MasukPOV / ISA
Lírio tocou meu queixo, e saí da lembrança para olhar seu rosto. Peguei sua mão e beijei os dedos, fazendo um barulho que o distraiu. Ele balbuciou, e repeti o som. Sua boca se abriu num sorriso, mostrando os dentinhos. Acabei sorrindo também, embora meus olhos continuassem cheios de lágrimas.
Meu menino tinha um ano e três meses. Era branquinho, gordinho e saudável, com cabelo castanho ainda ralinho e olhos bem escuros. Gostava de segurar minha roupa e se inclinava para observar tudo o que acontecia ao redor. Mesmo com os braços doloridos, eu o ajeitava mais perto quando encostava a cabeça em mim.
Ele nasceu de uma cesárea difícil enquanto minha avó estava na UTI. Passei pelo parto preocupada com ela, procurando notícias sempre que conseguia pegar o telefone. Minha mãe disse que não podia vir ajudar. Depois da alta, voltei para casa com um recém-nascido nos braços, a barriga dolorida e ninguém para dividir os cuidados.
Não consegui fazer o repouso de que precisava. Levantava para trocar Lírio, preparar suas coisas e cuidar da casa, mesmo quando o corte doía. Entre uma mamada e outra, ligava para o hospital atrás de notícias de Madalena. Queria minha avó perto de mim, mas ela também precisava de cuidados, e eu tinha medo de perdê-la antes que pudesse conhecer meu filho.
Quando precisei escolher o nome dele, lembrei da conversa no bar. Lírio Antoine: os lírios de que aquele homem gostava e o primeiro nome do escritor que mencionou ao falar da avó.
Eu não tinha certeza de quem era o pai. Tinha me envolvido com Conrad antes da traição e, depois, passado aquela noite no hotel. Por mais que voltasse às datas, continuava sem uma resposta em que pudesse confiar. Se o desconhecido fosse o pai, eu não sabia nem seu nome. Não tinha um telefone, um endereço ou alguém a quem perguntar por ele.
Um dia, Lírio ia querer saber, e eu precisaria explicar por que não consegui esclarecer aquilo. Só de pensar, sentia vergonha e medo de que ele entendesse minha dúvida como falta de cuidado. Eu me importava. Passei noites olhando seu rosto, procurando alguma semelhança que me desse uma certeza que as contas não deram.
Do homem do hotel, lembrava da voz falando dos livros, do sorriso quando contou que ajudava a avó no jardim e da atenção com que me ouviu. Não sabia se ele tinha me dado um filho, mas tinha feito parte de uma noite em que, apesar de tudo, consegui me sentir querida.
Foi essa lembrança que usei quando precisei escolher. Eu estava sozinha, assustada e sem minha avó para conversar. Pensei nas flores e no nome que ele repetiu devagar para que eu entendesse. Gostei de ouvir os dois juntos e os escolhi para o meu menino.
Beijei os dedos de Lírio outra vez. Queria ter tido a chance de encontrar aquele homem, esclarecer a dúvida e perguntar o que achava do nome.
Um aviso soou nos alto-falantes. Levantei a cabeça e procurei o número do voo no painel antes de guardar as coisas. As pessoas se levantaram ao redor, arrastando malas e chamando umas às outras. Conferi o assento e o chão junto aos meus pés, com medo de deixar alguma coisa para trás.
Minha mãe ainda não tinha respondido.
Coloquei minha mochila nas costas, pendurei a de Lírio num ombro e o ajeitei no quadril. Ele voltou a reclamar antes de chegarmos à fila.
— Só mais um pouquinho, meu amor.
Conferi nossos documentos e o cartão de embarque. Quando entrei no avião, precisei olhar o número outra vez. Ouvia pedidos de licença e via pessoas passando, mas não conseguia prestar atenção em nenhum rosto. Só procurava a fileira, tentando manter Lírio acomodado enquanto a alça da mochila escorregava pelo meu ombro.
Encontrei nosso lugar, deixei a mochila dele no assento mais próximo do corredor e tirei a minha das costas para guardá-la no compartimento superior.
— Pode andar mais rápido? — um homem perguntou atrás de mim.
— Só um instante, por favor.
Segurei meu filho com mais firmeza e tentei levantar a mochila com a outra mão. A parte de baixo esbarrou na borda do compartimento, e precisei baixá-la até a cintura para tentar outra vez. Lírio começou a chorar.
— Você não podia ter arrumado essas coisas antes de entrar?
— Eu só preciso guardar a mochila.
A dor na minha testa aumentou quando ele falou mais alto. Levantei o braço novamente, mas Lírio se remexeu, e parei para ajeitá-lo contra mim.
— Faz esse menino parar de gritar.
Baixei os olhos para meu filho. Meu nariz começou a arder, e apertei os lábios, tentando impedir o choro.
— Ele está cansado. É uma criança.
Lírio tossiu no meio de um soluço e vomitou na minha blusa. Senti a umidade atravessar o tecido e escorrer pelo ombro. Abaixei a mochila depressa, com medo de deixá-la cair enquanto tentava afastar o rosto dele da roupa suja.
