LOGINPOV ThomasO ônibus estacionou no pátio do campus pouco depois das oito da noite, e ninguém se apressou em descer.Foi uma despedida sem palavras. Os alunos pegaram as mochilas e se dispersaram em duplas e trios, cabeças baixas, celulares já acesos nas mãos. Ninguém me olhou nos olhos. Eram apenas acenos de despedida, que me remetiam ao de um adeus velado.Gabriela esperou que o corredor se esvaziasse. Parou ao meu lado com sua bagagem debaixo do braço:— Você vem comigo? — perguntou, baixo.— Hoje não. Preciso te dar espaço e também preciso ficar sozinho por hoje, pensar em algumas coisas — respondi. — Mas eu ligo antes de dormir.Ela estudou o meu rosto por dois segundos, do jeito analítico que usava para ler tudo o que importava, e assentiu. Não insistiu. Foi uma das coisas que aprendi a amar nela: Gabriela sabia dar espaço e quando uma pergunta devia esperar. Levei ela pra sua casa e depois me dirigi ao meu apartamento com o rádio desligado.O elevador subiu em silêncio. Quando a
POV ThomasA caminhada de volta da clareira das tamareiras até o casarão provençal foi feita num silêncio carregado, mas de mãos dadas. As nossas palmas unidas eram o único ancoradouro no meio da tempestade social que estávamos prestes a cruzar.Chegamos à propriedade cerca de vinte minutos antes do restante da turma, que ainda iniciava a caminhada de retorno pela trilha da cachoeira.Ao cruzarmos o pórtico de entrada, o saguão do casarão estava deserto, exceto pela presença do professor Martins. O veterano de Geologia estava acomodado numa poltrona de couro perto da lareira apagada, usando um casaco de lã espesso, tomando um chá quente e parecendo visivelmente abatido por causa de uma indisposição estomacal que o impedira de acompanhar o passeio matinal.Quando o ruído dos nossos passos no assoalho ecoou, Martins ergueu os olhos por cima dos óculos de leitura, franzindo a testa ao ver que apenas Gabriela e eu tínhamos retornado antes do horário previsto.— Thomas? Gabriela? — pergunt
POV GabrielaA força física de Thomas era impressionante. Mas o desespero que vinha do peito dele, colado às minhas costas, era ainda maior.Nos primeiros cinquenta metros da trilha de volta, protestei. Dei tapinhas no ombro dele, mandei que me pusesse no chão e disse que ele tinha enlouquecido de vez.— Thomas, me solta! Eu sei andar! Minhas pernas não estão quebradas!— Eu sei — respondeu ele, sem diminuir o ritmo, os olhos fixos na mata à frente. — Só não quero te soltar agora. Se eu te puser no chão, você vai querer discutir no meio da trilha. Vamos até a clareira das tamareiras, e lá a gente conversa.Eu quis rebater, mas a voz me faltou. Quanto mais nos afastávamos do barulho da cachoeira, mais o silêncio da mata tomava conta de tudo. Só se ouvia o farfalhar das folhas, o estalo de um galho sob as botas dele e o som da própria respiração.Aos poucos, a raiva foi cedendo. Percebi o coração dele batendo como um tambor contra as minhas costas. Percebi também o suor frio na têmpora
POV ThomasA névoa úmida que subia da queda d'água da Cachoeira do Véu da Noiva deveria servir para arrefecer os ânimos, mas a verdade é que o meu autocontrole estava sendo reduzido a pó a cada segundo.Eu tentara manter a postura. Juro por tudo o que é mais sagrado que tentei. Acomodei-me em um monte de pedras planas perto da margem, ao lado de Cauê, Lucas e mais dois alunos, fingindo supervisionar o raio de natação do grupo com a minha costumeira prancheta impermeável nas mãos. Mas a minha atenção estava cem por cento travada nela.E a situação só piorava.— Mano... a Carol ficou bem demais de biquíni vermelho, na moral — comentou Lucas, ajeitando os óculos de sol e dando nota com a mão. — Dou um oito e meio fácil.— Oito e meio nada, a Angélica de biquíni preto tá um absurdo de linda! Nota nove! — rebateu Cauê, rindo e jogando uma pedra na água. — Mas ó... quem surpreendeu todo mundo de verdade foi a Gabi.Senti cada músculo das minhas costas enrijecer. Meu maxilar travou com tanta
POV GabrielaDez minutos depois, o grupo inteiro estava acomodado nos bancos traseiros das duas caminhonetes de tração quatro por quatro da reserva. O percurso até o Complexo das Cachoeiras levou cerca de trinta minutos por uma estrada de terra batida que se entranhava cada vez mais fundo na vegetação densa da Serra da Cantareira.Quando os veículos pararam no ponto final do acesso terrestre, o som de águas correndo com violência sobre rochas já podia ser ouvido a centenas de metros de distância.— Atenção, pessoal! — orientou o guarda-parque Gabriel, ajustando o apito no pescoço enquanto a turma desembarcava. — A partir daqui faremos uma caminhada de vinte minutos pela Trilha do Véu da Noiva. O solo é extremamente liso por causa do borrifo da água e do musgo nas pedras. Sapatilhas aquáticas são obrigatórias, nada de andar descalço!A turma iniciou a descida pela trilha úmida. O calor da manhã começava a se intensificar à medida que o sol subia no céu, fazendo a névoa evaporar e revel
Capítulo 79— O Tom Superior e as Cordas do PassadoPOV GabrielaA luz amarelada do sol de domingo invadiu as janelas de madeira do casarão provençal muito antes de qualquer alarme soar. Contudo, o que me despertou de fato não foi a claridade filtrada pelas cortinas de linho, mas o caos absoluto que se alastrava pelos três andares da propriedade.A hospedagem histórica, que na tarde anterior parecia um refúgio aristocrático e silencioso no meio da montanha, virara um autêntico albergue universitário em colapso.Eram mais de vinte alunos tentando se arrumar ao mesmo tempo. O assoalho de madeira rangia sob o peso de passos apressados, portas de banheiros eram esmurradas e discussões inflamadas por causa de protetor solar ou toalhas trocadas ecoavam pelas galerias.— Quem pegou o meu protetor fator cinquenta?! — gritava Lucas no fim do corredor. — Cauê, se você usou o meu produto na cara, eu juro que te jogo no rio!— A toalha que estava na varanda é de quem? Puta merda, tá encharcada de







