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Capítulo 2

last update publish date: 2025-04-26 06:09:24

A música pulsa alta, e as luzes da boate se alternam em tons vermelhos e dourados enquanto atravesso o salão, equilibrando a bandeja cheia de drinks em uma das mãos. Preciso calcular cada passo para desviar dos clientes que gesticulam no caminho, envolvidos demais nas próprias conversas para perceber quem tenta passar. Em noites como esta, basta um esbarrão para transformar alguns segundos de distração em um problema.

A casa está lotada. É uma sexta-feira de movimento pesado, como o senhor Ávila costuma dizer, e quase não tenho tempo de respirar entre um pedido e outro. Já conheço o ritmo, mas isso não torna o trabalho menos cansativo. Mantenho o sorriso, confiro os pedidos e sigo de uma mesa para outra, porque aqui a simpatia precisa acompanhar a agilidade.

Enquanto atendo perto do palco, vejo Leo circulando pelo salão. Ele conversa brevemente com os funcionários, observa os clientes e acompanha o serviço com uma atenção que nunca parece diminuir. Seu olhar passa por mim e permanece por um instante, antes de seguir para outra mesa. Não há um sorriso ou qualquer gesto que interrompa a distância habitual entre nós, e volto a atenção para a bandeja antes que ele perceba que também o observo.

Depois de servir a mesa oito, me aproximo do bar para buscar os próximos pedidos. Leo está ao lado de Clara, conferindo o fluxo de atendimento em um dos tablets, e ergue os olhos assim que me vê.

— Lucy — chama.

— Senhor Ávila — respondo, parando à sua frente.

— Recebemos uma reserva de última hora para o camarote VIP dois. Quero que você assuma o atendimento lá esta noite.

Ele passa a mão pela barba bem-feita enquanto aguarda minha resposta. Ajusto a bandeja contra o corpo e assinto, sem hesitar.

— Claro, senhor.

— Os convidados são importantes para a casa. Mantenha o atendimento dentro do protocolo.

— Pode confiar.

Leo entrega o tablet a Clara, mas continua olhando para mim.

— Se algum cliente ultrapassar os limites, me avise. Entendido?

— Entendido.

Ele confirma com um pequeno movimento de cabeça, e Clara se aproxima para me entregar um ponto eletrônico.

— Você consegue falar diretamente com a segurança por aqui — explica. — Se precisar, é só acionar.

Ajusto o aparelho atrás da orelha, certificando-me de que está firme. A precaução faz parte do trabalho, especialmente nos camarotes, onde alguns clientes confundem a privacidade com liberdade para agir como querem.

— Tudo certo — digo.

— Boa sorte, Lucy — Leo acrescenta.

Não há nada de incomum nas palavras, mas a maneira como ele as diz me faz erguer os olhos novamente. Sua expressão continua séria, e não encontro nela motivo para a impressão que fica comigo quando me afasto. Talvez seja apenas o cansaço. Ainda tenho uma noite inteira de trabalho pela frente, e prefiro me concentrar nisso.

O camarote VIP dois tem sofás de couro macio, cortinas pesadas e uma iluminação mais baixa que a do salão. A música chega abafada, permitindo que as conversas sejam ouvidas sem esforço. Assim que entro, percebo o perfume intenso que se mistura ao cheiro das bebidas sobre a mesa e assumo a postura que aprendi a manter nesses atendimentos: ombros alinhados, sorriso discreto e atenção aos convidados.

Dois homens de ternos caros e uma mulher de vestido cintilante estão acomodados nos sofás, rindo enquanto consultam a carta de bebidas. O homem de cabelos grisalhos interrompe a conversa para me observar de cima a baixo. O olhar demora o suficiente para me incomodar, mas paro a uma distância confortável da mesa e mantenho a voz firme.

— Boa noite. Meu nome é Lucy e vou atendê-los esta noite. O que desejam pedir?

O grisalho fecha a carta e abre um sorriso.

— Pode começar trazendo o melhor champanhe da casa, querida.

— Claro. Com licença, já volto com o pedido.

