FAZER LOGINE por mais que Heylel quisesse fazer o anjo engolir sua soberba e cada palavra dita até aquele momento, reconhecia que uma guerra não seria algo bom para seu domínio. Posicionou o corpo um passo à frente, detendo Amarantha que ainda brincava com a chama azul em suas mãos.
— Fale. E. Suma. Daqui.
O anjo deixou um sorriso carregado de sarcasmos estampar seus lábios e notou o olhar de Heylel em suas asas, graça aquela que ele não alcançaria novamente. Assim que caiu, recebendo seu castigo, não foi deixado nenhuma marca celestial nos que se rebelaram contra Deus, muitos não aguentaram a queda e suas asas queimaram por completo e os que conseguiram resistir, elas se tornaram negras como a noite mais escura, mas ninguém soube em qual das duas situações Heylel se encaixava, ele jamais revelou sua situação, nem mesmo em seus anos mais sombrios.
— Sabemos o que acontecerá com sua cria quando ela atingir os 18 anos terrestre. Prepare-se para o que está por vim – E já batendo suas asas e se levantando do chão, Miguel disse sobre os ombros – Ah e não tenha dúvidas, não haverá laço terreno que irá segurar a criança, ele lutara contra sua cria e sabemos quem vencerá.
E da mesma forma que veio, Miguel foi embora, não sem antes exibir sua força batendo suas asas de forma impiedosa, deixando um rastro de vento forte para trás.
— Quero esmagar aquela cara cretina dele Heylel, solte minhas mãos que farei as asas dele pegar fogo enquanto esse infeliz voa.
— Acredite, essa é também a minha vontade, mas não seria algo bom, matar um de meus irmãos.
— Tenho minhas dúvidas Heylel, nesse momento, matar Miguel me parece algo realmente bom – Amarantha ainda estava em fúria a luz azul tremulava intensa e instável ao redor de seu corpo.
— Controle-se meu amor, precisamos ser racionais nesse momento – Estava usando todo seu auto controle para ele mesmo não deixar romper a sua ira e dilacerar com seu irmão ainda nos céus de Sheol – Não entendo o porquê dessa visita, tenho certeza que Ele não aprovaria essa atitude, mas agora, o que trouxe Miguel até aqui? Por que esse aviso sobre Naiara?
— Aviso? – Ela disse em alta voz – Ele ameaçou nossa filha, o que ele espera? Que matemos Naiara antes que complete 18 anos? Será que os guardiões celestial estão enfim declarando sua insanidade?
— Não sei, não sei ao certo até que ponto isso foi uma loucura, mas apesar da visita ser mesmo uma surpresa desagradável, algo pior me intriga.
— Pior? O que? – Ele tinha toda a atenção dela agora, que já estava com a fúria controlada. Seu corpo voltado à Heylel e suas mãos ansiosas sobre os braços dele o segurando fortemente.
— Quem é ele? De que criança ele falava? Quem é esse ser que irá se colocar contra nossa filha e o porquê menciona-lo seria importante para Miguel?
Os dois se olharam intensamente e toda a incerteza do futuro da filha, percorreu suas faces, a dor de uma possível perda era devastadora, pensar em uma vida sem a presença de Naiara fazia o ar dos pulmões de Amarantha desaparecer.
— Vamos para casa.
Disseram juntos e sumiram no ar.
Amarantha e Heylel surgiram na sala onde Naiara e Agares estavam enroscados no sofá conversando sobre o final de um livro lido por eles, Amarantha atravessou o espaço que a separava da filha em três passos largos, puxando-a para si e a envolvendo com força entre seu abraço protetor. Heylel se colocou entre sua família e a porta, como se uma ameaça invisível fosse a qualquer momento tira-las dele.
— O que está acontecendo? – Agares já estava em pé, com as duas espadas nas mãos, preparadas para o ataque.
Como se o medo de Amarantha e Heylel fosse garras percorrendo toda a morada e atingindo cada um de seus moradores, em questões de segundos a sala estava cheia de seres dispostos a morrer por seu senhor. Yekun que desde a noite anterior não havia aparecido por ali, se materializou na sala ao lado de Naiara e sua mãe e como por instinto suas asas se abriram querendo fechar a amada em um casulo.
— O que está acontecendo? – Trouxe Yekun a pergunta feita por Agares. – Ela está em perigo? O que Belial fez dessa vez?
Agares não iria tirar a namorada dos braços da mãe, mas ter Yekun e suas asas tão próximas a ela o deixava muito irritado, Naiara sentiu o ciúmes do namorado através da ligação que tinham e com cuidado se desvencilhou da mãe e aproximou-se dele, entrelaçando seus dedos.
— Estão preocupando a todos mãe... O que está acontecendo?
