Na entrada principal do salão de leilões, um segurança vestindo um uniforme impecável estendeu a mão, bloqueando a passagem.
— Por favor, apresente o seu convite e o cartão VIP. — Pediu ele, com um tom burocrático e olhar altivo.
— Sou Liliana, esposa de Duarte. — Respondeu ela, mantendo a voz serena e inabalável.
O funcionário franziu a testa. Seu olhar avaliador percorreu o rosto da jovem e desceu até a barra de seu vestido, carregado de desdém.
— O senhor Duarte e a esposa dele já registraram a entrada e acessaram o salão há cerca de três minutos. — Informou o homem, com uma ponta de ironia.
Liliana estreitou os olhos, sentindo a irritação borbulhar.
— Ligue para o Duarte agora mesmo e confirme. — Exigiu ela.
Um sorriso de canto surgiu nos lábios do segurança. Ele a encarou de soslaio, sem fazer questão de esconder o tom de deboche.
— O senhor Duarte está muito bem acompanhado pela esposa. Se eu ligar para ele agora, só vou arrumar dor de cabeça para o meu lado, não acha?
O funcionário já estava cansado de ver aquele tipo de cena na alta sociedade. Nos bastidores, os ricaços desfilavam com suas amantes, mas nos eventos oficiais, a esposa legítima era quem brilhava ao lado do marido. Na cabeça dele, se uma amante fosse tão sem noção quanto a mulher à sua frente, seus dias de luxo estariam contados.
Liliana estava prestes a pegar o celular na bolsa quando uma voz familiar e animada ecoou pelo saguão.
— Liliana!
Ela ergueu os olhos e, como esperado, viu Nádia correndo em sua direção. A garota entrelaçou o braço ao dela com intimidade, esbanjando simpatia.
— Que bom que você chegou! Por que ainda está aqui fora? — Perguntou Nádia, confusa.
Em resposta, Liliana apenas lançou um olhar significativo para o segurança. Compreendendo a situação na mesma hora, Nádia fechou a cara e fuzilou o funcionário com os olhos.
— Foi você quem barrou a entrada da da esposa do Duarte? — Questionou a jovem, com a voz carregada de autoridade.
O homem abriu a boca, pronto para inventar uma desculpa esfarrapada, mas Nádia o cortou sem piedade.
— Chega, não precisa dizer mais nada. Passe no RH, pegue o seu salário deste mês e não precisa mais voltar. Você está no olho da rua.
O rosto do segurança perdeu toda a cor. Em pânico, ele voltou seus olhos suplicantes para a esposa de Duarte.
— Senhora Pereira, por favor, eu imploro...
Liliana desviou o olhar, indiferente ao desespero do homem.
"Cada um deve arcar com as consequências de suas próprias atitudes.", pensou ela, enquanto acompanhava Nádia para o interior do luxuoso salão.
Assim que passaram pelas portas duplas, o celular de Nádia tocou. Era uma chamada de emergência da organização do evento.
— Liliana, o pessoal dos bastidores precisa de mim agora. Vai para o camarote VIP número três e senta com o Duarte, está bem? — Avisou a garota, antes de sair apressada pelo corredor.
Liliana observou a silhueta de Nádia desaparecer na esquina antes de suspirar. Em vez de seguir para a área exclusiva, ela decidiu caminhar em direção aos assentos comuns, no fundo do salão principal.
— Duarte, olha só, não é a Liliana ali embaixo? Você não tinha me dito que ela não viria?
A voz feminina e carregada de falsidade veio do andar de cima. Liliana reconheceu o tom de Rebeca de imediato, mas optou por ignorar. No entanto, a mulher fez questão de chamar sua atenção.
— Liliana! O Duarte e eu estamos aqui em cima. Venha se juntar a nós! — Gritou Rebeca, forçando uma simpatia que passava longe de ser real.
Fingindo casualidade, Liliana ergueu o rosto. Rebeca estava debruçada no parapeito do camarote, exibindo um sorriso cínico que transbordava provocação, como se estivesse esfregando sua vitória na cara da esposa legítima.
