Se connecterHelena Stevens estava oficialmente vivendo os piores dias de seus vinte e oito anos. Tudo estava desmoronando como um efeito dominó. E, quando ela pensou que as coisas não poderiam ficar piores, aquela manhã de segunda-feira fez questão de provar o contrário.
Oito anos. Oito anos de relacionamento. Um pedido de casamento à luz de velas no restaurante italiano onde ela e Gustavo Monteiro se conheceram Foi tão perfeito que parecia cena de filme. Tão perfeito que Helena, sempre tão racional e no controle de tudo, se permitira chorar de emoção e aceitar sem piscar. Desde então, a vida de Helena havia virado uma maratona de preparativos para o grande dia dali a exatos dois meses. Tudo isso para encontrar Gustavo com outra mulher completamente nua na cama, e descobrir que o infeliz mantinha um relacionamento sério com ela há mais de um ano. Um ano Helena ainda conseguia ouvir a voz dele dizendo: "Não é o que você está pensando, amor." Não. Claro que não. Aparentemente, o infeliz havia passado mais de um ano levando uma vida dupla por puro engano. Agora, Helena estava dentro do seu Audi A3 Sedan, tentando a todo custo não chorar. Ela apertou o volante com força entre os dedos e observou o anelar sem o anel de noivado, que naquele momento deveria estar em algum lugar do apartamento de Gustavo depois que o jogara na cara dele. — Eu estou falando sério, Helena! — a voz de Melissa soou através do fone sem fio em seu ouvido — Você não vai voltar com aquele desgraçado! — Eu não vou voltar com ele, Mel. — Promete? — Melissa! — Promete, Helena! — houve uma pausa do outro lado e Helena esperou — Olha, eu sei que oito anos não são oito dias. Mas o que ele fez com você, não tem explicação. — Eu não quero falar sobre isso agora, Mel. — murmurou, apoiando o braço na janela e massageou a têmpora — Eu já tenho problemas demais. — Você deveria ir pra casa, amor. — Tenho uma reunião importante. — Helena... — E uma apresentação. Eu não... eu... não posso faltar. — balbuciou Helena ainda massageando a têmpora, enquanto a outra mão batia o polegar no volante. — Helena... — resmungou Melissa, mas outra voz entrou no fundo: — Lena, estamos preocupadas com você! Com tudo que está acontecendo, eu não sei como ainda está de pé. — Eu estou bem, Beatriz. Eu só preciso trabalhar. — Sua insuportável viciada em trabalho.— murmurou Beatriz e Helena soltou uma risadinha sem humor. — Eu também te amo, Bea. Uma breve pausa se instalou. — Você está chorando? — Melissa perguntou, agora mais suavemente. — Não. Mentira. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Helena, mas ela tratou rapidamente de limpar com as costas da mão. — Helena... — Como estão os meninos? Eles estão dando muito trabalho? — Helena mudou de assunto rapidamente. — Seus irmãos são um amor. — ela ouviu Beatriz gritar no fundo. — Obrigada por ficarem com eles, meninas. — Helena... — houve hesitação do outro lado da linha — Eles estão perguntando pela mãe e pelo pai. Eu não sei mais o que eu digo. Helena torceu os lábios, deslizando a ponta da língua pela bochecha e arfou. — Eu vou conversar com eles quando eu chegar. Agora preciso desligar. Estou chegando à empresa. — Tá bom. E, pelo amor de Deus, não atende aquele idiota! — Melissa suspirou — E eu ainda acho que deveríamos ter batido nele e naquela cachorra. Helena abriu a boca para responder, mas o aviso de uma segunda chamada interrompeu a conversa. O celular, abandonado sobre o banco do passageiro, iluminou-se. Gustavo Monteiro. De novo. Ela olhou para a tela e sentiu o estômago se contrair. Era a vigésima ligação desde que saiu do apartamento dele. Helena desviou os olhos por um instante, inclinando-se para alcançar o aparelho e rejeitar a chamada. Quando voltou a olhar para a avenida, encontrou a traseira de um Porsche preto perigosamente próxima. Ela pisou fundo no freio. Mas não foi o suficiente. O impacto foi leve, mas o suficiente para fazê-la fechar os olhos e deixar escapar