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Traída pelo Ex, Mimada pelo Bilionário
Traída pelo Ex, Mimada pelo Bilionário
Auteur: Ciro Eris

Capítulo 1

Auteur: Ciro Eris
— Já faz dois anos que você se casou, e nós transamos 666 vezes. Duarte, será que a Liliana faz alguma ideia disso?

A voz carregada de uma doçura enjoativa vazou pela fresta da porta, paralisando Liliana Soares no corredor e fazendo o sangue gelar em suas veias.

Ela havia ido ao escritório do marido radiante, ansiosa para lhe dar a notícia de que sua audição havia voltado, mas o destino a presenteou com a descoberta de uma traição. A amante não era uma mulher qualquer, mas sim Rebeca Souza, a irmã de criação de Duarte e a principal responsável por deixar o irmão mais novo de Liliana em coma.

"Então é isso que significa voltar a ouvir? Uma dor insuportável.", pensou ela, baixando o olhar enquanto os sons abafados e contínuos continuavam a ecoar de dentro da sala.

Com a respiração trêmula e ofegante, Rebeca provocou:

— Duarte, vocês já estão casados há tanto tempo, mas você continua vindo me procurar todas as noites. Por que não tenta se contentar um pouco com ela?

A resposta veio na voz que Liliana não ouvia com clareza há anos, agora desprovida da inocência da juventude e carregada de um tom grave e profundo:

— Ela é suja.

Uma risada cheia de malícia e deboche escapou dos lábios de Rebeca.

— Ah, é verdade. Como ela já foi casada com aquele velho rico, deve estar toda estragada a essa altura.

Do lado de fora, Liliana cerrou os punhos com tanta força que o metal frio da aliança pareceu queimar sua pele, espalhando um calafrio por todo o seu corpo.

"Suja? Ele acha que eu sou suja?", ela se questionou, deixando um sorriso amargo e sem som curvar seus lábios.

Ela havia vendido a própria dignidade, e os cinco milhões que conseguiu com aquele sacrifício foram o capital inicial que ergueu o império do marido.

Sem forças, sua mão escorregou da maçaneta. Com os dedos trêmulos, ela tirou o celular da bolsa, ativou a câmera e deslizou o aparelho com cuidado pela fresta da porta para registrar a prova irrefutável daquela traição. Assim que conseguiu o vídeo, deu dois passos para trás, cambaleando, antes de virar as costas e caminhar para longe com uma determinação implacável.

Já no banco de trás do táxi, a caminho de casa, o celular vibrou. Ela encarou a tela por um instante, puxou o ar fundo para engolir o choro que arranhava sua garganta e atendeu:

— Oi, mãe.

Sem qualquer traço de afeto, Lavínia Pires foi direto ao ponto:

— Você está com o aparelho auditivo ligado? O Duarte está aí com você? Pergunta para ele quando vai cair a segunda parcela do investimento que ele prometeu ao Pedro, porque a empresa inteira do seu padrasto está dependendo desse dinheiro para não falir.

Diante do silêncio pesado da filha, Lavínia continuou com as cobranças:

— Você não foi visitar o Ângelo no hospital esses dias, não é? O aluguel daquelas máquinas que mantêm o seu irmão vivo está vencendo de novo. Trate de lembrar o Duarte de pagar isso logo, pois se aqueles aparelhos pararem por um minuto que seja, ele morre.

Liliana fechou os olhos, sentindo o peso do mundo esmagar seus ombros. Ângelo estava em coma há dois anos, e a única razão pela qual seu coração ainda batia era a fortuna que Duarte Pereira desembolsava para alugar equipamentos de suporte à vida de um laboratório estrangeiro, uma tecnologia patenteada que custava milhões por ano.

Irritada com a falta de resposta, Lavínia aumentou o tom de voz:

— Ah, e tem mais uma coisa. Outro dia eu estava no shopping com umas amigas, e uma delas me contou que viu o seu marido passeando com uma vagabunda por aí.

Liliana fungou, tentando manter a voz firme:

— Mãe, se o Duarte de fato estiver me traindo, eu vou pedir o divór...

Ela nem conseguiu terminar a frase, pois a mãe explodiu em uma enxurrada de ofensas:

— Você perdeu o juízo de vez, garota? Você é surda, uma deficiente! Ter conseguido casar com um homem feito ele foi a maior sorte que você poderia ter em mil vidas! Tem um monte de mulheres que matariam para estar no seu lugar, e você quer jogar tudo para o alto? Preste muita atenção, não me importa se ele está pulando a cerca. Mesmo se essa mulher aparecer na sua porta com a barriga enorme, você vai baixar a cabeça e cuidar da criança! O que importa é você segurar o título de senhora Pereira, porque é isso que garante o nosso luxo. Se você largar esse casamento, o Ângelo, você, eu e o Pedro vamos todos morrer de fome na sarjeta!

Os gritos histéricos vazaram pelo alto-falante, ecoando pelo interior do veículo e fazendo o motorista lançar um olhar carregado de pena pelo espelho retrovisor. Após uma longa pausa para absorver o golpe, um sorriso sombrio e sem vida curvou os lábios da jovem.

