INICIAR SESIÓNPOV / ISAURA TREVINE
Acordei com o pescoço doendo e passei a mão pelo colo antes de abrir os olhos por completo. Lírio não estava comigo. Endireitei o corpo depressa, procurando no assento ao lado e no espaço perto dos meus pés.
— Meu bebê… Cadê meu filho?
Soltei o cinto e me virei para o corredor. Um homem se aproximava com Lírio apoiado no braço e um copo de água na mão livre.
— Está aqui.
Estendi os braços antes que ele terminasse de chegar.
— Meu Deus, que susto!
Recebi Lírio e o apertei contra o peito. Ele segurou minha blusa e começou a balbuciar, enquanto eu passava a mão pelo seu cabelo, conferindo seu rosto.
— Ele acordou e começou a se mexer — o homem explicou. — Ofereci ajuda, e você abriu os olhos e o passou para mim. Acho que voltou a dormir logo depois. Fiquei um pouco com ele.
Eu não lembrava. Esfreguei a testa, tentando recuperar aquele momento.
— Desculpa. Estou há dias sem dormir direito.
— Percebi. Trouxe água. É para você.
Peguei o copo, ainda olhando para Lírio.
— Obrigada. Muito obrigada, eu…
Levantei o rosto e parei de falar.
Olhei para a barba, para o cabelo preto e novamente para os olhos castanho-mel que me observavam. Conhecia aquele rosto.
— Você?
Ele se acomodou no assento ao meu lado.
— Sou eu.
O calor subiu pelo meu pescoço. Apertei o copo com tanta força que o plástico estalou.
— Eu não reconheci você.
— Eu sei.
Meu Deus.
Baixei os olhos para meu filho e depois para a blusa suja. Entre todas as pessoas que poderiam se sentar ao meu lado, tinha de ser justamente o homem com quem passei uma noite num hotel e de quem fugi antes do café da manhã.
E agora ele provavelmente tinha me visto dormindo de boca aberta.
Passei a língua pelos lábios e tentei ajeitar o cabelo com a mão que segurava o copo, mas desisti antes de derramar água em nós dois.
— Faz tempo — consegui dizer.
— Dois anos.
Ele respondeu sem hesitar. Tomei um gole, sentindo o coração bater mais depressa. Lírio puxou meu cabelo, e soltei seus dedos com cuidado.
Durante a gravidez, tentei refazer as contas mais vezes do que gostaria de admitir. Conrad tinha sido meu namorado até aquela noite, e nós também tínhamos uma vida íntima. Nosso último encontro foi antes daquela semana em que ficamos sem nos ver. Eu acreditava que o homem do hotel podia ser o pai, mas acreditar não era ter certeza.
Depois que Lírio nasceu, continuei sem uma resposta. Não sabia como encontrar aquele homem e não queria procurar Conrad para lhe apresentar uma possibilidade que eu mesma não conseguia confirmar. Entre cuidar do menino, trabalhar e acompanhar minha avó, fui adiando uma dúvida que não desapareceu.
Agora ele estava sentado ao meu lado, depois de segurar meu filho enquanto eu dormia.
Como eu começaria? “Lembra daquela noite? Talvez você tenha um filho.”
Apertei Lírio contra mim e afrouxei o braço quando ele se remexeu. Precisava conversar sobre aquilo, mas mal conseguia organizar os pensamentos. Achei que nunca mais o encontraria. Não estava preparada para vê-lo com meu menino nos braços.
— Ele deu trabalho? — perguntei.
— Menos do que aquele passageiro.
Uma risada escapou antes que eu conseguisse evitar. Olhei para ele e desviei depressa. Continuava bonito. Talvez estivesse ainda mais bonito, mas eu precisava parar de reparar nisso enquanto segurava meu filho e um copo quase amassado.
O aviso de preparação para o pouso soou. Terminei a água, e ele recebeu o copo vazio para entregá-lo à comissária.
— Estamos chegando.
Concordei e me ocupei em acomodar Lírio. Precisava de alguns minutos para decidir o que dizer àquele homem. Por enquanto, nem seu nome eu sabia.
