rápido para o quintal dos fundos!