E pela terceira vez em menos de 15 segundos a mesma pergunta foi feita. Heylel aproximou-se de Amarantha a evolvendo pela cintura, soltando todo o ar que estava prendendo dentro dele desde que chegaram a morada, explicou a visita de Miguel e suas ameaças.
— Ele? – Questionou Naiara enquanto sentava-se e puxava um namorado tenso e quase rosnando, junto com ela – Acalme-se – disse baixo somente para ele ouvir – Não entendo pai, porque meu aniversário é algo tão terrível assim? Afinal, já fiz 17 aniversários na terra, por acaso é proibido comemorar o dia em que nasceu no inferno?
Heylel e Amarantha se encararam por alguns segundos que mais pareceram a eternidade, se falavam com o olhar. Ainda não haviam tido essa conversa com a filha, explicado para ela o que iria acontecer quando atingisse a maioridade, qual seria os ganhos em seus poderes e como aquilo iria desequilibrar todos os mundos.
A sala agora quase vazia, todos foram liberados por Heylel após serem acalmados, ficando somente Yekun e Abigor que ainda estava plantado na porta de entrada. Sentaram-se cada um em uma poltrona, mas mantendo os dedos entrelaçados um no outro, sem perder o contato físico. Amarantha endireitou a coluna e jogando os longos cabelos acobreados para trás começou a falar de forma quase solene.
— É normal dentro de nosso... hum... segmento, ter sua plenitude ao atingir a maioridade, nessa idade todo a magia está amadurecida e a mulher em contato com sua essência e seu equilíbrio. Agora minha querida, imagine uma descendente atingindo essa maturidade, sendo filha de um anjo caído? – Amarantha olhou para Heylel sorrindo com amor, sabia o quanto o termo o desagradava, mas não havia outra palavra para usar naquele momento.
— Está me dizendo que terei mais do que tenho quando fizer 18 anos porque sou filha do meu pai? – A incredulidade escorria pela voz de Naiara.
— Sim – Foi Heylel que respondeu – Leva dentro de si a essência de gerações de mulheres carregadas de magias e não bastando, leva a glória de um ser criado por Ele e a maldição de minha queda. Enfim minha querida, você é uma mistura muito perigosa.
— Obrigada pela definição pai, sempre sonhei em ser vista dessa forma.
O sarcasmo tingiu a resposta de Naiara, deixando todos em silencio por tempo o bastante para o constrangimento se instalar entre eles.
— Veja por esse lado – Yekun quebrou o silencio constrangedor – Você é simplesmente única Naiara e não há nada que possa te parar.
Mesmo não querendo, o som da voz de Yekun mexeu com algo dentro dela e a forma como ele a via, fez sua face corar. Sentiu Agares encarando-a, revirou os olhos.
— Aí mora o problema meu caro. – Heylel interrompeu o que quer que Agares fosse falar – Temos três reinos sob nosso domínio, Belial já sabe da existência de Naiara, isso quer dizer que Azazyel também.
— Quem é esse? E porque essa cara de desespero de vocês?
Naiara estava certa, a pronuncia daquele nome trouxe uma tensão reveladora ao ambiente, até mesmo Abigor que ainda estava parado na porta, tencionou o corpo. Não havia escutado ainda o nome daquela criatura e estava claro que não era alguém amigável. Estava começando a se cansar de todas essas pessoas surgindo do nada.
— Azazyel é um pouco temperamental, tem um caráter forte. – Começou Heylel a explicação – Quando caímos, ele rapidamente fez uma legião fiel ao seu comando e se isolou no ponto mais afastado do Sheol, mantem a todos sob um comando rígido, não se alia há ninguém a menos que encontre algo que lhe desperte o interesse, é cruel de uma forma que faz Belial parecer um anjo, bem, um anjo ainda no céu – Um breve sorriso surgiu em seus lábios – Enfim, nosso receio não é no que você terá ao atingir sua maioridade minha filha, nem muito menos em procurar uma definição que seja justa para o que irá representar, nossa preocupação é o que nossos inimigos deste mundo e dos outros, irão fazer para tentar controlar isso.
— Isso, no caso sou eu? – Questionou indignada.
— Sim minha filha. – A resposta soou constrangedora.
A verdade foi lançada e não havia o que se fazer a respeito, tentar seguir com a vida como estavam fazendo nos últimos dias, mas ficar atentos para qualquer mudança ou sinal de ataque.
— Bem, vamos viver somente mais um dia normal no Sheol não é mesmo? – Naiara se levantou segurando as lagrimas que queriam escapar, não iria demonstrar o pavor que sufocou sua alma, indo em direção a grande mesa da sala ao lado, onde estava entulhada com papeis, tecidos, cores e mais cores – Ah não mãe, rosa não né, por favor! – Exclamou aos berros vendo a cor que a mãe havia escolhido para a decoração de sua festa, sua reação arrancou risadas fracas, quebrando assim um pouco da tensão que pairava.
