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Capítulo 2: A Escolhida

Autor: Anitta Sousa
last update Data de publicação: 2026-10-15 08:48:06

Às dez e cinquenta e sete, Camila atravessou as portas de vidro do edifício da sede do Grupo Valença.

Ela detestava aquele lugar.

Não pela arquitetura. A arquitetura era magnífica. O problema eram as pessoas trabalhando. Aquilo lhe causava uma sensação quase alérgica de responsabilidade.

Ela caminhou pelo saguão com a segurança de quem era a proprietária do lugar.

Tecnicamente, um dia seria. Mas por enquanto, contentava-se apenas em gastar o dinheiro de quem era.

— Bom dia, Srta Valença! — cumprimentou a recepcionista.

— Bom dia!

— Seu pai já está esperando na sala do conselho. — avisou, e Camila suspirou.

— Claro que está. — ela deu dois passos, parou e voltou. Apoiou os cotovelos no balcão e exibiu um sorrisinho de lado — Como é seu nome, meu anjo?

— Lívia, Srta.

— Lindo. Combina com você. — ela ergueu as sobrancelhas sugestivamente, o que fez a moça corar na hora.

— Obrigada, Srta.

— Camila! — Camila piscou para a recepcionista — A gente se vê, Lívia.

Seguiu para o elevador privativo, e entrou. Apertou o botão do último andar e, enquanto subia, aproveitou os espelhos da cabine para ajeitar os longos cachos ruivos.

Quando finalmente abriu as pesadas portas da sala de reuniões, encontrou quatro pessoas já sentadas ao redor da enorme mesa de madeira escura.

Seu pai.

Sua mãe.

Catarina.

E Christian.

Todos olharam para ela no mesmo instante.

— Bom dia, família maravilhosa! — abriu os braços, e um sorriso exuberante.

Silêncio.

— Nossa! Que recepção calorosa! — ela abaixou os braços.

— Você está atrasada. — observou Augusto.

Era um homem alto, de cabelos grisalhos cuidadosamente penteados e postura naturalmente autoritária.

— Alguns minutinhos apenas, papai. Eu tô aqui, não tô!?

— O que é uma grande surpresa dado que você nunca aparece nas reuniões. — retrucou ele, e Camila abriu levemente a boca, levando a mão ao peito.

— Olha como você me julga.

Christian soltou uma risadinha abafada e Catarina revirou os olhos.

Christian, o gêmeo mais novo, tinha cabelos ruivos curtos. Era elegante, expressivo, espalhafatoso nos gestos e na maneira de falar. Já Catarina, a gêmea do meio, também possuía os fios ruivos, mas os mantinha perfeitamente lisos e domados quase sempre num coque severo. Era discreta e transmitia a aura pesada de uma executiva que nasceu única e exclusivamente para comandar o mundo.

Trigêmeos, tão iguais, e tão diferentes, que parecia impossível terem dividido o mesmo útero.

— Irresponsável. — murmurou Catarina e Camila puxou ruidosamente uma cadeira ao dela, apenas para provocá-la.

— Também te amo, irmãzinha. — se sentou e mandou um beijo no ar para a mãe, Leona, cuja beleza os três haviam herdado.

— Bom, como eu estava dizendo antes de ser interrompido... — Augusto retomou, olhando severamente para Camila — Eu irei me afastar da presidência do grupo. E Christian e Catarina passaram por uma avaliação para ver quem tem mais condições para me suceder. — disparou, fazendo o sorriso de Camila desaparecer.

— Espera! O que?

— Sucessão, Camila.

— E eu? — perguntou e Augusto ergueu uma sobrancelha.

— O que tem você?

— Eu também sou sua filha!

— Disso, infelizmente, nunca tive dúvidas.

Christian gargalhou, e Camila lançou-lhe um olhar assassino, fazendo-o erguer as mãos em rendição, desfazendo o riso.