— Então que morram todos. — Respondeu ela, com uma frieza cortante, encerrando a chamada logo em seguida.

Com as costas da mão, ela enxugou os rastros gelados das lágrimas e discou outro número.

— O acordo pré-nupcial que eu assinei antes do casamento ainda está guardado com você, não está? Quero que você redija os papéis do divórcio e me entregue tudo amanhã sem falta.

Assim que o advogado confirmou o pedido, ela soltou uma risada amarga. Duarte decerto já havia esquecido daquele detalhe. Antes de subirem ao altar, na tentativa desesperada de provar sua lealdade, ele fez questão de registrar um contrato rigoroso, cuja cláusula determinava que, em caso de infidelidade, todos os bens em seu nome seriam transferidos para a esposa, deixando-o sem um único centavo.

...

A casa estava mergulhada na escuridão quando Duarte finalmente passou pela porta, por volta das duas da manhã. Ao notar a silhueta da esposa sentada na sala sob a luz fraca do abajur, ele se aproximou, surpreso, e moveu as mãos longas e elegantes em gestos ágeis na linguagem de sinais:

— Por que você ainda está acordada? Eu não avisei que precisaria fazer hora extra no trabalho hoje?

Observando aqueles movimentos, a mente de Liliana viajou para o passado, lembrando-se do ano em que seu pai sacrificou a própria vida para salvá-lo, um trauma tão devastador que a fez perder a audição.

Naquela época, Duarte passou noites em claro aprendendo a linguagem de sinais sozinho, com uma dedicação feroz, e em apenas um mês dominou os gestos para ensinar a ela e ao seu irmão. O Duarte daquele tempo jurou, com lágrimas nos olhos, que cuidaria dela para o resto da vida.

Ela ergueu o rosto, e seu olhar recaiu de imediato sobre uma marca avermelhada na base do pescoço dele, mal escondida sob o colarinho da camisa.

— Você está cansado? — Perguntou ela, mantendo a voz neutra.

Duarte piscou, pego de surpresa, mas logo abriu um sorriso afetuoso. Ele segurou as mãos da esposa, depositou um beijo suave em seus dedos e, como num passe de mágica, tirou do bolso uma pulseira deslumbrante cujos diamantes brilhavam com intensidade na penumbra. Aquele era o sexcentésimo sexagésimo sexto presente que ele lhe dava ao longo dos dois anos de casamento.

Com todo o cuidado do mundo, ele mesmo prendeu a joia no pulso dela e gesticulou:

— Ficou perfeita em você. Está linda.

O olhar dele transbordava uma ternura que parecia genuína, fazendo os olhos de Liliana marejarem. Durante muito tempo, ela acreditou que aqueles presentes eram a prova de um amor que se renovava, mas a verdade nua e crua a atingia em cheio, pois eram apenas tentativas de aliviar a culpa por centenas de traições consecutivas.

Esquivando-se do toque, ela puxou a mão de volta e deixou um sorriso vazio tomar conta de seu rosto.

— Você se lembra do que vai acontecer daqui a três dias?

Com uma paciência infinita, ele voltou a sinalizar:

— É o dia em que a empresa vai abrir o capital na bolsa e o nosso valor de mercado vai dobrar. E, mais importante, é o nosso aniversário de casamento. Eu preparei uma surpresa incrível para você.

— Eu também preparei um grande presente para você. — Ela concordou com um leve aceno de cabeça.

"Um presente que vai te dar a liberdade.", pensou ela, "Para que você nunca mais precise se esconder para ir para a cama com a Rebeca."

Sem perceber a ironia, Duarte deu dois tapinhas afetuosos nas costas da mão dela e gesticulou:

— Vá dormir um pouco. Amanhã faz anos que o seu pai faleceu, e nós vamos juntos ao cemitério prestar nossas homenagens.

...

No dia seguinte, uma tempestade torrencial castigava a cidade, alagando as ruas a caminho do cemitério. O silêncio dentro do carro foi quebrado pelo toque estridente do celular de Duarte. Como Liliana nunca usava o aparelho auditivo quando estava a sós com ele, o marido não sentiu a menor necessidade de esconder a conversa e atendeu a ligação pelo sistema de som do veículo.

— O que aconteceu? — Perguntou ele.

A voz de Rebeca soou instável, beirando o pânico absoluto:

— Duarte, aquele vizinho bêbado está esmurrando a minha porta de novo! Eu estou apavorada, por favor, você pode vir até aqui?

Visivelmente incomodado, ele franziu a testa.

— Eu vou mandar o Carlos ir até aí resolver isso.

Do outro lado da linha, a decepção na voz da amante foi sutil, mas perceptível, antes de ela concordar com um tom submisso e manhoso:

— Está bem, Duarte.

Assim que a chamada foi encerrada, Liliana apertou a barra do próprio casaco, pensando com uma dose de ironia amarga:

"Pelo menos ele ainda tem um pingo de gratidão pelo sacrifício do meu pai."

