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Capítulo 3

Author: Ciro Eris
Assim que guardou o celular na bolsa, Liliana girou nos calcanhares para ir embora, mas suas pernas fraquejaram de forma abrupta.

Um calor sufocante e pegajoso irradiou do fundo de suas entranhas, como se brotasse de seus próprios ossos, acompanhado por uma onda avassaladora de desejo e um vazio angustiante.

A lembrança da taça de espumante oferecida por Nádia invadiu sua mente em um estalo. A bebida estava batizada. Sem dúvida, era mais uma das artimanhas orquestradas pela matriarca da família Pereira.

Ela puxou o ar com força, tentando clarear os pensamentos. A ideia de retornar ao camarote desapareceu no mesmo instante. Voltar para lá significava ter que se entregar a Duarte naquela noite, e a simples ideia de o marido tocá-la lhe dava nojo.

"Ele é sujo.", pensou ela, sentindo o estômago embrulhar. Tomada pela repulsa, ela deu as costas para o salão e correu pelos corredores da casa noturna, esbarrando nas paredes enquanto tentava encontrar a saída.

No meio do caminho, dois homens vestindo camisas estampadas surgiram cambaleando em sua direção, exalando um cheiro forte de álcool barato. Não demorou para que a dupla notasse o estado de Liliana, ou seja, o rosto ruborizado, a respiração ofegante e os passos trôpegos denunciavam sua vulnerabilidade. Eles trocaram um olhar carregado de malícia e sorriram de canto, bloqueando a passagem da mulher por ambos os lados.

— Ei, gatinha, você está vermelha demais. Passou mal? — Perguntou o mais alto, esticando a mão áspera para agarrar o braço dela. — Quer que a gente dê uma ajudinha?

O comparsa soltou uma risada rouca e nojenta.

— É isso aí. Um lugar como este é muito perigoso para uma mulher andar sozinha. Deixa que a gente leva você para um canto mais tranquilo para descansar.

As intenções dos dois eram claras como a luz do dia. Cerrando os dentes com toda a força que lhe restava, Liliana reuniu o último resquício de energia, empurrou os agressores com os ombros e disparou pelo corredor.

— Vagabunda! Achou que ia fugir? — Gritou um deles, enfurecido.

— Pega ela!

O som dos passos pesados a perseguia de perto. As pernas de Liliana pareciam feitas de gelatina, e seu coração batia tão rápido que ameaçava rasgar o peito. O corredor girava diante de seus olhos, indicando que o efeito do narcótico estava atingindo o ápice.

Ao virar uma esquina, ela tropeçou para dentro de uma área de descanso mais isolada e banhada por uma luz amarelada e suave. Diante de uma imensa janela de vidro com vista para a cidade, um homem de terno cinza-chumbo falava ao celular. Ele estava de costas, exibindo uma postura ereta e ombros largos que transmitiam uma autoridade natural.

— Por favor... me ajuda... — Suplicou ela, com a voz embargada.

Liliana se jogou na direção dele, mas os joelhos cederam de vez. Ela desabou no tapete felpudo, caindo bem aos pés do desconhecido.

O homem abaixou o olhar. Um traço de surpresa cruzou suas pupilas escuras e profundas, desaparecendo tão rápido quanto surgiu, logo substituído por uma expressão de impaciência diante daquela interrupção.

Com as mãos trêmulas e pálidas, Liliana agarrou a barra da calça de alfaiataria impecável dele e ergueu o rosto banhado em lágrimas. No instante em que os olhos do homem pousaram nas feições dela, um sobressalto genuíno quebrou sua máscara de frieza.

Antes que ele pudesse dizer algo, os dois marginais invadiram o ambiente. O sujeito mais alto forçou um sorriso amarelo, tentando disfarçar o nervosismo diante da figura imponente.

— Essa garota está com a gente, senhor. Desculpe o incômodo, já vamos tirar ela daqui.

Eles avançaram para agarrar Liliana, mas ela balançou a cabeça em desespero, apertando ainda mais o tecido da calça do homem.

— Não... é mentira. Me salva, por favor.

Com uma calma calculada, o desconhecido guardou o celular no bolso do paletó. Quando os agressores já estavam quase arrastando a mulher pelo chão, ele desferiu um chute brutal e preciso direto no joelho do homem mais alto. O estrondo do impacto ecoou pelo salão, e o marginal caiu de joelhos, urrando de dor enquanto lançava um olhar furioso para o agressor.

Sem se abalar, o homem de terno puxou Liliana pelo braço, arrancando-a das garras da dupla, e colocou-a atrás de si, usando o próprio corpo como escudo.

— Sumam da minha frente. — Ordenou ele, com uma voz fria e cortante que não admitia réplicas.

A aura de poder que emanava dele era esmagadora. Os dois covardes trocaram um olhar apreensivo, perceberam que haviam mexido com a pessoa errada e, após resmungarem alguns xingamentos baixos, deram meia-volta e fugiram.

