FAZER LOGINCamila
Dois anos antes O despertador toca às seis da manhã, arrancando-me de um sono profundo. Por alguns segundos, permaneço deitada, olhando para o teto branco do quarto, tentando convencer meu corpo de que levantar cedo faz parte da rotina. E faz. Minha vida em Itajubá é assim: correr contra o relógio todos os dias. Estico a mão e desligo o despertador antes que ele toque novamente. Levanto-me devagar e caminho até a janela. O movimento da rua começa aos poucos — pessoas indo trabalhar, carros passando, a cidade despertando para mais um dia. Respiro fundo. Eu gosto dessa sensação. Da ideia de que estou construindo minha própria história. O apartamento onde moro não é exatamente meu. Ele pertence ao meu cunhado, mas ele me deixou ficar aqui enquanto sigo minha vida em Itajubá. É um lugar tranquilo, confortável e, principalmente, meu refúgio depois dos dias cansativos. Vivo sozinha. Às vezes o silêncio pesa um pouco, mas também aprendi a gostar dele. Depois de preparar um café rápido, organizo minha bolsa com os livros da faculdade de Direito e os documentos do consultório. Minha vida é dividida entre duas paixões que parecem disputar meu tempo todos os dias: o Direito e o meu trabalho. Ser secretária de Leonardo não é uma tarefa simples. Na verdade, algumas pessoas dizem que trabalhar com ele é uma prova de resistência. Leonardo é um dos neurologistas mais brilhantes que já conheci. Ele tem uma mente extraordinária, capaz de analisar casos complexos com uma facilidade que impressiona até outros médicos. Mas, por trás da fama e da postura séria, existe um homem que poucas pessoas conseguem conhecer de verdade. E, por mais que eu tente ignorar, existe também algo em mim que insiste em reparar nele. Ele é… um gostoso. E isso me irrita um pouco, porque não deveria ser assim. Mas é inevitável. Às vezes me pego pensando que sempre quis um doutor para chamar de meu. Alguém como ele: inteligente, seguro, intenso. Só que Leonardo nunca me deu bola. Nunca mesmo. Para ele, eu sou apenas a secretária eficiente que resolve tudo e mantém a vida dele organizada. Pego minha chave e saio do apartamento. Mais um dia começa. Quando chego ao consultório, destranco a recepção e ajeito os últimos detalhes antes de ele chegar. Pouco tempo depois, ouço a porta principal abrir e a figura dele preencher o ambiente. Sigo até a sala dele e bato duas vezes na porta. — Pode entrar. Abro a porta e encontro Leonardo analisando alguns exames sobre a mesa. Mesmo antes de olhar para mim, ele sabe que sou eu. — Bom dia, Camila. Sorrio. — Bom dia, doutor Leonardo. Ele finalmente levanta os olhos. — Quantas vezes preciso dizer que, quando estamos sozinhos, pode me chamar apenas de Leonardo? Dou um pequeno sorriso. — E quantas vezes eu preciso dizer que o senhor é meu chefe? Ele arqueia uma sobrancelha, divertido. — Você é uma das poucas pessoas que ainda consegue me contrariar. Coloco a agenda sobre a mesa. — Sua manhã está cheia. Consulta às oito, reunião com a equipe às dez e o senhor ainda precisa revisar aqueles relatórios que deixou comigo ontem. Ele suspira. — Eu sabia que tinha contratado uma secretária ou uma pessoa para me lembrar de viver? Cruzo os braços. — Talvez os dois. Pela primeira vez naquela manhã, vejo um sorriso verdadeiro surgir no rosto dele. E, por um instante, tudo parece normal. Mais tarde, enquanto organizo alguns prontuários na recepção, ouço passos conhecidos se aproximando. — Camila. Levanto o olhar e encontro Leonardo parado ali, com a postura impecável de sempre. — Sim, doutor? Ele hesita por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras. — Hoje à noite vai ter um churrasco na casa do Rogério. Você vai? Sinto meu coração dar um pequeno salto, mas mantenho a expressão neutra. — Vou sim… mas só depois das oito. Tenho prova na faculdade. Ele me observa por um instante mais longo do que o normal. E eu também o observo. Há algo