um gemido de absoluto desespero. — Merda! Helena permaneceu imóvel por alguns segundos, com as mãos agarradas ao volante com força, olhando para o carro à sua frente. — Helena? — a voz de Melissa ainda soava no fone — Helena? — Tá tudo bem, eu tô bem. Eu só bati o carro. — O QUÊ?! — as duas vozes do outro lado se misturaram no ouvido de Helena. — Eu estou bem. Depois eu ligo pra vocês. Helena encerrou a chamada, respirou fundo e, quando ergueu os olhos, viu uma mulher ruiva saindo do Porsche à sua frente. Não. Não podia ser. Ela fechou os olhos por um instante, e deixou escapar uma risadinha carregada de ironia, enquanto balançava lentamente a cabeça. Porque, de todos os carros daquela maldita cidade, de todas as pessoas que poderiam estar paradas naquele maldito sinal vermelho, ela foi bater justamente no carro da filha mais velha de seu chefe. Ah! Helena não sabia o que era pior. Ter arranhado um Porsche que provavelmente custava mais do que conseguiria pagar naquele momento ou descobrir que sua proprietária tinha a audácia de flertar com ela enquanto examinavam o prejuízo. Mas por que estava tão surpresa? Aquela era Camila Valença, fazendo jus à sua fama. A solteira mais cobiçada de Miami, mas obviamente, não por Helena. Quando finalmente voltou ao carro, Helena estava ainda mais irritada. O celular continuava sobre o banco, tocando insistentemente. Ela, porém, virou o aparelho com a tela para baixo. Às onze e cinco, Helena estava sentada em uma das cadeiras da sala de exibição, assistindo atentamente ao novo comercial. — Não. — disse ela, assim que o vídeo terminou, fazendo o responsável pela campanha erguer os olhos. — Não? — Não. — Mas seguimos exatamente o conceito aprovado. Helena ajustou os óculos de armação fina, e virou minimamente a cadeira para o lado do rapaz. — O conceito está correto. A execução, não. — apontou pra tela — Estamos vendendo uma experiência, não apenas um quarto de hotel. A modelo parece estar apresentando um apartamento decorado. Onde está o entusiasmo? A sensação de estar vivendo as melhores férias da vida? — perguntou e o homem consultou rapidamente suas anotações. — Podemos ajustar a edição... — Não vai resolver. — interrompeu ela, sem alterar o tom de voz — Precisamos refazer as cenas. Quero espontaneidade, naturalidade. O público precisa desejar estar naquele lugar. — Isso vai exigir outra diária de filmagem. — Então agende outra diária. — ela voltou a atenção para os gráficos apresentados anteriormente — E sobre os pacotes promocionais, não quero descontos indiscriminados. Vamos oferecer benefícios que valorizem a experiência do hóspede. Um jantar especial, créditos para o spa, possibilidade de check-out tardio. Trabalhem com a equipe comercial para definir o que é viável. — ela descruzou as pernas, e levantou-se — E quero a nova proposta na minha mesa até quarta-feira. Os funcionários assentiram e a reunião continuou. Ela levantou-se, sentou-se novamente, e seu celular continuou vibrando algumas vezes sobre a mesa. Mas ela sequer percebeu. Estava ocupada demais. Na verdade, quase sempre esteve, desde que começara a trabalhar para o grupo Valença cinco anos atrás. E Helena era boa no que fazia. Não, era ótima. Sabia como administrar campanhas milionárias, coordenar equipes inteiras e encontrar soluções para os problemas, que muitos não conseguiriam. O problema, era que, quando se tratava dos próprios problemas, não fazia a menor ideia de como resolvê-los. Talvez, porque nunca teve tantos problemas. Mas quando apareceu um, formou uma fileira, que ela sequer sabia por onde começar. Quando a sala ficou vazia, ela finalmente permitiu que os ombros relaxassem por um breve instante. Retirou os óculos lentamente, fechou-os e massageou a ponte do nariz com o indicador e o polegar, mantendo os olhos fechados por alguns segundos. Ela depositou os óculos sobre a pasta, pegou o celular e examinou as notificações. Havia três chamadas perdidas de Gustavo, duas