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Valentina Monteiro
Não era pra ser assim.
Sempre imaginei que as decisões mais importantes da minha vida seriam minhas. Escolher quem amar. Escolher com quem construir um futuro. Escolher o caminho que eu queria seguir.
Mas naquele momento, parada no meio da sala da casa que um dia foi meu lar, eu percebi que não tinha escolha nenhuma.
“Você vai se casar com ele, Valentina. Não tem opção.”
As palavras saíram frias, venenosas, da boca da minha madrasta. Cada sílaba parecia uma lâmina atravessando o ar.
Aquela mulher nunca gostou de mim. Nunca escondeu isso. Desde que entrou na vida do meu pai, fez questão de deixar claro que eu era um problema inconveniente que ela tolerava apenas por obrigação.
Mas agora havia algo diferente no olhar dela.
Algo cruel.
Algo calculado.
Ela me observava com um sorriso fino, satisfeito, como se estivesse assistindo a um espetáculo.
Como se destruir a minha vida fosse entretenimento.
“Não. Você tá louca.”
A minha risada saiu fraca, nervosa, completamente sem humor.
Tentei respirar fundo, tentando convencer a mim mesma de que aquilo era algum tipo de brincadeira grotesca.
“Eu não vou me casar com um estranho!” minha voz saiu mais alta agora. “E muito menos com um CEO milionário que compra pessoas como se fossem objetos!”
Silêncio.
Ela não respondeu de imediato.
Apenas caminhou lentamente até a mesa da sala, pegou um papel e o levantou no ar como se fosse uma sentença.
“Você vai, sim.”
Meu estômago se contraiu.
“Seu pai precisa de uma cirurgia, Valentina. Urgente.”
O chão pareceu desaparecer sob meus pés.
“E a empresa dele?” ela continuou, com uma calma irritante. “Faliu.”
Cada palavra era um golpe.
“Vocês não têm mais nada... Nós não temos mais nada.”
Meu coração começou a bater descompassado.
“Nem casa.”
Outro golpe.
“Nem dinheiro.”
Mais...
Ela inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse avaliando uma peça defeituosa.
“Só têm a mim… e esse contrato.”
Contrato.
A palavra ecoou na minha cabeça como um trovão.
Minhas mãos começaram a suar. Minha garganta secou. O ar parecia pesado demais para entrar nos meus pulmões.
“Eu tenho namorado.”
Minha voz saiu quase como um sussurro.
“Eu amo ele.”
Ela riu.
Não foi uma risada alta.
Foi pior.
Baixa. Debochada. Cruel.
“Ótimo.”
Ela deu um passo na minha direção.
“Então leve esse amorzinho pro altar com você… e finja que está feliz.”
Senti meu peito apertar.
“Isso é absurdo.”
“É necessário.”
“Isso é doentio!”
“Isso é realidade.”
Antes que eu pudesse reagir, ela agarrou meu braço com força.
As unhas dela cravaram na minha pele.
A dor me fez prender o ar.
Mas nada se comparava à dor que estava se espalhando dentro de mim.
“Você vai casar com Enrico Novaz, entendeu?”
O nome soou pesado.
Frio.
Definitivo.
“Vai sorrir.”
O aperto aumentou.
"Vai dizer sim."
“Vai obedecer.”
Meu braço queimava sob os dedos dela.
“E vai fazer isso pelo seu pai.”
Meu coração parou por um segundo.
“Ou ele morre.”
O mundo ficou em silêncio.
Minha boca queria gritar.
Meu corpo queria fugir.
Mas eu estava paralisada.
Era como se alguém tivesse apertado um botão e desligado tudo dentro de mim.
Medo.
Raiva.
Desespero.
Tudo congelado.
Eu estava sendo vendida.
Vendida como um objeto.
Como um acordo comercial.
Como uma cláusula em um contrato frio.
Para um homem que eu nunca tinha visto.
Um homem que não sabia nada sobre mim.
Um homem que provavelmente nem queria saber.
