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Capítulo 2

作者: Ciro Eris
A chuva gélida caía do lado de fora em um silêncio sepulcral, parecendo capaz de enterrar todas as mágoas e os segredos imundos daquele mundo.

Dentro do carro aquecido, o clima era tenso, quebrado apenas pelas orientações cuidadosas de Luiz.

— Sra. Liliana, desde que vocês se casaram, o controle financeiro da casa sempre esteve nas mãos do Duarte, não é? — Perguntou o advogado, mantendo os olhos fixos na estrada. — O meu conselho profissional é que a senhora comece a investigar o patrimônio dele o quanto antes.

A jovem franziu a testa, tombando a cabeça para o lado com uma expressão de dúvida. Percebendo a confusão, Luiz explicou com paciência:

— Me lembrei de repente daquele caso famoso do presidente de uma grande empresa de tecnologia que, antes do divórcio, reduziu o próprio salário para um real por ano só para não ter que dividir nada com a esposa. Claro que o Duarte não deve chegar a esse ponto, afinal, não creio que ele tenha começado a planejar um golpe contra a senhora logo no início do casamento.

Liliana concordou com um aceno lento, absorvendo a gravidade da situação.

— Vou dar um jeito de investigar isso. — Respondeu ela, com a voz firme, apesar do cansaço. — Sendo assim, o senhor pode me deixar em uma agência bancária antes de eu voltar para casa?

Poucas horas depois, ela finalmente cruzou a porta de entrada de sua residência.

Logo no saguão, uma cena fez seu estômago revirar. Rebeca estava sentada no sofá, segurando um cachorro de rua nos braços com uma expressão de puro encanto, enquanto Duarte usava uma toalha para secar os pelos sujos e embaraçados do animal.

O detalhe que fez o sangue de Liliana ferver, no entanto, foi o tecido que envolvia o filhote. Era um cachecol marrom-escuro. Era o presente de Natal que ela havia tricotado à mão no ano anterior, dedicando um mês inteiro de trabalho árduo para aquecer o pescoço do marido.

Os dois conversavam e riam em uma intimidade que beirava o absurdo. A bolha de alegria só estourou quando Rebeca ergueu os olhos e notou a presença da dona da casa.

Com um sobressalto, Rebeca puxou a barra da camisa de Duarte e encolheu metade do corpo atrás das costas dele, como um animal assustado.

— A Liliana chegou... — Murmurou ela.

Duarte largou a toalha de imediato e ergueu as mãos para sinalizar com um sorriso acolhedor:

— Você voltou!

Liliana caminhou a passos lentos até o centro da sala. Seus olhos frios recaíram sobre o cachorro encolhido no colo da rival, e um sorriso carregado de sarcasmo curvou seus lábios.

— Esse bicho sabe muito bem onde se encostar para conseguir o que quer. — Disparou ela, com um duplo sentido que pairou pesado no ar.

O rosto de Rebeca assumiu um tom avermelhado. Ela mordeu o lábio inferior e lançou um olhar de pura vitimização para Duarte. Em resposta, ele moveu os dedos com rapidez para justificar a situação:

— Nós o encontramos abandonado na rua. Com esse frio terrível que está fazendo, ele com certeza morreria congelado se ninguém fizesse nada. Liliana, você sempre gostou tanto de animais.

Liliana soltou um suspiro curto e desdenhoso.

— As pessoas mudam com o tempo. — Retrucou ela, sem desviar o olhar do marido. — Venha até aqui. Preciso ter uma conversa séria com você.

Sem esperar por uma resposta, ela deu as costas e caminhou a passos firmes em direção à sala de estar. Atrás dela, Rebeca fez um bico infantil e começou a choramingar, agarrando-se ao braço do homem.

— A Liliana ainda não me perdoou, Duarte. Ela continua me culpando por tudo. Acho melhor eu pegar o cachorrinho e ir para um hotel. Não quero ser o motivo das brigas de vocês, e muito menos ver você em uma situação difícil por minha causa.