do advogado e algumas mensagens que não teve coragem de abrir. Com um suspiro, virou a tela para baixo quando sua assistente apareceu à porta, carregando uma pasta e alguns documentos. — Helena, os contratos da nova campanha chegaram. Também precisamos da sua aprovação para o material que será enviado às unidades ainda esta semana. — Deixe-os aqui. — Quer que eu peça seu almoço? — perguntou a assistente. Helena ergueu o braço, examinando às horas no relógio. Se passava das duas da tarde. — Obrigada. Só me traga um café, por favor. — disse e suspirou — Quanto ao material, peça à equipe que aguarde minha autorização. A assistente assentiu, colocando os documentos sobre a mesa. — Mais alguma coisa? — Sim. — Helena ergueu os olhos e soltou uma lufada de ar — Preciso que entre em contato com a minha seguradora. Eu bati sem querer no carro da filha mais velha do senhor Valença. — Pode deixar. Vou resolver isso agora mesmo. — Obrigada. Assim que a assistente saiu, Helena puxou a primeira pasta para perto e começou a examinar os documentos. No entanto, seu celular voltou a vibrar sobre a mesa. Ela olhou brevemente para o aparelho. Gustavo. Pela quadragésima primeira vez. Ele não cansa? – pensou Helena pressionando os lábios, e virou a página do contrato. O café chegou logo em seguida, e entre uma xícara e outra, telefonemas, contratos e problemas que pareciam se multiplicar sempre que ela resolvia um deles, o tempo avançou. Ela esqueceu completamente o almoço, e quando fez uma pausa obrigatória para o banheiro, seu celular voltou a tocar. Mas daquela vez, não era Gustavo. Ela atendeu, fechando a porta do banheiro atrás de si. — Doutor, boa tarde. — ouviu a voz do outro lado, e sua expressão endureceu — Eu entendo. Mas preciso de um pouco mais de tempo. Outra pausa. Helena passou a mão pela testa, suspirando fundo. — Assim que conseguir resolver isso, entro em contato. — ela desligou antes que sua voz denunciasse o desespero. Por alguns segundos, permaneceu olhando para o aparelho. Então, cruzou o banheiro e apoiou as mãos sobre a bancada de mármore. Como sua vida foi chegar àquele ponto? Ela suspirou, ligou a torneira e pegou um punhado de água com as mãos, jogando no rosto. Às três e cinquenta e sete, finalmente conseguiu terminar a última reunião do dia. Helena atravessou o corredor em direção a sua sala, cumprimentando mecanicamente dois funcionários que passaram por ela. Precisava de cinco minutos. Apenas de cinco malditos minutos. Estava exausta. Sua cabeça latejava, os pés doíam dentro dos sapatos e tudo o que desejava era chegar em casa, tomar um banho quente e se esconder debaixo das cobertas até que aquela segunda-feira miserável terminasse. Ela parou diante da porta, respirou fundo e girou a maçaneta. Abriu, e parou quando viu uma ruiva sentada em sua cadeira. Não, sentada não. Instalada. — Olá, querida! Vim cobrar o que me deve. — disse Camila, assim que notou a presença de Helena. Aquela definitivamente era uma segunda-feira de merda.Helena havia dito não. Duas vezes. E, mesmo assim, continuou olhando para a pasta preta que Camila havia deixado sobre sua mesa por longos minutos. Era inacreditável. A ruiva descarada aparecera em seu escritório, fizera uma proposta absurda de casamento e ainda tivera a audácia de estabelecer um prazo para que tomasse uma decisão. Ela deveria simplesmente ignorar. Era o que qualquer pessoa em seu perfeito juízo faria. O problema era que, naquele momento, seu juízo perfeito não estava exatamente colaborando. Agora, estava diante de Beatriz e Melissa, sentada numa mesa discreta de um restaurante próximo à sede do Grupo Valença. Precisava desesperadamente ouvir a opinião de pessoas que ainda possuíssem algum juízo. Aparentemente, escolhera mal. Muito mal. Fazia meia hora que ouvia as duas discutirem, e começava a se sentir como aquelas pessoas dos desenhos animados, com um anjinho do bem e outro do mal empoleirados sobre os ombros. Beatriz, naturalmente, representava o bom se