Saio sem apressar o passo, embora ainda sinta o desconforto daquele olhar. No bar, repasso a solicitação ao barman responsável pelo setor VIP e aguardo enquanto ele separa a garrafa e prepara a bandeja. Estou conferindo as taças quando Leo se aproxima.

— Algum problema? — pergunta.

— Não, senhor. Tudo sob controle.

Ele olha na direção do camarote antes de voltar a atenção para mim.

— Se precisar de apoio, use o ponto.

— Pode deixar — respondo, com um sorriso discreto.

Por um momento, ele parece considerar alguma coisa, mas apenas assente.

— Estou contando com você esta noite.

Seu olhar permanece no meu enquanto respondo que farei o melhor. Só depois ele se afasta para atender um funcionário que o espera perto do caixa. Acompanho seus passos por um instante, até o barman avisar que o pedido está pronto, e volto ao trabalho com a sensação incômoda de ter dado atenção demais a uma conversa perfeitamente comum.

Retorno ao camarote e apresento a garrafa antes de abri-la. Sirvo o champanhe com cuidado, atenta à posição das taças e aos movimentos dos convidados. Eles retomam a conversa, fazendo comentários baixos que não tento compreender, e aproveito para conferir se precisam de mais alguma coisa. O homem grisalho ainda me observa, mas não faz nenhuma abordagem além dos pedidos, e consigo concluir o atendimento sem dificuldades.

Nas horas seguintes, alterno as idas ao camarote com o serviço nas mesas próximas, sempre conferindo se os convidados precisam de reposição. Quando atravesso o salão com a bandeja vazia, Clara me chama para um canto do bar.

— Leo pediu para dizer que está satisfeito com o seu atendimento. Disse que você sabe manter a postura.

Ergo as sobrancelhas, surpresa.

— Ele disse isso?

— Disse. — Ela sorri de canto. — Você sabe que ele não costuma elogiar à toa.

Olho rapidamente para o salão, mas não o encontro entre os clientes. A aprovação deveria significar apenas que estou cumprindo bem minha função, e ainda assim sinto uma satisfação que vai além do alívio de não ter cometido nenhum erro. Agradeço a Clara e pego os próximos pedidos, tentando não me demorar no assunto.

Já são quase quatro da manhã quando consigo fazer uma pausa nos bastidores. Sento em uma das cadeiras encostadas na parede e massageio os tornozelos, sentindo o peso das horas em pé. A música continua forte do outro lado, mas ali posso ao menos descansar sem precisar acompanhar os movimentos de ninguém. Fecho os olhos por alguns segundos, até ouvir passos no corredor.

— Está tudo bem?

Reconheço a voz de Leo e me levanto, ajeitando a camisola.

— Tudo certo, senhor Ávila. Só estou descansando um pouco.

— Pode se sentar, Lucy.

Obedeço, embora já não consiga relaxar como antes. Ele para a alguns passos da cadeira, e levanto o rosto para ouvi-lo.

— Você fez um ótimo trabalho hoje. Os convidados foram bem atendidos.

— Fico feliz em saber.

O orgulho que sinto aparece no meu sorriso antes que eu consiga contê-lo. Conheço minhas responsabilidades e procuro cumpri-las todos os dias, mas ouvir aquilo diretamente dele tem um peso diferente. Leo percebe minha reação; seu olhar se demora em meu rosto, e por um instante tenho a impressão de que a conversa ainda não terminou.

— Aproveite a pausa — diz, por fim. — Amanhã o movimento deve ser ainda maior.

— Estarei pronta.

Ele assente e segue pelo corredor da administração. Permaneço olhando naquela direção por alguns segundos antes de me acomodar de novo na cadeira. Meus pés continuam doloridos, a música ainda atravessa as paredes e logo vou precisar retornar ao salão, mas agora é a expressão dele que ocupa minha cabeça.

Tento me lembrar de que Leo apenas reconheceu meu trabalho. Não disse nada que justificasse essa inquietação, nem se aproximou além do necessário. Mesmo assim, quando penso na maneira como me olhou antes de ir embora, percebo que estou esperando pela próxima vez em que ele vai me chamar.

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