Com um gesto repleto de carinho, ele afagou os cabelos da irmã de criação.

— Deixe que eu resolvo isso. — Sussurrou ele, antes de seguir os passos da esposa.

Assim que ele entrou na sala, Liliana ergueu os olhos, deixando transparecer toda a exaustão acumulada em sua alma.

— Você não sabe que eu detesto a Rebeca? — Perguntou ela, com a voz embargada. — Ou será que você também esqueceu o motivo pelo qual o Ângelo está jogado em uma cama de hospital, sem conseguir abrir os olhos?

Uma sombra de irritação cruzou o rosto de Duarte. Ele massageou as têmporas com força, tentando controlar a impaciência, antes de responder na linguagem de sinais:

— Liliana, a polícia já investigou tudo na época e concluiu que a Rebeca não teve envolvimento direto no que aconteceu com o Ângelo. Esqueça o fato de eles serem namorados, qualquer pessoa normal tentaria proteger um amigo de uma agressão. Foi o seu irmão quem mandou a Rebeca se esconder no armazém. O problema é que, quando ele tentou correr para lá, a porta emperrou por causa da ferrugem e os bandidos o espancaram até deixar ele em coma. A Rebeca também é uma vítima nessa história. Você costumava tratar ela como uma irmã mais nova, lembra? Você mesma me pedia para cuidar bem dela. Agora ela sofreu assédio daquele vizinho, está sem teto e não conhece mais ninguém na capital além de nós. Por favor, não deixe que um ódio sem fundamento cegue o seu coração.

As pontas dos dedos de Liliana estavam congeladas. Ela tentou forçar uma risada, mas o que surgiu em seu rosto foi uma expressão de dor profunda e dilacerante.

— Precisa mesmo ser assim? — Sussurrou ela, sentindo a garganta apertar.

Duarte se aproximou, ajoelhou-se diante dela e continuou a gesticular com uma convicção inabalável:

— A Rebeca já pagou pelos pecados dela. Lembra que, para pedir pela recuperação do Ângelo, ela passou três dias e três noites ajoelhada no chão de pedra do santuário de Aparecida, rezando sem parar? Ela quase perdeu os movimentos das pernas por causa do frio intenso.

"Que maravilha. Que sacrifício comovente.", pensou Liliana, sentindo o estômago revirar. "O meu irmão perdeu a vida inteira e está preso em um corpo inerte, enquanto a pobre Rebeca quase ficou com as pernas dormentes."

Toda a força pareceu escorrer do corpo da jovem. Ela encostou a cabeça no sofá, derrotada.

— Faça o que você quiser. Não me importo mais.

"Afinal, ele já me traiu 666 vezes. Que diferença faz aguentar mais um mês de mentiras?", refletiu ela. Ainda assim, uma pontada aguda de dor rasgou seu peito. Arrancar uma parte podre da própria vida sempre exigia um preço alto, e ela estava pagando com o próprio sangue.

Duarte segurou as mãos frias da esposa e depositou um beijo suave em seus nós dos dedos.

— Eu sempre soube que você tinha o coração mais bondoso do mundo.

Tomada pela repulsa, ela puxou as mãos de volta e se levantou, caminhando em direção às escadas. Duarte acompanhou a figura frágil com o olhar, notando como o suéter de tricô parecia largo demais nos ombros estreitos dela.

"Como ela emagreceu tanto?", ele se questionou, franzindo a testa em um misto de preocupação e confusão.

Movido pelo impulso, ele esticou o braço e segurou o pulso da esposa. Quando ela se virou, ele abriu um sorriso brando e sinalizou:

— Não se esqueça do nosso compromisso de hoje à noite, Liliana.

Antes que ela pudesse responder, a voz aguda e melodiosa de Rebeca ecoou pelo ambiente.