— Sem escândalos, Lala. – Mesmo no inferno a mãe não abria mão daquela apelido irritante, sabia que a filha estava somente mudando a direção do assunto e entrou no jogo, já estava cansada demais para um dia só – Foi somente algo que Élida sugeriu, mas não quer dizer que será essa cor.
— Até porque o aniversario não é dela e não vou fazer cinco anos né? Vamos pelo amor dos céus optar pelo bom e velho preto e dourado.
— Tão das trevas essa minha namorada. – Agares já estava atrás de Naiara a envolvendo em seus braços, fazendo Amarantha revirar os olhos diante da cena.
— Bem, minha presença aqui já não é mais necessária.
Yekun afastou-se de todos indo em direção a porta sem se dar ao trabalho de uma despedida, Heylel olhou seriamente para Naiara, ignorando o olhar furioso de Agares para ele.
— Está na hora de arrumar a bagunça que você fez minha filha, você pode ter a liberdade de escolha, ele não.
Ela sabia que o pai estava certo, não queria, jamais quis, mas de alguma forma, aquela manhã em que passaram juntos, nutriu em Yekun uma esperança e ela era culpada por isso. Naiara soltou-se do namorado que a fuzilava com os olhos enquanto a incredulidade lhe tomava a face.
— Ele não tem culpa Agares, minha escolha é você, mas meu pai está certo, ele não tem escolha, não pode se desvencilhar de algo que está na natureza dele. Confie em mim por favor.
Antes mesmo que ele pudesse responder, ela selou seus lábios com carinho e se afastou indo atrás de Yekun que estava movendo as asas se preparando para ir.
— Não sabia que havia perdido sua educação pelo caminho – Disse sem jeito, sem saber como começar o assunto. Yekun travou no lugar e virou-se para ela, um sorriso torto brincou em seus lábios.
— Em que momento deixei de usar minha educação senhorita?
— Hum... Quando chegou e não me deu “oi” ... – E por alguns minutos ela se esqueceu de quem era e com quem estava falando. – E agora que está indo embora sem me dar “tchau”.
— Então o meu oi e meu tchau lhe fazem falta? – Ele tentava conter o sorriso – Não acredito que essas trivialidades mundanas se aplica em nosso mundo.
— Mas – começou a rebater – levando em conta que a outra ponta dessa conversa, no caso eu, é humana, algumas trivialidades cairiam bem.
— Se isso é realmente importante para você, se torna importante para mim. Oi e tchau, sempre serão lembrados a partir de hoje. Melhorou?
— Yekun, precisamos conversar. – Ela gostava daquele jogo com ele, gostava da forma que involuntariamente o seu corpo inteiro reagia a presença de Yekun, mas não iria mais brincar com a situação daquela forma, sabia o quão fraca se tornava perto dele e não magoaria Agares nunca mais.
— Não, não precisamos. Você tem uma escolha e a fez, eu por outro lado, estarei lhe esperando eternamente – Naiara começou a balançar a cabeça em negativa, queria explicar a ele que não precisava espera-la, que nunca existiria algo entre eles, queria implorar para ele seguir sua vida e ser feliz, mas Yekun não lhe deixou falar – Sinto sua cabeça fundir enquanto pensa Naiara, não pense sobre isso, sou seu e estarei ao seu lado sempre que precisar, mesmo não querendo, o que nos uni é maior do que eu, não posso controlar ou conter, então sim, virei correndo – ele pareceu ponderar a palavra – ou melhor, voando, sempre e todas as vezes em que precisar.
As palavras ditas atingiu seu coração e por alguns segundos, tudo o que desejou era ser duas e poder viver seus dois amores da forma mais intensa possível, mas sabia que esse sonho não se realizaria, ficou somente olhando para Yekun, sentindo toda a verdade em cada palavra que ele lhe disse, procurando encontrar conforto em sua aceitação. Ele se aproximou um pouco mais e com a delicadeza do bater das asas de uma borboleta, tocou os lábios de Naiara que ficou imóvel e sem reação alguma e então se foi.
— Agares vai me matar! – Disse para ela mesma assim que conseguiu recuperar o movimento do próprio corpo.
