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Capítulo 5

作者: Ciro Eris
Era o mesmo homem que a havia salvado no clube na noite anterior. Para sua total surpresa, ele pertencia à inatingível família Castro.

Sem pensar duas vezes, Liliana deu alguns passos apressados na direção dele, mas os guarda-costas agiram rápido, bloqueando sua passagem como uma muralha impenetrável.

— Senhor, por favor, espere um momento! — Chamou ela, com a voz carregada de urgência.

Ao ouvir o chamado, o homem virou o rosto devagar e ergueu o olhar. Suas pupilas escuras e profundas exalavam uma frieza cortante e desconhecida, enquanto o canto dos olhos carregava uma indiferença afiada que pousou sobre Liliana em silêncio. Com um movimento sutil de mão, ele ordenou que os seguranças recuassem, libertando a jovem do bloqueio.

Os olhos castanhos de Liliana transbordaram gratidão enquanto ela diminuía a distância entre eles. Assim que a sombra imponente dele a cobriu, ela percebeu, com um sobressalto, que o desconhecido era ainda mais alto do que Duarte. Prendendo a respiração por um instante, ela reuniu coragem para falar.

— Senhor, eu queria agradecer por ter me levado ao hospital ontem à noite. — Disse ela, com sinceridade.

O homem apenas a avaliou com um olhar apático.

— Não há de quê. — Respondeu ele, de forma seca e direta.

Liliana cerrou os punhos, sabendo que aquela era sua última e única chance. Apertando os lábios para conter o nervosismo, ela preparou o espírito e fez a pergunta que tanto a afligia.

— Senhor, o colar de jade que o senhor arrematou com o lance ilimitado... haveria alguma possibilidade de vendê-lo para mim?

Assim que as palavras saíram de sua boca, as pontas de seus dedos ficaram brancas de tanto que ela apertava as mãos. O medo de ter sido impertinente se misturava ao pavor de ouvir uma recusa imediata.

De repente, sem dizer uma única palavra, o homem revelou uma pequena e delicada caixa de veludo em sua mão. Seus dedos longos roçaram os relevos da tampa antes de depositá-la com suavidade na palma aberta de Liliana.

A jovem congelou no lugar, incapaz de processar o que estava acontecendo. O objeto que ela tanto desejava estava ali, ao seu alcance, mas o peso daquela atitude a impedia de aceitá-lo sem questionar.

Yuri lançou um olhar de soslaio para o assistente ao seu lado. Compreendendo a ordem muda, Thomas se adiantou e entregou um pequeno cartão.

— Senhora Pereira, este é o contato do meu chefe. — Informou o funcionário.

Liliana pegou o papel e abaixou os olhos para examiná-lo. O cartão era feito de um papel especial texturizado em tom de carvão, pesado e elegante. Os detalhes impressos em dourado brilhavam sob a luz do corredor, refletindo um brilho fragmentado que o fazia parecer uma verdadeira obra de arte. Bem no centro da parte superior, o nome do homem estava gravado com clareza: Yuri Castro.

— Senhor Yuri, vou entrar em contato o mais rápido possível para transferir o valor da joia! — Garantiu ela, apressada.

O olhar de Yuri desceu, fixando-se nos cílios longos da jovem, que tremiam de leve como as asas de uma borboleta assustada.

— Liliana. — Chamou ele, com a voz grave e aveludada.

Ela paralisou, pega de surpresa.

"Como ele sabe o meu nome?", pensou ela, confusa. Logo em seguida, as palavras roucas e imponentes de Yuri atingiram seus ouvidos como um trovão.

— Túlio é meu irmão. Quero que você traga o Lucas amanhã de manhã ao endereço que está no verso desse cartão. Precisamos conversar sobre a transferência da guarda do menino.

O choque percorreu a espinha de Liliana. Yuri era irmão de Túlio Xavier! Ele havia aparecido para arrancar Lucas de seus braços! Em um reflexo defensivo, ela estendeu a mão para devolver a caixa de veludo.

— Eu jamais trocaria o Lucas por um colar. — Declarou ela, com a voz embargada, mas firme.

Antes mesmo que Yuri pudesse responder, a porta do camarote número três se abriu com um rangido. Duarte e Rebeca saíram e caminharam a passos largos na direção deles. Ao notar a presença da esposa legítima, a amante arregalou os olhos, fingindo espanto.

— Liliana? O que você está fazendo aqui em cima? — Perguntou Rebeca, com o tom carregado de falsa inocência.

Duarte também não esperava encontrar a esposa ali. Com o cenho franzido, ele alternou o olhar entre Liliana e o homem imponente à sua frente. Ao notar que ela usava o aparelho auditivo, ele decidiu intervir.

— Liliana, o que você veio tratar com o senhor Yuri? — Indagou o marido, desconfiado.

A jovem travou o maxilar, sentindo um gosto amargo na boca.

"É inacreditável que o Duarte esteja disposto a se humilhar desse jeito por causa da Rebeca.", pensou ela.