— Duarte, que compromisso é esse? Você não me prometeu que ia me acompanhar ao veterinário para fazer os exames do cachorrinho?

Liliana não queria ouvir mais nenhuma palavra daquele teatro. Sem demonstrar qualquer emoção, ela apenas concordou com a cabeça para o marido, desvencilhou-se do aperto dele e subiu os degraus em silêncio.

Duarte observou a esposa desaparecer no corredor do andar de cima antes de voltar sua atenção para Rebeca.

— Amanhã vai acontecer um leilão muito importante na cidade. — Explicou ele, usando a própria voz. — A organizadora principal é a Nádia, prima do meu tio Sandro. Ela reservou um espaço em uma casa noturna hoje à noite para comemorar e pediu que os amigos fossem dar um apoio.

Os olhos de Rebeca brilharam de interesse.

— Eu também quero ir!

Duarte franziu a testa, deixando claro o seu descontentamento.

— Não é um ambiente adequado para você.

Contrariada, ela bateu o pé no chão e soltou um grunhido manhoso.

— Tudo bem, então! Eu vou para a balada sozinha encher a cara!

Dizendo isso, ela agarrou o cachorro e saiu correndo pela porta da frente. Duarte não fez o menor esforço para impedi-la. Ele se sentou no sofá espaçoso e começou a repassar o comportamento da esposa durante aquele dia. Havia algo de muito errado com Liliana.

"Será que ela descobriu sobre mim e a Rebeca?", pensou ele, mas logo descartou a ideia.

Se Liliana soubesse da verdade, já teria feito um escândalo e virado a casa de cabeça para baixo.

Esfregando o rosto com as mãos, ele atribuiu a frieza da mulher ao fato de não tê-la acompanhado ao cemitério naquela manhã.

"Vou arrematar as joias mais caras do leilão amanhã para compensar essa falha.", decidiu ele, sentindo-se aliviado com a própria solução.

...

O sol já havia se posto quando Liliana desceu as escadas. Ao notar que o marido estava sozinho na sala, ela sentiu um alívio imenso, como se o ar estivesse mais puro.

— Já podemos ir? — Perguntou ela.

Duarte assentiu com entusiasmo. Ele se aproximou, ajudou-a a descer os últimos degraus com um cuidado exagerado e pegou o casaco branco dela, ajudando-a a vesti-lo.

— A temperatura caiu bastante lá fora. Fique bem agasalhada para não pegar um resfriado. — Gesticulou ele, com um sorriso afetuoso.

Liliana permitiu que ele segurasse sua mão e a guiasse até o carro, mantendo a postura de esposa dócil até chegarem à casa noturna.

Após cumprimentar Nádia Pereira com um sorriso educado, Liliana se recolheu ao seu canto habitual no sofá de couro. Enquanto o grupo cantava e dava risadas escandalosas, ela bebia seu suco de frutas em pequenos goles, observando tudo com um distanciamento quase fantasmagórico.

Quando a noite já estava avançada, Nádia se lembrou da ordem expressa que havia recebido de sua avó. Com movimentos discretos, ela tirou um pequeno comprimido do bolso, deixou-o dissolver em uma taça de espumante e caminhou até a esposa de Duarte.

Nádia entregou a bebida e começou a sinalizar de forma desajeitada, tropeçando nos gestos:

— Liliana, você precisa me apoiar no leilão de amanhã, viu? Quero fazer um brinde com você. Pode beber sem medo, esse espumante é super fraco.

A jovem retribuiu com um sorriso genuíno e aceitou a taça. Nádia era uma das poucas pessoas da família Pereira que a tratava com respeito verdadeiro, e Liliana valorizava muito aquele carinho. As duas brindaram, e ela virou o líquido de uma só vez.

Pelo canto do olho, Nádia soltou um suspiro longo e aliviado. O plano da avó estava em andamento. Se aquele remédio ajudasse a matriarca a finalmente segurar um bisneto nos braços, Nádia seria coroada como a heroína da família.

