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Capítulo 3

Autor: Mara Santos
last update Fecha de publicación: 2026-08-03 01:03:09

Camila

Ele estava encostado perto da área da piscina, segurando uma garrafa de cerveja. Aproximei-me trazendo o meu prato — com apenas um pedaço pequeno de carne, uma colher de arroz e uma porção discreta de legumes —, além de uma cerveja gelada na outra mão.

​— Boa noite, chefinho — provoquei com um sorriso de canto.

​Ele balançou a cabeça, rindo fraco.

​— Aqui não, Camila. Pode tirar o "chefinho", pode tirar o "doutor", pode tirar o "senhor", pelo amor de Deus. Aqui eu sou apenas o Leo.

​Dei uma risada, sentando-me na borda da piscina e molhando os pés na água morna.

​— Eu sei, eu sei.

​Ele olhou para a quantidade pequena de comida no meu prato e depois deu um gole na cerveja.

​— Você só come isso? — perguntou, curioso.

​— Depois da cirurgia cardíaca, há anos, nunca mais voltei a comer como antes — expliquei com serenidade, dando um gole na minha cerveja. — Preciso cuidar muito bem da minha saúde. É sempre um pouquinho de cada coisa, tudo bem regrado.

​— É, eu sei... — ele respondeu, com o olhar atento e respeitoso. — Uma cirurgia cardíaca não é brincadeira. Mas você se cuida muito bem, Camila.

​— Tenho que cuidar, né? Mas hoje eu me permito relaxar um pouco no drink — brinquei, erguendo a garrafa em um brinde silencioso.

​Ele sorriu, retribuindo o gesto.

​O tempo foi passando. As horas voaram sem que percebermos, e logo o relógio já marcava dez da noite. A casa estava em total silêncio. Todo mundo já tinha subido para dormir e ficamos apenas nós dois ali, no calor da noite, à beira da piscina.

​A cerveja e os drinks já tinham começado a fazer efeito. O ar solto e descontraído deu lugar a uma coragem meio tonta, transformando nossa conversa em um jogo informal de perguntas indiretas — quase como uma brincadeira de Verdade ou Desafio.

​Entre um gole e outro, as perguntas iam ficando cada vez mais pessoais, lançadas no ar entre risadinhas e olhares prolongados.

Tudo começou sem querer.

​— Tá, minha vez — falei, apoiando o queixo na mão e dando um sorriso de canto. — Qual foi a coisa mais maluca que você já fez por causa de uma paciente irritante?

​Leonardo deu uma risada baixa, balançando a garrafa de cerveja.

​— Uma vez fingi que meu bipe estava tocando para escapar de uma acompanhante que queria me pagar um jantar a todo custo — ele confessou, divertido. — Agora minha vez... Qual é o seu maior defeito trabalhando comigo?

​— Essa é fácil — respondi sem piscar. — Ter que fingir que não ouço quando você resmunga sozinho na sala enquanto lê prontuário.

​Ele gargalhou, negando com a cabeça.

​— Golpe baixo, Camila. Minha vez de novo: se você pudesse mudar uma única coisa no consultório hoje, o que mudaria?

​Olhei para ele por cima da garrafa, sustentando o olhar.

​— O chefe. Ele é exigente demais.

​— Ah, é? — Leonardo arqueou a sobrancelha, inclinando o corpo um pouco mais na minha direção. O ar entre nós pareceu mudar de temperatura. — Então me diz... Qual é o maior segredo que a minha secretária esconde de mim?

​Engoli em seco. O tom da voz dele tinha ficado mais baixo, mais denso.

​— Secretárias não contam seus segredos, doutor.

​— A gente combinou: aqui não tem "doutor" — ele lembrou, com um sorriso de canto que fez meu peito tremer. — E já que você não respondeu essa... eu faço outra.

​Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos, girando a garrafa entre os dedos, antes de me encarar fixamente com aqueles olhos profundos.

​— Você já se interessou por algum dos médicos do consultório? Ou do hospital?

​Travei. O riso brincalhão sumiu da minha boca. O silêncio que se seguiu foi tão denso que dava para ouvir o som da água da piscina. Baixei os olhos, tentando fugir do olhar dele.

​Ele inclinou-se ainda mais na minha direção, surpreso com a minha reação.

​— Não... Sério?

​Ainda de cabeça baixa, sentei sobre as pernas, sem saber onde meter a cara. Sentindo o peso da minha hesitação, Leonardo se aproximou. Devagar, ele ergueu a mão e segurou meu queixo com delicadeza, me forçando a encarar seus olhos.

​— Eu nunca percebi que me olhava diferente? — ele murmurou, a voz rouca pela bebida e pela proximidade.

​— Não tinha como você perceber, Leo... — sussurrei, sentindo meu coração disparar no peito. — Você tem muitas mulheres na sua vida.

Ele reduziu a distância e me beijou.

​Foi um beijo de cinema. Ele me puxou para o colo dele com força, enlaçando minha cintura enquanto uma de suas mãos se emaranhava nos meus cabelos. O beijo começou intenso, faminto, como se estivesse guardado há meses, e foi ficando cada vez mais profundo, me fazendo esquecer onde estávamos, a faculdade, o consultório e o mundo inteiro lá fora.

​O som de passos pesados ecoando na pedra da área externa rompeu o momento.

​Nos afastamos num pulo. Larguei o colo do Leonardo imediatamente, tentando arrumar o cabelo com as mãos trêmulas enquanto o Rogério aparecia, encarando a gente bem desconfiado.

​— O que é que tá acontecendo aqui, gente? Tá tudo bem?

​— Tá... tá ótimo! Tá tudo ótimo! — me apressei em dizer, tentando disfarçar a arfagem na respiração. — Rogério, cunhado, eu... eu já vou deitar.

​Olhei para o Leonardo, que tentava disfarçar a postura, com a camisa meio amarrotada e os lábios avermelhados.

​— Tchau, Leonardo. Até amanhã.

​Um sorriso contido, cúmplice e cheio de segredo surgiu no rosto dele.

​— Tchau, Camila... Até amanhã.

​Trocamos um último olhar carregado de eletricidade antes de eu me virar e subir as escadas às pressas para o quarto, sentindo minhas pernas bambas e meu coração batendo feito louco no peito.

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Comentarios (1)
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Tatiane
Que beijo foi esse quero mais deles
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