INICIAR SESIÓNEnrico Novaz
"Tudo é um contrato. Até os sentimentos, se você souber sufocá-los."
Foi a primeira coisa que aprendi quando percebi que confiança era apenas uma forma elegante de se preparar para ser traído.
A caneta dourada girava lentamente entre meus dedos enquanto o advogado terminava de explicar algo que eu já tinha parado de ouvir há alguns minutos.
O escritório estava silencioso demais.
Luxuoso demais.
Frio demais.
Exatamente do jeito que eu gostava.
Vidros do chão ao teto exibiam a cidade de São Paulo pulsando lá embaixo. Carros como pequenas formigas correndo pelas avenidas. Pessoas vivendo suas vidas insignificantes.
Nada disso me interessava.
Minha atenção estava no papel sobre a mesa de mogno.
Um contrato.
Um casamento.
Uma formalidade ridícula.
Peguei a caneta.
Assinei.
Sem hesitar.
Sem perguntar.
Sem levantar os olhos.
O som da tinta deslizando pelo papel parecia definitivo.
O advogado soltou um suspiro.
— Você não quer nem ver uma foto da moça?
Levantei o olhar lentamente.
Ele estava me observando como quem tenta entender se está diante de um homem ou de um problema.
Essa expressão eu conhecia bem.
Surpresa.
Misturada com julgamento.
Dei um sorriso curto. Seco.
— Isso é um negócio. Não um encontro romântico.
Ele ajeitou os óculos, desconfortável.
— Mas ela será sua esposa, Enrico. Mesmo que… tecnicamente, seja só por um ano.
Apoiei os cotovelos sobre a mesa.
Entrelacei os dedos.
— Exatamente. Um ano.
Minha voz saiu calma.
Controlada.
— Depois disso, cada um segue sua vida. Ela terá o que precisa. Eu terei o que me convém. Nada mais.
O silêncio caiu sobre a sala como uma sentença.
A caneta voltou a deslizar pelo papel enquanto eu assinava a segunda página.
A terceira.
A quarta.
Contrato.
Cláusulas.
Testemunhas.
Formalidades.
A vida inteira das pessoas podia ser resumida em papéis como aqueles.
Era curioso.
Casamentos terminavam em divórcios.
Empresas quebravam.
Promessas morriam.
Mas contratos… contratos sobreviviam a tudo.
Talvez fosse por isso que eu confiava mais em papéis do que em pessoas.
Porque papéis não mentem.
Pessoas sim.
Especialmente quando dizem que amam você.
Me recostei na cadeira.
Passei a mão pela mandíbula.
A barba por fazer arranhou meus dedos.
Sentir.
Essa palavra já teve significado para mim um dia.
Hoje era apenas um erro que eu não cometia mais.
Porque eu já cometi antes.
E paguei caro demais por isso.
Uma mulher.
Um sorriso.
Promessas.
Traição.
Lembro perfeitamente da noite em que descobri.
Mensagens no celular.
Risadas.
Segredos.
O tipo de coisa que transforma um homem apaixonado em um homem frio.
Depois daquela noite, aprendi algo essencial.
Amor não passa de uma negociação mal feita.
Você entrega tudo.
Recebe migalhas.
E no final ainda agradece pela humilhação.
Não.
Nunca mais.
Amor é para idiotas.
E eu deixei de ser um deles há muito tempo.
O advogado empurrou o contrato em minha direção.
— Ainda há tempo de desistir.
Levantei uma sobrancelha.
— Desistir?
— Seu avô era um homem… peculiar. Talvez ele não imaginasse que essa cláusula pudesse realmente ser levada a sério.
Soltei uma pequena risada.
Meu avô.
O velho sempre soube exatamente onde atingir.
Mesmo morto.
Especialmente morto.
A cláusula estava clara no testamento.
Estar legalmente casado por um período mínimo de um ano para assumir o controle total do Grupo Novaz.
Um capricho absurdo.
Um teste idiota.
Ou talvez uma última tentativa de transformar o neto problemático em um homem respeitável.
O problema é que ele esqueceu um detalhe.
Eu sempre fui melhor em jogar o jogo do que qualquer um.
Inclinei-me para frente.
— O velho queria um casamento?
Peguei a caneta novamente.
— Então ele terá um.
Assinei a última página.
O advogado respirou fundo.
— E a moça? Você sequer sabe quem ela é.
Olhei para ele como se estivesse explicando algo muito simples para uma criança.
— Ela é alguém que aceitou um acordo.
Isso bastava.
Ou melhor…
Vai aceitar.
Porque quando a necessidade b**e à porta, os princípios pulam pela janela.
