LOGINEu não sabia ao certo como me sentir com relação ao que eu havia acabado de ouvir, mas vi meus companheiros de quarto suspirarem em uníssono ao que o capitão deixou o dormitório.
Parecia que eles estavam acostumados com aquele tipo de coisa, já que ninguém se deu ao trabalho de falar algo para aquele homem. – E isso são modos de falar com uma dama? Carlo comentou com o irmão do, até então, capitão do nosso grupo que por sua vez me olhou com um pouco de pena. – Eu sinto muito por isso, tenente. Meu irmão não acredita muito em... como eu posso dizer? Percebendo que Damon estava escolhendo muito as palavras que diria a seguir, eu dei um sorriso polido disfarçando o que eu verdadeiramente estava sentindo. Eu não sei porque eu ainda não me acostumei com essas coisas. Era tão recorrente e mesmo assim eu não conseguia achar aquilo normal. – É porque eu sou mulher, não é? Mesmo sabendo da resposta eu questionei e vi o quarto cair mais uma vez em um silêncio absoluto. Tanto Carlo quanto Ravi olharam para Damon em busca de uma outra resposta que não fosse aquela, mas infelizmente eu estava certa. Ser subestimada já era do meu cotidiano, afinal eu era uma mulher nas forças armadas, era óbvio que isso iria acontecer. – Eu não penso assim, senhora. Ravi disse baixinho e eu quis sorrir, mas impedi a mim mesma de fazer isso. Precisava manter meu coração fechado ou não sobreviveria aqui ou em qualquer outro lugar. – Eu muitíssimo menos! Afastando a bagunça em sua cama para achar seu uniforme Carlo sorriu para mim e eu apenas acenei a cabeça em um agradecimento. – Eu também não, tenente. Reiterou Damon por fim, atraindo meus olhos para ele e eu naquele momento senti uma vontadezinha de chorar que eu logo abafei em meu peito. Eu estava sozinha em um país estranho, com gente estranha e precisaria confiar neles se quisesse me manter viva, então não havia outra escapatória se não suportar o desprezo do capitão e a pena dos meus colegas de trabalho. E eu odiava que sentissem pena de mim. Equipe Omni, Equipe Delta e Equipe Tetta, apresentem-se no campo de treinamento para a marcha matinal. Soou os alto-falantes e eu, respirei fundo acostumada à aquele tipo de rotina, apertei meus coturnos vesti uma blusa térmica por baixo da que eu estava usando e fiz um novo coque em meu cabelo, tudo isso de costas para os meus companheiros de quarto. Claro que a vergonha estava me corroendo por dentro, mas aquilo não era mais doloroso do que um tiro ou uma facada. E meus companheiros de quarto eram até que muito respeitosos em comparação com outros homens com quem eu já havia topado em meu antigo quartel. Ao menos a vergonha de estar me trocando na frente deles me fez esquecer momentaneamente o incidente com o capitão. – Quer uma dica? Coloque uma meia extra... Ravi sussurrou assim que me viu apertar os coturnos e eu olhei em volta vendo que Carlo e Damon faziam o mesmo, me fazendo agradecer em um sussurro e colocar outra meia por cima das que eu já estava usando. E bem, posso dizer que Ravi estava certo. Estava muito frio e o céu estava tão nublado que nem parecia ser de manhã, mas mesmo assim já estávamos em formação no campo de treinamento. Todos os os oficiais estavam de trajes de cor preta, me fazendo crer que todos eram de alguma forma também de equipes interligadas às forças especiais. O discurso que se seguiu apenas confirmou isso: – Bom dia, senhoras e senhores. Gostaria de dar as boas vindas aos nossos novos integrantes das forças especiais. O coronel gritava na frente daquele batalhão que unia as três equipes que permaneciam estáticos mesmo com a neve caindo sobre nossos ombros. Meu corpo tremia de frio, mas minhas mãos permaneciam paradas ao lado do meu corpo enquanto eu esperava em posição de sentido impaciente pelo momento em que começariamos a marchar e meu corpo esquentaria. Contudo, o coronel não parecia com a menor vontade de apressar seu discurso já que ele continuou: – Vocês são a excelência do exército, não temos soldados rasos e nem recrutas aqui, somente oficiais, então não espero nada além da perfeição vindo de vocês. O coronel falava lentamente como se ele não estivesse sentindo o frio do local e eu já podia escutar algumas pessoas ao meu lado murmurando e reclamando, atraindo minha atenção para quem eram os indivíduos que estavam ao meu lado. E movendo meus olhos lentamente para sanar minha curiosidade, percebi