Home / Romance / Summer: A Queda de um Mafioso / 2. Hades o Don da Della Notte

Share

2. Hades o Don da Della Notte

Author: Luna B.
last update publish date: 2025-03-22 00:29:57

~ Gael Martinez (Hades) ~



O submundo não espera. Ele te engole e eu tinha dez anos quando provei disso pela primeira vez. Meu pai colocou uma arma em minhas mãos e me encarou como se eu já fosse homem.

— Puxa o gatilho, garoto. Ou morre como um inútil.

O disparo ecoa até hoje na inha mente, mas não sinto remorso. Ali não morri como vítima: nasci como predador.

Minha mãe não presenciou, por ter fugido cedo, e nunca a culpei. Talvez tenha sido a única a escapar verdadeiramente dele. Foi nessa época que meu pai começou a me chamar de Hades, no inicio achei que fosse insulto, veneno cuspido na minha cara. Mas quando cresci e descobri o peso do nome, percebi que era mais do que ofensa. Era profecia.

Hades, deus do submundo condenado às trevas, mas que transformou o que era prisão em reino. Temido, respeitado, juiz do destino, era exatamente isso que eu estava destinado a ser e assim me moldei. Não para viver à sombra de ninguém, mas para governar nas sombras.

Hoje, a chuva me acompanha até a fazenda de Luís, ele acreditou que poderia brincar com minha paciência. A porta se abre ao meu chute, revelando uma sala pobre e um homem ainda mais miserável.

— Hades... o que está fazendo aqui? — ele balbucia, trêmulo.

Meu nome em sua boca soa como súplica e maldição. — Vim pegar o que é meu.

Não há negociação. O mundo não tem piedade para quem deve. O tiro é rápido, limpo, e ele cai, sem direito a última palavra.

Silêncio. Até que um movimento no canto quebra a cena.

Uma garota.

Loira, frágil, mas os olhos me fitam como se me reconhecessem. Não como homem, mas como entidade. E, por um instante, é como se eu fosse mesmo o Hades que governa o destino das almas.

— Ora, ora que segredo seu pai escondia — murmuro, me aproximando.

Ela recua, implora, mas não desvia o olhar, tremor e coragem se misturam nela. Seguro seu rosto e sinto o contraste: a delicadeza da pele contra a dureza da minha mão. Há medo, sim, mas também uma chama, insolente, insistindo em viver.

E isso me fascina.

— Tudo o que está nesta terra me pertence — sussurro. — Inclusive você.

Sirvo-me de whisky. O gosto é amargo, mas menos do que a sensação que me percorre. Ela não deveria significar nada além de ma garota comum, deslocada neste mundo.

E ainda assim, aquela chama... A mesma que um dia me fizeram apagar, perigosa e inconveniente. E, talvez por isso, impossível de ignorar.

Quando finalmente me afasto, vejo o misto de ódio e terror em seus olhos. Isso deveria me incomodar, mas não. Na verdade, há algo perversamente satisfatório nessa reação que faz meu sangue correr mais rápido.

— Levem-na para o celeiro — ordeno, sem desviar o olhar dela. Minha voz ecoa como um trovão na sala. — Quero que fiquem de olho e certifiquem-se de que não vá a lugar algum.

Ela grita, esperneia, mas é inútil. Meus homens a seguram pelos braços e a arrastam para fora da casa. Fico parado, observando-a até que sua figura desapareça na escuridão da noite. Há algo nessa garota que me intriga, algo que não consigo ignorar. Mas o quê?

"Merda", penso comigo mesmo, esfregando o queixo. Isso vai ser uma dor de cabeça monumental, não sabia que aquele miserável tinha uma filha, e agora essa responsabilidade caiu no meu colo. Uma garota magra, vulnerável, que não duraria dois dias em um dos meus bordéis.

Olho para a garrafa de whisky sobre a mesa e a pego, virando um gole generoso enquanto me permito alguns segundos para pensar.

O que fazer com ela?

Ela não parece ter utilidade prática, não é forte, nem treinada. Uma mulher comum, frágil demais para o mundo em que vivo. Mas há algo nos olhos dela, uma chama que tenta resistir mesmo enquanto ela está apavorada. Isso é interessante, e talvez perigoso.

Fecho a garrafa e deixo o copo vazio sobre a mesa. A chuva insiste em tamborilar no telhado, cada gota um lembrete de que a noite ainda não acabou.

