Um romance inesperado com o meu chefe

Um romance inesperado com o meu chefe

last updateLast Updated : 2026-10-19
By:  Renata Gonzaga Completed
Language: Portuguese
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Lucy sempre soube se virar sozinha. Entre saltos altos, sorrisos calculados e apresentações de tirar o fôlego na boate de luxo onde trabalha, ela construiu suas próprias armas para sobreviver num mundo que exige mais do que apenas beleza. Mas o que ela não esperava era ser desarmada por Leo Ávila — o enigmático e poderoso dono da boate, um homem que parece enxergar muito além da sua fachada impecável. Ele é tudo o que ela deveria evitar: mandão, sedutor e perigosamente irresistível. Ela é tudo o que ele não consegue controlar: indomável, sensual e cheia de segredos. Quando olhares intensos se tornam toques proibidos, e provocações se transformam em promessas não ditas, Lucy e Leo se veem presos em um jogo onde desejo e poder se confundem, ameaçando destruir as defesas que ambos construíram com tanto esforço. Mas quando sentimentos verdadeiros começam a emergir em meio às luzes da madrugada, eles precisarão enfrentar seus medos, suas cicatrizes e as consequências de se entregarem a uma paixão que pode ser tão destruidora quanto libertadora. Entre o palco e o perigo, entre o orgulho e o amor... Lucy e Leo descobrirão que algumas quedas são inevitáveis — e algumas rendições, simplesmente impossíveis de resistir.

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Chapter 1

Capítulo 1

As luzes vibram em tons de azul e roxo enquanto caminho pelo corredor estreito que conduz ao salão principal da boate. O som grave da música eletrônica atravessa as paredes e pulsa sob meus pés, forte o bastante para fazer o chão parecer vivo. No ar, o cheiro de perfume caro se mistura ao álcool, à fumaça artificial e ao calor de dezenas de corpos, criando uma atmosfera intensa que poderia ser sufocante para quem não está acostumado. Para mim, depois de tanto tempo, é apenas o início de mais uma noite de trabalho.

Meu nome é Lucy, tenho vinte e seis anos e trabalho aqui há três. Comecei servindo bebidas, tentando equilibrar bandejas pesadas em meio a clientes embriagados e homens que confundem gentileza com interesse. Pouco tempo depois, uma das antigas dançarinas me incentivou a aprender algumas coreografias. No começo, recusei. Não me imaginava subindo ao palco diante de tanta gente, mas a necessidade falou mais alto, e descobri que dançar não é tão diferente de servir: nas duas funções, preciso conhecer o ambiente, controlar os movimentos e jamais demonstrar insegurança.

Hoje, misturo as duas atividades com a mesma naturalidade. Atendo às mesas durante a maior parte da noite e, nos horários marcados, subo ao palco para apresentações que costumam render aplausos e gorjetas generosas. Não é o trabalho que imaginei para mim quando era mais nova, mas é honesto, paga minhas contas e me ensina a permanecer firme até mesmo quando dezenas de olhos tentam me despir antes da música começar.

O salão principal se abre diante de mim em toda a sua grandiosidade. Espelhos ampliam o espaço, os sofás de couro preto cercam mesas repletas de garrafas cintilantes e lustres modernos lançam reflexos dourados sobre a pista de dança. No centro, uma multidão se movimenta em sintonia com a batida pesada, formando uma massa viva de braços erguidos, cabelos soltos e corpos comprimidos. Tudo é planejado para encantar, provocar e fazer os clientes esquecerem do mundo do lado de fora.

Visto uma camisola curta de cetim branco, levemente transparente, sobre uma lingerie de renda da mesma cor. O figurino faz parte da imagem da boate e foi escolhido para seduzir, mas também para preservar o limite entre aquilo que mostramos e o que ninguém tem o direito de tocar. Aqui, a beleza funciona como um convite cuidadosamente calculado e, ao mesmo tempo, como uma espécie de escudo. Aprendi cedo que parecer vulnerável e estar vulnerável são coisas muito diferentes.

Meus olhos percorrem o ambiente por hábito, verificando quais mesas precisam de atendimento, até encontrarem Leo Ávila perto do bar. Não preciso procurá-lo de propósito. Sua presença sempre se destaca, mesmo em um salão lotado de pessoas tentando chamar atenção.

Leo é o dono da boate e o homem que comanda tudo ali com uma precisão quase desconfortável. Alto, atlético e sempre bem-vestido, usa um terno escuro impecável, embora a gravata ligeiramente afrouxada revele que a noite já exige mais dele do que demonstra. Os cabelos castanho-escuros estão alinhados, com um leve desalinho que parece proposital, e a barba curta acentua sua mandíbula marcada. Seu olhar percorre o salão com atenção, frio o bastante para intimidar e, ainda assim, carregado de um magnetismo que faz muita gente acompanhá-lo quando passa.

