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Capítulo 1

Author: Mabby
last update publish date: 2026-08-22 15:00:31

Ponto de vista da Paige

— Alex, hora do café da manhã ou a mamãe vai se atrasar para o trabalho — gritei para o meu filho da cozinha enquanto tentava preparar alguma coisa para comermos.

— Não estou achando o outro sapato — ele resmungou em resposta. De novo não.

— Tem certeza de que guardou direito? — perguntei enquanto colocava às pressas as poucas panquecas nos pratos e preparava o chá do Alex. Já não era novidade para nenhum dos dois que ele não sabia guardar as coisas direito e, mesmo quando sabia, não lembrava onde tinha colocado.

— Achei, mãe! — ele gritou de volta depois de alguns minutos, arrancando um leve risinho de mim.

— Então desce para tomar o café — respondi.

— Já estou aqui, mãe — disse ele da porta, fazendo-me levantar o olhar do que estava fazendo com um pequeno sorriso no rosto.

— Vem sentar e come o seu café — falei carinhosamente, puxando uma cadeira para ele. Eu ia me atrasar feio para o trabalho; de qualquer forma, isso já não era novidade.

— Mãe — Alex chamou baixinho, fazendo-me virar para ele.

— Tem algum problema, amor? — perguntei preocupada.

— Não… é só que… eu estava… pensando por que… sabe… você não está… comendo… você está bem, mãe? — perguntou ele em um sussurro.

— Não se preocupe. A mamãe está bem. Come logo para a gente ir — respondi, tentando o máximo possível esconder as lágrimas que se formavam nos meus olhos. Ele me olhou um pouco antes de voltar para a comida, sem dizer mais nada, pelo que fiquei extremamente grata.

— Você está atrasada, senhorita Moretti — começou Grayson assim que entrei no escritório dele para anotar tudo o que precisava ser feito no dia.

— Sinto muito. Precisei resolver uma coisa muito urgente — disse eu, tentando manter a expressão mais arrependida que conseguia.

— Esta é a segunda vez que isso acontece esta semana. Seja lá o que estiver te atrasando, é melhor parar, ou você já sabe o que acontece — falou ele com raiva estampada no rosto, mas aquela era a única expressão que ele sempre carregava. Eu já tinha aprendido a me adaptar. Ele jogou um monte de pastas em cima de mim, mandando que eu as organizasse todas antes do almoço.

— Mas, senhor… — quis protestar, mas ele me encarou com um olhar severo e eu saí do escritório rapidamente, sem dizer mais nada.

“Como eu odeio a minha vida”, gritei internamente enquanto entrava na minha cabine pequenina, jogando as pastas em cima da mesa com um gemido. Acho que esse é o meu castigo.

A verdade é a seguinte: depois que saí de casa, consegui um empregozinho para juntar dinheiro e pagar o apartamento pequeno onde o Alex e eu moramos atualmente e comprar algumas coisinhas de bebê para ele antes de eu ficar pesada demais para trabalhar. A mamãe tentou me alcançar de várias formas, então tive que trocar de número e mudar todas as contas de redes sociais que pudessem vazar o meu paradeiro para ela. Chorei os nove meses inteiros e, mesmo quando dei à luz o Alex, as lágrimas só pioraram. Ninguém esteve lá para me ajudar a cuidar dele ou sequer para testemunhar o nascimento. Teve uma época em que os dois ficamos doentes e precisamos ser internados, mas eu nem pude ficar no hospital, porque se ficasse não conseguiria pagar as contas dele. Por sorte melhorei com a ajuda dos remédios que tomei. Eu estava completamente sozinha e ainda estou. O Alex tem seis anos agora e está se tornando um menino carinhoso, inteligente e incrível. Ele se parece muito com o pai, o que às vezes traz de volta memórias que ainda luto para deixar de lado mesmo depois de seis anos. Mas eu faço o possível para deixá-lo feliz e confortável. Às vezes ele pergunta pelo pai, mas eu só desvio o assunto. O que eu ia dizer? Que o pai dele não o quis? Claro que não.