Segundos depois, a figura imponente de Duarte surgiu ao lado da amante. O olhar do marido desceu até as orelhas pequenas e delicadas de Liliana, notando a ausência do aparelho auditivo. Com um sorriso contido, ele ergueu as mãos e sinalizou em Libras:
— Liliana, suba aqui.
O rosto da jovem permaneceu uma máscara de frieza enquanto ela desviava o olhar. A simples visão dos dois juntos revirava seu estômago. A ideia de dividir o mesmo espaço confinado com eles a fazia se sentir suja.
Sem dar a mínima importância ao convite, Liliana continuou seu caminho e encontrou uma poltrona discreta nas últimas fileiras. Com calma, ela abriu a bolsa, afastou os fios de cabelo e encaixou o aparelho auditivo. O aro prateado se moldou à sua orelha, e um zumbido elétrico bem baixo preencheu sua audição.
Lá em cima, Duarte franziu a testa, incomodado com a rejeição. Rebeca percebeu que, desde aquele momento, a atenção do homem parecia distante, o que a encheu de raiva. Usando suas melhores armas, ela se aninhou no peito dele, fazendo bico e adotando um tom manhoso.
— Duarte, a culpa é toda minha... — Murmurou ela.
O homem piscou, voltando a si, e abaixou o olhar para encará-la. Uma expressão de carinho e indulgência suavizou seus traços.
— O que foi dessa vez? — Perguntou ele, com a voz mansa.
Rebeca mordeu o lábio inferior, encenando uma culpa perfeita.
— A Liliana só se recusou a subir porque eu estou aqui. É melhor eu ir embora para não atrapalhar o momento de vocês dois.
Antes que ela pudesse fazer qualquer menção de se afastar, Duarte acariciou o lóbulo da orelha dela com o polegar, em um gesto reconfortante.
— Isso não tem nada a ver com você. Ela é quem gosta de fazer tempestade em copo d'água. Você, por outro lado, é sempre tão compreensiva. Fique tranquila. Mais tarde, pode escolher a peça que quiser no leilão, eu compro para você.
Satisfeita com o resultado de seu teatro, Rebeca escondeu um sorriso vitorioso no abraço do amante.
Cinco minutos depois, as luzes do salão diminuíram, anunciando o início do leilão. Quadros renascentistas, porcelanas antigas e joias deslumbrantes desfilaram pelo palco. A cada batida do martelo, os lances astronômicos redefiniam o valor daquelas obras de arte. Após uma espera que pareceu durar uma eternidade, a ansiedade de Liliana finalmente foi recompensada.
Uma assistente de palco elegante empurrou um carrinho coberto por um tecido de veludo vermelho até o centro das atenções. Quando o pano foi retirado, a luz dos holofotes revelou o colar de jade esmeralda. Liliana endireitou a postura na cadeira, com o coração batendo mais forte.
O leiloeiro ajustou o microfone e sua voz clara e profissional ecoou pelo salão.
— O nosso lote de número vinte e oito desta noite é um colar antigo de jade. A peça apresenta um leve desgaste pelo tempo, com marcas de uso na parte interna e dois arranhões superficiais. O lance inicial é de vinte mil reais, com incrementos mínimos de dois mil reais.
Sem perder um segundo, Liliana ergueu a sua placa numerada.
— Vinte e dois mil! — Anunciou ela, com firmeza.
No camarote VIP, Rebeca não tinha o menor interesse naquela joia velha e desgastada. Contudo, ao reconhecer a voz de Liliana no meio da multidão, ela correu até o parapeito de vidro para observar a cena.
— Trinta mil! — Gritou um colecionador do outro lado da sala.
Rebeca assistiu, com os olhos semicerrados, enquanto Liliana levantava a placa mais uma vez.
— Quarenta mil!
Um sorriso perverso se desenhou nos lábios de Rebeca. Apoiada na varanda, ela fixou seu olhar predador na esposa de Duarte.