— Que nojo. Eu vou ter que viajar aqui?
— Espera, senhor. Por favor, só um pouco.
Coloquei minha mochila no chão, entre os pés, e procurei o paninho na que tinha deixado sobre o assento. Meus dedos tremiam tanto que precisei apoiar a bolsa para conseguir abrir o zíper. Limpei a boca de Lírio, mas ele continuava chorando, agarrado à minha gola.
Uma lágrima caiu antes que eu pudesse contê-la. Passei a bochecha no ombro seco e senti outra escorrer.
Eu precisava guardar as coisas, limpar meu filho e sair do corredor. As pessoas esperavam atrás de mim, e eu já não conseguia levantar a cabeça.
Eu queria minha avó.
Queria que ela estivesse ali para segurar uma mochila, fazer carinho no menino ou dizer que eu podia sentar enquanto ela resolvia alguma coisa.
— Deixe que eu guardo.
Uma mão pegou a alça da mochila aos meus pés. Afastei-me um pouco e abracei Lírio com os dois braços enquanto o homem a acomodava no compartimento acima dos assentos.
— Pode trocar comigo — ele falou ao passageiro atrás de mim. — Sente no meu lugar. Eu fico aqui.
— Melhor mesmo. Não aguentaria essa choradeira até o Rio.
Mantive o rosto baixo enquanto o passageiro se afastava. Tinha vergonha de olhar para as outras pessoas e descobrir quantas estavam observando. Limpei o nariz com as costas da mão, ainda segurando o paninho junto à boca de Lírio.
— O seu lugar é na janela? — perguntou o homem que tinha me ajudado.
Confirmei com a cabeça, sem encará-lo.
— Pode sentar. Eu guardo a outra também.
— Obrigada.
Peguei uma roupa extra na mochila de Lírio e a mantive sobre o braço, junto ao paninho. Entrei na fileira com meu filho, passando até o assento da janela, enquanto o homem fechava a segunda mochila e a guardava no compartimento superior.
Sentei e apoiei a roupa limpa sobre minhas pernas. Limpei o que consegui da blusa e sequei o rosto de Lírio. O cheiro me deu náusea, e precisei respirar pela boca até conseguir dobrar o paninho com a parte suja para dentro.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. Mamãe está aqui.
Ele soluçou, agarrado à minha roupa. Beijei sua testa e continuei acariciando suas costas. Meu nariz estava escorrendo, os olhos ardiam e eu não tinha coragem de virar para agradecer direito. Ouvi o homem se acomodar ao meu lado, mas permaneci olhando para meu filho.
Quando a comissária passou, acompanhei as orientações para acomodá-lo no colo. Precisei pedir que repetisse uma parte, porque minha cabeça doía e eu não consegui entender de primeira. Ajeitei Lírio como ela indicou e deixei o paninho dobrado sobre a roupa extra.
O avião começou a se mover. Lírio foi parando de chorar até ficar quieto contra meu peito, com uma mão fechada na gola da blusa. Afrouxei os ombros e encostei a cabeça no apoio do assento, virada para a janela.
Ainda estava com fome, triste e com medo de chegar ao Rio. Minha roupa continuava suja, e a dor de cabeça não tinha passado. Mas, por alguns minutos, eu podia ficar sentada sem precisar abrir passagem, levantar uma mochila ou explicar por que meu filho chorava.
Fechei os olhos, mantendo os braços ao redor dele. Queria descansar só um instante, mas o cansaço venceu antes que eu percebesse que estava adormecendo.
POV / MAGNUS LANCASTERUma risada curta escapou dela.— Sério? Isso?— É o que eu quero fazer desde que você tocou meu rosto. Estou tentando prestar atenção no que você diz em vez de pensar na sua boca, mas você não está facilitando.Isaura deixou cair a mão que segurava o cabelo. Permanecemos nos olhando. Eu ouvia o ruído baixo da geladeira e acompanhava cada vez que ela respirava mais fundo. Uma perna dela esfregou a outra, um movimento curto, e ela prendeu o lábio inferior entre os dentes até a pele clarear.— Eu ainda estou muito brava — falou.— Não achei que tivesse deixado de estar.Ela olhou para o corredor. Quando voltou a me encarar, a expressão continuava séria, mas os dedos já não apertavam a borda da bancada.— Aquela noite foi confusa. Eu tinha bebido, estava magoada… Tem coisas de que não lembro direito.Esperei que terminasse.— Não sei se fazer isso de novo é uma boa ideia.— Você não precisa decidir agora.Ela me olhou por mais alguns segundos.— A gente não devia.—
POV/ MAGNUSNão pedi que aceitasse.Permanecemos em silêncio até Isaura erguer o rosto novamente. Dessa vez, seu olhar parou na minha boca. Franziu a testa e deu um passo para perto.— O que aconteceu aí?Toquei o canto do lábio.— Um soco— Eu estou vendo. Quem fez isso?— Conrad.Ela levantou a mão até meu queixo e virou meu rosto em direção à luz. Seu toque me fez prender a respiração por um instante.— Por minha causa?— Não, minha. Foi uma discussão entre nós dois.Seus olhos desceram até minha mão.— Vocês saíram no soco dentro da casa do seu avô?— No corredor.— Ah. Bem melhor.Tentei sorrir, e o corte ardeu. Isaura percebeu o movimento e soltou meu rosto.— Onde tem material para limpar isso?— Não precisa se preocupar.Ela me encarou.— Onde, Magnus?Indiquei o banheiro social. Isaura passou por mim e voltou pouco depois com o estojo de primeiros socorros. Colocou-o sobre a bancada, abriu e examinou o conteúdo.— Aqui — disse, apontando para o lugar sob a luz.Aproximei-me.