— O que foi que você fez? – Miguel gritou.— O que eu fiz? O que você fez? – Heylel gritava em resposta – Achou mesmo que iria continuar agindo da forma que agia e nosso Pai não o disciplinaria?— Meu Pai!— Cresce Miguel.— O único que precisa ser castigado aqui é você, traidor.Miguel esbravejava e gritava como um insano, andando de um lado para outro, sem saber o que fazer. Ele parou de súbito, iria abrir suas asas e somente voar para o mais longe possível de Heylel e daquele lugar, voltaria para casa e iria ter com o Pai. Mas nada aconteceu. Forçou o pensamento novamente, esperando sentir a expansão em sua omoplata e então a gloria de suas asas abertas. Nada.— O que a bruxa da sua cria fez comigo?— Se falar novamente da minha filha dessa forma Miguel vou matar você e deixar seu corpo aqui me
— Entre. – Yekun disse após ouvir a leve batida.Naiara abriu a porta, colocando somente a parte de cima de seu corpo para dentro. Yekun estava deitado sobre uma cama imensa que ficava abaixo de uma ampla janela. O quarto dele era enorme, um dos maiores da morada, mas todos os moveis eram antigos o que deixava tudo com uma visão quase medieval. Combinava com ele.— Você está bem? – Ela perguntou ainda da porta.— Ficarei melhor quando entrar vida. – Disse a olhando.Naiara entrou, fechando a porta atrás de si, estava constrangida com a situação. Não que nunca tivesse estado a sós com Yekun, até mesmo dormido em seus braços em uma barraca, ela já havia dormido. Mas estar dentro do quarto dele, era intimo demais. Sentou-se em uma poltrona que ficava no canto do quarto e sorrio para ele que a olhava sem entender o que acontecia com a menina.
— Acha mesmo que foi a melhor escolha? – Azazyel perguntou a ela enquanto andavam.E como se a pergunta fosse o gatilho para suas emoções, ela caiu de joelhos e chorou como jamais havia chorado em sua vida, sentia o corpo se mover com a força dos soluços que rasgavam seu peito, levou as mãos à cabeça e o rosto ao chão. Um grito rompeu de sua garganta e Azazyel correu para conter Naiara que resplandecia parecendo não conseguir controlar a ela mesmo. Braços fortes a envolveram e a menina se permitiu tombar de lado e deitar a cabeça no peito dele.— Chore guerreira, tudo isso passará. – Ele dizia em um tom baixo, como um pai que acalanta um filho – Chore, deixe sair tudo o que está te fazendo mal. Coloque para fora.Ficaram imóveis por minutos que mais pareceram horas, o único barulho que se ouvia, era dos soluços de Naiara e
As palavras era gritadas em todas as direções e ela parecia um animal encurralado, andando de um lado para outro, preste a atacar.— Posso me aproximar? – Perguntou incerto. Ela respirou fundo e então parou e o olhou.— Sempre. – Tentou desfazer a carranca, mas não obteve sucesso. Agares andou lentamente até ela e com cuidado segurou em suas mãos. – Temos que ter um plano.— Plano?— Sim, ainda temos que encontrar a arvore e levar as folhas para Amarantha. – Só nesse momento ela se lembrou do porque estavam ali.— Yekun. – Disse baixo.— Sim, ele ainda precisa de nós.Eles conversavam baixo, como se qualquer alteração na voz, fosse tirar Naiara do eixo novamente, fazendo sua ira explodir. Os três ainda choravam, mas Gabriel agora estava sentado no chão, ainda preso pelo poder de Naiara, s
As paredes eram escorregadias, como se a umidade fosse muita e a água não parasse de escorrer jamais, o espaço estreito e quase sufocante, não permitia que os dois andasse afastados, estavam tão próximos que o calor dos corpos se misturava.— Agares, e se ficarmos andando para sempre aqui e não chegarmos a lugar algum?— Sempre terá um lugar para chegar Nai, em algum momento.— Está profundo. – Ela brincou.— Não. – Ele disse sério e sem se virar para trás – Você que ainda não me conhece completamente.Ela não respondeu, mas com cuidado, soltou os dedos que estavam presos aos dele, com a desculpa que precisavam de luz. Naiara clareou um pouco o caminho, perdida em seus próprios pensamentos. Ainda que a escolha dela fosse Agares, algo havia se quebrado e o medo que nunca mais fosse reparado estava p
Naiara já estava parada de frente e pequena porção de água, os braços cruzados ao peito e o olhar perdido no horizonte rochoso e cinza a sua frente.— Não é uma das imagens mais bonitas que já viu né? – A voz de Agares rompeu o silencio do lugar.— Não é não, mas tem o seu encanto.Ele parou ao lado dela entregando o cantil cheio de agua.— Sem agua né?Naiara o olhou e pegou o cantil, voltando sua atenção para a paisagem a sua frente.— É só estranho, quase difícil te ver com outra pessoa. – Confessou baixinho.— Mas não está me vendo com ninguém. – Respondeu no mesmo tom.— A forma como a toca e ela se entrega... sei lá, só achei que seria mais fácil. Quando imaginava você com as demônias deste l







