ログインValentina Monteiro
“Dizem que toda mulher sonha com o dia do seu casamento. Com o vestido branco. Com flores. Com música.”
Eu Valentina Monteiro também sonhei com esse dia.
Quando era pequena, eu passava horas olhando as vitrines das lojas de noiva no centro da cidade. Minha mãe dizia que um dia eu também usaria um vestido daqueles. Que o amor da minha vida estaria me esperando no altar.
Naquela época, casamento significava amor.
Significava promessa.
Significava escolha.
Mas ninguém me contou que, às vezes, o casamento chega como uma sentença.
E que o vestido branco pode muito bem parecer uma roupa de execução.
Às vezes o destino gosta de fazer brincadeiras cruéis com a gente. E comigo ele resolveu fazer a pior de todas.
Um casamento que eu não queria.
Uma vida que eu nunca desejei.
Com um homem que eu nunca amei.
— Não. Não, não, não! — Minha voz saiu num grito sufocado enquanto minhas pernas falhavam. O chão de mármore da sala girava sob meus pés. — Você não fez isso, Marta. Diz que é mentira!
Minha madrasta não demonstrou nenhuma emoção.
Nenhuma.
Ela estava parada perto da mesa, elegante como sempre, vestida com um conjunto caro que provavelmente custava mais do que todas as roupas que eu tinha no armário.
Os olhos dela estavam frios.
Calculistas.
— Já está feito — disse ela com a calma de quem assina uma receita de bolo. — O contrato foi assinado ontem à tarde. O senhor Novaz nem fez questão de conhecer você. Ele só quer uma esposa formal. Uma mulher que saiba calar a boca e sorrir nas fotos. Vai ser fácil pra você.
— Fácil?! — minha risada saiu trêmula e desesperada. — Você me vendeu como se eu fosse uma mercadoria! Eu sou sua enteada!
Ela deu alguns passos em minha direção. O som dos saltos ecoava pelo chão da sala, cada passo mais pesado que o anterior.
— E seu pai é meu marido. Ou seja, tudo que diz respeito a ele me afeta. E, adivinha, querida? Ele vai morrer se não fizer essa cirurgia.
Meu estômago se contraiu.
As palavras atravessaram meu peito como uma faca.
Meu pai.
A imagem dele apareceu na minha mente. O rosto cansado, a pele pálida, o sorriso fraco que ele insistia em me dar toda vez que eu entrava no quarto.
— E você? Vai ser a responsável se isso acontecer.
Ela se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que eu sentisse o hálito dela, carregado do cheiro doce de licor caro.
— Você vai se casar com Enrico Novaz. Vai vestir o vestido, sorrir, e agradecer por não estarmos todos morando na rua.
Meu corpo inteiro ficou gelado.
Antes que eu pudesse reagir, ela segurou meu braço.
Com força.
Eu tentei me soltar.
— Me solta! — gritei, tentando me afastar. — Isso é loucura!
— Isso é sobrevivência, Valentina.
Os dedos dela apertaram mais.
— E você não tem escolha.
Meu peito parecia pequeno demais para tanto ar.
Eu precisava sair dali.
Precisava respirar.
Precisava pensar.
Sem dizer mais nada, me soltei e corri para fora da casa.
Peguei meu celular com mãos trêmulas que quase deixei o celular cair quando o tirei do bolso.
Disquei o número que conhecia até de olhos fechados.
A tela acendeu.
Respirei fundo.
— Dani… — sussurrei assim que ele atendeu. — Aconteceu uma coisa horrível. Preciso te ver. Agora.
Dani chegou ao nosso lugar em quinze minutos.Quinze minutos que pareceram horas.
Nos encontramos no parque onde a gente costumava caminhar aos domingos. O mesmo lugar onde ele me pediu em namoro.
Era estranho estar ali agora.
Antes, aquele lugar significava tranquilidade.
Agora parecia sufocante.
As árvores balançavam com o vento leve da tarde, crianças corriam pelo gramado e casais caminhavam de mãos dadas como se o mundo fosse um lugar simples.
Como se tudo fosse fácil.
Dani apareceu no caminho de pedra correndo.
Assim que me viu, veio direto até mim.
Ele me abraçou forte, e eu enterrei o rosto no peito dele sentindo o cheiro do perfume dele, aquele que sempre me acalmava.
— Amor, o que aconteceu? Você tá pálida… — ele me afastou um pouco, encarando meu rosto. — Fala comigo.