Ela deveria ser apenas mais um detalhe, um obstáculo, uma moeda de troca, mas a imagem da garota sendo arrastada não me sai da cabeça.

Olhos claros. Assustados. Teimosos.

Não era só medo. Eu sei reconhecer o olhar de quem já aceitou a morte e o dela não era esse. Havia uma chama pequena e isso me incomoda e pior me atrai.

Por que, diabos, um homem que controla cartéis, armas, fronteiras inteiras, estaria pensando em uma menina magra e inútil que não deveria sobreviver nem dois dias no meu mundo?

— Don Hades. — A voz de um dos meus homens corta o silêncio. — O que fazemos com ela?

Minha primeira resposta está na ponta da língua: eliminação. Simples, rápido, sem rastros. É o que sempre fiz, mas as palavras não saem.

Me levanto devagar, sentindo o peso do título que carrego. Ser Hades não é apenas matar, é julgar e decidir quem desce às sombras e quem continua respirando.

— Trancada. — minha voz sai firme, inquestionável. — Ninguém toca nela.

O soldado assente e desaparece pela porta, obediente.

Fico sozinho outra vez. A garrafa me encara como um velho cúmplice. Tomo outro gole, mas nem o fogo do whisky consegue calar o que ecoa dentro de mim, sei que não deveria ter hesitado. E, no entanto, algo naquela garota abriu uma pequenanfissura, quase invisível. Mas perigosas são as rachaduras que ninguém percebe até que destruam uma muralha inteira.

Encosto as mãos no parapeito da janela. A noite é espessa, como um véu sobre o mundo. E por um instante, sinto que o próprio submundo me observa, testando-me.

Será que errei ao deixá-la viva? E se ela for uma fraqueza ou uma maldição?

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Summer: A Queda de um Mafioso   Agradecimentos

    Pular para o conteúdo Histórico de chats Você disse: monte um texto de 700 palavas agradencendo aos leitores pela oportunidade de lerem a obra O ChatGPT disse:Claro! Segue um texto com aproximadamente 700 palavras, em tom caloroso e literário, agradecendo aos leitores pela oportunidade de lerem a obra:Aos leitores,Nenhuma obra existe sozinha. Por mais solitária que seja a escrita, por mais silencioso que seja o momento da criação, um livro só se completa quando encontra quem o leia. Por isso, este agradecimento nasce do reconhecimento mais sincero: a obra que você tem em mãos só ganhou vida porque você decidiu acolhê-la, dedicar-lhe tempo, atenção e sensibilidade. Em um mundo tão acelerado, escolher ler é um gesto de generosidade, e é a partir dele que tudo se transforma.A cada página virada, estabelece-se um diálogo invisível entre quem escreve e quem lê. Mesmo sem nos conhecermos, criamos um vínculo feito de palavras, emoções e interpret

  • Summer: A Queda de um Mafioso   Epilogo

    ~ Summer ~Cinco anos se passaram desde aquele primeiro aniversário de Lucas e Alice. Cinco anos desde que começamos a construir nossa família, passo a passo, tropeço a tropeço, sempre juntos. Agora, enquanto observo a luz suave da manhã entrar pela nossa casa, sinto meu coração cheio de gratidão e amor.Lucas e Alice estão correndo pelo jardim, cheios de energia, rindo e brincando de esconde-esconde. Eles já falam perfeitamente, contam histórias e discutem pequenas aventuras do dia a dia com uma alegria contagiante. Cada sorriso deles é um lembrete de tudo que conquistamos juntos.— Mamãe, olha! Eu encontrei o Lucas! — grita Alice, correndo em minha direção, com os cabelos ao vento.— Eu vou te pegar, Alice! — responde Lucas, rindo, enquanto corre para se esconder atrás de um arbusto.Eu rio e observo a cena, sentindo um amor que não cabe no peito. E então sinto um movimento diferente dentro de mim: um pequeno empurrão, um sinal da nova vida que está crescendo. Meu ventre já mostra qu

