LOGINPor trás da postura rígida, porém, existia alguém muito mais complexo do que os alunos imaginavam.
Um homem que passara anos aprendendo a controlar cada aspecto da própria vida — e que acreditava ter finalmente aprendido a controlar também o próprio coração.
Três anos haviam se passado desde o fim do seu antigo relacionamento. Chegara a noivar com Marcela, mas era um relacionamento fadado ao fracasso desde o início, por incompatibilidade de anseios e personalidades. Aquela união nunca fora, de fato, escolha sua: sua família a considerava perfeita — duas famílias influentes, interesses em comum, um futuro cuidadosamente planejado antes mesmo que ele tivesse certeza de que era aquele o destino que queria. Marcela era irmã de seu amigo e sócio, Caio.
Caio ainda alimentava esperanças de que os dois reatassem. Mas já havia se passado tempo suficiente para que as pessoas parassem de perguntar quando ele pretendia se casar, e suficiente para que a própria família finalmente aceitasse que ele não pretendia retomar aquela história. Durante anos, ele tentara transformar obrigação em amor.
Não funcionou.
Quando tudo terminou, decidiu que nunca mais permitiria que outras pessoas escolhessem por ele.
Desde então, fechara as portas para qualquer possibilidade de relacionamento sério. Não era um santo — se permitia casos sem apego, sem sentimento. A régua estava clara, os padrões estabelecidos. Ou talvez fosse apenas uma forma de proteção e negação: no fundo, era ele quem ansiava por um amor de verdade, torrencial, capaz de lhe arrancar os pés do chão, da previsibilidade e do controle que tanto estimava.
Era mais simples assim. Mais seguro. E, principalmente, mais controlável — talvez até demais.
Foi justamente por isso que criou regras para si mesmo. Algumas eram pequenas: nunca chegar atrasado, nunca dar uma aula sem revisá-la ao menos duas vezes, nunca aceitar um trabalho fora do prazo.
Mas havia uma que considerava absoluta.
Nunca se envolver com uma aluna.
Não importava a idade. Não importava o quanto ela fosse bonita. Não importava o quanto uma conversa pudesse parecer inocente.
Uma aluna continuava sendo uma aluna. E ele continuaria sendo o professor.
A linha era simples. Clara. Inquestionável. Ele sabia onde queria chegar.Sendo forjado pelo pai para ser duro e cometer o mínimo de erros em tudo, sua postura era seu maior trunfo!
Pelo menos era o que ele acreditava.
Naquela segunda-feira, porém, quando abriu a porta da sala e caminhou até a mesa, não fazia ideia de que algumas regras eram mais fáceis de estabelecer do que de enfrentar. Que talvez o destino tinha lhe reservado um desfecho totalmente oposto do que planejou. O universo estaria talvez ,bem humorado e afim de brincar com Thomas e suas convicções.
Colocou os livros sobre a mesa, ajustou o relógio no pulso e observou os alunos entrarem. Seu olhar sempre atento para sua classe, o desejo de ter êxito em lesionar era uma boa ambição.
Mais um semestre. Mais uma turma. Mais futuros engenheiros esperando para serem preparados. Era só nisso que deveria se concentrar.
Tudo deveria continuar exatamente como sempre. Só que não seria assim tão simples.
Ele ainda não sabia que, naquele semestre, aprenderia que nem todos os problemas podiam ser resolvidos com cálculos, lógica ou planejamento.
Alguns, simplesmente, não obedeciam a nenhuma fórmula.