Sentei no banco mais próximo porque minhas pernas simplesmente não aguentavam mais.
O mundo parecia pesado demais
— Minha madrasta… ela... ela me vendeu. — minha voz saiu baixa, como se ainda estivesse tentando acreditar.
Ele piscou.
— Como assim te vendeu?
A expressão dele mudou lentamente de confusão para incredulidade.
— Isso é uma piada?
Balancei a cabeça.
Minhas mãos estavam tremendo sobre o colo.
— Não. Ela... ela fechou um contrato com um CEO. Um homem que eu nunca vi na vida. Ele aceitou casar comigo sem me conhecer. E eu… eu tenho que aceitar, Dani. Ela tá chantageando com a cirurgia do meu pai. Ele precisa operar urgente, e... a gente não tem mais nada.
— Isso é insanidade, Valen! — ele levantou, passando a mão pelos cabelos. — Você não pode fazer isso! Você me ama. Eu te amo. Isso é... isso é crime!
Ele começou a andar de um lado para o outro.
— Eu sei! — gritei, chorando. — Mas se eu não fizer isso... meu pai morre. Você entende? Eu tô sendo empurrada pra isso.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
Doloroso.
Dani parou de andar.
Ele abaixou a cabeça, respirando fundo. Quando levantou os olhos, estavam marejados.
— E se esse cara for um monstro? Se ele te machucar? Você vai mesmo se jogar num casamento com um desconhecido?
Meu peito apertou.
Engoli em seco.
— Não é por mim, Dani. É pelo meu pai. Eu não tenho escolha.
Ele ficou me olhando por alguns segundos.
Depois deu um passo para trás. Depois outro.
E eu soube, no fundo do peito, que mesmo sem querer... eu acabava de perder ele.— Então vai. Vai salvar seu pai. — Ele murmurou com a voz engasgada. — Mas não me peça pra assistir você se entregando pra outro homem.
Me virei, mas as lágrimas me impediram de ver qualquer coisa.
— Dani…
Mas ele já estava se afastando.
Cada passo dele parecia arrancar um pedaço de mim.
Quando desapareceu entre as árvores do parque, percebi uma coisa cruel.
Eu estava completamente sozinha.
Sozinha com um contrato.
Um vestido.
Um nome de marido que eu mal conhecia.
Enrico Novaz.
E um coração completamente despedaçado.
Porque naquele momento eu entendi que salvar meu pai talvez significasse destruir a única vida que eu realmente queria viver.
Valentina Monteiro"Depois de tudo…de todas as dores, brigas, gritos e lágrimas…eu acordei com cheiro de pão quente, chá e cuidado.E entendi:às vezes, o amor começa num gesto simples.Num café.Num olhar."Abri os olhos devagar, ainda meio perdida na transição entre o sonho e a realidade. O lençol bagunçado cobria o meu corpo só até a cintura, e a minha pele… a minha pele ainda guardava a memória viva e quente de cada toque da noite anterior.Mas o que me acordou não foi a luz forte do sol que entrava pelas cortinas. Nem o calor da manhã. Foi o cheiro.Um aroma gostoso de chá de maçã com canela. O cheiro irresistível de pão fresco assado. E, principalmente… a intenção pura e preciosa por trás daquela surpresa.Quando olhei para o lado, ele estava ali. Enrico.Ele estava de pé ao lado da cama, segurando uma grande bandeja de prata com extremo cuidado. Havia copo de suco de laranja natural, frutas cortadas, pães, geléia e o chá fumegante. E no rosto dele… um sorriso contido, quase
Enrico Novaz"Ela dorme.E eu fico ali, olhando…Como quem acabou de encontrar o que procurava a vida inteira."A madrugada foi totalmente nossa e, como foi. Eu a devorei de todos os jeitos possíveis, e ela se entregou a mim com toda a sua intensidade e verdade.Não houve guerra.Não houve gritos.Não houve acusações nem fantasma do passado entre nós.Só pele.Beijo.Entregas sinceras.E agora… ela estava ali. Colada no meu peito. Adormecida. A respiração leve, ritmada e acolhedora contra a minha pele. O corpo nu, coberto apenas até a metade pelo lençol branco e amassado. O rosto calmo, com as bochechas ainda levemente coradas e os lábios macios entreabertos.Eu simplesmente não conseguia parar de olhar. Nem de tocar.Com calma. Com uma reverência que eu nunca soubera que possuía dentro de mim.Passei a ponta dos dedos delicadamente pela linha do maxilar dela, contornei a maçã do rosto e desci pelo ombro macio até alcançar a curva desenhada da sua cintura. A pele dela parecia seda sob
