FAZER LOGINRecém-transferida de um polo universitário em Santa Catarina para São Paulo, ela começava uma nova etapa cursando Engenharia Econômica.
Sua família tinha raízes norueguesas e uma longa história ligada à agricultura na Serra Gaúcha. Ao contrário do estereótipo de uma família rural tradicional, os negócios haviam crescido ao longo das gerações e se especializado em um segmento de agro premium e hortifrúti exclusivo, fornecendo produtos selecionados para mercados e restaurantes de alto padrão.
Ela havia crescido naquele ambiente, cercada por números, produção, logística e decisões econômicas. Talvez por isso tivesse desenvolvido uma facilidade incomum para cálculos e análises.
Era o tipo de inteligência que não precisava ser exibida. Uma menina doce, de pele branca como porcelana, cabelos castanho-arruivados, silhueta digna de uma ninfa dos bosques, com uma sensualidade quase angelical. Apesar de discreta — ou talvez justamente por isso — escondia aspectos de sua vida que poucos podiam acessar. Odiava estereótipos.
Reservada e extremamente dedicada, preferia passar despercebida a ser o centro das atenções, mas não era ingênua. Quando se interessava por alguma coisa, mergulhava completamente no assunto, pesquisando até encontrar respostas — um hiperfoco que, às vezes, irritava quem estava por perto.
Seu lado nerd aparecia justamente nesses momentos. Podia passar horas estudando um problema matemático apenas pela satisfação de descobrir uma solução diferente. Gostava de planilhas, livros, tecnologia e assuntos que a maioria dos colegas considerava complicados demais.
Mas talvez sua característica mais marcante fosse a forma como ela parecia viver em dois registros diferentes, e cada um tinha sua própria lógica. Quando alguma coisa despertava seu interesse — um padrão, um detalhe fora do lugar, uma fala que ninguém mais tinha notado —, sua atenção se afiava de um jeito que pegava as pessoas de surpresa. Era, nesses momentos, a melhor das ouvintes, capaz de reparar em nuances que passavam despercebidas por todo mundo.
Mas havia outros momentos — geralmente depois de um dia longo, de muito barulho, de estímulo demais — em que ela simplesmente se recolhia. Não por desinteresse, mas porque precisava daquele espaço para processar o que a cercava. Nesses momentos, era como se estivesse em outro lugar, mergulhada em um mundo que só ela entendia, e ninguém sabia muito bem como trazê-la de volta.
Para os colegas, inicialmente seria apenas a garota nova e bastante reservada que havia chegado de Santa Catarina.
Para aquele professor, porém, ela acabaria se tornando uma presença impossível de ignorar.
E nenhum dos dois imaginava o quanto aquela primeira impressão mudaria o rumo daquele semestre.
A Chegada
São Paulo parecia não ter fim.
Da janela do carro, ela observava a sucessão interminável de prédios, avenidas e pessoas que passavam apressadas. Tudo parecia grande demais, rápido demais e barulhento demais.
Por alguns minutos, ficou em silêncio, apenas olhando.
Aquilo era exatamente o que tinha escolhido.
E, pela primeira vez desde que saíra de Santa Catarina, começou a sentir o peso daquela decisão.
Estava sozinha.
Não havia sua mãe perguntando se havia levado um casaco. Não havia seu pai ligando para saber onde estava. Não havia os irmãos ou qualquer outro familiar por perto.
Havia apenas ela, algumas malas e uma nova vida esperando para começar.
Seu pai havia sido completamente contrário à mudança. Para ele, a ideia de sua filha sair de perto da família e ir para São Paulo era quase inconcebível. Durante anos, ela crescera sob uma proteção que, embora viesse do amor, muitas vezes parecia uma muralha.
— Você não precisa disso — ele havia dito.
Ela ainda conseguia ouvir sua voz.
— Preciso, sim.
A discussão tinha terminado em silêncio.
Ele não havia entendido. Ou talvez tivesse entendido perfeitamente, mas simplesmente não conseguisse aceitar.
Sua família tinha condições de proporcionar tudo o que ela precisasse. Segurança, conforto, uma boa universidade e até mesmo um futuro profissional praticamente garantido.
Mas não era isso que ela queria.
