LOGINA ideia de viajar para o Texas surgiu de forma natural, como se o universo tivesse resolvido nos dar uma pausa depois de tantos meses de luta, de dor, de perdas e de vitórias. Miguel estava sentado no sofá, com Luna no colo, os olhos fixos na janela cinzenta de Paris, e eu percebi que ele precisava de ar, de sol, de espaço. Precisava voltar para um lugar onde a vida parecia mais simples, onde as feridas podiam cicatrizar com mais facilidade.— Miguel. — eu disse, sentando ao lado dele. — Eu tenho uma ideia.— Que ideia?— Vamos visitar os meus pais no Texas. Dessa vez, a Helena vai com a gente. A família toda reunida.Ele me olhou,
Os dias que se seguiram à morte do Sr. Abernati foram silenciosos e pesados, como se o mundo tivesse resolvido diminuir o ritmo para nos dar tempo de processar a perda, como se cada amanhecer trouxesse consigo uma nova camada de luto que precisava ser vivida, sentida, aceita.Miguel ficou em silêncio na maior parte do tempo. Ele acordava cedo, tomava banho, tomava café com a gente, mas os olhos dele estavam distantes, como se estivesse olhando para um lugar que eu não conseguia ver. Ele segurava Luna no colo por longos períodos, apenas olhando para ela, e eu sabia que ele estava pensando no pai, nas palavras que tinham sido ditas, nas palavras que nunca seriam ditas.— Você está bem? — eu perguntei, uma manhã, sentando ao lado dele no sofá.
A ligação chegou às seis da manhã, e eu acordei com o som do telefone vibrando na mesa de cabeceira como um alarme que anunciava o fim. Miguel atendeu antes que eu pudesse me mexer, e eu vi a expressão dele mudar em segundos, a cor sumir do rosto, os olhos se encherem de uma dor que eu conhecia bem demais.— O que aconteceu? — eu perguntei, sentando na cama.— Meu pai. — ele disse, a voz falhando. — Ele piorou. Estão transferindo ele para Paris. Para o hospital.— Miguel...— Eu preciso ir. — ele disse, levantando-se da cama, os movimentos apressados, quase automáticos. — Eu preciso ir a
A manhã seguinte amanheceu fria e cinzenta, com uma neblina leve cobrindo as ruas da cidadezinha no interior da França, e eu acordei antes do despertador, os olhos fixos no teto do quarto de hotel, sentindo o peso daquele dia se instalar no meu peito como uma pedra que eu não conseguia remover.Miguel dormia ao meu lado, o rosto relaxado, a respiração lenta e profunda, e eu fiquei ali por um longo momento, apenas observando-o, apenas agradecendo por ele estar ali, por ele ter conseguido chegar até o pai, por ele ter tido a coragem de enfrentar a mãe e lutar pelo que era seu por direito. Ele tinha passado por tanta coisa nas últimas semanas, e eu sabia que aquele dia ia ser um dos mais difíceis da vida dele.Luna estava no berço ao lado, os olhos abertos, os bracinhos se movendo no ar como se estivesse ten
A estrada para o interior da França era longa e silenciosa, e eu dirigi por horas sem dizer uma palavra, os olhos fixos no asfalto que se estendia à minha frente como uma linha infinita, a mente girando em círculos, o coração apertado no peito. Rosa estava ao meu lado, a mão dela descansando sobre a minha, e de vez em quando ela apertava os dedos, como se quisesse me lembrar de que estava ali, de que eu não estava sozinho.— Você está bem? — ela perguntou, quando faltavam poucos quilômetros para a cidade.— Não sei. — respondi, a voz rouca. — Estou com medo.— Medo do quê?— De chegar tarde demais. De não conseguir dizer tudo o que eu preciso dizer. De ver ele assim, tão frágil, e não saber o que fazer.— Você vai saber. — ela disse, a voz suave. — Você é o filho dele. Vocês vão se entender.— Eu espero.Quando chegamos à cidade, eu deixei Rosa no hotel que tínhamos reservado, um lugar simples, com janelas que davam para uma praça tranquila.— Você não quer que eu vá com você? — ela p
Os dois dias que se seguiram à conversa com Thomas foram os mais longos da minha vida, e eu os passei em um estado de ansiedade que não me deixava dormir, não me deixava comer, não me deixava pensar em nada além do meu pai.Thomas tinha entrado com a ação judicial na manhã seguinte ao nosso encontro na mansão, e eu fiquei em casa, esperando, andando de um lado para o outro, olhando para o telefone a cada cinco minutos, como se pudesse apressar o tempo com a força do meu desejo. Rosa tentava me acalmar, me trazia chá, me abraçava, dizia que ia dar tudo certo, mas eu sabia que ela também estava preocupada.— Miguel, você precisa comer alguma coisa. — ela disse, na tarde do segundo dia, colocando um prato na minha frente.— Não estou com fome.— Eu sei. Mas você precisa.— Rosa...— Não discute comigo. Come.Eu obedeci, porque não tinha forças para discutir. Comi em silêncio, os olhos fixos no prato, a mente em outro lugar.Naquela noite, eu quase não dormi. Fiquei deitado na cama, os ol







