Olívia saboreou aquelas palavras por um instante antes de deixar escapar uma risada genuína. Com o olhar gélido, ela caminhou a passos lentos até o marido. Em vez de gritar ou apontar que ele havia acabado de expressar com clareza o que ela própria sentia, a sua voz soou com uma calma assustadora.
— Bom, nunca é tarde para consertar um erro. Você quer o divórcio? Eu estou à sua inteira disposição.
A proposta inesperada deixou Sandro paralisado, incapaz de formular uma resposta. Sem esperar pela reação dele, Olívia virou o rosto na direção da governanta, que assistia a tudo encolhida num canto.
— Vá até o meu quarto e traga o vestido de noiva que está guardado no armário. — Ordenou ela.
A governanta piscou, confusa com o pedido inusitado, mas se apressou em obedecer. Minutos depois, ela retornou à sala carregando a peça de alta-costura encomendada do exterior, segurando o tecido alvo contra o peito com um cuidado extremo, imitando a mesma devoção que a patroa sempre demonstrou ter por aquela roupa.
Todos naquela casa, inclusive Sandro, sabiam o quanto Olívia valorizava o vestido. Para ela, aqueles metros de seda e renda representavam a prova viva de todos os anos de amor e dedicação. No entanto, naquela noite, o destino da peça seria testemunhar como o passado dos dois estava prestes a virar poeira.
Despida de qualquer sentimento de apego, Olívia arrancou o vestido das mãos da governanta como se fosse um trapo velho e caminhou a passos firmes de volta ao quintal. Com um movimento brusco e decidido, ela arremessou a peça imaculada sobre as cinzas que ainda fumegavam no jardim destruído.
O contato do tecido fino com as brasas adormecidas foi o suficiente para despertar chamas vorazes, que engoliram a brancura da seda em questão de segundos, devorando junto com ela toda a juventude e as ilusões que um dia compartilharam.
Quando Sandro chegou à porta de vidro e viu a cena, as suas pupilas dilataram em puro choque.
— Olívia, você perdeu o juízo?! — Berrou ele, com a voz esganiçada.
O empresário fez menção de correr para salvar a roupa, mas o fogo já havia transformado a obra de arte em um monte de retalhos escurecidos.
Olívia manteve a postura inabalável. Não havia um pingo de remorso ou hesitação no seu olhar frio.
— Se você mesmo disse que estava cego quando me escolheu, qual é o sentido de guardar essa fantasia ridícula? — Disparou ela.
Sem esperar por uma resposta, virou as costas e se afastou com a leveza de quem acaba de se libertar de um peso insuportável. Sandro continuou plantado no mesmo lugar, com o reflexo do fogo dançando nas suas pupilas. Por uma fração de segundo, uma dor aguda e sufocante esmagou o seu peito, lhe roubando o ar.
Aproveitando a brecha, Daniela se aproximou de mansinho e envolveu o punho cerrado do homem com as suas mãos macias.
— Sandro, meu bem, não fique assim. Eu jamais imaginaria que a Olívia fosse capaz de um chilique tão extremo e infantil. — Sussurrou a psicóloga, destilando o seu veneno. Ficando na ponta dos pés, ela roçou os lábios pintados de vermelho na orelha dele, tentando seduzi-lo no meio do caos. — Ela tem tanta certeza de que você nunca vai pedir o divórcio que se acha no direito de fazer o que bem entende. Por que você não mostra a ela quem é que manda? Tudo o que a Olívia faz por você, eu posso fazer muito melhor. E o que ela é incapaz de te dar... ah, eu te dou com o maior prazer.
Antes que ela pudesse terminar a insinuação, Sandro agarrou o colarinho da blusa dela com violência, empurrando-a para trás. O olhar do empresário carregava a mesma fúria devastadora do incêndio que acabara de consumir o jardim.
— Se coloque no seu devido lugar! — Rosnou ele, com os dentes trincados. — Você não passa de uma médica que está aqui para tratar do meu problema de saúde. Nunca mais ouse desafiar a posição da Olívia nesta casa, ouviu bem?
Após o aviso ríspido, ele soltou a mulher com desprezo e marchou para dentro.
Quando Sandro entrou no quarto do casal no andar de cima, encontrou Olívia parada diante da janela, com o olhar perdido na escuridão da noite. Ele caminhou a passos pesados até ela e passou os braços ao redor da sua cintura, abraçando-a por trás.
— Me perdoa. Eu não devia ter falado com você daquele jeito. — Murmurou ele, encostando o queixo no ombro da esposa. — A verdade é que estou sob uma pressão absurda. As ações da empresa despencaram do nada hoje, o conselho de diretores não para de me cobrar resultados, e eu passei o dia inteiro tentando apagar incêndios no escritório. Eu estava exausto, perdi a cabeça e acabei descontando a minha frustração em você. Fui um idiota.
