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Capítulo 7

作者: Ciro Eris
Duarte aproveitou o momento para segurar a mão de Liliana. O tom de voz dele, antes exaltado, de repente se tornou mais brando, carregando uma estranha hesitação:

— Pede desculpa para a Rebeca, vai. A gente encerra esse assunto por aqui e fica tudo bem.

Liliana abaixou o olhar, deixando escapar um sorriso carregado de ironia.

Ao lado deles, Rebeca assumiu uma postura frágil. Ela hesitou de propósito antes de falar com uma voz mansa:

— Duarte, não precisa disso, tá bom? Quem sou eu para exigir que a Liliana me peça desculpas? Não mereço tanto.

Liliana ergueu a cabeça e fixou os olhos no marido, respondendo com uma calma cortante:

— Você ouviu. Ela disse que não precisa, e faço questão de respeitar a decisão dela.

Duarte ficou sem palavras, engolindo em seco diante daquela resposta.

Liliana deu dois tapinhas de leve no braço dele e disse:

— Vai buscar o carro. O Lucas já está caindo de sono.

Sem ter como argumentar, Duarte virou as costas e caminhou em direção ao estacionamento. Assim que ele sumiu de vista, o clima pesou.

Rebeca não perdeu tempo. Ela se aproximou de fininho, inclinando-se bem perto do ouvido onde Liliana usava o aparelho auditivo, e sussurrou com um tom venenoso:

— Liliana, você não acha que anda muito estressadinha nos últimos dias, não? Será que é falta de hormônio? Se for isso, você devia pedir para o Duarte dar um jeito nessa sua carência.

Ignorando a provocação, Liliana acariciou a orelhinha de Lucas com delicadeza e aproveitou o movimento para tirar seu aparelho auditivo. O menino estava tão exausto que mal conseguia manter os olhos abertos. Ele ergueu a cabecinha confusa na direção de Liliana por um segundo, mas logo encostou no ombro dela de novo, rendendo-se ao sono profundo.

Liliana curvou os lábios em um sorriso gélido. Seus olhos transmitiam uma tranquilidade assustadora enquanto ela analisava a rival da cabeça aos pés, antes de retrucar com uma voz suave:

— Já você não parece nada bem. Essa pele amarelada, essas olheiras fundas e o rosto todo flácido... A exaustão está estampada na sua cara. Desse jeito, se você sair na rua, as pessoas vão achar que você é uma daquelas garotas de programa baratas que qualquer um paga para usar e jogar fora.

O rosto de Rebeca perdeu toda a cor, passando de um vermelho de vergonha para um tom pálido e, em seguida, para uma expressão de pura fúria. A respiração dela ficou ofegante e descompassada. Cega pelo ódio e sem nenhum pingo de razão, ela levantou a mão por puro instinto, pronta para estapear o rosto de Liliana.

O olhar de Liliana ficou afiado como uma lâmina. Com um reflexo impecável, ela agarrou o pulso de Rebeca no ar, parando o tapa antes que a atingisse. Liliana inclinou o corpo um pouco para a frente e avisou:

— Se essa sua mão encostar no meu rosto, eu garanto que amanhã mesmo você vai parar na delegacia por agressão e perturbação da ordem. Depois de amanhã é o grande dia da abertura de capital da empresa do Duarte. A Sra. Patrícia gastou uma fortuna com astrólogos para escolher a data perfeita. Você tem certeza de que quer estragar a sorte do Duarte?

Rebeca mordeu o lábio inferior com tanta força que quase tirou sangue. Ela engoliu a seco toda aquela raiva que fervia por dentro, limitando-se a fuzilar Liliana com um olhar carregado de ódio. Pelo menos por enquanto, ela não teve coragem de dar mais nenhum passo.

Mas o que ela não esperava aconteceu no segundo seguinte. Liliana ergueu a mão livre com agilidade e, cortando o ar, acertou um tapa estalado bem no meio do rosto de Rebeca.

