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CAPÍTULO 1

Penulis: Aldinha B.
last update Tanggal publikasi: 2026-03-11 23:25:13

Enrico Novaz

"Tudo é um contrato. Até os sentimentos, se você souber sufocá-los."

Foi a primeira coisa que aprendi quando percebi que confiança era apenas uma forma elegante de se preparar para ser traído.

A caneta dourada girava lentamente entre meus dedos enquanto o advogado terminava de explicar algo que eu já tinha parado de ouvir há alguns minutos.

O escritório estava silencioso demais.

Luxuoso demais.

Frio demais.

Exatamente do jeito que eu gostava.

Vidros do chão ao teto exibiam a cidade de São Paulo pulsando lá embaixo. Carros como pequenas formigas correndo pelas avenidas. Pessoas vivendo suas vidas insignificantes.

Nada disso me interessava.

Minha atenção estava no papel sobre a mesa de mogno.

Um contrato.

Um casamento.

Uma formalidade ridícula.

Peguei a caneta.

Assinei.

Sem hesitar.

Sem perguntar.

Sem levantar os olhos.

O som da tinta deslizando pelo papel parecia definitivo.

O advogado soltou um suspiro.

— Você não quer nem ver uma foto da moça?

Levantei o olhar lentamente.

Ele estava me observando como quem tenta entender se está diante de um homem ou de um problema.

Essa expressão eu conhecia bem.

Surpresa.

Misturada com julgamento.

Dei um sorriso curto. Seco.

— Isso é um negócio. Não um encontro romântico.

Ele ajeitou os óculos, desconfortável.

— Mas ela será sua esposa, Enrico. Mesmo que… tecnicamente, seja só por um ano.

Apoiei os cotovelos sobre a mesa.

Entrelacei os dedos.

— Exatamente. Um ano.

Minha voz saiu calma.

Controlada.

— Depois disso, cada um segue sua vida. Ela terá o que precisa. Eu terei o que me convém. Nada mais.

O silêncio caiu sobre a sala como uma sentença.

A caneta voltou a deslizar pelo papel enquanto eu assinava a segunda página.

A terceira.

A quarta.

Contrato.

Cláusulas.

Testemunhas.

Formalidades.

A vida inteira das pessoas podia ser resumida em papéis como aqueles.

Era curioso.

Casamentos terminavam em divórcios.

Empresas quebravam.

Promessas morriam.

Mas contratos… contratos sobreviviam a tudo.

Talvez fosse por isso que eu confiava mais em papéis do que em pessoas.

Porque papéis não mentem.

Pessoas sim.

Especialmente quando dizem que amam você.

Me recostei na cadeira.

Passei a mão pela mandíbula.

A barba por fazer arranhou meus dedos.

Sentir.

Essa palavra já teve significado para mim um dia.

Hoje era apenas um erro que eu não cometia mais.

Porque eu já cometi antes.

E paguei caro demais por isso.

Uma mulher.

Um sorriso.

Promessas.

Traição.

Lembro perfeitamente da noite em que descobri.

Mensagens no celular.

Risadas.

Segredos.

O tipo de coisa que transforma um homem apaixonado em um homem frio.

Depois daquela noite, aprendi algo essencial.

Amor não passa de uma negociação mal feita.

Você entrega tudo.

Recebe migalhas.

E no final ainda agradece pela humilhação.

Não.

Nunca mais.

Amor é para idiotas.

E eu deixei de ser um deles há muito tempo.

O advogado empurrou o contrato em minha direção.

— Ainda há tempo de desistir.

Levantei uma sobrancelha.

— Desistir?

— Seu avô era um homem… peculiar. Talvez ele não imaginasse que essa cláusula pudesse realmente ser levada a sério.

Soltei uma pequena risada.

Meu avô.

O velho sempre soube exatamente onde atingir.

Mesmo morto.

Especialmente morto.

A cláusula estava clara no testamento.

Estar legalmente casado por um período mínimo de um ano para assumir o controle total do Grupo Novaz.

Um capricho absurdo.

Um teste idiota.

Ou talvez uma última tentativa de transformar o neto problemático em um homem respeitável.

O problema é que ele esqueceu um detalhe.

Eu sempre fui melhor em jogar o jogo do que qualquer um.

Inclinei-me para frente.

— O velho queria um casamento?

Peguei a caneta novamente.

— Então ele terá um.

Assinei a última página.

O advogado respirou fundo.

— E a moça? Você sequer sabe quem ela é.

Olhei para ele como se estivesse explicando algo muito simples para uma criança.

— Ela é alguém que aceitou um acordo.

Isso bastava.

Ou melhor…

Vai aceitar.

Porque quando a necessidade b**e à porta, os princípios pulam pela janela.

E dinheiro tem um talento impressionante para resolver dilemas morais.

Cruzei os braços.

— Qual é mesmo o nome dela?

Ele olhou os papéis.

— Valentina Monteiro.

O nome pairou no ar por alguns segundos.

Não significava absolutamente nada para mim.

Nenhuma memória.

Nenhuma imagem.

Nenhuma curiosidade.

Ela podia ser bonita.

Podia ser insuportável.

Podia ser uma santa.

Ou um desastre ambulante.

Nada disso mudava o fato mais importante.

Ela fazia parte de um acordo.

E acordos não exigem sentimentos.

Apenas assinaturas.

Levantei da cadeira.

O advogado também se levantou.

— O encontro oficial acontecerá amanhã.

Ajustei o relógio no pulso.

— Organize tudo.

— E se ela recusar?

Parei na porta.

Olhei para trás.

A pergunta quase me fez sorrir.

— Ela não vai recusar.

— Você parece muito confiante.

Voltei a caminhar.

— Não é confiança.

Peguei meu casaco.

— É experiência.

Pessoas fazem coisas incríveis quando estão desesperadas.

Elas mentem.

Traem.

Vendem princípios.

Vendem sonhos.

Vendem a própria vida.

E se a história que me contaram for verdadeira…

Valentina Monteiro está exatamente nesse ponto.

Pressionada.

Sem saída.

Precisando de dinheiro.

O tipo perfeito de pessoa para um contrato.

Abri a porta do escritório.

Antes de sair, virei novamente.

— Prepare também um acordo pré-nupcial.

— Com quais cláusulas?

Pensei por um segundo.

— Sem interferência na minha vida pessoal.

Outro segundo.

— Sem expectativas emocionais.

Mais um.

— Sem ilusões.

O advogado anotava rapidamente.

— Mais alguma coisa?

Sim.

Havia uma.

Mas essa eu não precisava colocar no papel.

Porque era uma regra que eu mesmo seguia.

Sempre.

Nunca se apegar.

Nunca confiar.

Nunca amar.

Saí do escritório.

A noite da cidade me engoliu.

O elevador espelhado refletia a mesma imagem de sempre.

Terno escuro.

Olhar frio.

Um homem que construiu um império.

E destruiu qualquer chance de ser feliz no caminho.

O celular vibrou no bolso.

Uma mensagem do advogado.

A família da moça já foi informada.

Guardei o telefone.

Ótimo.

Agora era só esperar.

Porque em menos de vinte e quatro horas…

Eu conheceria a mulher que seria minha esposa.

Por um ano.

Uma estranha.

Uma assinatura.

Uma formalidade.

E depois disso…

Nada.

Ou pelo menos era isso que eu acreditava.

O que eu ainda não sabia…

Era que Valentina Monteiro não era o tipo de mulher que aceita contratos em silêncio.

E muito menos o tipo que se deixa comprar.

O problema?

Eu descobriria isso tarde demais.

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