que ao meu lado esquerdo estava Carlo e ao direito, como uma piada do destino, o capitão da nossa equipe. Sim, o homem que me xingou. Aquele da cicatriz sinistra. E ele parecia muito mais assustador parado daquele jeito ao meu lado recebendo toda aquela neve sobre seus ombros sem nem mesmo se estremecer. – Capitão Zervas, conduza o batalhão. O coronel, depois de muito falar, atribuiu a responsabilidade ao homem que estava ao meu lado e ele prestou continência. – Sim, senhor! Ele gritou com aquela voz super grave e começou a dar ordens como um verdadeiro superior, mas o ritmo daquela marcha era insano. Não chegava a ser corrida, mas também não era uma marcha comum. – Vamos, seus vermes, não aguentam nem marchar?! Impulsionando os oficiais ao seu redor ele dizia em um sotaque puxado que eu não sabia identificar de onde era mas só deixava ele mais assustador. Meus pulmões queimavam pelo esforço e pelo ar gelado que entrava e saía com dificuldade, mas me mantive no ritmo até a última volta no quartel. Ao todo foram dez. Com toda certeza a maior marcha matinal que eu já havia feito em toda a minha vida, considerando que aquele quartel-general era imenso. – Woah, parece que o capitão está de mau humor mesmo! Ravi comentou baixinho enquanto caminhávamos para dentro da área comum para nos aquecer enquanto observávamos o capitão ainda do lado de fora punindo alguns oficiais com exercícios ainda mais puxados por eles terem desistido da marcha no meio do caminho. Mesmo estando acostumada com a crueldade do exército aquilo ainda sim parecia desumano aos meus olhos. – Ele é sempre assim? Não hesitei em perguntar a Ravi que me estendeu uma garrafa d'água que ele havia conseguido. – Cruel? Sim. Mas hoje ele parece especialmente inspirado. Com um um risinho bobo, Ravi bebeu sua água enquanto eu agradeci e também bebi a minha sentindo minha garganta agradecer pela água morna. Eu estava destruída e ainda estávamos na metade do dia. – Mas por quê ele é assim? A curiosidade estava me matando, tinha que haver um motivo para aquele homem se comportar daquela forma, certo? O indiano ao meu lado deu de ombros terminando de beber sua água. – Sinceramente, eu sei quase tanto quanto você. Eu conheci o Capitão Dimitri fazem menos de seis meses. Dimitri, então esse era o nome dele. Pensei olhando pela janela da área comum vendo o capitão se aproximar de onde estávamos. – Opa, acho que é hora de irmos! Ravi riu tomando a iniciativa de sair dalí e eu também não me demorei a fazer o mesmo. Não estava disposta a passar a mesma vergonha de hoje cedo.Marie POVEu estava cara a cara com a minha mãe, coisa que raramente acontecia depois que eu saí de casa para servir. Mas aqui estávamos, nos encarando como nos velhos tempos.Não pude me manter em silêncio ao ver que eles claramente estavam tentando coagir Dimitri a me deixar.– O que vocês estão fazendo aqui? Não tem outros problemas mais importantes para resolver?Perguntei já irritada apenas de pensar que eles tinham vindo apenas com o intuito de nos separar.Por que eles não podiam ser apenas pais normais que zelam pela filha?Por que eles sempre tinham que estar contra mim em tudo?– Não fale isso, você é nossa filha, Marie.Ah sim, a cartada do "você é nossa filha" como se isso fosse apagar automaticamente todas as merdas que eles fizeram ou falaram ao meu respeito.Quis rir e não me inibi mesmo vendo o rosto totalmente sério de minha mãe. – Aposto que você estaria bem mais feliz com su
Marie POV– Eu não quero cesárea!Gritava enquanto Dimitri empurrava a cadeira de rodas onde eu estava sentada e urrando de dor querendo matar ele por não usar aquela maldita camisinha quando deveria.– Mas Rosie, o plano cobre a cirurgia! Tem certeza que não quer?Ele tentava me convencer de que era a maneira mais indolor mas nada e nem ninguém me convenceria de que alguém abrindo minha barriga e mexendo nos meus órgãos seria indolor.– Dimitri Nikolai Zervas, eu juro que se cortarem a minha barriga eu corto a sua!Gritei chamando a atenção dos enfermeiros e médicos ao nosso redor que logo se deram conta de que eu estava em um furioso trabalho de parto.Minhas pernas não conseguiam ficar fechadas mais e eu estava tão inchada que parecia que eu ia explodir.– Melhor obedecer, hein chefia...Escutei a voz de Damon e eu respirei fundo algumas vezes vendo os enfermeiros vindo em nossa direção com uma maca.