Ela soltou um suspiro de alívio, achando que o assunto estava encerrado, mas o carro não rodou nem por mais dois minutos antes que o celular voltasse a tocar.

Duarte atendeu com a expressão tensa, ouvindo a voz chorosa e frágil de Rebeca mais uma vez:

— Duarte, eu estou com muito medo. Ele está tentando arrombar a fechadura...

No mesmo instante, Duarte pisou fundo no freio. Pega de surpresa, Liliana foi arremessada para a frente com violência antes que o cinto de segurança a puxasse de volta contra o banco. O solavanco brusco a deixou tonta e desorientada. Ela franziu a testa e virou o rosto para encarar o marido, com um olhar assustadoramente calmo e vazio.

Tentando suavizar a expressão, ele gesticulou com pressa:

— Liliana, me perdoe. Surgiu uma emergência gravíssima na empresa e eu não vou conseguir ir ao cemitério com você agora. Vou tentar resolver tudo o mais rápido possível para te encontrar lá.

Ela sentiu como se o próprio coração estivesse sendo carbonizado no peito, mas forçou um sorriso compreensivo, interpretando o papel da esposa perfeita.

— Não tem problema. Pode ir resolver as suas coisas.

O rosto de Duarte se contorceu em uma máscara de culpa. Movido pelo instinto de confortá-la, ele ergueu a mão para acariciar os cabelos da esposa, mas ela virou o rosto e se esquivou do toque. A mão dele pairou no ar, inútil. Ao sentir a palma vazia, uma sensação estranha de perda pinicou seu peito, mas ele não teve tempo para refletir sobre aquilo. Destravou as portas, e assim que Liliana desceu do veículo debaixo da chuva forte, ele acelerou o carro, desaparecendo na neblina como se estivesse fugindo.

— Ei... — Murmurou ela para o nada, com a mão esticada em um gesto instintivo.

Seu casaco pesado havia ficado no banco de trás, e as rajadas de vento frio, misturadas com a chuva cortante, atingiram seu corpo desprotegido, fazendo-a tremer dos pés à cabeça.

Após conseguir outro táxi até o cemitério, ela caminhou sob a garoa fina, limpou as folhas molhadas e o mato ao redor da lápide, acendeu as velas e organizou as flores. Exausta, ela se sentou na beirada do túmulo e passou um longo tempo conversando em voz baixa com o pai, desabafando as dores que sufocavam sua alma, até que a sombra de um guarda-chuva cobriu seu corpo. Liliana virou a cabeça e encontrou a figura de um homem engravatado.

— Doutor Luiz. O senhor trouxe os documentos que eu pedi? — Perguntou ela, com a voz rouca pelo frio.

O advogado assentiu com a cabeça, lançando um olhar preocupado para as roupas ensopadas e os cabelos grudados no rosto da jovem, antes de abrir a maleta de couro às pressas para lhe entregar uma pasta impermeável. Ela segurou os papéis com as duas mãos, sentindo as pontas dos dedos pálidas e congeladas.

— Muito obrigada.

Luiz pegou o celular, preparando-se para digitar a mensagem na tela como sempre faziam, mas ela ergueu o queixo e o interrompeu:

— Pode falar. Eu consigo ouvir o senhor.

O advogado arregalou os olhos, em choque.

— A senhora recuperou a audição?

Liliana confirmou com um aceno silencioso. Após um momento de hesitação, ele guardou o aparelho e falou com um tom reverente:

— O Sr. Túlio, seu ex-marido, foi o homem que me deu a minha primeira grande oportunidade na vida. Como a senhora está cuidando do filho dele, sinto que é o meu dever absoluto ajudar você. Se precisar de um representante legal para levar isso adiante, saiba que estou à sua inteira disposição.

Ela ergueu o rosto mais uma vez, exibindo a pele clara e os traços delicados que lembravam uma boneca de porcelana, agora marcados por uma tristeza profunda e incurável.

— Eu agradeço de coração.

Percebendo o olhar perdido e desolado da jovem, Luiz suspirou e murmurou com empatia:

— Quando transformamos uma pessoa na nossa religião, é natural nos sentirmos perdidos no momento em que esse altar desmorona.

"Religião. É isso mesmo.", refletiu Liliana. Durante todos aqueles anos, Duarte havia sido sua fé, sua bússola, sua própria vida.

Anos atrás, bem naquele mesmo pedaço de chão onde ela estava sentada, o rapaz, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, havia traçado uma promessa na terra úmida, letra por letra: "Liliana, eu vou passar o resto da minha vida pagando a dívida que tenho com o seu pai. A minha vida agora pertence a você!"

Ela nunca quis cobrar a vida do marido, mas, em troca de sua bondade, ele havia sugado cada gota de sua alma, deixando-a morta por dentro.

O celular vibrou no bolso molhado. Ela o puxou e encarou a tela iluminada, lendo a mensagem de Duarte: [Liliana, aconteceu um imprevisto grave no apartamento da Rebeca. Eu trouxe ela para a nossa casa e ela vai passar uns dias com a gente.]

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