Ele repetia os pedidos de desculpas sem parar, apertando o abraço com uma força que beirava o desespero, como se temesse que ela fosse desaparecer a qualquer momento.
Fazia sentido. Quando Olívia se apaixonou por Sandro, ele havia acabado de perder o pai em um acidente trágico e estava afundado em uma depressão severa. Foi ela quem segurou a mão dele durante os meses mais sombrios, oferecendo consolo, companhia e carinho até que as feridas cicatrizassem.
Quando um homem encontra uma mulher tão dedicada no fundo do poço, é impossível não criar um vínculo forte. Por isso, no fundo, o amor de Sandro por ela devia ser real. O grande problema era que o amor não o impedia de pular a cerca na primeira oportunidade.
"Falta pouco", pensou Olívia. Ela já havia conseguido fazê-lo assinar os papéis do divórcio sem que ele percebesse a gravidade do documento. Daqui a um mês, o prazo legal terminaria e os dois não teriam mais nenhuma ligação.
Para garantir que esse período de espera fosse pacífico e para não prejudicar a sua concentração no torneio de perfumaria, ela decidiu engolir a repulsa e jogar o jogo dele.
— Tudo bem, Sandro. Eu entendo o seu lado. — Respondeu ela, com a voz monótona.
— Então você não está mais chateada comigo? — Perguntou ele, buscando validação.
— Não. Já passou.
Um suspiro pesado de alívio escapou dos lábios do empresário. Ele enterrou o rosto nos cabelos dela.
— Vamos superar isso e construir uma vida linda juntos, não vamos?
As atitudes drásticas da esposa naquela noite haviam plantado uma semente de pânico no peito dele, e ele precisava de uma confirmação para conseguir dormir em paz.
— Claro que vamos. — Mentiu ela, sem piscar.
Com o ego apaziguado, Sandro relaxou os músculos. Aproveitando a deixa, Olívia se desvencilhou do abraço com sutileza.
— Você teve um dia exaustivo. É melhor ir para o seu quarto descansar.
Desde o início do casamento, os dois dormiam em quartos separados. A justificativa oficial era a tal "doença" psicológica de Sandro. Ele costumava acordar no meio da madrugada com ataques de pânico, e ver Olívia deitada ao seu lado parecia piorar o seu estado de terror.
No passado, essa distância física causava muita mágoa. Hoje, porém, ela agradecia aos céus por essa barreira. O fato de nunca ter consumado o casamento com aquele canalha era, sem dúvida, a maior bênção no meio de todo aquele desastre matrimonial.
...
Na manhã seguinte, a luz do sol inundava a sala de jantar enquanto Olívia tomava o seu café da manhã em silêncio. A paz durou pouco.
Daniela surgiu arrastando a filha pela mão. Sem sequer dar um bom-dia para a dona da casa, Rosana puxou uma cadeira, sentou-se à mesa e perguntou com a maior naturalidade do mundo:
— Mãe, por que o papai não desceu para comer com a gente?
Daniela deu um tapinha de leve na boca da menina, encenando uma repreensão.
— Não fale bobagens, menina. O senhor Sandro não é o seu pai.
Em seguida, a psicóloga se virou para Olívia com um sorriso cínico estampado no rosto.
— Ai, Olívia, me desculpe. Como a Rosana cresceu sem a figura paterna, ela acabou criando um apego muito forte pelo Sandro e confunde as coisas. Espero que você não leve a mal.
Olívia ergueu a xícara de café, exibindo um sorriso carregado de ironia.
— Imagina, não me incomoda nem um pouco. É muito normal que uma criança sem berço não tenha modos.
O rosto de Daniela se fechou numa carranca na mesma hora. Antes que a amante pudesse rebater a ofensa, passos pesados anunciaram a chegada de Sandro.
O empresário puxou a cadeira da ponta da mesa, exibindo olheiras profundas e um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. Era evidente que ele mal havia pregado o olho. Olívia, era claro, sabia muito bem o motivo daquela angústia.
Assim que se acomodou, Sandro ignorou o clima tenso e foi direto ao ponto, encarando a médica.
— Doutora Daniela, quando é que você vai me apresentar a Mestra Z?
A psicóloga desfez a cara feia e abriu um sorriso doce num piscar de olhos.
— Sandro, eu já conversei com ela sobre você. O problema é que ela está em um retiro espiritual no momento e não quer saber de nada relacionado ao mercado financeiro. Mas fique tranquilo. Assim que ela voltar à civilização, armo um encontro para vocês.
— Nossa, a doutora Daniela conhece a famosa Mestra Z? — Indagou Olívia, fingindo um tom de surpresa e curiosidade.
Um brilho de arrogância iluminou os olhos de Daniela, que empinou o nariz.