"Eu jamais deixaria essa sonsa conseguir o que quer.", pensou Rebeca, saboreando a oportunidade de humilhá-la.
O leiloeiro ergueu o martelo de madeira, pronto para encerrar a disputa.
— Quarenta mil reais dou-lhe uma. Quarenta mil reais dou-lhe duas. Quarenta mil...
— Cem mil! — Interrompeu Rebeca, com sua voz doce e estridente ecoando por todo o ambiente.
Liliana virou o rosto de supetão, e seus olhos encontraram os de Rebeca no andar de cima. O choque de olhares cruzou o ar como faíscas invisíveis prestes a causar um incêndio.
Rebeca abriu um sorriso largo e carregado de deboche. O objetivo dela era simples, apenas arrancar qualquer coisa das mãos de Liliana, mesmo que fosse um colar velho e sem graça que ela jamais usaria.
Com os dedos apertando o cabo da placa até as juntas ficarem brancas, Liliana fez um novo lance.
— Cento e dez mil!
Rebeca não hesitou por um segundo sequer.
— Duzentos mil!
— Duzentos e dez mil! — Rebateu Liliana, com a respiração ofegante.
— Trezentos mil! — Provocou a mulher no camarote.
— Trezentos e dez mil! — Exclamou Liliana, recusando-se a recuar.
Após anunciar seu último lance, ela olhou instintivamente para o camarote número três e seus olhos cruzaram com os de Duarte.
Do alto de seu privilégio, o homem observava a esposa sentada sozinha nas últimas fileiras, parecendo tão pequena e isolada. Uma pontada de pena passou por sua mente, mas ele logo a descartou.
"Ela procurou por isso.", pensou ele, justificando a própria omissão.
Ele a havia convidado para subir, mas ela preferiu fazer birra. A paciência de qualquer homem tinha limites, e a dele já havia se esgotado.
Aproveitando o silêncio de Duarte, Rebeca pressionou seu corpo macio contra as costas dele, abraçando-o por trás.
— Duarte, eu quero tanto esse colar hoje... Por que a Liliana insiste em disputar comigo? Será que ela ainda está com raiva de mim? — Sussurrou ela, fazendo-se de vítima.
A frieza e o distanciamento de Liliana contrastavam de forma brutal com a carência calculada de Rebeca. Duarte suspirou, dando tapinhas suaves nas mãos dela que repousavam sobre seu abdômen.
— Deixa comigo. Eu compro para você.
Lá embaixo, Liliana aguardava, acreditando que Rebeca finalmente havia desistido da disputa. No entanto, a voz do leiloeiro ecoou pelos alto-falantes, tremendo de pura empolgação.
— Senhoras e senhores, temos um evento extraordinário! O cavalheiro do camarote VIP número três acaba de acionar a cláusula de cheque em branco para a sua acompanhante! Ele vai cobrir qualquer oferta feita no salão!
Uma risada amarga e dolorosa escapou dos lábios de Liliana.
"Duarte, você é mesmo inacreditável.", pensou ela, sentindo as lágrimas queimarem seus olhos.
A última ruína do mundo que ela havia construído ao lado daquele homem acabava de ser implodida. O estrondo daquela traição era ensurdecedor. As cinzas daquela destruição pareciam agulhas finas e afiadas, perfurando seu coração sem piedade.
Aquele colar de jade era o único dote que sua avó possuía. Anos atrás, quando Duarte contraiu uma pneumonia grave e corria risco de vida, a velha senhora penhorou a joia com o coração partido para pagar o tratamento dele. E agora, naquele exato momento, Duarte não apenas falhava em reconhecer o objeto que havia salvado sua própria vida, como também usava sua fortuna para arrancá-lo das mãos de Liliana e presentear a amante.
Ela havia passado anos procurando por aquela relíquia familiar. Como poderia aceitar perdê-la assim, bem diante de seus olhos? O peito de Liliana doía tanto que parecia cheio de algodão encharcado, pesado e sufocante.
Quando todos no salão já davam como certa a vitória do camarote número três, uma reviravolta chocou a plateia. O painel eletrônico piscou em vermelho. O ocupante do camarote VIP número um também havia acionado o lance ilimitado!