— Isso é ridículo, papai. — ralhou ela.

— Qual o seu problema? — perguntou Catarina — Você nunca demonstrou o menor interesse em trabalhar aqui ou em qualquer outro lugar. — emendou e, finalmente, Camila a encarou.

— Nunca me deram uma oportunidade!

— Eu já lhe ofereci seis cargos diferentes. — Augusto lembrou, e Camila voltou o olhar para ele.

— Todos envolvendo acordar cedo.

Christian recomeçou a rir aos berros, e até Leona precisou esconder o sorriso atrás da xícara de café.

— Camila, meu amor...

— Estou apenas apresentando os fatos, mamãe! — defendeu-se e apertou os lábios.

Augusto olhou para o teto, implorando aos céus por misericórdia. Precisava urgentemente se livrar daquela filha. Nem que fosse despachando-a para o outro lado do mundo, ou, melhor ainda, entregando-a nas mãos de outra pessoa.

Ele ajeitou a gravata, fazendo um som com a garganta.

— Quer uma oportunidade? — perguntou e Camila concordou — Pois bem, você terá três meses para demonstrar responsabilidade, trabalhar de verdade e não só ficar gastando dinheiro com mulheres e bebidas... — continuou ele e Camila endireitou-se na cadeira, jogando uma mecha de cabelo para trás de um dos ombros — E quero que se case. — propôs e a ruiva piscou.

— Espera! O que?

— Quero que se case, Camila.

O silêncio se instalou por alguns longos segundos, até que Camila soltou uma gargalhada, que logo se desfez quando observou a expressão séria do pai.

— Espera! O senhor... o senhor está falando sério? — perguntou e o homem concordou — Papai, eu tenho vinte e cinco anos!

— Exatamente. Já passou da hora de amadurecer. Seus irmãos estão na vantagem.

Camila abriu a boca para protestar, mas não o fez. Ela rolou o olhar pelos presentes e ao ver o sorriso discretamente convencido de Catarina, seu orgulho reagiu antes de seu bom senso.

— Eu não queria falar assim, mas eu... — ela repousou as mãos sobre a mesa, deixando-as unidas, e olhou diretamente para o pai — Eu já tenho uma pessoa, uma noiva!

Christian engasgou. Leona arregalou os olhos, e Catarina inclinou lentamente a cabeça, enquanto Augusto permaneceu imóvel.

— Você está o quê?

— Noiva, papai.

— Em que hospício você achou essa infeliz? — perguntou Catarina e Camila sorriu.

— Pra sua informação, querida, ela é uma mulher maravilhosa.

— E ela tá sabendo disso? — continuou Catarina.

— Catarina! — repreendeu Leona.

— O que? É uma pergunta legítima, mamãe! — exasperou Catarina, incrédula — Essa mulher não consegue manter um relacionamento com ninguém por mais de uma semana, e agora diz que tem uma noiva?

— Muito bem. — Augusto suspirou pesado — Quero conhecê-la no jantar de hoje. Às dez.

— Hoje? — Camila arregalou os olhos.

— Sim. Sua mãe e eu também temos uma notícia importante para compartilhar com vocês.

O sorriso da ruiva vacilou.

Hoje.

Aquilo era dali a algumas horas.

Camila sentiu o estômago afundar, como se estivesse despencando do último andar daquele prédio, mas seu sorriso permaneceu impecável.

— Se ela existir, né, Camila!? — provocou Catarina e Camila a encarou.

— Hoje à noite. — assegurou com firmeza, tão segura, que quase acreditou que realmente tinha uma noiva.

Augusto a encarou por mais alguns segundos, e então, puxou fundo o ar para seus pulmões.

— Três meses. Se cumprir todas as condições e me provar que tem capacidade, poderá participar da avaliação junto aos seus irmãos. Mas preste atenção: isso não significa que assumirá a presidência. Significa apenas que estará no jogo. — avisou ele com o dedo erguido, e Camila se levantou da cadeira, alisando a calça impecável.