Ele conversa com dois integrantes da gerência, analisando números e fazendo anotações em uma prancheta. Mesmo concentrado na conversa, parece perceber tudo o que acontece ao redor: o garçom que quase deixa uma garrafa cair, o segurança que abandona o posto por alguns segundos e a cliente que ergue a mão, impaciente, tentando chamar alguém.

Em determinado momento, seus olhos encontram os meus.

A troca deveria ser rápida e impessoal, como todas as outras, mas alguma coisa me impede de desviar imediatamente. Leo permanece imóvel, com a caneta parada sobre o papel, observando-me como se tentasse identificar algo que nem eu sei explicar. A distância entre nós é grande, porém o peso daquele olhar reduz o salão, abafando por um instante a música e as conversas ao redor.

Inclino discretamente a cabeça, reconhecendo sua presença de maneira respeitosa. Ele retribui com um aceno quase imperceptível, sem sorrir, e volta a atenção para a prancheta. Somente quando isso acontece percebo que estava prendendo a respiração.

Sigo para o bar, repreendendo a mim mesma antes que minha imaginação transforme um gesto comum em algo que não existe. Leo é meu chefe. Um homem que observa todos os funcionários porque precisa manter a boate funcionando, e não porque encontrou alguma coisa especial em mim.

— Lucy, as mesas cinco e seis estão precisando de atenção — avisa Clara, a supervisora da noite, aproximando-se com uma bandeja cheia de copos.

— Pode deixar.

Recebo a bandeja, ajustando o peso sobre a palma da mão até encontrar o equilíbrio. Atravesso o salão desviando de braços levantados, casais abraçados e gargalhadas altas demais. A música muda para uma batida lenta e sensual, enquanto as luzes diminuem, deixando o ambiente mais íntimo. Sirvo as bebidas, confirmo novos pedidos e ignoro um homem que tenta prolongar a conversa apenas para me manter ao lado da mesa. Aprendi a sorrir sem prometer nada e a me afastar antes que a insistência se transforme em problema.

Quando retorno ao bar, Leo ainda está por perto, agora conversando em voz baixa com um dos seguranças. Coloco a bandeja vazia sobre o balcão e me preparo para buscar os próximos pedidos, mas sua voz me faz parar.

— Lucy.

Viro-me e encontro seus olhos em mim.

— Senhor Ávila?

Ele encerra a conversa com o segurança antes de se aproximar. A música está alta, obrigando-o a diminuir a distância para que eu consiga ouvi-lo. O perfume discreto, com notas amadeiradas, alcança-me antes de suas palavras, e preciso concentrar a atenção em seu rosto para não demonstrar que a proximidade me afeta.

— Está tudo bem nas mesas cinco e seis?

— Sim. Os clientes estão tranquilos até agora.

Um grupo passa atrás de mim no mesmo instante, empurrando-se em meio à multidão. Antes que um deles esbarre na bandeja, Leo toca meu antebraço e me conduz meio passo para o lado. O gesto é rápido, provavelmente instintivo, mas o calor de seus dedos atravessa minha pele e permanece mesmo depois que ele retira a mão.

— Cuidado — murmura, lançando um olhar severo na direção dos homens.

— Estou bem.

Minha resposta sai mais baixa do que deveria. Leo volta a me encarar e, durante um breve momento, seus olhos descem até o ponto em que me tocou, como se ele também tivesse percebido alguma coisa naquele contato. Sua expressão, porém, logo recupera o controle habitual.

— Se algum cliente ultrapassar o limite, chame um dos seguranças. Não hesite em interromper o atendimento.

— Pode deixar.

Um pequeno sorriso profissional acompanha minha resposta, mas ele continua me observando por um segundo além do necessário. Há firmeza em seu olhar e algo mais difícil de interpretar, uma intensidade silenciosa que desperta um calor inesperado no meu peito. Então Leo recua, volta a falar com o segurança e rompe o instante antes que eu consiga compreendê-lo.

Retomo o trabalho, embora a sensação dos dedos dele permaneça em meu braço por tempo demais.

Mais tarde, já perto do fim da noite, recolho copos vazios em uma das áreas VIP. Meus pés doem, e o corpo começa a cobrar cada hora passada de um lado para o outro, mas ainda mantenho a postura. Estou inclinada sobre uma mesa quando percebo uma presença atrás de mim. Não preciso me virar para saber quem é. Talvez seja o perfume ou a maneira como o ar parece mudar quando Leo se aproxima.

— Lucy — chama ele, em tom calmo.

Endireito-me antes de olhar em sua direção.

— Senhor Ávila?

