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capítulo 3

last update Data de publicação: 2025-04-29 05:08:24

Estou terminando de me arrumar para o show desta noite quando Felícia aparece na porta do camarim. Diante do espelho, passo o batom vermelho com cuidado e confiro se não borrei os cantos da boca. A boate está lotada, e o movimento de sexta-feira já se faz sentir nos bastidores, entre funcionários apressados e o som da música que atravessa as paredes.

— Lucy, o Leo pediu para você passar no escritório dele antes de entrar no palco.

Interrompo o movimento, ainda segurando o batom. Ele raramente me chama antes das apresentações; costuma resolver tudo com orientações rápidas, sem precisar me afastar da preparação.

— Agora? — pergunto, fechando o batom e ajeitando o vestido curto que uso sobre a lingerie do show.

— Agora — confirma Felícia, lançando-me um olhar curioso.

Deixo o batom sobre a bancada e confiro meu reflexo uma última vez antes de sair. Enquanto atravesso os corredores, tento lembrar se houve algum problema no atendimento ou alguma mudança na programação que ninguém me avisou. Subo as escadas para o andar reservado, diminuindo o passo ao me aproximar do escritório, e bato de leve na porta.

— Entre.

Leo está sentado atrás da mesa, com a gravata afrouxada e as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos. Ergo os olhos para o rosto dele antes que minha atenção se demore demais nos braços expostos, mas o movimento não impede o calor que sinto ao perceber que ele também me observa.

— Pedi que viesse porque quero ajustar sua apresentação — diz. — Temos um cliente especial na casa esta noite. Ele prefere números mais provocativos.

A informação me causa um desconforto imediato. Preparei a coreografia com antecedência e não gosto de alterar uma apresentação minutos antes de subir ao palco.

— O número já é bastante sensual — respondo, procurando manter a voz firme.

— Eu sei. Quero que explore mais a provocação, que sustente os movimentos e trabalhe o olhar.

Ele se levanta e contorna a mesa, parando diante de mim. A proximidade torna difícil prestar atenção apenas no que diz, embora eu continue imóvel, com as mãos unidas à frente do corpo.

— Consegue fazer esse ajuste, Lucy?

Olho diretamente para ele. Há algo naquela atenção que me faz querer responder com mais segurança do que sinto, como se a pergunta também envolvesse a impressão que vou deixar nele.

— Consigo.

O canto de sua boca se move em um sorriso discreto.

— Ótimo. Quero ver isso no palco.

Assinto, mas demoro um instante para me afastar. Ele continua me olhando, e começo a ficar consciente demais do vestido, dos ombros descobertos e da pouca distância entre nós. Preciso voltar ao camarim, conferir a música e me concentrar na apresentação.

— Com licença. Vou terminar de me preparar.

Viro em direção à porta, aliviada por ter encontrado uma maneira de encerrar a conversa.

— Lucy.

Paro com a mão próxima à maçaneta e olho por cima do ombro.

— Você está deslumbrante esta noite.

Por alguns segundos, não sei como responder. Sinto o rosto aquecer, e o agradecimento sai mais baixo do que pretendo. Leo já recuperou a expressão contida de sempre quando abro a porta, mas levo comigo o elogio e a maneira como ele me olhou ao dizê-lo.

A música começa antes que eu alcance o centro do palco. Sob as luzes, o salão se transforma em rostos pouco definidos, mesas iluminadas e movimentos que consigo perceber apenas de relance. Ainda assim, reconheço Leo no camarote reservado, com um copo de uísque na mão e a atenção voltada para mim.

Seguro a barra e inicio a sequência que ensaiei, procurando me apoiar no que conheço. Aos poucos, incorporo os ajustes que ele pediu: diminuo a velocidade de alguns movimentos, sustento as pausas e deixo que meu olhar percorra o público antes de voltar ao camarote. Na primeira vez em que nossos olhos se encontram, quase me distraio da música. Corrijo a postura, acompanho a batida e continuo, agora consciente de que ele não desviou a atenção.

Conheço o efeito de cada gesto e sei reconhecer quando uma apresentação prende o salão. Esta noite, porém, a resposta do público parece distante. A cada volta, procuro Leo de novo, querendo descobrir se ele percebe o que mudou e se aquela expressão séria esconde alguma reação. A coreografia continua sendo a mesma, mas a intenção com que a executo já não é tão fácil de atribuir ao trabalho.