Marie POV– Esse é um bom momento de dizer que quer cair fora. Eu não vou te julgar se você quiser...Olhando bem em seus olhos eu procurava qualquer que fosse o sinal de hesitação, mas mesmo assim o homem em minha frente parecia bem certo da decisão que havia tomado.Ter um bebê não era brincadeira, precisava de muito planejamento, dinheiro, saúde mental, saúde física e muitas outras coisas. E metade dessas coisas (ou até um pouco mais) nós não tínhamos.– Você tá brincando? Isso é a coisa mais incrível que me aconteceu em todos esses anos!Ele falava alto e sorria bobo fazendo meu coração esquentar, mas não pude evitar de tapar a boca dele alarmada.– Shiiu! Fala baixo ou vão nos escutar! Esqueceu que nosso relacionamento não é oficial?Murmurei e vi as sobrancelhas grossas dele se juntarem em uma coisa só em sua testa.– Não é oficial ainda. E mesmo assim, deixe que saibam! Abanou a mão como se foss
Dimitri POV – Damon, tudo certo aí?Assim que aquele idiota finalmente atendeu eu respirei fundo perguntando e olhando em volta percebendo que a maioria dos apoiadores daqueles homens terríveis já estavam aqui.Todos segurando bandeirinhas com o número que representava o senador e seu partido eleitoral ou bonés decorados com o mesmo tema.Era de embrulhar o estômago saber que tudo aquilo era apenas uma fachada que escondia milhares de mortes de pessoas inocentes.– Sim, não se preocupe, vá em frente.Ouvi Damon dizer e ao fundo uma corrente de ar passava com força, me dizendo que ele já devia estar chegando onde precisava chegar para pegar Ayaan.Mas na verdade eu não estava muito preocupado com a missão. Na verdade, quem eu queria enganar? Eu não estava nada preocupado com aquela merda.Queria apenas voltar para o QG e ver o rostinho de Marie. Saber como ela está. Meu coração doía por ter deixado ela para
Marie POV– O quê? Mas por que eu preciso ficar e Carlo não?! O caso dele não era mais grave que o meu?Eu andava em passos rápidos tentando alcançar os três homens altos que andavam na minha frente, apenas Carlo se virando para me olhar com pena.– Sim, era. Mas você perdeu tanto sangue quanto ele e acontece que está anêmica, então temos muito o que fazer.Damon explicou abrindo logo a porta do nosso alojamento que agora - por ordens do capitão - não tinha mais a minha cama separada, então eu estava dormindo onde antigamente Ravi dormia, assim deixando a impressão de que o local estava bem mais amplo do que antes.– E eu doido por uma folguinha...Carlo reclamou se jogando sobre sua beliche cuidadosamente após subir as escadas com dificuldade. Percebendo que nossa conversa certamente iria desaguar em mais reclamações, nosso capitão nos interrompeu.– Chega de falar sobre isso, o doutor falou que é o que tem que ser
Marie POV– Dimitri, para onde está me levando?Perguntei com o rosto enterrado em seu pescoço enquanto ele me carregava como uma criança.Seu coração batia um pouco acelerado em seu peito e seu calor me acolhia.– Meu quarto. Não quer conhecer?Sua voz estava calma, nem parecia que queria me esfolar uma hora atrás por causa da situação no alojamento.– Quantos quartos tem nessa casa?Minha pergunta genuína soou pelo corredor enquanto ele tirava seu molho de chaves do bolso para achar a que em específico destrancava a porta de seu quarto.– Se contar com aquele cativeiro minúsculo onde dormíamos, três. Hoje eu e Damon temos quartos separados.Ele disse acendendo as luzes e me colocando sentada sobre a grande e alta cama no centro do quarto.Aquele quarto definitivamente era para um cara do tamanho dele.Os móveis eram grandes, de um tom escuro de madeira e tudo estava impecavelmente limpo.







