FAZER LOGINA noite engolia o convento com uma fúria primal, a tempestade rugindo no céu como uma fera libertada. Trovões faziam os muros de pedra tremerem, e relâmpagos rasgavam a escuridão, iluminando o pátio com flashes que pareciam denúncias divinas. A chuva caía em cortinas grossas, transformando o jardim em um pântano, o cheiro de terra molhada e folhas esmagadas impregnando o ar. Clara estava em seu quarto, o coração disparado, o papel da carta anônima amassado entre os dedos trêmulos. As palavras ecoavam em sua mente como uma sentença. O crucifixo na parede, banhado pelo luar intermitente, parecia julgá-la, seus olhos de madeira cravados nela como pregos. Ela não dormira, a paranoia e o desejo lutando dentro dela, cada trovão amplificando o medo de ser descoberta e a ânsia por Gabriel.Ele soubera da carta naquela manhã, em um encontro apressado no pomar, onde as palavras foram trocadas em sussurros, os olhos dele escuros de preocupação. Eles combinaram se encontrar no jardim naquela noit
Ela hesitou, o coração disparado, mas seus pés a traíram, seguindo-o como se puxados por um ímã. Eles caminharam até uma clareira escondida, cercada por laranjeiras cujos galhos pesados pendiam com frutos maduros. O ar ali era mais fresco, carregado com o doce perfume cítrico, mas ainda assim sufocante. Gabriel se encostou em uma árvore, os braços cruzados, o olhar fixo nela.- Me conta, Clara - disse ele, a voz mais suave agora, quase gentil. - Por que tá tão assustada? Não é só por causa da Madre, é?Clara baixou o cesto, os dedos brincando com a alça de vime. Ela queria mentir, dizer que era apenas o medo de serem pegos, mas o peso do segredo que carregava - o motivo pelo qual fugira para o convento - era demais. Ela respirou fundo, o ar tremendo em seus pulmões.- Eu... vim pra cá pra escapar - começou, a voz hesitante. - Tinha um homem. Meu ex-namorado. Ele... ele me machucava. Não só com palavras. Ele me batia, me prendia, me fazia sentir que eu não era nada. - As palavras saíam
- Não podemos contar a ninguém - disse ela, a voz trêmula, enquanto vestia o hábito às pressas, os dedos atrapalhados com os botões. O véu estava no chão, empoeirado, e ela o pegou, ajustando-o com mãos que não paravam de tremer.Gabriel, já abotoando a calça, assentiu, o rosto sério, mas com um brilho nos olhos que dizia que ele não se arrependia.- Não vou contar - disse ele, baixo, limpando o suor da testa com as costas da mão. - Mas isso, Clara... isso não acaba aqui. Você sabe disso.Ela quis protestar, dizer que era um erro, que nunca mais aconteceria, mas as palavras não vieram. Ele estava certo. O que haviam feito era uma linha cruzada, um pecado consumado que não podia ser desfeito. Ela saiu do depósito sem olhar para trás, o corpo ainda pulsando com a memória dele, o cheiro dele impregnado em sua pele.Naquela tarde, durante as vésperas, Clara sentou-se no oratório, o rosário apertado entre os dedos, mas sua mente estava longe das orações. Cada movimento do hábito contra sua
Gabriel reagiu como se tivesse esperado por isso a vida toda. Com um movimento rápido, ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares calejados roçando suas bochechas, a textura áspera enviando arrepios por sua espinha. Ele a beijou, um beijo faminto, desesperado, com gosto de sal, suor e algo selvagem. Clara gemeu contra a boca dele, as mãos agarrando a camiseta, puxando-o para mais perto, os dedos cravando no tecido como se fosse uma âncora. O véu caiu, deslizando para o chão em um sussurro de tecido, e seus cabelos castanhos se soltaram, caindo em ondas desordenadas sobre os ombros.- Clara... - murmurou Gabriel, a voz rouca, quase um rosnado, enquanto suas mãos desciam para a cintura dela, os dedos puxando o cinto do hábito com uma urgência que a fez estremecer. - Me diz pra parar. Diga agora, ou eu não vou conseguir.Ela não disse nada. Em vez disso, puxou-o para outro beijo, os dentes colidindo, a língua explorando a dele com uma ousadia que a chocava. O hábito foi arra
O sol do meio-dia queimava o Convento de Santa Luzia, transformando o pátio em um caldeirão onde o ar parecia ondular de calor. O silêncio opressivo do convento era interrompido apenas pelo zumbido errático de uma abelha e pelo eco distante do sino anunciando a hora da oração. Clara, porém, não estava com as outras noviças no oratório. A Madre Superiora, com seu olhar penetrante, a enviara para uma tarefa trivial: organizar o depósito de ferramentas nos fundos do jardim, uma construção de madeira envelhecida que exalava um cheiro forte de mofo, resina e terra úmida. Clara sabia que não estaria sozinha. Gabriel, o jardineiro, fora chamado para ajudar, e a perspectiva de estar tão perto dele, isolada dos olhos vigilantes das freiras, fazia seu sangue pulsar com uma mistura de medo e desejo.O depósito era um espaço claustrofóbico, com prateleiras tortas abarrotadas de enxadas enferrujadas, pás cegas e sacos de sementes embolorados. A luz entrava por uma janela pequena e empoeirada, lanç
O depósito, quando chegaram, era uma construção rústica, com paredes de tábuas desgastadas e um telhado que rangia sob o peso do sol. O interior era escuro, o ar pesado com o cheiro de madeira úmida, ferrugem e óleo de máquina. Prateleiras abarrotadas de ferramentas enferrujadas alinhavam-se nas paredes, e uma única janela, coberta de poeira, deixava entrar um feixe de luz que cortava a penumbra.Gabriel fechou a porta atrás deles, o clique da tranca ecoando como um trovão no silêncio. Clara virou-se, surpresa, o coração batendo tão alto que ela temia que ele pudesse ouvir.- Por que trancou a porta? - perguntou ela, a voz tremendo, mas não de medo.Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles. A luz da janela iluminava metade de seu rosto, destacando a cicatriz em sua sobrancelha e o brilho intenso em seus olhos.- Porque sei o que você quer, Clara - disse ele, a voz baixa, quase um ronronar. - E sei que você está cansada de lutar contra isso.Clara recuou até sentir a
O almoço de domingo na casa da família estava tenso.Gabi sentia o peso do olhar da mãe sobre ela enquanto tentava disfarçar, brincando com a comida no prato. Cada risada, cada movimento seu parecia ser analisado com atenção suspeita.— Você tá muito quieta hoje, Gabi — Dona Marta comentou, os olho
Acordei cedo, mas a casa já estava viva. Era como se ela nunca dormisse de verdade, apenas respirasse mais lento durante a noite. Vesti um robe de cetim e desci os degraus em silêncio, guiada por sons e cheiros que me puxavam para dentro do desconhecido.O ar estava carregado com o aroma de âmbar,
A tempestade caiu com fúria naquela noite, como se o céu decidisse explodir de vez tudo o que vinha represando há dias. Raios cortavam o escuro com uma violência hipnótica, seguidos por trovões que estremeciam as paredes da casa. Do lado de dentro, a luz piscou duas vezes antes de morrer por comple
O vapor do banho escapava pelo vão da porta do banheiro quando Samuel subiu as escadas, cansado depois de um dia inteiro tentando—e falhando em não pensar em Alyssa. O corredor estava silencioso, iluminado apenas pelo abajur fraco no patamar.Foi então que a porta do banheiro se abriu.Alyssa saiu