Quando termino, os aplausos me alcançam junto com o esforço que até então eu vinha ignorando. Respiro fundo, faço a última saudação e olho para o camarote antes de sair. Leo permanece me observando, e desço do palco sem conseguir decidir se estou satisfeita com a apresentação ou inquieta pelo que deixei transparecer.

No camarim, apoio as mãos na bancada e espero a respiração se regularizar. Minha pele está úmida de suor, e pego uma toalha para secar o pescoço, evitando encarar o espelho por tempo demais. Felícia entra pouco depois, ainda empolgada.

— Você estava incrível! Sério, fiquei arrepiada.

— Obrigada — respondo, sorrindo enquanto dobro a toalha.

— O que o Leo falou para você lá em cima?

Antes que eu consiga responder, um segurança aparece à porta.

— Lucy, o chefe quer falar com você.

Olho para ele e depois para Felícia, que ergue as sobrancelhas. Deixo a toalha sobre a bancada, confiro rapidamente a maquiagem e saio, tentando não antecipar a conversa. Talvez Leo queira apenas comentar o número, mas a lembrança do elogio antes do show me acompanha por todo o caminho.

Bato na porta do escritório e espero que ele autorize minha entrada. Dessa vez, está junto ao vidro que permite observar a pista de dança. Ao ouvir a porta se fechar, ele se vira e permanece alguns segundos em silêncio.

— Fez exatamente o que pedi — diz. — E superou minhas expectativas.

— Fico feliz. Só procurei fazer bem o meu trabalho.

Leo deixa o copo sobre a mesa e se aproxima. A satisfação pelo elogio se mistura ao nervosismo, sobretudo quando percebo que ele não está interessado em encerrar a conversa.

— Você prendeu a atenção do salão inteiro, Lucy. Inclusive a minha.

Aperto os dedos uns contra os outros, sem saber onde apoiar as mãos. Ele para perto o suficiente para que eu sinta seu perfume, e preciso erguer um pouco o rosto para continuar olhando para ele.

— Eu vi você no camarote — admito.

Seu olhar muda ao ouvir minha resposta, embora eu não saiba dizer exatamente o que ele compreendeu.

— Então sabe que acompanhei cada movimento.

Não respondo. Estou acostumada a ser observada no palco, mas conversar com ele sobre isso, naquele escritório silencioso, me deixa exposta de uma maneira diferente.

— Preciso ser honesto com você — continua. — Está ficando difícil manter as coisas apenas profissionais entre nós.

A declaração me faz esquecer a resposta cuidadosa que eu vinha tentando formular. Penso nas conversas breves, nos olhares que atribuí à supervisão e na satisfação que senti quando Clara me contou que ele havia elogiado meu atendimento. Saber que ele também percebe algo entre nós deveria esclarecer o que sinto, mas apenas torna tudo mais próximo, mais difícil de esconder.

— Leo… — começo, sem conseguir prosseguir.

Ele observa meu rosto e ergue a mão devagar. Tenho tempo de perceber o gesto antes que seus dedos toquem minha face, mas permaneço onde estou. O contato é leve, e acabo inclinando o rosto quase imperceptivelmente em sua direção. Leo acompanha o movimento com os olhos; por um instante, acredito que vai se aproximar mais.

Então ele retira a mão.

— Você deveria voltar para o salão — diz, com a voz mais baixa. — Antes que eu me esqueça das regras que estabeleci para mim mesmo.

Demoro a assentir. Gostaria de perguntar que regras são essas, embora suspeite que conheça a resposta, e parte de mim queira ouvi-lo admitir que está disposto a abandoná-las. Em vez disso, dou um passo para trás e me viro para a porta, cuidando para que meus movimentos não revelem o quanto aquela conversa me afetou.

No corredor, a música volta a ocupar o espaço ao meu redor, e paro por um momento antes de descer. Ainda sinto o toque dele no rosto, mas é a minha própria reação que me inquieta. Eu poderia ter me afastado; ele teria percebido e recuado. Permaneci ali porque queria que continuasse, e agora preciso voltar ao trabalho sabendo que, na próxima vez em que nossos olhares se encontrarem, não vou conseguir fingir que desconheço o motivo.

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