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Sombras e Tempestades

Auteur: Enaile Pires
last update Date de publication: 2026-09-29 21:57:41

​A semana avançava na Fazenda Sol Nascente, e a rotina ganhava um ritmo gostoso. Lorena já conhecia cada canto da casa colonial e os atalhos que levavam aos pomares de jabuticaba. A presença dela havia transformado o clima pesado do lugar; Mel ria alto durante as tardes, corria pelo gramado com seu ursinho e contava as horas para a hora da leitura antes de dormir.

​No entanto, a relação com Henrique continuava sendo um terreno delicado. O fazendeiro parecia viver em uma constante luta interna: por um lado, observava de longe, com um olhar mais brando, a alegria que Lorena trouxesse de volta à vida da filha; por outro, mantinha uma barreira invisível ao redor de si mesmo, como se permitindo-se aproximar demais fosse um perigo.

​Naquela tarde de quinta-feira, o céu do interior começou a mudar drasticamente. O sol forte deu lugar a nuvens carregadas de um cinza escuro, e o vento soprava forte, trazendo o cheiro característico de chuva iminente.

​— Vem tempestade pesada por aí, dona Lorena — avisou Seu Zé, passando apressado pela varanda para recolher as ferramentas do jardim. — É melhor fechar bem as janelas do andar de cima.

​— Pode deixar, Seu Zé! Vou cuidar disso agora mesmo — respondeu ela, pegando Mel pela mão, que olhava apreensiva para os raios que começavam a riscar o horizonte distante.

​Lorena levou a garotinha para o quarto, ligou um abajur de luz quente para deixá-la confortável e deu a ela um caderno de desenhos. Depois de garantir que a menina estava tranquila, começou a percorrer o corredor do andar superior para fechar as pesadas janelas de madeira antes que o pé d'água desabasse.

​Ao chegar ao fim do corredor, percebeu que a porta do escritório de Henrique estava entreaberta novamente, batendo suavemente com a força das rajadas de vento que entravam pela grande janela escancarada. Folhas de papel e documentos voavam pelo chão do cômodo.

​Sem hesitar, Lorena entrou no escritório para fechar a janela e recolher a papelada espalhada. Enquanto se abaixava perto da escrivaninha para pegar algumas folhas de contabilidade da fazenda, seus olhos pousaram em uma fotografia caída sob a mesa.

​Era uma imagem antiga, mas diferente daquela do quadro na parede. Nela, a falecida esposa de Henrique parecia séria, e ao fundo, um documento amarelado chamou a atenção de Lorena — parecia uma carta antiga com rasuras e marcas de dobras frequentes. Antes que pudesse sequer pensar sobre o que via, o som de passos apressados e a porta sendo empurrada com força a fizeram congelar.

​Henrique entrou no escritório com as botas sujas de lama, o chapéu encharcado nas mãos e a respiração funda, vindo direto dos pastos para conter a tempestade. Ao ver Lorena no chão de seu escritório, segurando os papéis e a foto, seus olhos escuros se estreitaram em uma mistura de raiva e sobressalto.

​— O que você está fazendo aqui outra vez? — a voz dele ressoou como um trovão, abafando até mesmo o som do raio que caiu do lado de fora.

​Lorena levantou-se rapidamente, colocando os papéis sobre a mesa com as mãos levemente trêmulas pelo susto.

— O vento abriu a janela, Henrique! Os documentos estavam voando por todo o quarto, eu só entrei para fechar e ajudar a recolher tudo!

​Henrique caminhou a passos largos até ela, pegando a fotografia e o documento da mesa com uma rapidez quase desesperada, guardando-os na gaveta trancada da escrivaninha. Ele virou-se para ela, a poucos centímetros de distância. A chuva agora desabava com força lá fora, batendo ritmadamente contra o vidro da janela.

​— Eu já te disse que este lugar é proibido — disse ele, a voz baixa, mas vibrando de tensão. — Não quero você mexendo nas minhas coisas, nem vasculhando as minhas lembranças.

​Lorena sentiu o orgulho ferido, mas encarou os olhos dele sem recuar.

— Eu não estava vasculhando nada! Apenas tentei impedir que a chuva estragasse o seu trabalho. Você é sempre tão defensivo, Henrique... Acha que todo mundo quer te machucar ou invadir sua vida, quando na verdade as pessoas só estão tentando ajudar!

​Henrique travou o maxilar, pego de surpresa pela ousadia e pela verdade nas palavras dela. Ele olhou para os lábios de Lorena, que arfavam ligeiramente pela discussão, e depois para os olhos dela, tão cheios de vida e determinação. A proximidade entre os dois tornara-se subitamente sufocante, carregada de uma eletricidade que nada tinha a ver com a tempestade lá fora.

​Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, nenhum dos dois disse nada. O som da chuva forte e o brilho intermitente dos raios eram a única coisa no mundo. Henrique deu um passo involuntário à frente, encurtando ainda mais o espaço entre eles.

​— Você não sabe nada sobre o meu passado, Lorena... — murmurou ele, a voz perdendo a agressividade e tornando-se um sussurro rouco e perigoso.

​— Então me deixa entender — respondeu ela em um sussurro corajoso, sustentando o olhar dele. — Para de afastar quem só quer o bem da sua família.

​Henrique fechou os olhos por um breve instante, parecendo travar uma batalha interna devastadora. Quando os abriu novamente, o olhar dele não transmitia raiva, mas um desejo contido e uma vulnerabilidade que fez o pulso de Lorena disparar no peito.

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