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capítulo 4

Author: Any L.
last update publish date: 2026-09-01 18:44:29

Katy Nunes

Os dez minutos pareceram voar. Caminhei pelo corredor com a pasta de couro preta apertada contra o peito, o som dos meus saltos ecoando no piso espelhado. Fernando, meu secretário — um ruivo alto e extremamente eficiente —, me lançou um olhar preocupado quando passei por sua mesa.

— Boa sorte, Katy — sussurrou ele. — Ele parece ser o tipo de chefe que come contadores no café da manhã.

Respirei fundo, ajeitei a gola do meu blazer e parei diante da sala da Márcia. Como Ian tinha acabado de voltar para a agência, a sala da diretoria ainda estava sendo usada por ela para a transição. Três batidas firmes na porta.

— Entre — a voz grave ressoou lá de dentro.

Girei a maçaneta. Ian Parker estava de pé junto à janela, com o paletó desabotoado e as mãos nos bolsos da calça. Márcia não estava na sala.

Quando a porta se fechou com um clique, ele se virou lentamente. A luz do sol cortava o ambiente, destacando os traços marcantes do seu rosto e o olhar azul cristalino fixo em mim.

— Senhorita Nunes. Pontual — disse ele, caminhando com passos calculados até a grande mesa de jacarandá. — Aproxime-se.

Caminhei em sua direção e depositei a pasta sobre a mesa.

— Aqui está o relatório financeiro consolidado dos últimos meses, Senhor Parker. Incluí as despesas fixas, o balancete de receita e as projeções do próximo trimestre.

Ian não abriu a pasta de imediato. Ele contornou a mesa devagar, parando a uma distância perigosamente curta. O perfume amadeirado dele dominou meus sentidos, e a diferença de altura ficou evidente — precisei erguer o queixo para sustentar o contato visual.

— Você parece menos assustada agora do que na sexta-feira à noite — ele comentou, o tom de voz baixo e envolvente. — No bar, parecia ter visto um fantasma.

Senti minhas bochechas esquentarem, mas mantive a postura.

— Eu não estava assustada. Apenas surpresa por ter sido desatenta — respondi, cruzando as mãos à frente do corpo. — E acreditei que tínhamos vindo discutir os números da agência, não incidentes em corredores de bares.

O canto da boca dele se curvou em um sorriso contido e perigoso.

— Profissionalismo. Notável — ele deu mais um passo, diminuindo ainda mais o espaço entre nós. — No entanto, como acionista majoritário, preciso ter certeza de que a equipe financeira é extremamente observadora. Se você não nota um homem no corredor, como saberei se não deixará passar um erro milionário na contabilidade?

— Garanto que meus olhos são muito mais atentos a números do que a homens distraídos em um bar, Senhor Parker — rebati, sem hesitar. — Se houver um centavo fora do lugar, a responsabilidade será inteiramente minha.

Ian cravou os olhos nos meus por longos segundos. A tensão no ar era palpável, misturando o rigor profissional com um magnetismo denso e inegável.

Finalmente, ele se debruçou sobre a mesa, abriu a pasta e folheou as primeiras páginas com rapidez calculada. O silêncio reinou na sala, quebrado apenas pelo som dos papéis virando.

Após minutos de análise silenciosa, ele fechou a pasta com um baque seco e voltou o olhar para mim.

— A estrutura inicial está aceitável — declarou ele, assumindo uma postura estritamente corporativa. — Mas vou precisar de um pente-fino em todos os contratos antigos a partir de amanhã. E temos outro detalhe para resolver agora.

— Diga, Senhor Parker.

— Como estou passando a acompanhar a gestão presencialmente, não posso continuar despachando da sala da Márcia — ele se encostou na borda da mesa, cruzando os braços. — A sala de marketing ao lado da sua, no seu andar, está vaga, correto?

— Sim, está desocupada.

— Perfeito. Essa será a minha nova sala — disse ele, encarando-me fixamente. — Quero que você tome a frente disso pessoalmente para acelerar o processo. Fale com a equipe de limpeza e com a administração do prédio para garantir que o espaço esteja impecável até amanhã cedo. Em seguida, acione o RH: preciso que abram um processo seletivo urgente para contratar uma secretária executiva para mim.

Pisquei, surpresa por receber tarefas administrativas diretamente dele.

— Eu posso instruir o Fernando para alinhar isso com o setor predial e o RH...

— Não quero apenas que avise, Katy. Quero que você coordene para que nada falhe — ele me interrompeu, a voz aveludada carregada de uma autoridade que não aceitava recusas. — Preciso da minha estrutura operacional pronta sem ter que me preocupar com detalhes logísticos. Posso confiar em você para isso?

Sustentei seu olhar provocativo, sentindo o desafio no ar.

— O espaço estará pronto e o RH já terá os perfis selecionados até o fim do dia, Senhor Parker.

— Excelente — o sorriso imperceptível voltou a curvar seus lábios. — Está liberada. Nos vemos no nosso andar.

Peguei meu bloco de anotações e me virei para sair. Enquanto caminhava até a porta, sentia o olhar azul cristalino de Ian Parker queimando em minhas costas, deixando claro que a partir daquele dia, minha rotina na agência nunca mais seria a mesma.

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