Depois do pouso, permanecemos sentados até que o avião parasse e a saída fosse liberada. Esperei parte dos passageiros passar antes de me levantar. O homem que reclamou do choro apareceu junto à nossa fileira, olhou para minha roupa e franziu o nariz.
Ajeitei Lírio no colo, tentando esconder a mancha. Meu acompanhante se levantou quando houve espaço no corredor, retirou o paletó e o estendeu.
— Coloque.
— Não precisa. Vai sujar.
— A roupa é minha. Eu resolvo isso depois.
Aceitei, sem conseguir encará-lo. Ele segurou o menino enquanto passei os braços pelas mangas. Depois me devolveu Lírio e retirou minha mochila do compartimento superior.
— Consigo levar essa — falei.
Ele já tinha colocado uma das alças no ombro.
— Vou pegar a dele também.
Retirou a mochila de Lírio e me entregou antes de pegar a própria maleta. Esperei que se afastasse um pouco para sair da fileira e o acompanhei até a porta do avião.
Na área de restituição de bagagens, paramos diante da esteira para esperar a mala grande, despachada em Goiânia diretamente para o Rio. Lírio se inclinou no meu braço, interessado nas malas que passavam. Quando reconheci a nossa, apontei, e meu acompanhante a retirou antes que eu conseguisse me aproximar.
— Muito obrigada. Eu nem sei como agradecer.
Ele ergueu o puxador da mala.
— Você pode responder três perguntas.
Olhei para ele e, dessa vez, sorri sem precisar forçar.
— De novo?
— Você foi embora antes que eu pudesse fazer outras.
Meu rosto esquentou.
— Foi uma noite complicada.
— Foi.
Ele não acrescentou nada. Ajeitou a maleta sobre a mala grande, segurou as duas pela alça e caminhou ao meu lado.
— O que está fazendo no Rio?
— Vim morar aqui. Minha mãe mora aqui.
— E sua avó?
A pergunta me fez baixar os olhos.
— Morreu há poucos dias.
Ele diminuiu o passo.
— Sinto muito.
Concordei, alisando as costas de Lírio.
— Eu também.
Ficamos em silêncio enquanto nos afastávamos da esteira. Meu filho apoiou a cabeça no meu ombro, cansado outra vez.
— E como ele se chama?
Apertei os lábios.
— Lírio Antoine — respondi baixo.
Ele inclinou o rosto na minha direção.
— Como?
Olhei para a gola de sua camisa.
— Lírio Antoine.
Ele parou de andar. Seus olhos foram até o menino e permaneceram ali por alguns segundos antes de voltarem para mim.
— Lírio Antoine — repetiu, mais baixo.
Senti o rosto esquentar.
— Eu posso explicar.
O canto de sua boca se moveu.
— Estou ouvindo.
— Quando ele nasceu, minha avó estava na UTI. Eu estava sozinha, não tinha escolhido um nome e… — Ajeitei meu filho, que tentou pegar minha orelha. — Foi o que consegui lembrar na hora. Da sua avó, dos livros, das flores.
Ele baixou o rosto para Lírio outra vez. O menino o observou por cima do meu ombro e estendeu a mão, tentando alcançar sua barba.
Meu acompanhante ofereceu um dedo para distraí-lo.
— Você lembrou.
A voz saiu mais baixa do que antes. Eu podia ter ficado apenas vermelha, mas senti até as orelhas esquentarem.
— Que vergonha.
Ele levantou os olhos para mim.
— Por quê? É um nome bonito.
Baixei o rosto para Lírio.
— Minha avó achou diferente.
— Eu gostei.
Seu dedo continuou preso na mão do menino por mais um instante. Esperei, sem saber o que dizer, até Lírio soltá-lo para se agarrar à minha gola.
Quando retomamos o caminho e ele ofereceu uma carona, lembrei de conferir se minha mãe tinha respondido. Pedi que me deixasse pegar o celular, e ele baixou minha mochila do ombro, segurando-a enquanto abri o bolso da frente.
Havia uma mensagem de Lucrécia.
“Filha, precisei viajar com o Zoro. Esqueci de deixar a chave. Fica com a Dorinha até a gente voltar.”
Li duas vezes.
“Quem é Dorinha?”
