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Capítulo 4: A Proposta

Penulis: Anitta Sousa
last update Tanggal publikasi: 2026-11-01 02:43:52

Helena permaneceu estática por longos segundos. Então, piscou. Ela olhou para o nome na porta, como se quisesse confirmar que havia entrado na sala correta, e depois voltou a encarar a intrusa de cachos vermelhos acobreados em sua sala.

— Você?! — finalmente balbuciou, e Camila abriu um belo sorriso.

— Eu!

Helena fechou os olhos e massageou as pálpebras. Será que ela havia jogado pedra na cruz? Talvez estivesse apenas tendo uma alucinação.

Horrível por sinal.

Mas era perfeitamente possível. Afinal, estava com privação de sono, estresse crônico, falta de alimentação. E uma combinação dessas certamente podia provocar delírios terríveis ao cérebro humano.

Ela abriu os olhos novamente. Mas a ruiva continuava ali, com as pernas esticadas, cruzadas, enquanto tinha os pés com seus sapatos de sola vermelha apoiados sobre a madeira.

Infelizmente.

— Eu já pedi pra resolverem sobre o seguro. — disse Helena, o tom de voz perigosamente baixo e Camila inclinou a cabeça para o lado, com um biquinho nos lábios.

— Não é sobre isso que vim falar.

— Sobre o que veio falar, senhorita Valença? — perguntou Helena, cruzando os braços, ainda parada à soleira da porta — E tire os pés de cima da minha mesa!

Camila respirou fundo, retirou os pés de cima da mesa e ajeitou-se melhor na cadeira.

— Entre e feche a porta, por favor. — ela apoiou os cotovelos sobre a mesa, e cruzou as mãos.

Helena hesitou por um instante. No entanto, descruzou os braços, fechou a porta atrás de si, caminhou a passos duros até a cadeira de convidados e largou a bolsa sobre mesma. Ela apoiou uma mão no encosto e a outra na cintura, fuzilando a herdeira com os olhos.

— Então?

— Vim fazer uma proposta. — disparou Camila, e Helena franziu o cenho, mas antes que questionasse, ela continuou: — Quero que se case comigo.

Helena ficou alguns segundos confusa, processando a informação, e então, a ruiva continuou:

— Como você já sabe, meu querido papai, vai se aposentar e iniciou uma disputa para ver qual de nós três vai suceder ele na presidência. Mas para que eu entre na disputa, ele impôs uma condição: que eu me case. Então, eu quero que se case comigo.

— Mas eu não quero me casar com você! — balbuciou Helena, incrédula com a proposta — E muito menos para dar o golpe no seu pai! — ela foi firme.

— Ah! — Camila soltou uma lufada de ar — Eu sabia que não seria fácil. — ela levantou-se, alisando o vinco perfeito da calça. Deu a volta na mesa e sentou-se na ponta da mesma, cruzando as pernas.

Daquela distância, Helena pôde sentir o cheiro envolvente, amadeirado e caro do perfume de Camila invadindo todos os seus sentidos.

A ruiva puxou o ar para seus pulmões, apoiou a mão sobre a mesa, e virou o rosto, apoiando o queixo no ombro.

— Então, tomei providências.

Helena seguiu seu olhar e só então, deu-se conta da pasta preta, que não era sua, sobre a mesa. Ela voltou o olhar para Camila. Depois, novamente para a pasta, e suas sobrancelhas se juntaram, em total confusão.

— O que é isso? — perguntou, voltando o olhar para Camila.

— Isso é o que você está tentando esconder desde a quinta-feira passada. — levou o olhar para Helena, que travou o maxilar — Desde que seu pai deu um golpe milionário na empresa que trabalhava, usando o nome da sua mãe e fugiu, deixando ela ser presa no lugar dele.

Helena esticou o braço, abriu a pasta e quando seus reconheceram o que ali estava, todo o sangue esvaiu de seu rosto, deixando-a pálida como papel.

— Como... — ela ponderou, repousando os dedos, com as unhas perfeitamente grandes e esmaltadas sobre o papel — Como consegui isso?

— Você esqueceu que a esposa do meu irmão é uma das melhores advogadas dessa cidade de merda? — perguntou Camila, a voz macia e Helena ergueu lentamente os olhos azuis, agora turvos pela raiva e pelo pânico.

— Você mandou investigar a minha vida? — ela perguntou, retirando os dedos do papel.

— Eu prefiro chamar de "pesquisa de campo sobre a minha futura esposa".