Helena permaneceu estática por longos segundos. Então, piscou. Ela olhou para o nome na porta, como se quisesse confirmar que havia entrado na sala correta, e depois voltou a encarar a intrusa de cachos vermelhos acobreados em sua sala. — Você?! — finalmente balbuciou, e Camila abriu um belo sorriso. — Eu! Helena fechou os olhos e massageou as pálpebras. Será que ela havia jogado pedra na cruz? Talvez estivesse apenas tendo uma alucinação.Horrível por sinal.Mas era perfeitamente possível. Afinal, estava com privação de sono, estresse crônico, falta de alimentação. E uma combinação dessas certamente podia provocar delírios terríveis ao cérebro humano. Ela abriu os olhos novamente. Mas a ruiva continuava ali, com as pernas esticadas, cruzadas, enquanto tinha os pés com seus sapatos de sola vermelha apoiados sobre a madeira. Infelizmente. — Eu já pedi pra resolverem sobre o seguro. — disse Helena, o tom de voz perigosamente baixo e Camila inclinou a cabeça para o lado, com
Helena Stevens estava oficialmente vivendo os piores dias de seus vinte e oito anos. Tudo estava desmoronando como um efeito dominó. E, quando ela pensou que as coisas não poderiam ficar piores, aquela manhã de segunda-feira fez questão de provar o contrário. Oito anos. Oito anos de relacionamento. Um pedido de casamento à luz de velas no restaurante italiano onde ela e Gustavo Monteiro se conheceram Foi tão perfeito que parecia cena de filme. Tão perfeito que Helena, sempre tão racional e no controle de tudo, se permitira chorar de emoção e aceitar sem piscar. Desde então, a vida de Helena havia virado uma maratona de preparativos para o grande dia dali a exatos dois meses. Tudo isso para encontrar Gustavo com outra mulher completamente nua na cama, e descobrir que o infeliz mantinha um relacionamento sério com ela há mais de um ano. Um ano Helena ainda conseguia ouvir a voz dele dizendo: "Não é o que você está pensando, amor." Não. Claro que não. Aparentemen
Às dez e cinquenta e sete, Camila atravessou as portas de vidro do edifício da sede do Grupo Valença. Ela detestava aquele lugar. Não pela arquitetura. A arquitetura era magnífica. O problema eram as pessoas trabalhando. Aquilo lhe causava uma sensação quase alérgica de responsabilidade. Ela caminhou pelo saguão com a segurança de quem era a proprietária do lugar. Tecnicamente, um dia seria. Mas por enquanto, contentava-se apenas em gastar o dinheiro de quem era. — Bom dia, Srta Valença! — cumprimentou a recepcionista. — Bom dia! — Seu pai já está esperando na sala do conselho. — avisou, e Camila suspirou. — Claro que está. — ela deu dois passos, parou e voltou. Apoiou os cotovelos no balcão e exibiu um sorrisinho de lado — Como é seu nome, meu anjo? — Lívia, Srta. — Lindo. Combina com você. — ela ergueu as sobrancelhas sugestivamente, o que fez a moça corar na hora. — Obrigada, Srta. — Camila! — Camila piscou para a recepcionista — A gente se vê, Lívia. Segu
Camila Valença tinha um problema. Na verdade, tinha vários. O primeiro estava dormindo em sua cama. O segundo era o relógio digital sobre a mesinha de cabeceira, que marcava nove horas e quarenta e três minutos. E o terceiro era seu pai. Mais especificamente, a reunião de diretoria que ele havia convocado para às dez da manhã daquela segunda-feira. — Merda! — ela saltou da cama, arrastando os lençóis de seda consigo, fazendo a mulher que dormia ao seu lado, acordar. — Volta pra cama, amor. — Você precisa ir. — disse Camila, caçando o celular entre as almofadas espalhadas pelo chão do quarto. — Você tem certeza que quer que eu vá? — a mulher afastou um pouco os lençóis, revelando o corpo nu, num convite tentador. Camila olhou pra ela, depois para o relógio e novamente para a mulher nua em sua cama. Por um segundo perigoso, considerou seriamente a possibilidade. — Não me tente, princesa. — negou e voltou a procurar o celular — Hoje não, por favor. — ela finalmente encontrou o