Enviei e esperei. A mensagem nem foi visualizada. Passei a mão pelo rosto, cansada demais para disfarçar. Minha cabeça estava melhor depois do sono, mas a vontade de chorar voltou imediatamente.
— Algum problema?
— Minha mãe não está em casa. E não deixou a chave.
— Alguém pode receber você?
Olhei a conversa outra vez.
— Aparentemente, a Dorinha.
Ele esperou, com a mochila ainda na mão.
— Eu não sei quem é Dorinha — expliquei.
Minha risada saiu fraca. Olhei ao redor, procurando alguma indicação, embora não soubesse o que estava tentando encontrar.
— Tem algum hotel perto daqui?
— Você pode ficar no meu apartamento.
Virei o rosto para ele.
— Não. Você já ajudou demais.
— Não é um problema.
— Estou com uma criança, duas mochilas e uma mala enorme. Não posso simplesmente entrar na sua casa.
Ele olhou para as bagagens que já carregava.
— Essa parte já está resolvida.
Apertei Lírio contra mim, sem conseguir rir.
— Eu nem sei como agradecer.
— Talvez eu saiba.
Encarei seu rosto.
— Como assim?
Ele manteve a voz baixa, sem mudar a expressão.
— Preciso que alguém finja ser minha noiva.
Fiquei alguns segundos esperando que sorrisse.
— O quê?
— Posso explicar. Primeiro vamos sair daqui.
Olhei para o celular. Minha mãe continuava sem responder, e eu não conhecia mais ninguém a quem pudesse pedir ajuda. Guardei o aparelho no bolso externo da mochila de Lírio, que estava no meu ombro, e segui com ele.
POV / MAGNUS LANCASTERUma risada curta escapou dela.— Sério? Isso?— É o que eu quero fazer desde que você tocou meu rosto. Estou tentando prestar atenção no que você diz em vez de pensar na sua boca, mas você não está facilitando.Isaura deixou cair a mão que segurava o cabelo. Permanecemos nos olhando. Eu ouvia o ruído baixo da geladeira e acompanhava cada vez que ela respirava mais fundo. Uma perna dela esfregou a outra, um movimento curto, e ela prendeu o lábio inferior entre os dentes até a pele clarear.— Eu ainda estou muito brava — falou.— Não achei que tivesse deixado de estar.Ela olhou para o corredor. Quando voltou a me encarar, a expressão continuava séria, mas os dedos já não apertavam a borda da bancada.— Aquela noite foi confusa. Eu tinha bebido, estava magoada… Tem coisas de que não lembro direito.Esperei que terminasse.— Não sei se fazer isso de novo é uma boa ideia.— Você não precisa decidir agora.Ela me olhou por mais alguns segundos.— A gente não devia.—
POV/ MAGNUSNão pedi que aceitasse.Permanecemos em silêncio até Isaura erguer o rosto novamente. Dessa vez, seu olhar parou na minha boca. Franziu a testa e deu um passo para perto.— O que aconteceu aí?Toquei o canto do lábio.— Um soco— Eu estou vendo. Quem fez isso?— Conrad.Ela levantou a mão até meu queixo e virou meu rosto em direção à luz. Seu toque me fez prender a respiração por um instante.— Por minha causa?— Não, minha. Foi uma discussão entre nós dois.Seus olhos desceram até minha mão.— Vocês saíram no soco dentro da casa do seu avô?— No corredor.— Ah. Bem melhor.Tentei sorrir, e o corte ardeu. Isaura percebeu o movimento e soltou meu rosto.— Onde tem material para limpar isso?— Não precisa se preocupar.Ela me encarou.— Onde, Magnus?Indiquei o banheiro social. Isaura passou por mim e voltou pouco depois com o estojo de primeiros socorros. Colocou-o sobre a bancada, abriu e examinou o conteúdo.— Aqui — disse, apontando para o lugar sob a luz.Aproximei-me.