ThomasMeu tio soltou aquele comentário que, em qualquer outra situação, seria perfeitamente inofensivo. Mas não naquele dia. Não naquela mesa.O alvo do meu pai já estava apontado para o meu peito fazia algum tempo; portanto, qualquer movimento meu que saísse um milímetro fora do roteiro habitual virava motivo imediato para suspeitas.— Sim, uma aluna! Qual é o problema? — respondi, mantendo a voz firme e modulada na minha melhor postura de professor. — Devemos pontuar e corrigir quando um estudante está abaixo de suas responsabilidades, mas também é nosso dever motivar quando se trata de alguém de alto padrão precisando de uma orientação pontual.Meu pai inclinou-se ligeiramente para a frente, repousando os antebraços sobre a mesa. Os olhos dele eram dois bisturis frios.— E desde quando você se dispõe pessoalmente a vir até o seu tio interceder por uma “aluna”? Isso é algo que poderia ser resolvido em dois minutos na secretaria da universidade.— Porque foi um caso inusitado — sust
Gabriela Thomas deixou as coisas na bancada e me encarou. A conversa não foi fácil. Cobrei a vigilância dele, o ciúme cego e aquele teatro ridículo com as mulheres no bar. Thomas não se esquivou. Encostou-se na bancada, me olhou nos olhos e admitiu a verdade sem rodeios: ele tinha enlouquecido de ciúmes ao me ver com o Pedro. Ele tinha errados ao tentar bancar o maduro, mas fez o que fez para despistar qualquer suspeita e me proteger.— Você é a única pessoa que conseguiu bagunçar minha vida inteira... e me fazer gostar dessa bagunça — sussurrou ele, segurando meu queixo com firmeza e carinho.A raiva dissolveu-se na intensidade daquele toque. O beijo que se seguiu foi calmo, profundo, repleto de uma saudade que nenhum dos dois conseguia mais esconder. Mas durou pouco.O celular dele acendeu na bancada. PaiO corpo de Thomas enrijeceu no mesmo instante. Ele atendeu, confirmou a presença no almoço de família com poucas palavras e desligou. A paz entre nós tinha durado minutos.— Tenho
GabrielaO som do despertador na manhã de domingo parecia uma punição desnecessária.Eu mal havia dormido. Passei metade da madrugada encarando o teto, repassando os acontecimentos do show como quem tenta encontrar um erro de cálculo em uma equação que recusa o resultado final.A lógica dizia que Thomas tinha usado a presença daquelas mulheres como um escudo. Dizia que ele tinha sido frio com Pedro para não entregar o jogo. Mas o peito... o peito não funciona por algoritmos. A imagem dele sorrindo para aquela mulher enquanto eu estava do outro lado do salão ainda queimava de um jeito bobo, infantil e doloroso.Levantei devagar, ainda de camisola e fui até a cozinha. Caio me seguiu em silêncio, encostando o focinho na minha perna, como se soubesse que a dona não estava nos seus melhores dias.Quando a campainha tocou às nove da manhã, eu não precisei olhar pelo olho mágico.Sabia que era ele.Abri a porta sem pressa, mantendo o braço apoiado no batente.Thomas estava ali. Não usava o t
GabrielaVi o semblante de Pedro escurecer.Foi rápido. O sorriso que ele vinha sustentando a noite inteira desabou, e no lugar ficou algo amargo, que ele nem tentou esconder. Antes que eu pudesse segurá-lo, disparou na direção de Thomas, abrindo caminho entre as pessoas com os ombros.Fui atrás, mas o salão estava cheio, e eu ainda não tinha desistido de ser discreta.Cheguei a tempo de ouvir:— O que você faz aqui? Pelo jeito, está mesmo disposto a não deixar que eu me aproxime dela. Está mais claro do que nunca quais são as suas verdadeiras intenções!Thomas respondeu com uma calma que só quem o conhecia saberia ser esforço.— Pedro, você está bem? Não me diga que só você pode gostar dessa banda. Imagina o que essas outras centenas de pessoas pensariam de você se soubessem disso.Ele fez um gesto discreto para as mulheres ao lado, que ainda esperavam a conversa recomeçar.— Estou aqui com meu amigo e, se não percebeu, estou muito bem acompanhado.Parei de andar.Eu sabia o que era a
Um Convite PerigosoGabrielaNo fim, decidi ir.Eu confiava na minha capacidade de me esquivar das investidas de Pedro e, principalmente, não queria que uma simples recusa servisse como confirmação para as suspeitas que ele já carregava.Se eu tratasse aquilo como apenas um show entre amigos, talvez ele finalmente percebesse que estava enxergando coisas onde não existiam.Pelo menos era o que eu tentava acreditar.No sábado, Pedro apareceu para me buscar.Aquilo me pegou de surpresa.Eu tinha imaginado que nos encontraríamos no local, não que ele apareceria na porta do meu condomínio. Entrei no carro tentando não demonstrar o quanto aquilo me incomodava.Durante o caminho, ele parecia confortável demais. Conversava como se aquela noite tivesse algum significado especial, enquanto eu fazia questão de manter a distância.Quando chegamos ao show, respirei aliviada.O lugar estava cheio, barulhento e iluminado. Era fácil desaparecer no meio da multidão.O problema era que Pedro parecia de
GabrielaO problema de Pedro não era exatamente o convite.Era o motivo pelo qual ele tinha feito o convite.Desde que saí da biblioteca, a frase dele não saía da minha cabeça. Ele não queria simplesmente me levar a um show. Queria descobrir alguma coisa. Testar até onde eu iria para esconder o que existia entre Thomas e mim.E, pela primeira vez, eu começava a entender que talvez ele estivesse mais perto da verdade do que eu gostaria.Passei boa parte da tarde tentando me concentrar no trabalho, mas o celular continuava sobre a mesa, com a mensagem de Pedro esperando uma resposta.Então, sábado?Eu ainda não tinha respondido.Quando Thomas chegou naquela noite, percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.— Aconteceu alguma coisa?Hesitei antes de entregar o celular para ele.Thomas leu a mensagem e ficou alguns segundos em silêncio.Não precisou perguntar quem era.— Pedro de novo!Assenti.Ele devolveu o celular sem dizer nada, mas a mudança em sua expressão foi suficiente







