LOGINKaty Nunes
A segunda-feira chegou com o alarme do celular tocando pontualmente às seis da manhã. Levantei da cama ainda com a sensação amarga do cancelamento do meu pai na noite anterior. Tentei mandar uma mensagem de bom dia para ele antes de ir para o banho, mas a resposta demorou a chegar — e quando veio, foi apenas um emoji de coração genérico. Definitivamente, algo estranho estava acontecendo. Deixei as preocupações de lado e foquei na minha imagem. Era o dia da reunião geral na agência e a primeira vez que eu seria apresentada a toda a equipe executiva. Escolhi uma calça alfaiataria preta de cintura alta, uma camisa de seda off-white e um blazer estruturado. Deixei meus cabelos negros soltos em ondas bem definidas caindo pelas costas e passei um batom suave. No espelho, a mulher pequena de um metro e meio parecia pronta para dominar o setor financeiro. Cheguei à agência com vinte minutos de antecedência. O prédio comercial no coração da Barra da Tijuca era imponente, com fachadas espelhadas e recepção em mármore. — Bom dia, Dona Katy! — o porteiro me cumprimentou com um sorriso amável. — Bom dia, Seu Marcos! Subi pelo elevador social até o oitavo andar. A atmosfera no escritório da Monteiro & Associados estava diferente da semana anterior. Havia um burburinho incomum nos corredores, pessoas andando apressadas com pastas na mão e a recepcionista atendendo chamadas sem parar. — Bom dia, Katy — meu secretário, Fernando, disse assim que me viu aproximar da minha mesa. — A Senhora Monteiro já pediu para avisar que a reunião na sala de conferências foi antecipada em dez minutos. - Antecipada? Ocorreu algum problema? — perguntei, ajeitando a bolsa na cadeira e pegando meu bloco de anotações. — Parece que a diretoria executiva passou por uma reestruturação no final de semana — Fernando sussurrou, parado na porta. — Disseram que o sócio majoritário assumiu o controle da agência hoje. Ninguém esperava por isso. Apertei o bloco contra o peito. Reestruturação? Sócio majoritário? Ninguém tinha mencionado nada disso durante o meu processo seletivo na semana passada. Caminhei pelo corredor até a sala de conferências principal. A porta de vidro fosco estava entre aberta. Ao entrar, notei que a mesa de jacarandá já estava cercada por executivos, diretores de arte e a própria Senhora Monteiro, que me acenou discretamente indicando uma cadeira vaga perto do canto. Sentei-me em silêncio, abrindo meu caderno de anotações e alinhando minha caneta. — Atenção todos, por favor — a Senhora Monteiro tomou a palavra, com sua postura rígida e voz firme de sempre. — Como a maioria já deve ter ouvido através dos boatos no corredor, a agência passou por uma mudança societária expressiva que entrou em vigor neste final de semana. O silêncio na sala ficou tão denso que era possível ouvir o zumbido do ar-condicionado. — A partir de hoje — continuou ela —, o controle das operações e das finanças da agência passa a responder diretamente ao nosso novo Diretor-Executivo e acionista majoritário. Quero que recebam o Senhor Gabriel Rossi. A porta da sala de conferências se abriu com um baque seco. Passos firmes e pausados ecoaram pelo piso alinhado. Um homem de terno sob medida cinza-chumbo entrou na sala, exalando uma aura de autoridade inquestionável que fez todos os presentes ajustarem a postura na cadeira. Ele tinha a pele bronzeada, ombros largos e uma presença imponente que parecia diminuir o espaço ao redor. Quando ele se virou para encarar a mesa, senti o ar fugir completamente dos meus pulmões. Cabelos cor de mel perfeitamente alinhados. Traços marcantes. E aqueles olhos azuis cristalinos intensos, frios e terrivelmente familiares. O homem do bar Meus dedos congelaram sobre a caneta. O coração deu um salto violento contra minhas costelas, batendo com tanta força que tive certeza de que a pessoa ao meu lado conseguiria ouvir. Era ele. O mesmo homem em quem eu tinha esbarrado no banheiro do bar no Jardim Oceânico. O mesmo homem cuja voz grave habitou meus pensamentos e meus sonhos durante todo o final de semana. Ian Parker passou o olhar calmamente por cada