naquele silêncio entre nós que nunca sei nomear. — Certo — ele diz, por fim. Assinto devagar. — Então… eu volto para minha mesa. Dou um passo para trás, tentando recuperar minha postura profissional, mas sinto o olhar dele ainda em mim enquanto me afasto. Cheguei à casa do meu cunhado, Rogério, com o corpo moído depois da prova na faculdade. O cheiro de churrasco ainda pairava no ar, acolhedor. Logo na entrada, encontrei minha irmã, Liz, e a abracei forte. — Amém que você chegou! — ela sorriu, retribuindo o abraço. — E meus sobrinhos? Cadê essa bagunça? — perguntei, olhando em volta. — Ah, seus sobrinhos já estão dormindo faz tempo — Liz respondeu com uma risada leve. — Que chato! Ninguém fica acordado até tarde nessa casa? — brinquei, balançando a cabeça. Ao lado, Renata tentava segurar o sono, enquanto o pequeno Rael já dormia profundamente no bebê conforto, sob os olhares atenciosos dela e do Rafael. — Essas crianças... não se fazem mais crianças como antigamente! Tudo dormindo cedo! — comentei, fazendo Liz e Renata rirem. Senti um beijo carinhoso na minha bochecha. Era Rogério chegando por trás. — Boa noite, cunhada! Chegou viva da prova? Tá tudo bem? — Sobrevivi, cunhado! Mas vim pela comida, tô morta de fome. — Fica à vontade! Se quiser, pode dormir aqui hoje, já tá bem tarde para você voltar sozinha. — Pode ser, tá tarde mesmo — concordei. — O quarto de hóspedes tá arrumado, mana — Liz avisou. — Pode deitar se quiser, ou se quiser tomar um banho de piscina para relaxar, fica à vontade. — Ótimo, maravilhoso! Mas primeiro: comida. Fui até a mesa e montei meu prato. Enquanto me servia, Anthony e Rosângela se aproximaram para se despedir do pessoal e foram embora. Em seguida, Renata e Rafael também recolheram as coisas, pegaram o bebê conforto com o Rael apagado e se despediram. Em questão de minutos, a casa silenciou. Restavam apenas eu e Leonardo.Camila Com a mala pesada e o coração batendo descompassado no peito, peguei um transporte até a rodoviária. A coragem quase fraquejou no caminho, mas a imagem de Leonardo e daquele consultório abafado bastava para me empurrar para frente.Assim que passei pelas portas de embarque da rodoviária de Itajubá, meus olhos correram pelo saguão lotado até encontrá-lo. Davi estava ali, de pé perto da plataforma, parecendo tenso até o momento em que me viu. Um sorriso enorme iluminou o rosto dele. Ele largou o próprio celular no bolso, correu na minha direção e me abraçou forte, erguendo-me do chão por um segundo antes de me apertar contra o peito.— Eu achei que você não ia chegar a tempo... — ele murmurou no meu ouvido, respirando aliviado. — Perdi o primeiro ônibus, mas consegui cobrir e comprar outra passagem. O embarque é daqui a vinte minutos.— Ah, eu cheguei... foi difícil, mas cheguei — respondi, recuperando o fôlego e olhando para os olhos dele, ainda meio incrédula com o que esta
Leonardo O bar do Raul estava com aquele movimento típico de fim de tarde, misturando o barulho de copos, conversas altas e o som abafado de uma música sertaneja ao fundo. Sentei-me em uma das mesas de madeira no canto, com um copo de cerveja gelada na minha frente, e despejei tudo para o Rafael. Contei cada detalhe da cena no consultório, a frieza de Camila, a demissão repentina, a caixa de bombons ignorada e o meu desespero tentando manter o atendimento no piloto automático o dia todo.O Rafael me ouviu com atenção, balançando a cabeça de vez em quando, entre goles na sua bebida e expressões de quem já imaginava que a nossa história não terminaria bem.— Cara, eu te avisei que vacilar daquele jeito ia cobrar o preço, mas pedir demissão do nada e sumir assim... Ela foi drástica — analisou o Rafael, cruzando os braços sobre a mesa. — Mas calma, Leo. Dá um tempo para a poeira baixar. Ela deve estar de cabeça quente.Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, o celular do Rafael
