LOGINQuando cheguei em casa, fui direto para o meu quarto e me deparei com a imensidão de caixas espalhadas por todos os lados. Amanhã seria, finalmente, o dia da minha mudança.
Como presente de formatura, meu pai me deu um apartamento totalmente mobiliado. No início, minha mãe odiou a ideia de eu morar sozinha, mas sossegou quando ele conseguiu comprar uma unidade exatamente no andar de cima do dela Meus pais são separados desde os meus dezesseis anos, mas mantemos o ritual sagrado de estarmos juntos todo domingo. Ignorei o caos das caixas, tomei um banho demorado e capotei na cama. Durante a noite, aquele desconhecido do bar invadiu meus sonhos de uma forma perturbadora. A sensação daquela voz grave e dos olhos azuis fixos em mim não saía da minha cabeça. Acordei decidida: eu voltaria naquele lugar só para esbarrar nele de novo. Levantei cedo e, como não iria à academia, saí para correr. Me olhei no espelho do hall antes de sair e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Gosto do contraste dos meus fios bem pretos e densos com a minha pele clara. Ele tem aquela textura tipicamente carioca: a raiz é lisa, mas o comprimento desce em ondas volumosas que chegam até a minha cintura. Eu me sinto poderosa com ele assim — selvagem e bem cuidado. Tenho um metro e meio de pura determinação. Sou pequena, mas meu corpo é definido pela rotina de treinos e pela genética que me deu curvas que aprendi a valorizar. Coloquei meus fones e desci. O calçadão da Barra ainda estava calmo, com aquele frescor da manhã que eu amo. No caminho de volta, passei na padaria para garantir o café. Assim que entrei no prédio, o Seu Silva, nosso porteiro, me chamou: — Senhorita Nunes, aqui estão as suas chaves. Seu pai as deixou comigo para que os montadores finalizassem os móveis esta semana. — Obrigada, Seu Silva! — Peguei o molho de chaves e fui para o elevador. Quando a porta abriu, dei de cara com o Júlio, já de roupa de treino e uma cara de poucos amigos. — Nossa, Júlio! Quer me matar de susto? — brinquei. — Bom dia para você também, Katy. Mais tarde passo lá para te ajudar com as caixas — ele me deu um beijo carinhoso na testa e seguiu para a academia do condomínio. Enquanto o elevador subia, lembrei de como nos conhecemos. Eu tinha 15 anos e ele 16. Júlio se tornou meu guardião depois de me defender de um vizinho babaca na piscina, e desde então fomos inseparáveis. Tomei café com a minha mãe — uma despedida dramática, já que eu estava mudando apenas um lance de escadas acima. Tentei ser séria, mas comecei a rir quando ela fez cara de choro. — Mãe, eu vou morar no andar de cima, não na China! Você só vai subir dois lances de escada, ou um andar no elevador, para me visitar, não pegar um avião. — Já que sou tão engraçada, senhorita, trate de me ajudar — ela rebateu, tentando disfarçar a emoção. — Assim que acabar sua mudança, vamos buscar as coisas da sua avó. Minha mãe decidiu que, com a minha saída, minha avó viria morar com ela no meu antigo quarto. Ela já está velhinha e a situação com a minha prima Sandra, que nunca para em casa, estava difícil. Coincidentemente, minha avó morava no segundo andar, perto do apartamento do Júlio. Prometi que cuidaria de tudo. Comecei a subida das caixas para o meu "novo refúgio". O apartamento estava impecável. A sala, com o piso de porcelanato acetinado, parecia enorme com a luz do sol batendo no sofá de linho off-white. As paredes em tom de areia davam uma paz imediata, e a vista panorâmica para o mar da Barra era o ponto alto. A cozinha era minimalista em preto e branco, com uma bancada de quartzo moderna. Mas o meu quarto... a parede em tom de terracota trazia o calor que eu queria, e a banheira de imersão no banheiro era o toque final de luxo. — O projeto ficou incrível, né? — Júlio apareceu na porta equilibrando algumas caixas pesadas. — Muito engraçado você. Anda, coloca isso no quarto e vamos buscar o resto! Passamos a tarde no vaivém, finalizando