pessoa na sala, analisando os rostos com uma frieza calculada. Quando seus olhos finalmente pousaram sobre mim, no canto da mesa, vi suas sobrancelhas se erguerem imperceptivelmente por uma fração de segundo. Um brilho de reconhecimento cruzou suas íris azuis, mas durou apenas um piscar de olhos antes de voltar à sua expressão impenetrável. — Bom dia a todos — a voz dele ressoou pela sala. Grave, aveludada e firme. Exatamente como naquela noite. — A partir de hoje, todas as métricas, contratos e relatórios financeiros passarão diretamente pelo meu crivo. Não tolerarei erros. Engoli em seco, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas minhas costas. — A equipe financeira já preparou o balanço preliminar deste mês? — Ian perguntou, voltando o olhar diretamente para a Senhora Monteiro. — Sim, Senhor Parker. A nossa nova contadora, Katy Nunes, encarregou-se de organizar o relatório inicial na semana passada — a Senhora Monteiro respondeu, apontando na minha direção. Ian girou o corpo lentamente em minha direção. Ele apoiou as duas mãos espalmadas sobre a mesa de madeira, inclinando-se ligeiramente. O olhar azul cristalino cravou-se no meu de um jeito que fez minha respiração falhar. — Katy Nunes... — ele pronunciou meu nome devagar, degustando cada sílaba com aquele tom aveludado. — Espero que seu trabalho com os números seja mais atento do que seus passos no corredor de um bar. A sala inteira ficou em silêncio. Alguns executivos se entreolharam, confusos com o comentário. Sentia meu rosto queimar de vergonha e choque, mas reuni cada gota de orgulho que tinha para não abaixar a cabeça. — Meus números são impecáveis, Senhor Parker — respondi, sustentando o olhar dele com a voz o mais firme que consegui. — Você poderá comprovar assim que analisar meu relatório. O canto dos lábios dele se curvou em um sorriso quase imperceptível — perigoso e desafiador. — Veremos, Senhorita Nunes — ele disse, desfazendo o contato visual e voltando-se para o restante da equipe. — A Reunião está encerrada. Katy, no Escritório da Márcia em dez minutos. Com a pasta financeira completa. Ele se virou e saiu da sala sem esperar por uma resposta, deixando um rastro de um perfume amadeirado marcante e um rastro de caos na minha mente."Bom dia. Não se esqueça do nosso jantar hoje à noite. Pego você às oito. — Ian."A mensagem do Ian foi o meu despertador hoje. Desde que recebi aquele buquê avassalador de rosas vermelhas na agência, não consigo parar de pensar nesse jantar. Ele passou os últimos dias fora da empresa, resolvendo vistorias nas filiais, o que só fez a expectativa aumentar. Na noite anterior, saí do trabalho e encontrei minha mãe para comprar o figurino perfeito para esta noite e ir ao salão fazer as unhas. Ela também tinha um encontro com o novo namorado e, por mais que não admitisse o rótulo, já estava na cara que a história ali era séria.Acordei e me arrumei para o expediente com praticidade: coloquei um vestido azul bem leve e sapatilhas macias. Cheguei e fui direto tomar café na cantina junto com a Viviane e o Fernando. Eu já estava me acostumando a essa rotina com eles e, pelo visto, alguma coisa estava rolando entre os dois. Quando o Fernando se levantou para ir ao banheiro, aproveitei a opor
Se eu dissesse que a senhorita Katy Nunes não passa pela minha cabeça a cada cinco minutos, eu estaria mentindo de forma vergonhosa.Desde aquela noite no bar, ela se tornou uma obsessão silenciosa. Mas depois do que aconteceu ontem à noite... a história mudou de figura. Lembrar do audacioso golpe que ela me deu no meu próprio escritório, da boca dela me envolvendo de forma devastadora e da audácia com que ela interrompeu tudo só para me deixar no limite da loucura já seria o bastante para me desestabilizar. Só que o evento da noite seguinte no apartamento dela foi a gota d'água.A cena do intruso no hall não saía da minha mente. Eu tinha ido até a casa dela com uma garrafa do meu melhor vinho, na intenção de mostrar quem realmente dava as cartas depois do espetáculo que ela deu na agência. E o que eu encontrei? Um cara de terno, com cara de bom moço, agindo como se tivesse o direito de estar ali, dividindo comida e um clima íntimo com a minha anjinha. A troca de olhares com aquele
