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CAP. 3 - Sem pensar duas vezes

last update Data de publicação: 2026-11-01 22:16:18

POV / ISAURA TREVINE

Soltei uma risada curta, esperando que sorrisse também, mas ele continuou sério.

— Você fala tudo assim?

— Assim como?

— Sem pensar duas vezes.

Ele se inclinou um pouco sobre a mesa, sustentando meu olhar.

— Eu pensei antes de responder. 

Segurei o copo, sem saber onde colocar as mãos. Conrad tinha sido o único homem que eu beijei. Eu nunca precisei descobrir o que fazer quando outra pessoa demonstrava interesse, muito menos alguém que me deixava sem jeito apenas por me olhar.

Bebi o que restava e coloquei o copo sobre o guardanapo. Quando voltei a encará-lo, seus olhos acompanharam meu rosto, e acabei umedecendo os lábios antes de perguntar:

— Você quer mesmo me beijar?

— Quero. Muito.

Olhei para sua boca e depois para seus olhos. A vergonha continuava ali, mas eu também queria. Tinha começado a pensar nisso enquanto reparava em seu sorriso, em suas mãos e na atenção com que escutava cada resposta minha.

Ele puxou a cadeira para perto da minha e se acomodou de lado, com um dos joelhos próximo ao meu. Acompanhei o movimento, virando um pouco o corpo para ele. Seus dedos afastaram os cachos que caíam sobre meu ombro e alcançaram minha nuca, acariciando a pele por baixo do cabelo. Arrepiei-me e apertei a borda da cadeira.

Ele trouxe a mão livre até meu rosto e passou o polegar pelo meu lábio inferior. Fiquei olhando para ele, sentindo a respiração sair mais curta enquanto seu dedo se afastava.

— Então beija.

A mão voltou para junto do corpo, mas a outra permaneceu na minha nuca quando ele se inclinou. Seus lábios tocaram os meus, macios e quentes, num beijo que me fez fechar os olhos e soltar a cadeira para segurar sua camisa. Ele se afastou apenas o suficiente para mudar a posição do rosto e voltou a me beijar. Entreabri a boca, acompanhando-o, e senti sua língua tocar a minha.

Havia um gosto leve de bebida em sua boca. Acariciei o tecido sobre seu peito, ainda sem jeito, enquanto os dedos em minha nuca se moviam devagar entre meus cabelos. A barba roçou meu queixo quando me aproximei mais, e ele apoiou a mão livre na minha cintura.

Por um instante, pensei em Conrad. A culpa me fez hesitar, como se ainda precisasse dar alguma explicação a ele. Mas eu tinha acabado de devolver o anel depois de encontrá-lo com outra mulher. Não estava traindo ninguém.

Apertei a camisa do homem entre os dedos e correspondi com mais vontade. Ele me beijou demoradamente, e parei de tentar adivinhar qual seria seu próximo movimento. Quando sua boca se afastava, eu a procurava outra vez, inclinada na cadeira, com uma das mãos em seu ombro.

Nunca imaginei que beijar outra pessoa pudesse ser tão bom. Eu só conhecia os beijos de Conrad, mas não lembrava de ter segurado sua roupa daquele jeito, querendo impedir que se afastasse. A mão na minha cintura me manteve perto enquanto eu soltava o tecido para tocar sua nuca. Senti o cabelo curto sob os dedos e o beijei de novo, já sem a mesma hesitação.

Quando nos afastamos, continuei olhando para sua boca. Ele acariciou minha nuca uma última vez, e ergui os olhos, constrangida por perceber o quanto tinha me aproximado.

— Você quer sair daqui? — perguntou.

Não desviei o rosto.

— Quero.

Ele retirou as mãos e se levantou, pegando o paletó no encosto da cadeira. Enquanto acertava a conta, levantei também e peguei minha bolsa no assento ao lado. Ajeitei a alça no ombro quando voltou e aceitei a mão que me ofereceu. Ele entrelaçou os dedos nos meus e me conduziu para a saída.

***

Acordei com a cabeça doendo e levei a mão à testa antes de abrir os olhos. A claridade atravessava uma fresta da cortina, e minha boca estava seca. Tentei me acomodar melhor, mas o lençol escorregou pelo meu ombro. Puxei o tecido de volta e fiquei olhando para o teto desconhecido.

Onde eu estava?

Virei o rosto devagar. O homem do corredor dormia ao meu lado, de bruços, com uma das mãos perto do travesseiro. A coberta escondia parte das costas, e o cabelo preto estava desarrumado. Prendi o lençol contra o peito e me sentei, reconhecendo primeiro a camisa que tinha segurado no bar, agora caída no chão.

Lembrei dos copos sobre a mesa, dos dedos em minha nuca e da minha voz pedindo que me beijasse. Depois vieram o carro e a risada que soltei quando ele precisou se abaixar para me ouvir no banco de trás.