ThomasMeu tio soltou aquele comentário que, em qualquer outra situação, seria perfeitamente inofensivo. Mas não naquele dia. Não naquela mesa.O alvo do meu pai já estava apontado para o meu peito fazia algum tempo; portanto, qualquer movimento meu que saísse um milímetro fora do roteiro habitual virava motivo imediato para suspeitas.— Sim, uma aluna! Qual é o problema? — respondi, mantendo a voz firme e modulada na minha melhor postura de professor. — Devemos pontuar e corrigir quando um estudante está abaixo de suas responsabilidades, mas também é nosso dever motivar quando se trata de alguém de alto padrão precisando de uma orientação pontual.Meu pai inclinou-se ligeiramente para a frente, repousando os antebraços sobre a mesa. Os olhos dele eram dois bisturis frios.— E desde quando você se dispõe pessoalmente a vir até o seu tio interceder por uma “aluna”? Isso é algo que poderia ser resolvido em dois minutos na secretaria da universidade.— Porque foi um caso inusitado — sust
Gabriela Thomas deixou as coisas na bancada e me encarou. A conversa não foi fácil. Cobrei a vigilância dele, o ciúme cego e aquele teatro ridículo com as mulheres no bar. Thomas não se esquivou. Encostou-se na bancada, me olhou nos olhos e admitiu a verdade sem rodeios: ele tinha enlouquecido de ciúmes ao me ver com o Pedro. Ele tinha errados ao tentar bancar o maduro, mas fez o que fez para despistar qualquer suspeita e me proteger.— Você é a única pessoa que conseguiu bagunçar minha vida inteira... e me fazer gostar dessa bagunça — sussurrou ele, segurando meu queixo com firmeza e carinho.A raiva dissolveu-se na intensidade daquele toque. O beijo que se seguiu foi calmo, profundo, repleto de uma saudade que nenhum dos dois conseguia mais esconder. Mas durou pouco.O celular dele acendeu na bancada. PaiO corpo de Thomas enrijeceu no mesmo instante. Ele atendeu, confirmou a presença no almoço de família com poucas palavras e desligou. A paz entre nós tinha durado minutos.— Tenho
GabrielaO som do despertador na manhã de domingo parecia uma punição desnecessária.Eu mal havia dormido. Passei metade da madrugada encarando o teto, repassando os acontecimentos do show como quem tenta encontrar um erro de cálculo em uma equação que recusa o resultado final.A lógica dizia que Thomas tinha usado a presença daquelas mulheres como um escudo. Dizia que ele tinha sido frio com Pedro para não entregar o jogo. Mas o peito... o peito não funciona por algoritmos. A imagem dele sorrindo para aquela mulher enquanto eu estava do outro lado do salão ainda queimava de um jeito bobo, infantil e doloroso.Levantei devagar, ainda de camisola e fui até a cozinha. Caio me seguiu em silêncio, encostando o focinho na minha perna, como se soubesse que a dona não estava nos seus melhores dias.Quando a campainha tocou às nove da manhã, eu não precisei olhar pelo olho mágico.Sabia que era ele.Abri a porta sem pressa, mantendo o braço apoiado no batente.Thomas estava ali. Não usava o t
GabrielaVi o semblante de Pedro escurecer.Foi rápido. O sorriso que ele vinha sustentando a noite inteira desabou, e no lugar ficou algo amargo, que ele nem tentou esconder. Antes que eu pudesse segurá-lo, disparou na direção de Thomas, abrindo caminho entre as pessoas com os ombros.Fui atrás, mas o salão estava cheio, e eu ainda não tinha desistido de ser discreta.Cheguei a tempo de ouvir:— O que você faz aqui? Pelo jeito, está mesmo disposto a não deixar que eu me aproxime dela. Está mais claro do que nunca quais são as suas verdadeiras intenções!Thomas respondeu com uma calma que só quem o conhecia saberia ser esforço.— Pedro, você está bem? Não me diga que só você pode gostar dessa banda. Imagina o que essas outras centenas de pessoas pensariam de você se soubessem disso.Ele fez um gesto discreto para as mulheres ao lado, que ainda esperavam a conversa recomeçar.— Estou aqui com meu amigo e, se não percebeu, estou muito bem acompanhado.Parei de andar.Eu sabia o que era a
Um Convite PerigosoGabrielaNo fim, decidi ir.Eu confiava na minha capacidade de me esquivar das investidas de Pedro e, principalmente, não queria que uma simples recusa servisse como confirmação para as suspeitas que ele já carregava.Se eu tratasse aquilo como apenas um show entre amigos, talvez ele finalmente percebesse que estava enxergando coisas onde não existiam.Pelo menos era o que eu tentava acreditar.No sábado, Pedro apareceu para me buscar.Aquilo me pegou de surpresa.Eu tinha imaginado que nos encontraríamos no local, não que ele apareceria na porta do meu condomínio. Entrei no carro tentando não demonstrar o quanto aquilo me incomodava.Durante o caminho, ele parecia confortável demais. Conversava como se aquela noite tivesse algum significado especial, enquanto eu fazia questão de manter a distância.Quando chegamos ao show, respirei aliviada.O lugar estava cheio, barulhento e iluminado. Era fácil desaparecer no meio da multidão.O problema era que Pedro parecia de
GabrielaO problema de Pedro não era exatamente o convite.Era o motivo pelo qual ele tinha feito o convite.Desde que saí da biblioteca, a frase dele não saía da minha cabeça. Ele não queria simplesmente me levar a um show. Queria descobrir alguma coisa. Testar até onde eu iria para esconder o que existia entre Thomas e mim.E, pela primeira vez, eu começava a entender que talvez ele estivesse mais perto da verdade do que eu gostaria.Passei boa parte da tarde tentando me concentrar no trabalho, mas o celular continuava sobre a mesa, com a mensagem de Pedro esperando uma resposta.Então, sábado?Eu ainda não tinha respondido.Quando Thomas chegou naquela noite, percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.— Aconteceu alguma coisa?Hesitei antes de entregar o celular para ele.Thomas leu a mensagem e ficou alguns segundos em silêncio.Não precisou perguntar quem era.— Pedro de novo!Assenti.Ele devolveu o celular sem dizer nada, mas a mudança em sua expressão foi suficiente







