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Capítulo 4

last update publish date: 2025-04-29 05:14:59

Os dias seguintes exigem mais atenção do que eu gostaria de admitir. Desde a conversa no escritório, Leo e eu trocamos apenas as palavras necessárias ao trabalho. Ele dá as orientações, eu respondo, e quase sempre há alguém por perto. Quando acabamos sozinhos no mesmo ambiente, ele encontra uma razão para sair antes que o silêncio se prolongue. Percebo o esforço porque faço o mesmo: confiro os pedidos, organizo as bandejas e me ocupo de qualquer tarefa que me impeça de acompanhar seus movimentos pelo salão.

Ainda assim, basta que nossos olhares se encontrem para que eu me lembre de sua mão no meu rosto. A distância não diminui o que sinto; apenas me deixa mais consciente de cada aproximação, de cada frase dita no tom habitual, como se aquela noite não tivesse mudado nada.

Estou nos bastidores, terminando de ajustar o figurino, quando Felícia se aproxima.

— Lucy, o Leo chamou a equipe para uma reunião depois do expediente. Parece que vai fazer alguns ajustes.

— Que ajustes? — pergunto, olhando para ela pelo espelho.

— Não sei. Só avisaram que os dançarinos e os garçons precisam participar.

Assinto e volto a conferir o fecho do figurino, tentando não dar à notícia uma importância que ela não tem. Reuniões fazem parte da rotina da casa. O problema é saber que vou precisar ficar diante dele por mais algum tempo, depois de passar a noite inteira me esforçando para tratá-lo com a mesma naturalidade de antes.

Durante a apresentação, procuro me concentrar na música e nos movimentos que ensaiei. Consigo manter o ritmo até uma das voltas me deixar de frente para o bar. Leo está junto ao balcão, observando o palco, e sustenta meu olhar por um instante antes que a coreografia me obrigue a mudar de posição. Continuo sem errar, mas preciso de alguns segundos para recuperar a concentração. Quando o número termina, saio do palco satisfeita por ter cumprido a sequência e incomodada por ainda procurar a reação dele entre as outras.

Depois do fechamento, nos reunimos no salão principal. Sem a música e o movimento dos clientes, o espaço parece maior, e o cansaço fica evidente no rosto de todos. Alguns funcionários se sentam nas cadeiras próximas ao palco; outros permanecem em pé, esperando que a reunião seja breve. Escolho um lugar ao lado de Felícia e abro o bloco de anotações no celular.

Leo apresenta os ajustes nos protocolos de atendimento e nas apresentações, explicando cada orientação com a firmeza de sempre. Anoto o que preciso, embora em alguns momentos tenha de me obrigar a prestar atenção às palavras, em vez de à maneira como ele passa os olhos pelo grupo. Quando olha na minha direção, abaixo o rosto para a tela e espero que o gesto pareça apenas parte do trabalho.

— Alguma dúvida? — pergunta ao terminar.

Ninguém se manifesta. Ele aguarda mais alguns segundos antes de encerrar.

— Ótimo. Estão liberados.

Guardo o celular e me levanto com Felícia, pronta para voltar ao camarim.

— Lucy, fique mais um minuto, por favor.

Paro e olho para ele. Felícia me lança uma expressão curiosa, mas segue com os outros sem dizer nada. Espero perto das cadeiras enquanto o grupo se dispersa, ouvindo as conversas se afastarem pelos corredores. Quando o último funcionário sai, Leo caminha até o palco e apoia uma das mãos na borda.

— Está tudo bem? — pergunto.

Ele demora a responder, olhando para mim com uma expressão que não consigo interpretar de imediato.

— Você acha que está?

Respiro fundo. Poderia fingir que não entendo a pergunta, mas o silêncio dos últimos dias já nos custou esforço demais.

— Estou tentando manter as coisas profissionais, Leo.

Ele passa a mão pelos cabelos e baixa os olhos por um instante.

— Eu também. Achei que me afastar ajudaria.

— E ajudou?

Quando volta a me encarar, a resposta está em seu rosto antes de chegar às palavras.

— Não. Continuo pensando em você mesmo quando não estamos aqui.

Sinto vontade de me aproximar, mas permaneço onde estou. Ouvir aquilo me traz uma satisfação que não resolve o que me preocupa.