O impacto deixou a bochecha de Rebeca ardendo como fogo. Ela levou a mão ao rosto, chocada, e gaguejou:

— Liliana, sua...

Liliana abriu um sorriso de canto, mas seus olhos continuavam frios e sem um pingo de diversão. Ela provocou:

— Vai querer dar o troco? Pode bater. Mas quando eu aparecer no evento da empresa do Duarte com a cara marcada, a imprensa inteira vai jurar que ele bate em mulher.

A mão de Rebeca, que já estava erguida para revidar, parou no meio do caminho. Ela fechou os dedos em um punho apertado, tremendo de raiva e frustração.

Foi bem naquela hora que o carro de Duarte encostou de forma suave no meio-fio. Ele desceu do veículo, passeando o olhar desconfiado entre as duas mulheres, e perguntou:

— Sobre o que vocês duas estão conversando, hein?

Liliana nem se deu ao trabalho de olhar para a cara dele. Ela ajeitou o pequeno Lucas, que continuava dormindo em seus braços, e caminhou em silêncio até o carro. Com todo o cuidado do mundo, ela abriu a porta, protegeu a cabecinha da criança com a mão e se acomodou no banco de trás.

Duarte percebeu a postura emburrada de Rebeca e perguntou:

— O que foi que aconteceu?

Rebeca fungou, apertando a barra da blusa com os dedos de um jeito nervoso. Com os olhos marejados e uma expressão de dar pena, ela olhou para Duarte e começou a chorar.

— Ela me bateu, Duarte! E ainda me humilhou. Falou que eu estou com a cara péssima, que eu sou feia e que eu pareço uma vagabunda qualquer que os homens usam e jogam fora.

Duarte esfregou o espaço entre as sobrancelhas, demonstrando um cansaço profundo. Sem pensar muito, ele defendeu a esposa:

— A Liliana não é desse tipo.

Ele sabia muito bem que a esposa sempre foi uma mulher refinada e cheia de classe. Mesmo tendo a certeza de que Rebeca era a culpada por deixar Ângelo em coma, Liliana nunca havia descido ao nível de fazer barraco ou xingar a rival. O máximo que ela fazia era ignorar, tratar com frieza e manter o silêncio. Por causa desse histórico, Duarte achava impossível que aquelas palavras sujas tivessem saído da boca dela.

Ouvir o homem que amava defendendo a outra foi a gota d'água para Rebeca. Todo o ressentimento que ela tentava esconder transbordou de uma vez. Ela apontou para a própria bochecha vermelha, choramingando:

— Olha para a minha cara! Olha a marca dos dedos dela aqui! Você está querendo dizer que sou mentirosa? Duarte, estou com você desde os meus dezoito anos. Você foi o meu primeiro homem. Durante todo esse tempo, eu nunca tive nem amizade com outros caras. Você acha mesmo que eu ia inventar uma baixaria dessas sobre mim mesma?

Duarte sentiu uma pontada de irritação com o drama, mas no fundo sabia que ela tinha razão em um ponto. Rebeca havia entregado a juventude nas mãos dele. Mesmo nas épocas em que ele a deixava de lado, a vida pessoal dela sempre foi impecável.

Ela ficava ali, quietinha e comportada, esperando pelas migalhas de atenção e carinho que ele decidia dar.

Na cabeça de Duarte, um homem precisava ter o mínimo de consideração por isso. Ele abriu um sorriso indulgente e se curvou um pouco na direção dela. Levantando a mão grande, Duarte afagou o cabelo de Rebeca com um carinho despretensioso e tentou acalmá-la:

— Tá bom, tá bom, chega de choro. A culpa foi minha, me desculpa.

As lágrimas de Rebeca só aumentaram, e ela resmungou com uma voz manhosa e cheia de dengo:

— Você é muito mau comigo. Você só faz isso porque sabe que eu sou louca por você, né? Você pisa em mim porque sabe que eu sempre acabo te perdoando.