— Mas é claro que sim. Sou uma psicóloga renomada, tenho uma rede de contatos invejável. Para falar a verdade, a Mestra Z é uma das minhas melhores amigas. Com a intimidade que nós temos, ela faz qualquer favor que eu pedir.
A resposta acendeu uma faísca de esperança no olhar cansado de Sandro.
— Será que você não consegue convencer ela a interromper esse retiro mais cedo? A situação na empresa está crítica e eu preciso da consultoria dela com urgência.
— Pode deixar, vou dar um jeito de falar com ela hoje mesmo. — Prometeu Daniela, cheia de si. Logo em seguida, ela voltou a sua atenção para a dona da casa, destilando um falso tom de conselho. — Sabe, Olívia, você devia parar de perder tempo brincando com esses frascos de perfume e começar a frequentar eventos da alta sociedade. Fazer contatos é fundamental. Desse jeito, quando o Sandro passar por uma crise nos negócios, você não vai ser um peso morto dentro de casa.
— Ah, eu jamais conseguiria competir com você. Afinal, você é amiga íntima de uma lenda do mercado financeiro. — Ironizou Olívia, apoiando o queixo na mão. — O mundo inteiro só sabe que a Mestra Z é uma mulher, ninguém nunca nem viu o rosto dela. E você, com todo esse seu talento, conseguiu virar a melhor amiga da mulher invisível. É de dar inveja em qualquer um.
Daniela soltou uma risadinha debochada, sem perceber a armadilha na fala da rival.
— Eu é que tenho inveja de você. Deve ser maravilhoso ser uma dondoca sustentada pelo marido, sem precisar se preocupar com boletos no fim do mês. Viver sem ambição nenhuma deixa a vida tão mais fácil. Eu, por outro lado, sou uma mãe solteira que precisa ralar muito para conquistar o meu espaço.
— Chega de bate-boca, vamos tomar café em paz. — Resmungou Sandro, cortando a troca de farpas com impaciência. — Cada um tem as suas limitações. A Olívia não tem perfil para os negócios, e eu já me conformei com isso. Não espero que ela resolva os problemas da empresa.
Aquele comentário condescendente foi a gota d’água para o apetite de Olívia. Comer na mesma mesa que aquele casal de adúlteros exigia um estômago que ela não tinha. Sem dizer uma palavra, ela largou os talheres sobre o prato de porcelana, empurrou a cadeira e saiu da sala de jantar a passos firmes.
Assim que a esposa sumiu no corredor, o semblante de Sandro escureceu. Ele cravou um olhar ameaçador em Daniela.
— É bom você não esquecer o aviso que eu te dei ontem à noite. O posto de minha esposa pertence à Olívia e a mais ninguém.
Ele não era burro; havia percebido as provocações embutidas no discurso da médica.
Daniela, no entanto, não se deixou intimidar. Levando a xícara aos lábios com uma elegância calculada, ela rebateu num tom manso e venenoso:
— Sandro, querido, em vez de perder tempo achando que eu quero roubar o lugar da sua mulherzinha, você devia se preocupar em esconder os nossos rastros. Você gosta de chamar os nossos encontros na cama de "tratamento terapêutico", mas eu duvido muito que a Olívia veja a situação com a mesma compreensão. E, julgando pelo showzinho que ela deu ontem queimando o próprio vestido de noiva, eu sugiro que você não superestime o amor que ela sente por você.
Após plantar a semente da dúvida na cabeça do amante, Daniela lançou um olhar cúmplice para a filha. Entendendo o recado na hora, Rosana pulou da cadeira, correu até o empresário e agarrou a sua mão com força.
— Senhor Sandro, eu perdi o meu carrinho de brinquedo lá no seu escritório. Você me ajuda a procurar, por favorzinho?
Incapaz de resistir à carinha de pidona da criança, Sandro suspirou, derrotado, e se deixou ser arrastado pelos corredores até o escritório.
— Que carrinho é esse? A sua mãe já tentou procurar com você? — Perguntou ele, ajoelhando-se no tapete felpudo para espiar debaixo dos móveis.
Enquanto passava as mãos pelo chão, a mente de Sandro vagava para longe dali. A abertura da bolsa de valores estava próxima, e ele tinha a certeza de que as ações do grupo despencariam de novo.
"Onde foi que nós erramos? Qual foi a falha no projeto?", ele se questionava em silêncio, consumido pela ansiedade.
De repente, no meio da sua busca cega, os seus olhos captaram um brilho metálico estranho camuflado no canto inferior da estante de livros. Parecia um botão de roupa preto, pequeno e discreto.
Movido pela curiosidade, ele esticou o braço e arrancou o objeto do esconderijo. Ao trazer a pequena peça para perto do rosto, Sandro ficou imóvel, com a respiração presa.
Um calafrio percorreu a sua espinha.
Aquela coisinha inofensiva não era um botão. Era uma microcâmera de espionagem!