Valentina Monteiro"Eu sempre sonhei com a minha primeira vez igual às que eu lia em livros e via em filmes românticos.Mas ninguém me preparou para quando ela virasse cicatriz."Fazia uma semana. Uma maldita e interminável semana.Sete dias completos. Centenas de horas arrastadas. Milhões de pensamentos desordenados ecoando no silêncio do meu quarto. E todos eles, sem exceção, voltavam para aquela noite. Aquela maldita noite em que ele me tomou sem amor, movido apenas por um ciúme cego e uma fúria injustificável.A mente me levava direto para a dor física. Para o sangue no lençol. Para o olhar estupefato dele saindo do quarto às pressas… sem dizer uma única palavra.No início, eu chorei até ficar sem ar. Depois, me calei. E, por fim, sobrou apenas um vazio imenso e gelado dentro do meu peito.Não saí do meu quarto para absolutamente nada durante todos esses dias. Não quis ver ninguém, pedi para a governanta deixar as refeições na porta e mal consegui encarar o meu próprio reflexo no
Enrico Novaz"Eu a parti de um jeito que não sei se tem conserto algum dia.E agora…Ela me partiu de volta de uma maneira que nunca imaginei ser possível.Com o silêncio mais doloroso que já ouvi em toda a minha vida."Eu simplesmente não consegui terminar.Depois de ver a mancha viva no lençol e entender com um choque aterrador o que eu tinha acabado de fazer, saí de dentro dela e me afastei tomado por um pavor sufocante. Recuei sem olhar para trás, ajuntei minhas roupas do chão com as mãos trêmulas e voltei para o meu quarto.Entrei completamente desnorteado, com um nó tão apertado no peito que mal conseguia puxar o ar para os pulmões. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro no modo mais quente e deixei a água escaldante cair sobre mim, tentando em vão lavar aquela sensação imunda. Mas não saiu. A poeira da culpa continuava impregnada na minha pele.Saí do banho, vesti apenas uma calça de moletom cinza e me deitei na cama. Não dormi. Inferno, o sono nem sequer passou perto de mim.L
Valentina Monteiro"Dói mais quando a gente se entrega esperando cura…E recebe cicatrizes."Eu sempre imaginei que a minha primeira vez seria algo perfeito, suave e especial. Ou que, pelo menos, não seria tão terrivelmente dolorosa, sem a menor réstia de gentileza ou carinho.O quarto estava mergulhado em um silêncio denso e ensurdecedor. Ele tinha saído. Levantou-se da cama sem dizer absolutamente nada, sem me olhar no rosto e sem olhar para trás. Depois que tudo acabou… ou depois que ele viu o que tinha feito… ele simplesmente juntou as próprias roupas do chão e saiu.E eu?Eu fiquei ali. Deitada na penumbra. Com o meu corpo doendo fisicamente e a minha alma sangrando em desespero.Não chorei de imediato. Fiquei longos minutos apenas encarando o teto branco, com a respiração fraca e desordenada, esperando que a minha mente conseguisse processar o horror do que tinha acabado de acontecer. Eu tinha me entregado a ele no meio daquela briga… e no fim, ele foi um monstro.Mas quando ten
Enrico Novaz"A raiva me trouxe até ela.O desejo me consumiu.Mas o que eu encontrei depois…Foi o erro mais cruel da minha vida."Eu estava cego.Cego de ciúmes, de ódio, de uma possessividade doentia e de tudo aquilo que passei a vida inteira tentando não sentir. Ver aquele garoto, o desgraçado do Dani, parado ali… na minha casa… na frente da minha mulher… foi demais para o meu controle.Quando subi, me tranquei no meu quarto. Ela veio em seguida. Bateu na madeira, chamou o meu nome com a voz embargada pelo choro, implorou para que eu abrisse a porta e a deixasse explicar. Mas eu não respondi. Fiquei ali, em pé, no meio da penumbra, com as mãos cravadas na borda da mesa de centro, ouvindo o som dos apertos no meu peito.Depois de um tempo, o silêncio no corredor anunciou que ela tinha ido embora. Fiquei a sós com os meus próprios demônios. Mas eles não me acalmaram; só me instigaram a fazer exatamente tudo o que eu prometera a mim mesmo que jamais faria. Passei as mãos energicament