Enquanto isso, Luciano Oliveira, um dos amigos mais próximos de Duarte, retornou de uma ida ao banheiro e se jogou no assento ao lado de Duarte. Inclinando-se para perto, ele sussurrou em tom de fofoca:

— Que confusão é essa, cara? Você traz a sua mulher para a festa, mas deixa a sua irmãzinha de criação dando sopa por aí? Acabei de passar pelo saguão principal e tem um maluco fazendo a maior declaração de amor para a Rebeca no meio de todo mundo.

Ao terminar a frase, Luciano lançou um olhar furtivo na direção de Liliana, certificando-se de que ela não estava prestando atenção. O rosto de Duarte se transformou em uma máscara de pedra. Ele não disse uma única palavra, mas a força com que apertou o copo de uísque fez os nós de seus dedos ficarem completamente brancos.

— Olha, a Liliana não consegue ouvir nada mesmo. — Continuou Luciano, incentivando o amigo. — Inventa uma desculpa qualquer para ela e vai lá fora dar um jeito na situação da Rebeca.

Duarte pousou o copo na mesa de vidro com um baque surdo e se virou para a esposa, sinalizando com urgência:

— Liliana, preciso sair para fazer uma ligação importante da empresa. Volto em um minuto. Fique aqui e me espere, está bem?

Ela concordou com um leve aceno de cabeça, acompanhando com o olhar a pressa desesperada com que o marido atravessou a porta do camarote.

Assim que ele saiu, Luciano foi arrastado para uma mesa de pôquer, e o restante do grupo continuou a ignorar a presença da jovem surda, como sempre faziam. Ninguém percebeu quando Liliana se levantou e deslizou para fora do ambiente.

O som estridente das caixas de som do corredor vibrou contra os tímpanos recém-curados de Liliana. Ela cobriu os ouvidos com as mãos e caminhou a passos lentos até o saguão principal, parando atrás de uma multidão de curiosos que se aglomerava para assistir ao espetáculo.

Por entre os ombros das pessoas, ela viu o exato momento em que Duarte desferiu um chute violento, destruindo o arranjo romântico que o pretendente havia montado no chão.

O homem que estava se declarando ficou vermelho de raiva e partiu para cima.

— Quem você pensa que é, seu desgraçado? Qual é o seu problema?

Duarte ignorou o rapaz. Com um olhar sombrio e uma postura ameaçadora, ele cravou os olhos em Rebeca e ordenou:

— Diga a ele quem eu sou.

Rebeca ergueu o queixo, fazendo charme, e deu um passo na direção do pretendente.

— Eu nem conheço esse senh...

Antes que ela pudesse terminar a frase, Duarte agarrou o braço dela com brutalidade e a puxou contra o próprio peito. Segurando o rosto da mulher com as duas mãos, ele tomou os lábios dela em um beijo feroz, carregado de punição e desejo incontrolável. A cena arrancou gritos e assobios histéricos da multidão ao redor.

Escondida nas sombras, Liliana ergueu o celular e gravou cada segundo daquela humilhação.

"Se a mulher com quem ele me trai não fosse a Rebeca, talvez eu não sentisse tanto ódio.", pensou ela, sentindo o sangue pulsar nas têmporas. "Já que as coisas chegaram a esse ponto, ele não pode me culpar por deixá-lo sem absolutamente nada."

Ela faria questão de empurrá-lo do penhasco no exato momento em que ele achasse que havia tocado o céu. Quando a empresa abrisse o capital e o valor de mercado multiplicasse, ela puxaria o tapete.

"Qual será a expressão no rosto do Duarte quando ele perder tudo?", ela se perguntou.

Com a ponta do dedo, Liliana enxugou uma única lágrima solitária que havia escapado pelo canto do olho. Um sorriso frio e calculista se desenhou em seus lábios. Pela primeira vez em muito tempo, ela estava ansiosa pelo dia de amanhã.

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