POV / MAGNUS LANCASTERAfastei a taça da beirada da mesa e me abaixei ao lado da poltrona. Isaura estava com a cabeça inclinada para o lado, numa posição que provavelmente faria seu pescoço doer quando acordasse. Toquei seu ombro para tentar acomodá-la, mas ela abriu os olhos antes que eu conseguisse.Endireitou o corpo depressa e olhou para o corredor.— O Lírio…— Está quietinho. Não ouvi nada desde que entrei.Ela permaneceu escutando por alguns segundos. Depois esfregou o rosto, afastando os cachos que tinham caído sobre os olhos.— Que horas são?Disse o horário e me levantei para lhe dar espaço. Isaura olhou para a taça que eu tinha mudado de lugar e ajeitou a saia do vestido sobre os joelhos.— Desculpe — falei. — Não queria acordá-la.— Eu estava esperando você.Sua voz ainda estava rouca de sono. Ela girou o pescoço devagar e levou a mão à nuca, fazendo uma careta.— Podemos conversar pela manhã. Você precisa descansar.Isaura deixou a mão cair sobre o colo e ergueu o rosto.
POV / MAGNUS LANCASTERPor alguns segundos, só consegui olhar para ela.Isaura estava com o cabelo desalinhado, a roupa amarrotada e o rosto abatido. O menino se remexia em seu braço enquanto ela tentava levantar a mochila. Quando ele vomitou, ela baixou a bagagem depressa e começou a procurar alguma coisa para limpá-lo.O passageiro continuou reclamando.Minha vontade foi mandá-lo calar a boca. Em vez disso, peguei a mochila aos pés dela e a coloquei no compartimento.Ofereci a troca de lugar para tirá-lo de perto.Isaura agradeceu sem levantar o rosto. Havia lágrimas em sua bochecha, e ela parecia concentrar todo o esforço em cuidar do filho e conseguir se sentar.Eu queria dizer que era eu. Perguntar como estava, por que tinha ido embora e se alguma vez pensou em me procurar. Nenhuma daquelas perguntas cabia enquanto ela limpava a roupa suja e tentava acalmar uma criança.Sentei ao lado dela.Pouco depois, Isaura encostou a cabeça e adormeceu.Fiquei observando seu rosto por alguns
POV / MAGNUS LANCASTERIsaura olhou para minha boca antes de dizer que eu podia beijá-la.Puxei a cadeira para perto e esperei que se virasse para mim. Quando afastei os cachos de seu ombro, senti sua pele arrepiar sob meus dedos. Ela continuou me olhando, embora apertasse a borda do assento como se precisasse ocupar as mãos.Gostei de perceber que eu a deixava nervosa. Gostei ainda mais quando segurou minha camisa e me puxou para perto.Sua boca era macia. Havia um gosto leve de bebida em seus lábios, e a hesitação dos primeiros segundos desapareceu aos poucos, conforme ela correspondia. Isaura me beijava e se afastava apenas o suficiente para respirar antes de procurar minha boca outra vez.Eu tinha me interessado por ela antes daquele beijo. Ainda assim, não esperava sentir tanta vontade de continuar.Quando perguntei se queria sair dali, ela respondeu olhando nos meus olhos. Acertei a conta, ofereci a mão e saí do bar pensando em como seria ficar com aquela mulher sem uma mesa ent
POV / MAGNUS LANCASTERAntes de Conrad se mudar para o Brasil, nós nos víamos com frequência na Inglaterra. Ele aparecia no meu apartamento, pegava alguma coisa para beber e passava uma hora reclamando das cobranças da família. Eu trabalhava enquanto o ouvia, interrompendo apenas quando precisava lembrá-lo de que ter dinheiro não o dispensava de fazer alguma coisa útil.Ele ria, dizia que eu tinha nascido velho e continuava aparecendo.Depois da mudança, as visitas viraram ligações. Foi numa delas que falou de Isaura pela primeira vez.Eu estava no escritório quando ele enviou uma fotografia e pediu que abrisse.A imagem mostrava uma mulher de cabelos claros e cacheados, sorrindo para quem estava atrás da câmera. Tinha olhos claros, o rosto delicado e uma expressão que não parecia ensaiada.— Minha namorada — ele anunciou.Afastei o telefone do ouvido para olhar outra vez.— Você está namorando?— Há um tempo.— E só está contando agora?Conrad riu.— Você vive ocupado. Ela faz Enferm