Katy Nunes Cheguei ao prédio correndo, com o salto do scarpin estalando no piso do hall. Passei primeiro no apartamento da minha família para checar se estava tudo bem. Minha mãe e minha avó — que, para minha surpresa, já estava de volta de viagem — estavam conversando na sala. Dei um beijo rápido no rosto de cada uma.— Como você está bonita, minha estrelinha! — minha avó comentou, me olhando de cima a baixo com um carinho acolhedor.— Obrigada, vó! Tenho que subir correndo, o Júlio já deve estar quase chegando — respondi, sorrindo e acenando antes de sair.Subi para o meu apartamento. Minha ideia original era vir direto da agência, mas lembrei a tempo de que não tinha nada pronto para beliscar. Passei no mercado do bairro e comprei alguns itens rápidos e uma torta de chocolate belga recheada que parecia simplesmente divina.Entrei no meu espaço, guardei a torta na geladeira, tomei um banho rápido e troquei a roupa de trabalho por algo extremamente confortável: um shorts jeans m
KatySegunda-feira. O dia em que o jogo de sedução deixaria de ser apenas sobre olhares cruzados à distância, indiretas ao telefone e mensagens carregadas de intenção. Acordei com uma energia completamente diferente, uma urgência pulsante no peito que nem o banho gelado daquela manhã conseguiu aplacar. Eu queria o Ian, mas não de qualquer jeito. Tinha que ser nos meus termos, ditando o ritmo, mostrando que eu sabia exatamente o poder que exercia sobre ele.Escolhi um visual que gritava autoridade, elegância e sensualidade sem precisar de esforço algum. Separei um vestido midi transpassado em tom terracota profundo, com decote transpassado em V e um drapeado impecável na cintura que abraçava minhas curvas como uma segunda pele, deixando uma fenda discreta na perna. Por cima, joguei um blazer estruturado de alfaiataria xadrez em tons de marrom e bege, que dava o toque corporativo e sério que o ambiente exigia. Nos pés, scarpins de bico fino em tom vinho envernizado. O cabelo foi domad
Ian Parker Acordei no sábado com uma ressaca física e moral. O "quase" na cozinha da Katy tinha me deixado em um estado de frustração que eu não experimentava há anos. Passei metade da noite em claro, amaldiçoando a campainha e a amiga inconveniente que apareceu na hora errada. A imagem da Katy com aquele vestido preto justo, o batom vermelho e a pele macia sob os meus dedos parecia gravada a ferro e fogo na minha mente. Meu apartamento parecia grande e frio demais naquela manhã. Fui para a varanda, vestindo apenas um calção de banho, sentindo o vento bater no rosto. Como costumo manter a pele sempre bem bronzeada — gosto de aproveitar o sol carioca sempre que posso —, decidi que aquele dia exigia um pouco de praia para esvaziar a cabeça. Mas antes, o desejo acumulado cobrou seu preço. Entrei no chuveiro e, sob a água que corria pelo meu corpo, fechei os olhos. A imagem da Katy se abaixando bem devagar na minha frente, fazendo o vestido subir pelas coxas, tomou conta do meu pens
Katy Nunes Acordei com uma dor de cabeça martelando na fonte. A mistura do vinho da noite anterior com a tensão que o Ian provocava no meu corpo cobrou seu preço. Por um momento, minha única vontade era passar o dia inteiro na cama só olhando a hora passar, mas ficar sozinha naquele apartamento era um perigo. Vai que o Ian decidisse invadir meu espaço novamente? A Ana estava de plantão no hospital e não poderia me salvar com outro velório inventado desta vez; se ele aparecesse, com certeza o tal do “A+” iria rolar.Tomei um banho gelado para espantar a ressaca, vesti um short jeans bem velhinho e uma blusa de malha larga e desci os lances de escada para a casa da minha mãe.— Oi, meu amor! Que saudade — ela me recebeu com aquele abraço apertado que só mãe sabe dar. — Entra! Sua avó foi para a casa da tia Mirian hoje. Eu já estava achando que passaria o sábado inteiramente sozinha.Minha mãe, desde que se separou do meu pai, só sabia viver para o trabalho. Ela é uma advogada bri