— Você é meu chefe — digo. — E eu dependo desse emprego.

Leo fica sério. Por alguns segundos, escuto apenas o ruído distante de alguém recolhendo as últimas garrafas no bar.

— Eu sei, Lucy.

— Preciso que você se lembre disso também.

Ele assente, mas dá um passo em minha direção. Acompanho o movimento sem recuar, consciente de como é difícil sustentar uma conversa racional quando ele está tão perto.

— Tenho pensado nisso desde aquela noite — diz. — Não deveria ter me aproximado daquele jeito sem saber como você se sentia.

Olho para sua mão quando seus dedos tocam os meus. O contato é leve, quase uma pergunta, e sinto a respiração mudar antes de conseguir responder.

— Não é tão simples — murmuro.

— Eu sei.

Ergo o rosto e encontro seus olhos. Há tanta atenção neles que, por um momento, esqueço o salão vazio e a hora avançada. Quero que ele compreenda minha preocupação, mas também quero que continue perto. Essa contradição me deixa imóvel, com os dedos ainda encostados nos dele.

— Leo…

— Se quiser que eu pare, me diga.

Abro a boca, mas não encontro uma resposta que corresponda ao que sinto. Deveria pedir distância até conseguir pensar com clareza; em vez disso, permaneço olhando para ele enquanto seu rosto se aproxima do meu. Percebo sua respiração, o movimento breve dos olhos em direção à minha boca, e inclino o rosto antes de ter tempo de reconsiderar.

Leo interrompe o gesto. Seus dedos se afastam dos meus, e ele recua o suficiente para que eu consiga respirar sem sentir sua proximidade a cada inspiração.

— Prometi a mim mesmo que não colocaria uma funcionária nessa situação — diz, passando a mão pela nuca. — Não quero que você tenha de se preocupar com o trabalho por causa do que sinto.

Engulo em seco, tentando me recompor.

— Então não coloque.

Minha voz sai baixa, mas ele escuta. Permanece em silêncio por alguns segundos, e não desvio o olhar, embora ainda sinta a frustração de vê-lo recuar.

— Preciso de tempo para pensar nisso direito, Lucy.

Assinto devagar. Não sei o que esse tempo vai mudar, mas compreendo por que ele o pede. Também preciso entender como lidar com o que quero sem ignorar o que está em jogo.

Quando a conversa termina, volto ao corredor com a sensação de ter deixado alguma coisa por dizer. Não houve beijo, e o breve toque em minha mão mal durou alguns segundos. Ainda assim, agora ele sabe que não é o único a ter dificuldade para manter a distância.

No camarim, me sento no sofá e apoio os cotovelos nos joelhos, esperando o corpo se acalmar antes de trocar de roupa. Felícia aparece pouco depois, com a bolsa no ombro, e diminui o passo ao me ver.

— Você não me engana, Lucy. Eu vi como ele olhou para você hoje.

Levanto o rosto, tentando parecer menos afetada.

— Não aconteceu nada.

Ela observa minha expressão e sorri.

— Ainda não.

Não respondo. Pego minhas coisas e me levanto, mas o comentário me acompanha enquanto tiro o figurino e visto a roupa com que vou para casa. Felícia percebe mais do que gostaria, e não tenho disposição para negar uma coisa que mal consigo admitir para mim mesma.

Em casa, deito sem conseguir relaxar. Estou cansada, sinto as pernas pesadas depois das horas de trabalho, mas minha atenção continua presa à conversa no salão. Recordo a maneira como Leo me ouviu quando falei do emprego, o toque em minha mão e a aproximação que ele interrompeu quando eu já esperava que me beijasse.

Fecho os olhos e imagino o que teria acontecido se nenhum de nós tivesse recuado. A lembrança de sua respiração perto da minha boca é suficiente para me fazer mudar de posição na cama, inquieta. Tento pensar em outra coisa, mas volto ao mesmo instante, agora percebendo com clareza que também me aproximei.

É isso que me mantém acordada. Posso compreender as razões para esperarmos e até concordar com elas, mas não consigo me convencer de que quero distância. Quando o vir novamente, vou precisar trabalhar ao lado dele sabendo que, por alguns segundos, tudo o que desejei foi que continuasse.

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