— Você não tinha esse direito! — ralhou Helena, com os dentes cerrados — E eu não vou me casar com você!

— A sua mãe precisa de uma defesa melhor, Helena. De advogados capazes de provar a inocência dela e contestar o bloqueio dos bens. — disse Camila, apoiando a outra mão sobre a mesa e balançando o pé que estava por cima do outro — Eu posso fornecer a melhor advogada. E fornecer também dinheiro enquanto tudo se resolve.

Helena voltou o olhar para Camila, e por alguns segundos, simplesmente não conseguiu acreditar no que estava ouvindo.

Conhecia aquela mulher só através de fotografias e manchetes escandalosas. E sempre considerava aquela mulher uma criatura irresponsável, mimada e incapaz de compreender que o mundo não girava ao redor dos seus caprichos.

Mas aquilo?

Aquilo ultrapassava qualquer limite.

Aquela mulher dentro da sala, que ela conquistara com anos de dedicação, estava usando a prisão injusta de sua mãe, e a ruína financeira de sua família, como argumentos para conseguir uma esposa?

Helena travou o maxilar com tanta força, que sentiu os dentes doer. Teve vontade de enfiar a mão naquela cara deslavada. De expulsá-la dali. De fazê-la compreender que o sofrimento de sua família não era uma oportunidade de negócio.

Mas continuou parada no mesmo lugar, imóvel, a respiração pesada, e o coração batendo tão forte, que podia sentir as pancadas dentro do peito.

Pela primeira vez, Helena compreendeu que a irresponsabilidade daquela herdeira talvez fosse o menor dos seus defeitos.

— Você é uma pessoa desprezível. — ralhou Helena, por fim e Camila suspirou profundamente, cruzando os braços.

— Seis meses, Helena. Serão apenas seis meses. — deu de ombros, como se casar com uma pessoa que mal conhecia fosse a coisa mais simples do mundo — Três meses para eu convencer o meu pai de que me tornei uma mulher responsável e que mereço participar da disputa pela presidência. Mais três meses para ninguém no conselho desconfiar que eu me casei apenas para entrar na disputa pela presidência. Depois disso, divórcio. Simples, prático, indolor e extremamente elegante.

Helena continuou ali, parada, sem reação. Camila, com um longo suspiro, se colocou de pé. Ela deu um passo à frente, ficando ombro a ombro com a loira, e levou as mãos para dentro dos bolsos da calça, virando o rosto para o lado da diretora, que tinha o maxilar cerrado.

— Você tem um problema, Helena. Eu tenho outro. E nós duas podemos resolver os dois hoje, unindo o útil ao agradável. — propôs.

A loira olhou para os documentos sobre a mesa, e depois para a mulher impecável bem ao seu lado.

Era inacreditável.

E até seria cômico, se não fosse tão trágico.

— E se eu recusar? — perguntou Helena, erguendo o queixo num último ato de desafio.

Camila tombou a cabeça para o lado, levando aquela possibilidade em consideração e estalou a língua no céu da boca, revirando discretamente os olhos. Ela virou-se, catou sua bolsa sobre a mesa, e ajustou no antebraço.

— Você pode recusar, é claro. — ela voltou o olhar para Helena — Mas eu não sei por quanto tempo conseguirá manter uma história com fraude milionária, fuga e prisão longe do faro da imprensa, e do meu pai... — fez uma pausa dramática e soltou uma lufada de ar — Pense com carinho, Helena.

Camila segurou delicadamente o pulso de Helena e o ergueu, olhando as horas no relógio de pulso dela.

— Você tem até às sete da noite para decidir. — avisou e Helena retirou seu pulso com força das mãos da ruiva.

— Você está me dando três horas para decidir o meu futuro?!

— Eu sei. É pouco, mas é o que temos. — arfou e suspirou — Caso você aceite, teremos um jantar às dez na casa dos meus pais. Mas antes, precisamos ver o contrato. Você sabe onde me encontrar!

E, sem esperar uma resposta, Camila cruzou a sala e saiu pela porta, deixando para trás um rastro de perfume e destruição.

Helena permaneceu imóvel por alguns segundos na sala vazia, enquanto compreendia duas coisas:

A primeira era que Camila Valença estava falando muito sério e tinha todo o poder para tirá-la daquela situação.

A segunda era que, se aceitasse aquele acordo lunático, provavelmente acabaria numa cela de prisão por motivos completamente diferentes dos que haviam levado sua mãe até lá.

Porque seis meses casada com aquela mulher poderiam muito bem terminar em homicídio.

Ou será que não?

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