Ele sempre odiou pedir favores a quem quer que fosse. Anos atrás, foi por causa daquele orgulho ferido que Liliana sacrificou a própria vida, usando o casamento como moeda de troca para garantir que ele pudesse assumir seu lugar na família Pereira de cabeça erguida.

Encarando o marido com frieza, ela deu de ombros.

— O meu motivo é o mesmo que o seu. — Rebateu ela, sem recuar um milímetro.

O rosto de Duarte escureceu de raiva. Ele deu um passo à frente e tentou agarrar o braço da esposa, mas Liliana se esquivou com agilidade, deixando-o agarrar apenas o ar. Constrangido e percebendo o olhar irônico de Yuri sobre a cena, Duarte endireitou a postura, ajeitou a gravata de seda e forçou um tom profissional.

— Boa noite, senhor Yuri. Eu sou Duarte Pereira, presidente do Grupo Pereira.

Yuri mal se deu ao trabalho de encará-lo. Seu olhar superior e distante carregava uma pressão esmagadora, exalando a arrogância e a nobreza de quem não precisava provar nada a ninguém. Como o bilionário permaneceu em silêncio, Duarte engoliu o orgulho e continuou:

— Senhor Yuri, a situação é a seguinte, estou disposto a pagar uma quantia exorbitante pelo colar de jade que o senhor acabou de arrematar. Gostaria de saber se estaria disposto a abrir mão da peça.

Os olhos afiados de Yuri percorreram a postura íntima entre Duarte e Rebeca. Um sorriso gélido e debochado se desenhou em seus lábios enquanto ele falava de forma pausada.

— Senhor Duarte, é comovente ver o quanto o senhor e a sua esposa são apaixonados.

A expressão de Duarte se fechou na mesma hora.

— O senhor cometeu um equívoco. Esta ao meu lado é a minha irmã de criação. A minha esposa é aquela ali. — Corrigiu Duarte, apontando para Liliana com um gesto rígido.

Yuri ergueu as sobrancelhas, fingindo uma epifania.

— Ah, peço desculpas pelo mal-entendido. É que as regras da minha família são muito rigorosas. Na nossa casa, irmãos adultos mantêm uma distância respeitosa para evitar falatórios.

O rosto de Duarte perdeu a cor, alternando entre o pálido e o vermelho de vergonha. A humilhação velada o atingiu em cheio.

Tentando salvar a situação, Rebeca deu um passo à frente, superestimando a própria importância.

— Senhor Yuri, o Duarte e eu apenas nos encontramos no meio do caminho e...

— Por acaso eu dirigi a palavra a você? Quem você acha que é para se meter na conversa? — Cortou Yuri, com uma voz tão afiada que beirava a crueldade.

Rebeca arregalou os olhos, chocada com a falta de cortesia do homem. Acostumada a ser tratada como uma princesa, ela mordeu o lábio inferior com força, deixando os olhos marejarem em uma tentativa patética de despertar pena.

— Senhor Yuri, é que eu me apaixonei de verdade por aquele colar... — Murmurou ela, com a voz trêmula.

— Se apaixonou? — Yuri soltou uma risada baixa, transbordando sarcasmo. — Que pena, senhor Duarte. Você chegou tarde demais. O colar já foi adquirido pela senhora Liliana.

Liliana piscou, surpresa com a reviravolta. No segundo seguinte, um sorriso de satisfação iluminou seu rosto, e ela fez questão de balançar a pequena caixa de veludo bem na frente de Rebeca.

A amante fuzilou a caixa com os olhos, apertando o tecido do próprio vestido com tanta raiva que os nós de seus dedos estalaram.

Com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, Yuri exalava uma aura gélida e aristocrática. Antes de virar as costas, ele soltou uma frase enigmática no ar.

— Conseguir o que quer não é o verdadeiro talento. O desafio é conseguir manter.

Sem dizer mais nada, os seguranças abriram caminho, e Yuri se afastou com passos largos e firmes, sem sequer olhar para trás.

Duarte sempre ouviu os boatos de que o novo patriarca da família Castro era um homem arrogante, frio e que não se curvava a ninguém. Conhecê-lo pessoalmente apenas confirmou a fama assustadora. Fechando os olhos por um breve momento, Duarte puxou o ar com força para os pulmões, tentando engolir a frustração de ter sido humilhado repetidas vezes em público.

Ignorando o clima tenso, Rebeca se virou para Liliana com a cara mais lavada do mundo.

— Liliana, você não quer me dar o colar de presente? — Pediu ela, com a voz mansa.

Liliana soltou uma risada carregada de desprezo.

— Você não tem um pingo de vergonha na cara, não é mesmo?

Duarte suspirou, adotando um tom de repreensão cansada.

— Liliana, não há necessidade de ser tão agressiva com as palavras.

A jovem ergueu o queixo, exibindo um sorriso que não chegava aos olhos.

— Você também quer que eu entregue a joia para ela? — Desafiou ela.

O marido abaixou o olhar, encarando-a com uma suavidade calculada.

— Liliana, estamos casados há dois anos. Eu já te dei centenas de presentes, e todos eles eram infinitamente mais valiosos do que essa peça velha. Uma pessoa de classe não rouba a alegria dos outros. Já que a Rebeca gostou tanto do colar, faça isso por mim. Ceda a joia para ela.