E dinheiro tem um talento impressionante para resolver dilemas morais.
Cruzei os braços.
— Qual é mesmo o nome dela?
Ele olhou os papéis.
— Valentina Monteiro.
O nome pairou no ar por alguns segundos.
Não significava absolutamente nada para mim.
Nenhuma memória.
Nenhuma imagem.
Nenhuma curiosidade.
Ela podia ser bonita.
Podia ser insuportável.
Podia ser uma santa.
Ou um desastre ambulante.
Nada disso mudava o fato mais importante.
Ela fazia parte de um acordo.
E acordos não exigem sentimentos.
Apenas assinaturas.
Levantei da cadeira.
O advogado também se levantou.
— O encontro oficial acontecerá amanhã.
Ajustei o relógio no pulso.
— Organize tudo.
— E se ela recusar?
Parei na porta.
Olhei para trás.
A pergunta quase me fez sorrir.
— Ela não vai recusar.
— Você parece muito confiante.
Voltei a caminhar.
— Não é confiança.
Peguei meu casaco.
— É experiência.
Pessoas fazem coisas incríveis quando estão desesperadas.
Elas mentem.
Traem.
Vendem princípios.
Vendem sonhos.
Vendem a própria vida.
E se a história que me contaram for verdadeira…
Valentina Monteiro está exatamente nesse ponto.
Pressionada.
Sem saída.
Precisando de dinheiro.
O tipo perfeito de pessoa para um contrato.
Abri a porta do escritório.
Antes de sair, virei novamente.
— Prepare também um acordo pré-nupcial.
— Com quais cláusulas?
Pensei por um segundo.
— Sem interferência na minha vida pessoal.
Outro segundo.
— Sem expectativas emocionais.
Mais um.
— Sem ilusões.
O advogado anotava rapidamente.
— Mais alguma coisa?
Sim.
Havia uma.
Mas essa eu não precisava colocar no papel.
Porque era uma regra que eu mesmo seguia.
Sempre.
Nunca se apegar.
Nunca confiar.
Nunca amar.
Saí do escritório.
A noite da cidade me engoliu.
O elevador espelhado refletia a mesma imagem de sempre.
Terno escuro.
Olhar frio.
Um homem que construiu um império.
E destruiu qualquer chance de ser feliz no caminho.
O celular vibrou no bolso.
Uma mensagem do advogado.
A família da moça já foi informada.
Guardei o telefone.
Ótimo.
Agora era só esperar.
Porque em menos de vinte e quatro horas…
Eu conheceria a mulher que seria minha esposa.
Por um ano.
Uma estranha.
Uma assinatura.
Uma formalidade.
E depois disso…
Nada.
Ou pelo menos era isso que eu acreditava.
O que eu ainda não sabia…
Era que Valentina Monteiro não era o tipo de mulher que aceita contratos em silêncio.
E muito menos o tipo que se deixa comprar.
O problema?
Eu descobriria isso tarde demais.
Enrico Novaz"Ela disse que devia ter fugido com ele... Com ele. Com o desgraçado do ex-namorado dela.E isso… me destruiu mais do que eu gostaria de admitir. E eu jamais vou admitir isso para ninguém."— Senhor Novaz?Levantei os olhos devagar do tampo de mogno da mesa de reunião.O meu assistente executivo me encarava, visivelmente tenso, com uma pasta colada ao peito. Na tela gigante de projeção à minha frente, o slide da apresentação sobre a fusão dos ativos internacionais da Novaz Holding estava congelado na mesma página há mais de dez minutos.— Tudo certo, senhor? Quer que eu repita os números do terceiro trimestre? — ele perguntou, engolindo em seco.Assenti com um aceno curto e mecânico de cabeça.— Continue.Mas a verdade é que eu não ouvi mais uma única palavra. As vozes na sala de conferências viraram um zumbido distante e irrelevante. A única coisa que ecoava dentro da minha caixa craniana, em um looping infernal, era a voz dela:"Era para eu ter fugido com o Dani." Infe
Valentina Monteiro"Se ele achava que podia me beijar como se eu fosse dele…E depois me ignorar como se eu não fosse nada…Ele ainda não conheceu o meu pior. Ah, Enrico... você está muito enganado. Eu nunca serei sua. Nunca."Acordei em mais um dia com os olhos ardendo e a cabeça pesada. A lembrança do beijo daquela noite tempestuosa ainda queimava no meu peito como uma brasa viva.Foi raiva. Foi impulso. Foi um momento de puro descontrole de ambas as partes.Mas, no fundo... foi verdade. Uma verdade crua e incômoda que a gente finge não ver para conseguir sobreviver debaixo do mesmo teto.E ele? Depois do que aconteceu naquela noite em que a mansão ficou sem energia, Enrico passou a me ignorar friamente. Fingia que eu era invisível durante o dia. Passava por mim nos corredores como se eu fosse apenas um movél da sua mansão, ou mais um dado estatístico nos gráficos de lucros e perdas da empresa dele. Aquela indiferença calculada me corroía por dentro.Então não. Eu não ia descer mai