Depois do nascimento dele, me candidatei a trabalhar nesta empresa. Como não consegui ir para a faculdade, só me deram o cargo por pena: sou assistente lateral da secretária, que, por sinal, me trata de forma horrível, assim como todo mundo. Mas preciso do emprego para cuidar do Alex, então tenho que aguentar. Ninguém sabe que o Alex é meu filho. Para quem pergunta, eu faço parecer que ele é filho da minha irmã, que o abandonou e sumiu. Como eu não tenho irmã, realmente não me importo com o tipo de coisa que falam. Não importa. Não é que eu não tenha orgulho dele; é só que não consigo enfrentar as pessoas e o tratamento que dão às mães solteiras na sociedade. Já tenho coisas demais no prato; não preciso de mais. Um dia eles vão descobrir, mas até lá…

— Dá para ver que a sua vida patética está começando a aparecer na sua cara, não acha, Paige? — ouvi a Vanessa dizer da porta, mas eu a ignorei facilmente, organizando os documentos na mesa enquanto começava a separá-los. “Quanto antes, melhor”, pensei comigo mesma.

— Qual é o problema, Paige? O gato comeu a sua língua? — ela tentou de novo, entrando mais para dentro da cabine, fazendo-me revirar os olhos.

— O que você quer, Vanessa? — perguntei de forma seca, esperando que acabasse logo.

— Me pediram para dar uma olhada em você e está óbvio que o Grayson tinha razão. Você é realmente inútil aqui. Já está na hora de nos livrarmos de você — disse ela com um sorrisinho, esperando a minha reação, provavelmente torcendo para que eu me ajoelhasse e implorasse ou chorasse pelo emprego na frente dela. Não dessa vez, mocinha.

— Ok — respondi simplesmente, ainda focada no trabalho.

— Só isso que você tem a dizer, hein? Pode confiar que logo você vai estar implorando — ela gritou antes de sair, batendo a porta com força atrás de si, o que me fez estremecer um pouco. Por que as pessoas são tão amargas na vida?

Finalmente levantei o olhar, encarando a porta enquanto as lágrimas escorriam aos poucos dos meus olhos. Tudo isso estava começando a me sufocar. Por que eu? Por que tinha que ser comigo? O que eu fiz de errado?

“Foi um maldito erro, sabe?”, gritei mentalmente enquanto apertava a ponte do nariz, lutando contra as lágrimas.

“Não é hora de chorar, Paige”, repreendi a mim mesma, me recompondo. Voltei a focar no trabalho, empurrando todas as dores para baixo, determinada a sobreviver ao dia.

— Mãe, tem uma menina na minha sala… — começou o Alex enquanto andávamos pela rua em direção a casa. Eu ainda precisaria buscar o carro no mecânico hoje.

— O que tem ela? — perguntei, tentando não soar tão cansada quanto me sentia.

— Ela disse que eu não tenho pai, que ele não conseguiu ficar com um desgraçado como eu. Isso é verdade, mãe? — falou ele, fazendo-me parar no meio do caminho. Agachei na frente dele até ficar na altura dos olhos dele, encarando aqueles olhos azuis brilhantes que eram exatamente iguais aos do pai — uma coisa que me atinge toda vez. Com o indicador, levantei o queixo dele para que ele também olhasse nos meus olhos e falei:

— Isso não é verdade. Nunca deixe palavras assim te afetarem, ok? A mamãe te ama e é isso que importa. — Dei um beijo na testa dele e o puxei para um abraço, fazendo-o sorrir. O que os pais dizem para os filhos nessas horas hoje em dia?

— E eu também amo a mamãe — respondeu ele, beijando minha bochecha antes de eu me levantar, segurando a mão dele enquanto andávamos para casa em um silêncio confortável.

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