Duarte segurou a mão dela e a puxou em direção ao carro, prometendo:

— Amanhã mesmo vou mandar fazer um cartão vitalício para você naquele salão de beleza caríssimo. E também vou pagar aquelas aulas particulares de ioga que você vive pedindo. Mas com uma condição. Quero que troquem todos os professores homens por mulheres.

Rebeca esfregou o nariz avermelhado.

— Seu ciumento bobo! Você pode fazer o que quiser, mas eu não posso nem olhar para o lado.

Satisfeita, ela abriu a porta e sentou no banco do carona. Duarte assumiu o volante e acelerou o carro, cortando as ruas da cidade em direção à mansão deles.

Rebeca deu uma espiada rápida pelo espelho retrovisor e flagrou o exato momento em que Liliana tirava o aparelho auditivo da orelha. Em seguida, ela virou o rosto para admirar o perfil de Duarte. As luzes dos postes e dos letreiros passavam rápido pela janela, criando um jogo de sombras e brilhos sobre o rosto dele, destacando ainda mais a sua beleza imponente.

Rebeca estalou a língua de um jeito provocativo e comentou:

— A Liliana trata o Lucas tão bem, né? Quem vê de fora jura que o menino é filho de sangue dela. Imagino que o senhor Túlio devia ser um marido maravilhoso para ela amar a criança desse jeito, por tabela.

As mãos de Duarte apertaram o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Ele a repreendeu com a voz baixa e dura:

— Para de falar besteira.

No banco de trás, Liliana deu uma risada mental cheia de desprezo.

"Que ironia!", pensou ela. "Na hora de aproveitar o dinheiro, todo mundo acha maravilhoso. Mas depois querem cuspir no prato em que comeram. Quando ele embolsou aqueles cinco milhões de reais, não vi ninguém reclamando de nada. A Rebeca é burra demais. Mesmo que o Duarte não me ame mais, eu ainda carrego o título de esposa dele no papel. Que tipo de homem gosta de ficar lembrando do passado amoroso da própria mulher? Qual é o idiota que gosta de imaginar que está usando um par de chifres?"

Apesar de tudo, ficava claro o quanto Duarte mimava a amante. O máximo que ele fez foi dar aquela bronca leve, com um tom que parecia mais uma reclamação carinhosa do que uma repreensão de verdade.

Liliana fechou os olhos com força, preferindo mergulhar no escuro a ter que continuar olhando para aquela cena patética.

Rebeca mostrou a ponta da língua em um gesto infantil, mudando de assunto logo em seguida:

— Duarte, a Liliana vai com você no evento de abertura de capital da empresa?

Duarte soltou um murmúrio de confirmação.

Estava claro que Liliana precisava estar lá. A história de amor dos dois, que cresceram juntos e enfrentaram todas as dificuldades de mãos dadas, era a propaganda perfeita. Essa imagem de casal inseparável rendia a ele uma aprovação pública gigantesca. Além disso, a surdez de Liliana servia como a desculpa ideal para Duarte conseguir benefícios e incentivos do governo. Nos últimos dois anos, ele havia se envolvido em diversos projetos sociais, usando a deficiência da esposa como trampolim para elevar o próprio prestígio no mercado.

Em todas as entrevistas que dava, a frase de efeito favorita de Duarte era sempre a mesma. Ele adorava encher a boca para dizer que um homem que valoriza a esposa tem o sucesso garantido, que a mulher é o maior tesouro de uma casa e que tratar bem a companheira é o mesmo que investir em si próprio.

Rebeca fez um biquinho manhoso e pediu:

— Eu também quero ir! Deixa eu ir, vai? Tiro um monte de fotos suas. Você vai estar maravilhoso naquele terno, tenho certeza.