Enrico Novaz"Não foi só um beijo.Foi um aviso.Ela entrou.E agora... eu não sei como tirar ela daqui."Não estava no contrato.O beijo não fazia parte do acordo assinado e selado. Era para ser apenas um negócio frio, um pacto de conveniência com prazo de validade, regras rígorosas e limites muito bem definidos. Eu pagava as contas do pai dela, e ela me dava a presença conveniente de uma esposa de fachada perante a sociedade. Simples. Prático. Indolor.Mas aquele beijo mudou alguma coisa. Ele estilhaçou a linha invisível que eu passei semanas construindo entre nós.Respirei fundo, tentando forçar o ar para dentro de pulmões que pareciam colapsar. Subi para o meu quarto em passos largos, o som dos meus sapatos batendo no mármore ecoando como um alerta na casa silenciosa, e bati a porta pesada de madeira com força. O estrondo reverberou pelo corredor vazio, mas de nada adiantou: parecia que a sala de estar, o escuro da tempestade e o calor daquela mulher ainda estavam grudados na min
Valentina Monteiro"Tem beijos que a gente odeia antes, deseja durante…E se arrepende depois.Esse foi um deles."O Enrico ficou algum tempo encarando a escuridão lá fora pela janela, o corpo rígido como uma estátua de mármore no meio da penumbra da sala. Depois de longos minutos de um silêncio sufocante, ele se virou e voltou para perto de mim, o queixo erguido e os passos lentos, como se estivesse buscando recuperar o controle que sentia fugir pelas mãos.— Conseguiu se controlar? — questionei com um sorriso irônico, cruzando os braços.— Você está me desafiando, Valentina? — ele perguntou, com aquele olhar cinza queimando direto nos meus limites, a voz saindo baixa e perigosa.— Estou te lembrando que você não manda em mim — rebati na hora, mantendo a postura firme, embora meu coração estivesse socando minhas costelas com fúria.Ele sorriu de canto. Um sorriso frio, cínico, profundamente cruel. O tipo de sorriso de quem sabe exatamente onde enfiar a faca para girar.— Engraçado…
Enrico Novaz"Ela não grita. Não chora.Mas cada provocação dela está me rasgando por dentro."O som dos saltos dela ecoando pela casa é a trilha sonora do meu inferno particular.Desde o jardim, desde aquele sorrisinho de canto, o olhar por cima dos óculos escuros e a frase venenosa… Valentina virou meu caos pessoal.E o pior? Ela sabe.Cada passo dela é calculado para me desestabilizar. Cada roupa, cada olhar, cada comentário sutil e carregado de ironia… Ela está me empurrando para um abismo no qual jurei nunca mais pisar. Ela se recusa a ser a vítima frágil que eu esperava, e essa coragem insolente é exatamente o que me atrai como uma mariposa para a chama.Me tranquei no escritório tentando trabalhar, buscando refúgio no único ambiente que sempre foi o meu santuário de controle e números frios. Mas o perfume dela ainda estava no ar. Ainda pairava sobre o estofado do sofá. O mesmo perfume da noite passada. Aquela maldita combinação entre flor e veneno.Sentei à mesa. Liguei o noteb
Valentina Monteiro"Se ele quer jogar?Então se senta e assiste, querido. Porque eu sou a tempestade que sorri antes de destruir."Ele me ignorou.Fez parecer que o nosso abraço na noite passada foi um grande erro. Um momento de fraqueza que ele pretendia apagar da memória como se apaga um rabisco de lápis num papel.E tudo bem. Quer dizer, não está nada bem. Meu peito ainda queimava de raiva e de uma mágoa que eu odiava admitir que sentia. Mas eu não ia chorar de novo. Não por ele.Afinal… foi ele quem me puxou para perto quando a tempestade desabava lá fora. Ele quem pediu, com a voz embargada e os olhos vulneráveis, para eu ficar. Ele quem falou, baixo e rouco, que se perdia sem mim.E agora? Agora ele nem sequer levanta os olhos do maldito jornal durante o café da manhã?Pois então tá. Se o jogo é de orgulho… eu sei jogar de salto alto.Por volta das três da tarde, o hospital me ligou. O meu coração quase saltou pela boca achando que o estado do meu pai tinha piorado, e saí de cas