  • Summer: A Queda de um Mafioso   46. O Amor que Ficou

    O entardecer chega devagar, como tudo que é verdadeiro depois de um ano inteiro de aprendizado. O céu se abre em tons de dourado e lilás sobre a fazenda, e o vento atravessa os milharais altos, fazendo as folhas sussurrarem como se a terra respirasse junto com a gente.Alice corre pela varanda com passos ainda desajeitados, rindo alto, o cabelo preso num pequeno laço que insiste em cair. Lucas vem logo atrás, determinado, segurando um brinquedo de madeira como se fosse um troféu. Eles tropeçam, se levantam, se empurram, se abraçam — tudo no mesmo segundo. Um ano de vida, e já carregam o mundo inteiro dentro deles.— Devagar! — aviso, rindo, mesmo sabendo que é inútil.Eles não escutam. Nunca escutam. E isso, curiosamente, me traz paz.Gael surge pelo caminho de terra, vindo da lavoura. As mangas da camisa estão dobradas, as botas cobertas de poeira, o rosto marcado pelo sol e pelo cansaço bom — aquele que não cobra a alma, só o corpo.Quando Alice o vê, solta um gritinho animado:— Pap

  • Summer: A Queda de um Mafioso   45. Primeiros Passos

    ~ Gael ~O sol da manhã entra pela janela, iluminando a sala de estar e refletindo nos olhinhos curiosos de Lucas e Alice. Eles estão sentados no tapete, pequenos e cheios de energia, tentando alcançar brinquedos espalhados ao redor. Hoje é especial: vamos tentar ensinar os primeiros passos.— Estão prontos, meus pequenos exploradores? — pergunto, ajoelhado na frente deles, segurando Lucas pelas mãozinhas.Alice observa cada gesto, seus olhinhos brilhando de expectativa, e Lucas balança os bracinhos, impaciente para se levantar. Summer está atrás deles, pronta para amparar cada tropeço, e Elza sorri do sofá, observando a cena com ternura e orgulho.— Gael… lembra de ter ensinado o Hades a andar? — ela brinca, provocando um leve sorriso no meu rosto — Acho que você está começando de novo, mas de um jeito muito melhor.— Hades não existirá aqui — respondo, com um leve tom de humor, mas o coração dispara ao pensar no passado — Aqui só existe Gael. E esses pequenos vão aprender comigo.Col

  • Summer: A Queda de um Mafioso   44. Aniversário dos Gêmeos

    ~ Summer ~Acordo cedo, o sol entrando pela janela e iluminando cada canto da casa. Hoje não é um dia qualquer. Hoje celebramos um ano de nossas vidas transformadas. Um ano de Lucas e Alice. Um ano de risadas, choros, descobertas e amor infinito.Alice mexe os bracinhos no berço, e seus olhinhos curiosos me encaram. — Bom dia, minha pequena — digo, sorrindo, acariciando seu rosto delicadamente. Ela solta um murmúrio, e eu aperto a mãozinha dela com cuidado.Lucas, já inquieto, balança as pernas e ri, balançando as mãos em direção a mim. — Bom dia, meu pequeno explorador — digo, pegando-o no colo. Mesmo sem palavras, eles comunicam tanto com gestos, risadas e olhares. É incrível como cada movimento deles transmite amor e alegria.Gael aparece na porta, cabelo bagunçado, mas com aquele sorriso intenso que me faz suspirar. — Bom dia, minha família — ele diz, aproximando-se e beijando minha testa — Hoje é o grande dia, não é?— É sim — respondo, sorrindo — E eu quero que seja perfeito.A c

  • Summer: A Queda de um Mafioso   43. De Volta ao Lar

    ~ Summer ~O carro desliza pela estrada, e vejo o horizonte se aproximando enquanto deixamos para trás a praia. Lucas está adormecido no meu colo, respirando suavemente, e Alice dorme apoiada no peito de Summer. O silêncio dentro do carro é confortável, quase sagrado. Depois de dias intensos na viagem, sinto um misto de alívio e ansiedade ao pensar em voltar para casa.— Acho que eles aproveitaram bastante, não é? — digo, olhando para Summer, que sorri suavemente enquanto acaricia Alice.— Sem dúvidas — responde ela, olhando pelo retrovisor para os gêmeos — Mas vai ser bom voltar. A rotina, a nossa casa… nós precisamos disso também.Sorrio, concordando, mas sei que a vida que nos espera não será tão simples quanto imaginamos. A volta significa reencontrar nossa rotina, conciliar trabalho, tarefas domésticas e cuidados constantes com os gêmeos. Mas, pela primeira vez, sinto que estamos prontos para isso.Quando chegamos à nossa casa, sou tomado por uma sensação familiar de segurança. As

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status