POV / MAGNUS LANCASTERAfastei a taça da beirada da mesa e me abaixei ao lado da poltrona. Isaura estava com a cabeça inclinada para o lado, numa posição que provavelmente faria seu pescoço doer quando acordasse. Toquei seu ombro para tentar acomodá-la, mas ela abriu os olhos antes que eu conseguisse.Endireitou o corpo depressa e olhou para o corredor.— O Lírio…— Está quietinho. Não ouvi nada desde que entrei.Ela permaneceu escutando por alguns segundos. Depois esfregou o rosto, afastando os cachos que tinham caído sobre os olhos.— Que horas são?Disse o horário e me levantei para lhe dar espaço. Isaura olhou para a taça que eu tinha mudado de lugar e ajeitou a saia do vestido sobre os joelhos.— Desculpe — falei. — Não queria acordá-la.— Eu estava esperando você.Sua voz ainda estava rouca de sono. Ela girou o pescoço devagar e levou a mão à nuca, fazendo uma careta.— Podemos conversar pela manhã. Você precisa descansar.Isaura deixou a mão cair sobre o colo e ergueu o rosto.
POV / MAGNUS LANCASTERPor alguns segundos, só consegui olhar para ela.Isaura estava com o cabelo desalinhado, a roupa amarrotada e o rosto abatido. O menino se remexia em seu braço enquanto ela tentava levantar a mochila. Quando ele vomitou, ela baixou a bagagem depressa e começou a procurar alguma coisa para limpá-lo.O passageiro continuou reclamando.Minha vontade foi mandá-lo calar a boca. Em vez disso, peguei a mochila aos pés dela e a coloquei no compartimento.Ofereci a troca de lugar para tirá-lo de perto.Isaura agradeceu sem levantar o rosto. Havia lágrimas em sua bochecha, e ela parecia concentrar todo o esforço em cuidar do filho e conseguir se sentar.Eu queria dizer que era eu. Perguntar como estava, por que tinha ido embora e se alguma vez pensou em me procurar. Nenhuma daquelas perguntas cabia enquanto ela limpava a roupa suja e tentava acalmar uma criança.Sentei ao lado dela.Pouco depois, Isaura encostou a cabeça e adormeceu.Fiquei observando seu rosto por alguns
POV / MAGNUS LANCASTERIsaura olhou para minha boca antes de dizer que eu podia beijá-la.Puxei a cadeira para perto e esperei que se virasse para mim. Quando afastei os cachos de seu ombro, senti sua pele arrepiar sob meus dedos. Ela continuou me olhando, embora apertasse a borda do assento como se precisasse ocupar as mãos.Gostei de perceber que eu a deixava nervosa. Gostei ainda mais quando segurou minha camisa e me puxou para perto.Sua boca era macia. Havia um gosto leve de bebida em seus lábios, e a hesitação dos primeiros segundos desapareceu aos poucos, conforme ela correspondia. Isaura me beijava e se afastava apenas o suficiente para respirar antes de procurar minha boca outra vez.Eu tinha me interessado por ela antes daquele beijo. Ainda assim, não esperava sentir tanta vontade de continuar.Quando perguntei se queria sair dali, ela respondeu olhando nos meus olhos. Acertei a conta, ofereci a mão e saí do bar pensando em como seria ficar com aquela mulher sem uma mesa ent
POV / MAGNUS LANCASTERAntes de Conrad se mudar para o Brasil, nós nos víamos com frequência na Inglaterra. Ele aparecia no meu apartamento, pegava alguma coisa para beber e passava uma hora reclamando das cobranças da família. Eu trabalhava enquanto o ouvia, interrompendo apenas quando precisava lembrá-lo de que ter dinheiro não o dispensava de fazer alguma coisa útil.Ele ria, dizia que eu tinha nascido velho e continuava aparecendo.Depois da mudança, as visitas viraram ligações. Foi numa delas que falou de Isaura pela primeira vez.Eu estava no escritório quando ele enviou uma fotografia e pediu que abrisse.A imagem mostrava uma mulher de cabelos claros e cacheados, sorrindo para quem estava atrás da câmera. Tinha olhos claros, o rosto delicado e uma expressão que não parecia ensaiada.— Minha namorada — ele anunciou.Afastei o telefone do ouvido para olhar outra vez.— Você está namorando?— Há um tempo.— E só está contando agora?Conrad riu.— Você vive ocupado. Ela faz Enferm