— Perfeito.

E saiu antes que Augusto pudesse acrescentar outra condição àquela proposta absurda.

Christian foi imediatamente atrás dela.

— Camila! — chamou, apressando o passo pelo corredor — Você perdeu completamente a cabeça?!

— Não seja dramático, querido.

— Você acabou de dizer para o papai que está noiva!

— E daí? — perguntou ela, caminhando tranquilamente, enquanto observava as unhas.

— E daí? Você não tem namorada!

Camila parou abruptamente, virando-se para o irmão com uma expressão quase ofendida, fazendo-o parar também.

— Anuncia logo para o prédio inteiro ouvir!

— E o que dirá uma noiva. — ele levou as mãos à cintura.

— Mas vou ter.

— Você sabe que casamento é diferente de passar uma noite com alguém, não sabe?!

— Naturalmente, meu amor. — ela abriu um sorriso — Num casamento, a mulher continua lá na manhã seguinte.

Christian fechou os olhos, erguendo o rosto para o céu.

— Meu Deus, me dê forças...

— Relaxa, querido. — voltou a caminhar, fazendo-o a seguir novamente — Eu tenho algumas horas para encontrar uma mulher.

— E quem vai ser a vítima? Uma atriz? socialite? Ou modelo?

— Claro que não, querido. — Camila fez um gesto displicente com a mão e Cristian ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Por quê?

— Porque eu não preciso de uma mulher só bonita, mas inteligente, independente e que não seja apaixonada por mim. — ela suspirou, como se estivesse explicando o óbvio para uma criança — Alguém que compreenda que isso é apenas um acordo e que, quando tudo terminar, cada uma seguirá sua vida sem drama.

— E onde você acha que vai encontrar uma mulher assim?

Camila abriu a boca para responder. Mas quando passaram diante de das salas de reuniões envidraçadas, todas as suas palavras sumiram. Ela tombou levemente a cabeça para o lado, o cenho franzido e voltou dois passos. Virou a cabeça e ergueu uma sobrancelha.

Lá dentro, uma mulher loira estava de pé diante de uma tela de apresentação. Ela gesticulava com firmeza, explicando alguma coisa aos executivos sentados à mesa.

Era ela.

A loira do trânsito.

A loira que havia arranhado seu Porsche e lhe dado um extraordinário fora naquela manhã.

Um sorriso lento começou a se formar em seus lábios.

— Ora, ora...

Christian parou ao perceber a ausência da irmã e voltou alguns passos.

— Camila?

Ela não respondeu.

Observava a mulher através do vidro. A postura impecável, a segurança com que conduzia aquela reunião, a expressão séria enquanto apontava para os números exibidos na tela. E, para completar, aqueles óculos de armação fina que a deixavam ainda mais sexy.

Meu Deus. Além de linda, era competente.

— Ariana Grande estava certa quando disse que Deus é uma mulher! — ela mordeu discretamente o lábio inferior.

— O que?

— Quem é aquela, Christian? — perguntou e Christian acompanhou a direção de seu olhar.

— Nossa diretora de Marketing e Imagem Institucional, Helena Stevens.

— Helena... — Camila repetiu o nome baixinho, experimentando o som das sílabas.

Christian conhecia aquela expressão. Conhecia muito bem. E nunca, absolutamente nunca, significava coisa boa para quem estivesse por perto.

— Camila, não!

— O que? — ela não tirou os olhos de Helena.

— Não! Ela é uma das nossas melhores profissionais. E sem contar que o papai praticamente idolatra ela. — explicou o irmão e finalmente, Camila conseguiu tirar os olhos de Helena, o encarando.

— É ainda mais perfeito.

— Camila, não!

— Eu vou me casar com aquela mulher. — disparou ela, e voltou a olhar para Helena.

Agora, Camila tinha mais um problema: avisar a noiva.

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