leonardo Os dias seguintes no consultório foram um verdadeiro teste para a minha sanidade. Camila estava completamente estranha, envolta em uma muralha de gelo que ela fazia questão de manter intransponível sempre que cruzava pelos corredores ou entrava na minha sala. Ela evitava o meu olhar a todo custo, respondia apenas o estritamente necessário e tratava cada interação profissional com uma frieza que me rasgava por dentro. Tentando quebrar aquele gelo e mostrar que eu estava disposto a consertar a burrada que fiz, comprei uma caixa dos bombons que ela mais gostava no final daquela semana. Coloquei o pacote delicadamente sobre a mesa da secretaria, esperando um pingo de clemência. Quando ela voltou para a recepção, olhou para o embrulho como se fosse um objeto tóxico, ergueu uma sobrancelha com desdém e simplesmente o deixou ali em cima do birô, intacto, fingindo que eu sequer existia. O fim de semana se arrastou em uma agonia insuportável, com a minha cabeça remoendo cada se
LeonardoEmpurrei a porta do consultório de Rafael e entrei, sentando-me na cadeira de frente para a mesa dele com o olhar completamente desolado, os ombros caídos e a mente em um looping infinito de culpa.Rafael levantou os olhos do prontuário, analisou minha expressão de derrota por alguns segundos e soltou um suspiro, cruzando os braços.— Desembucha, cara. O que foi que aconteceu? Eu não sou psicólogo, não leio mentes, mas no teu caso tá escrito na testa que fizeste besteira. Diz logo.Soltei um riso seco e sem humor, balançando a cabeça.— Você é um idiota, sabia?— Vai logo, rapaz! Fala o que tá acontecendo antes que eu perca a paciência — Rafael retrucou, erguendo uma sobrancelha, já acostumado com as minhas crises.Passei as mãos pelo rosto, respirando fundo, tomado pelo peso do arrependimento.— Eu beijei a Camila.Rafael arregalou os olhos, endireitando-se na cadeira de imediato.— O quê?! Você beijou o quê? A Camila?— É, a Camila.— E o quê, vocês estão saindo?
Camila — Pode entrar, fica à vontade — falei, me afastando para que ele entrasse, com o coração acelerado e a pele ainda quente pelo beijo de boas-vindas.Ele caminhou até a mesa da sala, deixou a garrafa de vinho ali e me seguiu até a cozinha. O cheiro do macarrão cremoso de panela de pressão já tomava conta do ambiente. Ele se encostou no balcão, acompanhando meus movimentos com um olhar denso, cheio de uma atração que me arrepiava por inteira.Servi o prato fumegante e abrimos o vinho. O almoço fluiu leve, pontuado por risadas, olhares compridos e aquela cumplicidade estranha de quem parecia se conhecer há anos. Mas, no fundo, a intensidade que nos puxava não era apenas um romance arrebatador. Para mim, era uma febre. Uma anestesia urgente. Cada toque dele, cada sorriso retribuído era a minha fuga desesperada de um passado frustrante, da sensação de sufocamento que o Leonardo e aquele consultório tinham deixado na minha vida. Eu não queria pensar; queria apenas me preencher daq
Camila — Não sei se você vai aceitar... — ele murmurou perto do meu ouvido, a voz rouca provocando um arrepio instantâneo na minha nuca. — Mas a gente tá com uma química tão gostosa. Se você quiser, claro, a gente podia estender a noite no hotel...Olhei para ele, sentindo o rosto esquentar, mas sustentando o olhar com um sorriso misterioso.— Vou pensar... — provoquei.— Pensa com carinho. Pensa com carinho, princesa — disse ele, apertando minha cintura com um pouco mais de força, me colando ainda mais nele. Em seguida, desceu os lábios até o meu pescoço, deixando um beijo demorado ali antes de dar uma leve mordidinha na minha orelha que me fez perder a respiração por um segundo.— Você nem me falou se é comprometido ou não...Ele deu uma risada gostosa, achando graça da minha desconfiança.— Sou não, princesa. Sou não! Não estaria aqui com você se fosse.— Ah, que bom saber, então — respondi, sentindo uma pontada de alívio.Olhei ao redor na praça lotada, procurando pela b