minha mudança e depois trazendo as coisas da vovó. À noite, Ana apareceu com comida chinesa e abrimos um vinho. Minha mãe me presenteou com um jogo de taças de cristal: — Toda mulher que mora sozinha precisa de um par dessas. Quando todos foram embora, o silêncio da casa nova me abraçou. Finalmente sozinha. Enchi a banheira, acendi um aroma e relaxei... mas minha mente logo voltou para aquele homem do bar. No domingo, terminei de organizar os últimos detalhes e liguei para o meu pai para o nosso jantar semanal. Ele nunca — absolutamente nunca — faltou a um compromisso comigo. — Oi, querida! Como está o apartamento novo? — ele atendeu, mas sua voz parecia distante, quase tensa. — Oi, pai! Está tudo ótimo. E o nosso jantar? Vamos no lugar de costume? Houve um silêncio estranho do outro lado da linha. — Oh... desculpe, minha filha. Surgiu um evento de última hora com a diretoria do banco. É algo burocrático, mas inadiável. Podemos deixar para o próximo domingo? — Mas pai... é meu primeiro domingo na casa nova — soltei, sem conseguir esconder a decepção. — Eu sei, meu amor. Mil desculpas. Eu compenso você durante a semana, prometo. Boa noite. Ele desligou antes que eu pudesse protestar. Fiquei encarando a tela do celular com um nó na garganta. Meu pai nunca remarcava nossos encontros. E o tom de voz dele... parecia assustado. O fato de ele nem ter insistido em passar aqui por dez minutos me deixou profundamente intrigada com o meu pai. Como minha mãe tinha saído com minha avó e meus amigos estavam ocupados, o silêncio do apartamento agora parecia grande e sufocante demais. Deitada na cama, a imagem dos olhos azuis cristalinos do bar voltou a me assombrar. Era a última coisa em que eu conseguia pensar antes de adormecer, tentando calar a sensação incômoda no peito... A sensação de que algo muito grande estava prestes a mudar na minha vida. E eu não fazia ideia se seria para o bem ou para o mal."Bom dia. Não se esqueça do nosso jantar hoje à noite. Pego você às oito. — Ian."A mensagem do Ian foi o meu despertador hoje. Desde que recebi aquele buquê avassalador de rosas vermelhas na agência, não consigo parar de pensar nesse jantar. Ele passou os últimos dias fora da empresa, resolvendo vistorias nas filiais, o que só fez a expectativa aumentar. Na noite anterior, saí do trabalho e encontrei minha mãe para comprar o figurino perfeito para esta noite e ir ao salão fazer as unhas. Ela também tinha um encontro com o novo namorado e, por mais que não admitisse o rótulo, já estava na cara que a história ali era séria.Acordei e me arrumei para o expediente com praticidade: coloquei um vestido azul bem leve e sapatilhas macias. Cheguei e fui direto tomar café na cantina junto com a Viviane e o Fernando. Eu já estava me acostumando a essa rotina com eles e, pelo visto, alguma coisa estava rolando entre os dois. Quando o Fernando se levantou para ir ao banheiro, aproveitei a opor
Se eu dissesse que a senhorita Katy Nunes não passa pela minha cabeça a cada cinco minutos, eu estaria mentindo de forma vergonhosa.Desde aquela noite no bar, ela se tornou uma obsessão silenciosa. Mas depois do que aconteceu ontem à noite... a história mudou de figura. Lembrar do audacioso golpe que ela me deu no meu próprio escritório, da boca dela me envolvendo de forma devastadora e da audácia com que ela interrompeu tudo só para me deixar no limite da loucura já seria o bastante para me desestabilizar. Só que o evento da noite seguinte no apartamento dela foi a gota d'água.A cena do intruso no hall não saía da minha mente. Eu tinha ido até a casa dela com uma garrafa do meu melhor vinho, na intenção de mostrar quem realmente dava as cartas depois do espetáculo que ela deu na agência. E o que eu encontrei? Um cara de terno, com cara de bom moço, agindo como se tivesse o direito de estar ali, dividindo comida e um clima íntimo com a minha anjinha. A troca de olhares com aquele