Desta vez, ele segura um tablet e acompanha o movimento da casa pelas câmeras de segurança. A tela ilumina parte de seu rosto, tornando sua expressão ainda mais séria.

— Fiquei sabendo que você cobriu três setores hoje.

— Algumas garçonetes faltaram e a casa estava cheia. Não vi outra opção.

Ele ergue os olhos do aparelho e me analisa em silêncio. Não sei se espera uma reclamação ou se tenta descobrir até onde consigo suportar o cansaço sem pedir ajuda.

— Clara deveria ter reorganizado a equipe.

— Ela reorganizou como pôde. Eu estava disponível.

O canto da boca dele ameaça formar um sorriso, mas desaparece antes de se completar.

— Amanhã, vou garantir que suas horas extras entrem no pagamento.

— Obrigada.

Tento manter a voz neutra, embora um pequeno orgulho aqueça meu peito. Leo não costuma elogiar abertamente, e talvez aquela seja sua maneira de reconhecer meu esforço. Ele desliga a tela do tablet, mas não se afasta.

— Também quero que descanse entre as apresentações. Cobrir as faltas da equipe não significa levar seu corpo ao limite.

— Consigo terminar o turno.

— Eu sei que consegue. — Sua voz se torna mais baixa, obrigando-me a prestar ainda mais atenção. — Não foi isso que eu disse.

Sustento seu olhar, surpreendida pela preocupação escondida sob a ordem. Leo parece perceber a forma como suas palavras soam, porque sua mandíbula se contrai discretamente. Por alguns segundos, nenhum de nós fala. A música continua pulsando do outro lado da cortina que separa a área VIP, mas ali, naquele pequeno espaço, o silêncio adquire uma intensidade própria.

— Vou descansar quando terminar aqui — prometo.

Ele inclina a cabeça em aprovação.

— Faça isso.

Leo se afasta pelos corredores que conduzem aos escritórios privados, deixando para trás o perfume discreto e uma inquietação que não deveria existir. Observo-o por um instante, até sua silhueta desaparecer depois da porta, e só então volto a recolher os copos.

É apenas preocupação profissional, repito para mim mesma. Ele faria o mesmo por qualquer funcionária.

Ainda assim, não consigo evitar a impressão de que seu olhar diz coisas que sua voz se recusa a admitir.

Termino o turno algumas horas depois, exausta, mas satisfeita. O salão, antes vibrante e lotado, está quase vazio. Os últimos clientes conversam com as vozes arrastadas pelo álcool enquanto a equipe recolhe garrafas, limpa as mesas e organiza tudo para a noite seguinte. Nos bastidores, troco o figurino por uma calça escura, uma blusa confortável e minha jaqueta, prendendo o cabelo num coque apressado.

Quando chego à saída dos funcionários, encontro Leo conversando com Clara. Penso em passar sem interrompê-los, mas ele percebe minha presença e encerra a conversa com um gesto discreto.

— Boa noite, Lucy.

— Boa noite, senhor Ávila.

Seus olhos percorrem meu rosto e demoram nas marcas de cansaço que não consigo esconder. Por um instante, tenho a sensação de que ele vai perguntar se preciso de alguma coisa, mas Leo mantém as mãos nos bolsos e respeita a distância entre nós.

— Fez um bom trabalho hoje.

O elogio me surpreende. Ele reconhece o esforço dos funcionários por meio de pagamentos corretos e instruções objetivas, não com palavras. Ouvi-lo dizer aquilo diretamente desperta um sorriso que tento controlar.

— Agradeço pela confiança.

— Descanse. Amanhã teremos outra noite cheia.

— Estarei pronta.

Nossos olhares permanecem presos por mais alguns segundos. Não existe nada de inadequado naquele momento, nada que qualquer pessoa pudesse apontar como prova de alguma coisa, mas sinto novamente a tensão discreta que me acompanhou durante toda a noite. Leo parece prestes a falar, porém apenas inclina a cabeça.

— Até amanhã, Lucy.

— Até amanhã.

Saio da boate e puxo o capuz da jaqueta sobre a cabeça. A madrugada fria me envolve, contrastando com o calor que ainda carrego na pele. Caminho pela calçada quase deserta em direção ao ponto de ônibus, escutando o som distante da música diminuir a cada passo.

Leo Ávila é meu chefe, e suas poucas palavras não deveriam permanecer comigo depois que o turno termina. No entanto, lembro da maneira como pronunciou meu nome, do toque breve em meu braço e do olhar que demorou mais do que seria necessário.

Talvez seja apenas respeito. Talvez seja admiração mantida à distância. Seja o que for, deve permanecer dentro dos limites daquela boate, escondido entre as luzes, a música e tudo o que fingimos não perceber.

Por enquanto, é melhor que continue assim.

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