Duarte pensou por alguns segundos antes de tomar uma decisão. Ele deu a ordem de forma prática:

— Tá bom, você pode ir. Mas vai entrar como uma das minhas assistentes. Quero você quietinha, andando o tempo todo atrás do Carlos.

Rebeca abriu um sorriso enorme e concordou na mesma hora.

Ela olhou de propósito para o espelho retrovisor, tentando cruzar o olhar com Liliana para esfregar aquela pequena vitória na cara da rival. Para a sua total frustração, Liliana continuava de olhos fechados, descansando em paz, sem dar a mínima atenção para o que acontecia no banco da frente.

Rebeca torceu a boca em uma careta de desgosto.

"Falsa do caramba!", xingou Rebeca, em pensamento.

...

A manhã seguinte amanheceu limpa. A tempestade da noite anterior tinha parado, e o sol batia nas ruas molhadas, refletindo uma luz forte.

Solange, que estava de licença por uma semana, chegou carregando a sua bolsa e tentou se justificar com uma voz cheia de culpa:

— Sra. Liliana, me desculpa mesmo pelo atraso. Choveu forte demais ontem à noite e as ruas ficaram um caos, então nenhum motorista de aplicativo queria aceitar a minha corrida.

Liliana abriu um sorriso compreensivo e balançou a cabeça de um jeito tranquilo para tranquilizar a funcionária. Ela ajeitou a roupa de Lucas antes de responder com um tom suave:

— Não tem problema nenhum, Solange. A gente sempre tem que colocar a segurança em primeiro lugar, né?

A funcionária concordou várias vezes com a cabeça. Ela observou com atenção o cuidado de Liliana, que terminava de arrumar o pequeno Lucas, deixando o menino pronto para sair. Curiosa com aquela movimentação logo cedo, Solange perguntou:

— A senhora vai sair com o Lucas agora?

Liliana confirmou com um aceno afirmativo e avisou:

— Vou sim. A gente tem um compromisso e acho que vamos demorar um pouco para voltar. Então você não precisa se preocupar em preparar o nosso almoço hoje, tá bom?

Solange respondeu de pronto que estava tudo certo.

Ela trabalhava com a família desde logo após o casamento de Liliana e Duarte. O casal havia contratado a empregada por meio de uma agência de empregos de confiança, e desde então ela se tornou uma peça fundamental na casa, ajudando a cuidar de Lucas com carinho e assumindo a responsabilidade de preparar as refeições diárias para os três.

Foi bem naquele momento de tranquilidade que o som de passos chamou a atenção de todos.

Duarte começou a descer as escadas, mas ele não estava sozinho. Logo atrás dele, descendo os degraus com a maior naturalidade do mundo, vinha Rebeca.

O coração de Solange deu um salto no peito ao presenciar aquela cena inusitada. Ela olhou de relance para Liliana, esperando alguma explosão de raiva ou tristeza, mas encontrou apenas um rosto sereno e sem qualquer traço de emoção.

Percebendo que o clima poderia pesar, Solange achou melhor não se intrometer e recuou em silêncio.

Duarte caminhou até a esposa como se nada de errado estivesse acontecendo ali. Ele se aproximou e deu um abraço rápido nela, perguntando:

— Você já está de saída?

Liliana soltou um som de concordância sem prolongar o assunto.

Duarte também não demonstrou muito interesse em investigar o destino da esposa. Ele ajeitou o punho da camisa e disse:

— Estou indo para a empresa agora. Preciso fazer uma última revisão em todos os detalhes e garantir que nada dê errado. Lembre que amanhã é o nosso grande dia. Não importa o que você tenha marcado, quero que cancele tudo e esteja do meu lado no evento de abertura de capital.

Liliana deu um aceno de cabeça bem discreto e pegou a mãozinha do filho, chamando:

— Vamos indo, Lucas.

Seguindo o endereço do cartão de visitas, Liliana foi até a casa de Yuri.

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