Foi a primeira vez na história daquele mercado de leilões que dois convidados de elite acionaram lances ilimitados para disputar a mesma peça.
Um burburinho generalizado tomou conta do ambiente. Ninguém conseguia entender o motivo de um colar de jade tão comum e desgastado ter despertado a obsessão de dois bilionários ao mesmo tempo.
Liliana, que nunca havia presenciado uma situação daquelas, não fazia ideia de quem levaria a joia no final. Contudo, ela tinha certeza que preferia mil vezes que a relíquia de sua avó fosse parar nas mãos de um completo desconhecido do que ver Rebeca desfilando com ela no pescoço.
Na poltrona ao lado, um rapaz engravatado sussurrou para a companheira:
— Fiquei sabendo que, quando duas ou mais pessoas ativam o lance ilimitado, a casa de leilões faz uma auditoria de fundos na mesma hora. Aquele que tiver o maior patrimônio líquido leva a peça.
Ao ouvir aquilo, a pequena chama de esperança que havia se acendido no peito de Liliana se apagou por completo. A família Pereira era dona de um império colossal. Quem, em sã consciência, teria mais dinheiro do que eles? Talvez apenas a inatingível família Castro, que ocupava o topo da pirâmide social. Mas por que alguém da família Castro se interessaria por uma joia velha e arranhada? Derrotada, Liliana afundou na cadeira, sem forças para lutar contra o destino.
Os auditores do evento correram para os bastidores para verificar as contas bancárias dos dois competidores. Enquanto isso, os sussurros continuavam.
— Eu sei que quem está no camarote três é o senhor Duarte, da família Pereira. Mas alguém faz ideia de quem reservou o camarote número um? — Perguntou uma mulher nas fileiras da frente.
As pessoas ao redor balançaram a cabeça, tão curiosas quanto ela.
Poucos minutos depois, a auditoria foi concluída. O leiloeiro recebeu o resultado no ponto eletrônico e bateu o martelo de madeira com força na tribuna, chamando a atenção de todos.
— Agradecemos a participação dos senhores. É com grande honra que anuncio que o lote número vinte e oito desta noite pertence ao cavalheiro do camarote VIP número um!
Liliana piscou, atônita. Ela mal podia acreditar no que havia acabado de ouvir. Duarte havia perdido.
Movida por um impulso desesperado, ela se levantou da poltrona e caminhou em direção às escadas de acesso ao segundo andar. Ela precisava tentar conversar com o comprador misterioso e implorar para que ele lhe vendesse o colar.
Antes mesmo que Liliana pudesse se aproximar do camarote número um, a pesada porta de madeira se abriu. Dois guarda-costas enormes, vestindo ternos pretos, óculos escuros e pontos de comunicação nos ouvidos, saíram primeiro, abrindo caminho pelo corredor. Logo em seguida, um par de sapatos sociais de couro italiano entrou no campo de visão da jovem.
Liliana ergueu o rosto devagar. O homem que caminhava atrás dos seguranças vestia um terno escuro impecável, e um de seus guarda-costas repousava um sobretudo de caxemira preta sobre seus ombros largos.
O rosto do desconhecido era uma máscara de frieza absoluta. Sua mandíbula era tão marcada que parecia ter sido esculpida em gelo, e os lábios finos formavam uma linha dura e impenetrável. Havia um distanciamento cortante no canto de seus olhos, como se ele observasse o mundo de cima.
A luz quente dos lustres de cristal refletia em seu nariz reto e aristocrático, projetando uma sombra suave que escondia a indiferença profunda em seu olhar. Ele caminhava sem pressa, mas cada passo seu exalava uma aura de poder e opressão. A arrogância e a nobreza de quem estava acostumado a mandar no mundo corriam em suas veias.
No entanto, quando os olhos de Liliana finalmente focaram no rosto daquele homem poderoso, ela paralisou no meio do corredor, com o coração saltando pela boca.
Era ele!