Meu olhar caiu sobre o papel que ela segurava. Não sei se é o contrato, se fosse...
Meu nome estava ali.
Ao lado de outro nome.
Enrico Novaz.
Um CEO milionário.
Poderoso.
Intocável.
Um homem conhecido por transformar tudo em negócios.
Até pessoas.
Até vidas.
Até casamentos.
E naquele momento eu percebi uma coisa que fez meu estômago afundar.
Esse casamento não era sobre amor.
Não era sobre família.
Não era sobre felicidade.
Era sobre poder.
Controle.
Dinheiro.
E sacrifício.
O meu sacrifício.
Respirei fundo, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair.
Porque a verdade era simples.
Brutal.
Inescapável.
Eu podia lutar.
Eu podia gritar.
Eu podia implorar.
Mas no final…
Eu sabia que perderia.
Porque meu pai estava precisando de mim.
E a vida dele agora tinha um preço.
Um preço que alguém estava disposto a pagar.
Com uma única condição.
Eu.
Ainda assim, havia algo que ninguém naquela sala sabia.
Algo que eu mesma ainda não entendia completamente.
Esse casamento podia ter começado como uma prisão.
Mas ninguém ali fazia ideia do tipo de guerra que estava prestes a começar.
Porque se aquele homem achava que tinha comprado minha vida…
Ele estava muito enganado.
E o pior? Eu ainda não sabia que esse homem era capaz de muito mais do que apenas partir o coração de alguém. Ele ia partir o meu mundo inteiro
Valentina Monteiro"Depois de tudo…de todas as dores, brigas, gritos e lágrimas…eu acordei com cheiro de pão quente, chá e cuidado.E entendi:às vezes, o amor começa num gesto simples.Num café.Num olhar."Abri os olhos devagar, ainda meio perdida na transição entre o sonho e a realidade. O lençol bagunçado cobria o meu corpo só até a cintura, e a minha pele… a minha pele ainda guardava a memória viva e quente de cada toque da noite anterior.Mas o que me acordou não foi a luz forte do sol que entrava pelas cortinas. Nem o calor da manhã. Foi o cheiro.Um aroma gostoso de chá de maçã com canela. O cheiro irresistível de pão fresco assado. E, principalmente… a intenção pura e preciosa por trás daquela surpresa.Quando olhei para o lado, ele estava ali. Enrico.Ele estava de pé ao lado da cama, segurando uma grande bandeja de prata com extremo cuidado. Havia copo de suco de laranja natural, frutas cortadas, pães, geléia e o chá fumegante. E no rosto dele… um sorriso contido, quase
Enrico Novaz"Ela dorme.E eu fico ali, olhando…Como quem acabou de encontrar o que procurava a vida inteira."A madrugada foi totalmente nossa e, como foi. Eu a devorei de todos os jeitos possíveis, e ela se entregou a mim com toda a sua intensidade e verdade.Não houve guerra.Não houve gritos.Não houve acusações nem fantasma do passado entre nós.Só pele.Beijo.Entregas sinceras.E agora… ela estava ali. Colada no meu peito. Adormecida. A respiração leve, ritmada e acolhedora contra a minha pele. O corpo nu, coberto apenas até a metade pelo lençol branco e amassado. O rosto calmo, com as bochechas ainda levemente coradas e os lábios macios entreabertos.Eu simplesmente não conseguia parar de olhar. Nem de tocar.Com calma. Com uma reverência que eu nunca soubera que possuía dentro de mim.Passei a ponta dos dedos delicadamente pela linha do maxilar dela, contornei a maçã do rosto e desci pelo ombro macio até alcançar a curva desenhada da sua cintura. A pele dela parecia seda sob