Com a ameaça afastada, a tensão que mantinha Liliana alerta evaporou, dando lugar à força avassaladora da droga. O calor febril se infiltrava em cada célula de seu corpo. Sem conseguir se manter em pé, ela se apoiou no peito do salvador, mole e indefesa. Seus dentes castigavam o lábio inferior até fazê-lo sangrar, em uma tentativa desesperada de conter os gemidos vergonhosos que subiam pela garganta.

O homem se virou para ela, observando-a com um olhar complexo e insondável.

— Você precisa de ajuda? — Perguntou ele, em um tom grave.

Liliana lutava contra o instinto selvagem de se enroscar nele e arrancar aquele terno cinza. Com um esforço sobre-humano, ela assentiu com a cabeça.

A voz profunda e aveludada do desconhecido soou como um sussurro aos ouvidos de Liliana, que já beirava o delírio.

— E como eu devo ajudar?

Ela mordeu a parte interna da bochecha até sentir o gosto metálico de sangue, deu dois passos trôpegos para frente e se jogou nos braços dele. Na ponta dos pés, ela roçou os lábios quentes no queixo bem desenhado do homem.

— Por favor... eu te pago o que você quiser... — Implorou ela, em um murmúrio rouco.

Ele permaneceu imóvel, como uma estátua de pedra, sem ceder um milímetro. Quando Liliana se inclinou para beijar o canto da boca dele, a escuridão tomou conta de sua visão. O homem havia jogado o próprio paletó sobre a cabeça dela.

Ela soltou um resmungo de insatisfação, abafado pelo tecido caro. No segundo seguinte, sentiu um golpe seco e preciso na nuca. O mundo girou, e ela mergulhou em uma inconsciência profunda.

Quando Liliana abriu os olhos novamente, a luz da manhã já invadia o ambiente. O cheiro forte de álcool e desinfetante revelou de imediato que estava em um quarto de hospital.

Uma enfermeira entrou no quarto naquele exato momento para checar os aparelhos.

— Que bom que você acordou. Você foi drogada, moça. Um cavalheiro trouxe você aqui ontem à noite e cuidou de toda a papelada da internação. Como está se sentindo? — A mulher ajeitou o soro antes de dar um sermão compreensivo. — Escute bem, uma moça bonita como você não deveria andar sozinha por essas casas noturnas. O mundo está cheio de gente ruim, é preciso ter cuidado.

Liliana piscou, ainda confusa, e concordou com a cabeça.

— Esse senhor deixou algum número de telefone ou contato? — Perguntou ela, com a voz fraca.

A enfermeira balançou a cabeça em negativa. Liliana fez um esforço para se sentar na cama. A substância ainda deixava resquícios em seu organismo, provocando uma tontura incômoda. Ela pressionou as têmporas com as duas mãos, tentando afastar a dor de cabeça.

— Ainda há uma pequena dosagem do remédio no seu corpo. — Orientou a enfermeira. — Beba bastante água para acelerar o metabolismo e limpar o organismo. O médico já assinou sua alta, você pode ir embora quando quiser.

— Muito obrigada por tudo. — Agradeceu Liliana, esboçando um sorriso fraco.

Assim que a enfermeira saiu para atender outros pacientes, ela se recostou nos travesseiros, repassando os eventos caóticos da madrugada em sua mente. O som de notificação do celular quebrou o silêncio do quarto. Era uma mensagem de Duarte.

[Liliana, você está em casa? Vou passar aí para te buscar para o leilão.]

Um sorriso amargo e carregado de decepção curvou os lábios dela.

"Então ele sequer voltou para casa ontem à noite.", concluiu ela em pensamento. "Se eu tivesse morrido naquela boate, será que alguém teria notado a minha ausência hoje para recolher o meu corpo?"

Sem se dar ao trabalho de elaborar muito, ela digitou uma resposta curta: [Não estou me sentindo bem.]

A resposta de Duarte chegou em segundos: [Então descanse bastante. Assim que o evento terminar, eu vou direto para casa cuidar de você. Te amo.]

Liliana bloqueou a tela com frieza e guardou o aparelho. Pouco tempo depois, ela já estava na calçada do hospital, aguardando táxi. O celular vibrou novamente. Desta vez, era uma enxurrada de mensagens de Nádia: [Liliana, me perdoa, por favor! Foi a avó quem me obrigou a fazer aquilo. Eu juro que estou morrendo de arrependimento! Ah, lembrei de uma coisa! O colar que você tanto procura vai ser leiloado hoje. Será que isso serve para eu tentar me redimir? Vem para cá, por favor! Um segredo só nosso. O lance inicial é de vinte mil reais, e o valor máximo estimado não passa de duzentos mil.]

Naquele instante, um táxi encostou no meio-fio. Liliana abriu a porta traseira, acomodou-se no banco. Com uma determinação inabalável nos olhos, dirigiu-se ao motorista:

— Senhor, por favor, preciso mudar o destino da corrida.

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