Katy Nunes Cheguei ao prédio correndo, com o salto do scarpin estalando no piso do hall. Passei primeiro no apartamento da minha família para checar se estava tudo bem. Minha mãe e minha avó — que, para minha surpresa, já estava de volta de viagem — estavam conversando na sala. Dei um beijo rápido no rosto de cada uma.— Como você está bonita, minha estrelinha! — minha avó comentou, me olhando de cima a baixo com um carinho acolhedor.— Obrigada, vó! Tenho que subir correndo, o Júlio já deve estar quase chegando — respondi, sorrindo e acenando antes de sair.Subi para o meu apartamento. Minha ideia original era vir direto da agência, mas lembrei a tempo de que não tinha nada pronto para beliscar. Passei no mercado do bairro e comprei alguns itens rápidos e uma torta de chocolate belga recheada que parecia simplesmente divina.Entrei no meu espaço, guardei a torta na geladeira, tomei um banho rápido e troquei a roupa de trabalho por algo extremamente confortável: um shorts jeans m
KatySegunda-feira. O dia em que o jogo de sedução deixaria de ser apenas sobre olhares cruzados à distância, indiretas ao telefone e mensagens carregadas de intenção. Acordei com uma energia completamente diferente, uma urgência pulsante no peito que nem o banho gelado daquela manhã conseguiu aplacar. Eu queria o Ian, mas não de qualquer jeito. Tinha que ser nos meus termos, ditando o ritmo, mostrando que eu sabia exatamente o poder que exercia sobre ele.Escolhi um visual que gritava autoridade, elegância e sensualidade sem precisar de esforço algum. Separei um vestido midi transpassado em tom terracota profundo, com decote transpassado em V e um drapeado impecável na cintura que abraçava minhas curvas como uma segunda pele, deixando uma fenda discreta na perna. Por cima, joguei um blazer estruturado de alfaiataria xadrez em tons de marrom e bege, que dava o toque corporativo e sério que o ambiente exigia. Nos pés, scarpins de bico fino em tom vinho envernizado. O cabelo foi domad
Ian Parker Acordei no sábado com uma ressaca física e moral. O "quase" na cozinha da Katy tinha me deixado em um estado de frustração que eu não experimentava há anos. Passei metade da noite em claro, amaldiçoando a campainha e a amiga inconveniente que apareceu na hora errada. A imagem da Katy com aquele vestido preto justo, o batom vermelho e a pele macia sob os meus dedos parecia gravada a ferro e fogo na minha mente. Meu apartamento parecia grande e frio demais naquela manhã. Fui para a varanda, vestindo apenas um calção de banho, sentindo o vento bater no rosto. Como costumo manter a pele sempre bem bronzeada — gosto de aproveitar o sol carioca sempre que posso —, decidi que aquele dia exigia um pouco de praia para esvaziar a cabeça. Mas antes, o desejo acumulado cobrou seu preço. Entrei no chuveiro e, sob a água que corria pelo meu corpo, fechei os olhos. A imagem da Katy se abaixando bem devagar na minha frente, fazendo o vestido subir pelas coxas, tomou conta do meu pens
Katy Nunes Acordei com uma dor de cabeça martelando na fonte. A mistura do vinho da noite anterior com a tensão que o Ian provocava no meu corpo cobrou seu preço. Por um momento, minha única vontade era passar o dia inteiro na cama só olhando a hora passar, mas ficar sozinha naquele apartamento era um perigo. Vai que o Ian decidisse invadir meu espaço novamente? A Ana estava de plantão no hospital e não poderia me salvar com outro velório inventado desta vez; se ele aparecesse, com certeza o tal do “A+” iria rolar.Tomei um banho gelado para espantar a ressaca, vesti um short jeans bem velhinho e uma blusa de malha larga e desci os lances de escada para a casa da minha mãe.— Oi, meu amor! Que saudade — ela me recebeu com aquele abraço apertado que só mãe sabe dar. — Entra! Sua avó foi para a casa da tia Mirian hoje. Eu já estava achando que passaria o sábado inteiramente sozinha.Minha mãe, desde que se separou do meu pai, só sabia viver para o trabalho. Ela é uma advogada bri