Valentina Monteiro"Eu sempre sonhei com a minha primeira vez igual às que eu lia em livros e via em filmes românticos.Mas ninguém me preparou para quando ela virasse cicatriz."Fazia uma semana. Uma maldita e interminável semana.Sete dias completos. Centenas de horas arrastadas. Milhões de pensamentos desordenados ecoando no silêncio do meu quarto. E todos eles, sem exceção, voltavam para aquela noite. Aquela maldita noite em que ele me tomou sem amor, movido apenas por um ciúme cego e uma fúria injustificável.A mente me levava direto para a dor física. Para o sangue no lençol. Para o olhar estupefato dele saindo do quarto às pressas… sem dizer uma única palavra.No início, eu chorei até ficar sem ar. Depois, me calei. E, por fim, sobrou apenas um vazio imenso e gelado dentro do meu peito.Não saí do meu quarto para absolutamente nada durante todos esses dias. Não quis ver ninguém, pedi para a governanta deixar as refeições na porta e mal consegui encarar o meu próprio reflexo no
Enrico Novaz"Eu a parti de um jeito que não sei se tem conserto algum dia.E agora…Ela me partiu de volta de uma maneira que nunca imaginei ser possível.Com o silêncio mais doloroso que já ouvi em toda a minha vida."Eu simplesmente não consegui terminar.Depois de ver a mancha viva no lençol e entender com um choque aterrador o que eu tinha acabado de fazer, saí de dentro dela e me afastei tomado por um pavor sufocante. Recuei sem olhar para trás, ajuntei minhas roupas do chão com as mãos trêmulas e voltei para o meu quarto.Entrei completamente desnorteado, com um nó tão apertado no peito que mal conseguia puxar o ar para os pulmões. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro no modo mais quente e deixei a água escaldante cair sobre mim, tentando em vão lavar aquela sensação imunda. Mas não saiu. A poeira da culpa continuava impregnada na minha pele.Saí do banho, vesti apenas uma calça de moletom cinza e me deitei na cama. Não dormi. Inferno, o sono nem sequer passou perto de mim.L
Valentina Monteiro"Dói mais quando a gente se entrega esperando cura…E recebe cicatrizes."Eu sempre imaginei que a minha primeira vez seria algo perfeito, suave e especial. Ou que, pelo menos, não seria tão terrivelmente dolorosa, sem a menor réstia de gentileza ou carinho.O quarto estava mergulhado em um silêncio denso e ensurdecedor. Ele tinha saído. Levantou-se da cama sem dizer absolutamente nada, sem me olhar no rosto e sem olhar para trás. Depois que tudo acabou… ou depois que ele viu o que tinha feito… ele simplesmente juntou as próprias roupas do chão e saiu.E eu?Eu fiquei ali. Deitada na penumbra. Com o meu corpo doendo fisicamente e a minha alma sangrando em desespero.Não chorei de imediato. Fiquei longos minutos apenas encarando o teto branco, com a respiração fraca e desordenada, esperando que a minha mente conseguisse processar o horror do que tinha acabado de acontecer. Eu tinha me entregado a ele no meio daquela briga… e no fim, ele foi um monstro.Mas quando ten
Enrico Novaz"A raiva me trouxe até ela.O desejo me consumiu.Mas o que eu encontrei depois…Foi o erro mais cruel da minha vida."Eu estava cego.Cego de ciúmes, de ódio, de uma possessividade doentia e de tudo aquilo que passei a vida inteira tentando não sentir. Ver aquele garoto, o desgraçado do Dani, parado ali… na minha casa… na frente da minha mulher… foi demais para o meu controle.Quando subi, me tranquei no meu quarto. Ela veio em seguida. Bateu na madeira, chamou o meu nome com a voz embargada pelo choro, implorou para que eu abrisse a porta e a deixasse explicar. Mas eu não respondi. Fiquei ali, em pé, no meio da penumbra, com as mãos cravadas na borda da mesa de centro, ouvindo o som dos apertos no meu peito.Depois de um tempo, o silêncio no corredor anunciou que ela tinha ido embora. Fiquei a sós com os meus próprios demônios. Mas eles não me acalmaram; só me instigaram a fazer exatamente tudo o que eu prometera a mim mesmo que jamais faria. Passei as mãos energicament