Liliana levantou os olhos bem devagar, encarando Duarte como se estivesse diante de um completo estranho. Aquele olhar, que um dia transbordou de amor e devoção por ele, agora abrigava apenas veias vermelhas de cansaço e as cinzas frias de um sentimento morto.

— Duarte, quando você tinha quatorze anos, pegou uma pneumonia tão grave que quase morreu. Nós não tínhamos um centavo para pagar o hospital. Esse colar era o único dote da minha avó, e ela o penhorou para salvar a sua vida. Rebeca não é digna sequer de olhar para ele.

Sem esperar por uma resposta, Liliana virou as costas. Com a postura impecável e passos firmes, ela caminhou em direção à saída, desaparecendo nas sombras do corredor.

Duarte ficou paralisado, como se tivesse levado um soco no estômago. Uma gaveta trancada em sua memória foi arrombada de forma violenta, expondo a verdade nua e crua que ele havia enterrado.

Rebeca, que raramente via Duarte tão abalado e silencioso, puxou a manga do paletó dele com delicadeza.

— Duarte, você está bem? — Perguntou ela, apreensiva.

O homem afastou a mão dela com um gesto brusco, murmurando, atordoado:

— Eu preciso ir para casa.

O ciúme queimou o peito de Rebeca.

— Mas você vai voltar para passar a virada de ano comigo, não vai? — Insistiu ela.

— Depois a gente vê isso. — Respondeu Duarte, com a voz rouca e distante.

Inconformada, Rebeca se jogou nos braços dele, abraçando-o pela cintura com força.

— Você vive dizendo que não sente mais nada por ela, mas ela já foi embora e você continua aí, olhando para o nada com cara de tacho!

Duarte forçou um sorriso sem graça e tentou disfarçar.

— Você está imaginando coisas.

Rebeca bufou, contrariada, mas logo mudou de tática.

— Eu não quero nem saber. No próximo leilão, você vai ter que me dar uma joia de dois milhões para compensar.

— Tudo bem. — Concordou ele, no automático.

Aproveitando a brecha, Rebeca decidiu ir além.

— E depois que a sua empresa abrir o capital na bolsa, eu quero que você me leve para ver a aurora boreal.

Duarte emudeceu, franzindo a testa. Há muito tempo, ele havia prometido a Liliana que, assim que o Grupo Pereira entrasse na bolsa de valores, a levaria para a Noruega para ver as luzes do norte.

Percebendo a hesitação, Rebeca começou a desenhar círculos imaginários no peito dele com a ponta do dedo, erguendo um olhar carente e suplicante.

— Eu prometo que fico escondida no hotel durante o dia. Você só precisa ir me ver às escondidas à noite. Eu não suporto a ideia de ficar tanto tempo longe de você...

Derrotado pela insistência, Duarte a envolveu em um abraço frouxo.

— Está bem.

...

Quando Liliana finalmente chegou em casa, a mansão estava silenciosa.

O pequeno Lucas já havia sido trazido de volta pelo pessoal de Joana Pereira, a matriarca da família Pereira.

Enquanto a maioria dos parentes de Duarte desprezava Liliana e a criança, Joana era a única exceção. A senhora idosa sempre os tratou com carinho e respeito. Era comum que ela levasse o menino para passar uns dias em sua propriedade, mas aquelas visitas haviam se tornado frequentes demais nos últimos seis meses.

Liliana sabia muito bem o motivo, pois a matriarca estava desesperada por um bisneto de sangue e fazia de tudo para deixar o casal sozinho em casa.

O garotinho de cinco anos e meio, que também usava um aparelho auditivo, correu até a mãe e começou a sinalizar em Libras com as mãozinhas ágeis:

— A bisavó cuidou muito bem de mim. Ela disse que amanhã é Ano Novo e que eu deveria passar a data com você e o Sr. Duarte, por isso mandou o motorista me trazer de volta.

Com o coração apertado diante da inocência da criança, Liliana se agachou para ficar na altura do filho, acariciando o rosto macio do menino com um sorriso afetuoso.

— Amanhã de manhã, a mamãe vai levar você para conhecer uma pessoa nova. O que acha da ideia? — Perguntou ela, transmitindo toda a segurança que conseguia reunir.

Sempre dócil, Lucas concordou com a cabeça, demonstrando total confiança na mãe.

Assim que colocou o garoto na cama e esperou que ele adormecesse, Liliana caminhou em silêncio até a suíte principal.

Sem qualquer traço de hesitação, ela abriu a gaveta da mesa de cabeceira e tirou de lá os papéis do divórcio, acompanhados de uma cópia do acordo pré-nupcial que haviam assinado no passado. Com gestos firmes e precisos, guardou todos os documentos dentro de um envelope pardo.

Aquele seria o seu grande presente para Duarte. Uma surpresa inesquecível que ela faria questão de entregar em mãos durante o evento de gala que celebraria a entrada da empresa na bolsa de valores.

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