FAZER LOGINEu já a tinha visto antes mesmo de subir no palco.
A luz rubra da casa de shows recortava o contorno do corpo dela no meio da multidão — pequena, mas segura de si, com o vestido preto agarrado à pele e o cabelo castanho caindo como uma cachoeira sobre os ombros. Um contraste perfeito entre inocência e provocação. Do tipo que chama a atenção sem nem tentar. Do tipo que eu gosto de observar antes de decidir se chego mais perto.
E eu decidi.
A tradição dizia que em toda apresentação escolhemos alguém da plateia para o palco. Um jogo que eu sempre transformo em outro tipo de espetáculo. Cantar é fácil — o difícil é controlar o impacto que certas presenças têm na gente.
Quando o refrão começou, fiz o que todo mundo esperava de mim: o show.
A multidão se abriu quando os seguranças a convidaram a subir. A garota hesitou por meio segundo — charme puro — antes de aceitar. Assim que chegou perto, entendi que as luzes estavam sendo generosas demais. De perto, ela era ainda mais linda. Tinha olhos grandes, curiosos, uma boca suave, e aquele ar de quem não tem ideia do perigo em que estava se metendo.
Eu sorri. A plateia rugiu.
Aproximei meu corpo do dela, sentindo a tensão que percorreu os ombros finos. Não era medo; era um tipo diferente de choque, daqueles que queimam. Ela prendeu a respiração quando minha mão tocou sua cintura. Não empurrei. Não forcei. Só a conduzi.
A música guiava cada passo, e eu seguia o ritmo com a boca muito perto do pescoço dela, como se estivesse cantando só para ela — e talvez estivesse.
A casa está silenciosa de um jeito que só existe quando a noite já se acomodou em cada canto. Não é um silêncio vazio — é cheio de respirações pequenas, de passos que já aconteceram, de histórias que continuam mesmo quando ninguém fala.Elisa finalmente adormeceu.Ela tem sete meses agora, e dormir se tornou um ritual quase sagrado. O banho morno, a luz baixa, o cheiro do hidratante infantil que sempre me faz sorrir, como se o mundo pudesse caber naquele aroma. Eu a embalo devagar, sentindo o peso suave do corpo contra o meu peito, observando os cílios longos descansarem sobre as bochechas redondas. Quando a coloco no berço, ela suspira, como se estivesse concordando com o descanso.— Boa noite, meu amor — sus
O mar está calmo hoje.Há dias em que ele se agita, como se quisesse lembrar ao mundo que ainda é indomável, mas hoje… hoje ele apenas respira. Vai e volta na areia com um som suave, constante, quase como um coração tranquilo batendo no ritmo certo.Estou sentado em uma espreguiçadeira, os pés afundados na areia morna, e pela primeira vez em muito tempo não sinto aquela inquietação antiga dentro do peito. Aquela urgência que sempre me empurrou para o próximo show, o próximo contrato, o próximo aplauso.Hoje, eu fico.À minha frente, Stella está ajoelhada na areia, vestindo um vestido leve que o vento insiste em brincar. O cabelo preso de qualquer jeito, alguns
O iate corta o mar como se soubesse exatamente para onde estamos indo.O som da água batendo no casco é constante, quase hipnótico, e o sol reflete na superfície azul como milhares de promessas cintilando ao mesmo tempo. Eu observo da proa, os cabelos soltos sendo levados pelo vento, enquanto as meninas correm pelo convés rindo, livres, felizes — com aquele tipo de felicidade que só existe quando o mundo parece seguro.Seguro.Essa palavra nunca fez tanto sentido.Romeo alugou o iate inteiro para a lua de mel. Não apenas para nós dois, mas para a nossa família. Há uma babá experiente que acompanha as meninas com uma atenção amorosa, um chef que prepara pratos que parecem pequen
O cheiro da grama recém-cortada se mistura ao aroma suave das uvas maduras que cercam a vinícola dos meus pais. Chianti nunca pareceu tão viva quanto hoje. O sol da tarde atravessa as folhas da figueira centenária, criando sombras delicadas sobre o altar simples de madeira clara, decorado apenas com flores brancas e ramos verdes — como Stella pediu. Nada exagerado. Nada que roubasse o que realmente importava.Ainda assim, meu coração bate como se quisesse sair do peito.Estou ao lado dos meus pais, sentindo a mão firme do meu pai apertar meu ombro de leve, em um gesto silencioso que diz mais do que palavras jamais conseguiriam. Minha mãe sorri com os olhos marejados, segurando um lenço que ela jura não precisar, mas todos sabemos que vai.Os co
Eu não percebo quando começa.Só sei que estou sentada à escrivaninha do escritório, a casa silenciosa demais para o horário, o cursor piscando na tela do computador como se estivesse me cobrando alguma coisa. Escrevo uma frase. Apago. Escrevo outra. Minhas mãos estão frias, mesmo com o aquecedor ligado. O chá ao meu lado já esfriou há muito tempo.Há dias em que escrever é refúgio.Hoje, parece confronto.As palavras que surgem não são da história que eu deveria estar criando. São lembranças. Sensações. Fragmentos de uma versão minha que eu pensei ter deixado para trás.Meu peito aper
A casa dos meus pais tem um silêncio diferente à noite.Não é vazio. É denso. Carregado de histórias que já foram ditas ali, de decisões tomadas em mesas de madeira maciça, de risadas altas que ecoaram por décadas e agora descansam nos corredores. Estaciono o carro devagar, desligo o motor e fico alguns segundos parado, olhando para a luz acesa no escritório do meu pai.Ele sempre fica acordado até tarde.Respiro fundo antes de entrar. Não porque tenho medo da conversa — mas porque sei que ela vai mexer em coisas que eu evitei por tempo demais.Bato duas vezes na porta aberta.— Entra — a voz de Lorenzo vem firme, mas cansada.