Fechei os olhos. Lembrei do hotel e de outro beijo, já dentro do quarto, quando deixei a bolsa cair perto da cama. Olhei para o vestido no chão, ao lado de um dos meus sapatos, e levei a mão à boca para conter uma risada nervosa.

Eu tinha passado a noite com ele. Meu Deus, o que eu tinha feito?

Meu corpo estava cansado e um pouco dolorido. As lembranças voltavam fora de ordem, mas eu reconhecia seus beijos, o cuidado com que me tocou e a vontade que tive de continuar perto. Tinha me sentido desejada, à vontade para retribuir sem ficar tentando descobrir se estava fazendo alguma coisa errada. Eu quis estar ali e lembrava de ter dito isso a ele.

Uma recordação de seu sorriso me fez sorrir também. Logo depois, cobri o rosto com as mãos.

Eu não sabia nem o nome dele.

Afastei os dedos e olhei outra vez para a cama. Dormindo, ele não parecia tão sério. A barba bem aparada marcava seu rosto, e os cílios escuros se destacavam contra a pele. Um dos braços estava dobrado perto do travesseiro, deixando parte do ombro descoberta. Fiquei observando por alguns segundos, até perceber que ainda sorria.

Desviei o olhar, sentindo o rosto esquentar. Conrad foi meu primeiro namorado, o único homem com quem me envolvi antes daquela noite. Em poucas horas, eu tinha terminado um noivado, contado parte da minha vida a um desconhecido e ido para um hotel com ele.

A dor de cabeça aumentou quando me inclinei para pegar a bolsa. Parei por um instante, respirando devagar, e a puxei para perto. Precisava ir para casa. Minha avó devia estar preocupada. Também precisava lembrar de uma coisa que não conseguia encontrar entre as recordações: tínhamos usado proteção?

Fiquei imóvel, com a bolsa no colo. Tentei refazer a sequência da noite, mas não consegui responder com certeza. Olhei para o homem dormindo e imaginei como começaria aquela conversa.

Bom dia. Qual é o seu nome? E, por acaso…

Fechei os olhos, envergonhada até de formular as perguntas. Precisava esclarecer aquilo, mas a ideia de esperá-lo acordar me deixou ainda mais nervosa.

Coloquei a bolsa ao meu lado e recolhi minhas roupas, procurando a calcinha perto do vestido e o outro sapato debaixo da cama. Cada vez que ele se mexia, eu parava com alguma coisa na mão e esperava. Não tinha a menor condição de olhar para aquele homem acordado.

Meu Deus, o que eu tinha feito? E o que diria para Conrad?

Parei com o vestido amontoado contra o peito.

Por que estava pensando numa explicação para Conrad?

Eu o encontrei com outra mulher, devolvi o anel e fui embora.

Estava solteira. Provavelmente. Precisava dizer “estou terminando com você” ou jogar a aliança na cara dele já servia? Puta que pariu. Eu não sabia terminar um namoro e tinha resolvido aprender tudo na mesma noite.

Vesti a roupa ali mesmo, puxando o tecido devagar para não fazer barulho. Minha cabeça doía, e alguns fios de cabelo prenderam no zíper. Soltei um por um, conferindo se ele continuava dormindo. Se acordasse, eu nem sabia como cumprimentar.

Bom dia, obrigada pela companhia, desculpa ter contado meus problemas familiares?

Procurei o celular dentro da bolsa e quase deixei o aparelho cair quando vi as chamadas perdidas da minha avó. Abri nossa conversa depressa. Havia uma mensagem minha enviada durante a madrugada.

“Vó, tô beeem. volto depois não precisa esperara eu amo vc.”

Fechei os olhos e apertei o telefone contra a testa.

Meu Deus do céu. Os três “e” em “bem” deviam ter deixado Madalena tranquilíssima.

Eu nunca dormia fora e, de repente, mandei aquilo no meio da madrugada.

Só faltou escrever que estava tomando decisões excelentes.

Olhei para o homem dormindo e enfiei o celular na bolsa. Precisava chegar em casa antes que minha avó começasse a ligar para os hospitais. Talvez Conrad já tivesse falado com ela. Talvez estivesse lá.

E se ele quisesse conversar? Eu precisava ouvir? Precisava contar alguma coisa? Não. Primeiro precisava sair daquele quarto.

Peguei os sapatos com uma mão, ajeitei a bolsa no ombro e fui até a porta. Girei a maçaneta devagar, olhando uma última vez para a cama antes de sair. Fechei a porta sem deixar que batesse e só então soltei o ar, encostada na parede do corredor.

Calcei os sapatos e procurei um táxi pelo celular, torcendo para ter dinheiro suficiente. Enquanto esperava o elevador, abri a carteira e conferi as notas duas vezes. Eu tinha ido visitar meu noivo e agora precisava calcular se conseguiria pagar a fuga de um hotel.

Quando entrei no táxi, dei o endereço de casa e abracei a bolsa no colo. Minha avó merecia uma explicação. Conrad provavelmente queria outra. Eu só queria chegar antes de precisar decidir o que diria para qualquer um dos dois.

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