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CAPÍTULO 2

Author: Última Neve
Quando saímos da estação, Rafael caminhava na frente empurrando a mala de Carolina.

Eu vinha atrás.

Havia uma fila grande diante do elevador de saída.

Assim que coloquei um pé dentro, o painel indicou que o elevador estava lotado.

Carolina ainda estava do lado de fora.

Rafael empurrou minha mala para fora e, em seguida, puxou Carolina para dentro do elevador.

— Cami, sua mala é grande e ocupa espaço demais.

— Espera o próximo. A gente te espera lá na saída.

Antes que eu pudesse protestar, as portas se fecharam.

Fiquei parada do lado de fora enquanto um trem passava velozmente.

A corrente de ar bateu fria no meu rosto, e o frio chegou até o fundo do peito.

Quando finalmente cheguei à saída, não vi sinal dos dois.

Meus pais, que tinham combinado de buscar a gente, também não estavam ali.

No verão, o tempo mudava depressa.

Pouco depois começou a chover, e a chuva ficou cada vez mais forte.

Sem guarda-chuva, me abriguei sob a cobertura da estação e liguei para meus pais.

Levei meia hora inteira até alguém atender.

Meu pai exclamou, surpreso:

— Cami, você não entrou no carro?

— Meu Deus, eu estava tão distraído que achei que você já estivesse no carro.

Minha mãe o xingou e tomou o telefone da mão dele.

— A culpa é do seu pai, que é distraído demais! Mas a gente já está quase chegando em casa. Pega um carro e volta sozinha, tá?

Olhei para a chuva torrencial à minha frente. Uma névoa de lágrimas cobriu meus olhos e minha visão foi ficando embaçada.

Quatro pessoas tinham entrado num carro, e ninguém tinha percebido que faltava uma.

Eu já nem sabia quando tinha começado a me tornar invisível dentro da própria família.

A estação nova ficava longe do centro, e era muito difícil conseguir transporte dali.

Só quando já estava completamente escuro consegui parar um táxi que tinha acabado de deixar um passageiro.

A motorista me viu encharcada, tirou uma toalha do porta-luvas e me entregou.

— Toma, menina. Se seca um pouco pra não ficar doente.

— Aqui é difícil demais conseguir um carro. Por que sua família não veio te buscar?

Meus olhos se encheram de lágrimas de novo. Apenas balancei a cabeça, abatida.

Eles tinham vindo buscar alguém, sim.

Só não tinham vindo me buscar.

No caminho de volta, vi uma publicação do meu pai no feed.

"Meu amigo, pode descansar tranquilo. Nossa filha está nos dando muito orgulho."

Meus dedos apertaram o celular sem que eu percebesse, e senti como se um buraco se abrisse dentro do peito.

Na foto, quatro pessoas posavam diante da estação.

Carolina estava encostada em Rafael, com um buquê exuberante de girassóis nos braços, suas flores preferidas.

Não havia nada para mim.

Ou melhor, desde o início ninguém tinha preparado nada para mim.

Carolina era filha de um companheiro de farda do meu pai. Depois que ele morreu em serviço, meu pai a acolheu em casa.

Para que ela se adaptasse, tudo de melhor foi dado a ela.

Aos poucos, até eu, a filha biológica, deixei de ter prioridade.

Quando entrei em casa, todos já estavam comendo frutas depois do jantar.

O ambiente animado parecia o de uma família de verdade.

Meu pai pegou a parte mais doce de uma melancia para Carolina.

— Carol, come essa parte. Está bem doce. Pedi para deixarem gelando pra você desde cedo.

Rafael descascou algumas lichias e colocou tudo numa tigela para ela.

— Carol, você se esforçou muito ultimamente. Come mais um pouco e recupera as energias.

Eu já nem lembrava quando a parte mais doce da melancia e as lichias descascadas tinham deixado de aparecer na minha tigela.

Carolina se levantou e veio na minha direção.

Pegou minha mala e me levou em direção à mesa.

Enquanto andava, disse:

— Camila, foi culpa minha por ter ido rápido demais. Não fica brava.

Apertei a mão contra o peito. Minhas pernas pareciam pesadas demais para dar mais um passo.

Afastei a mão dela.

Quando comecei a subir as escadas, ouvi meu pai atrás de mim.

— Carol, não leva isso pro lado pessoal.

— A Cami ficou mimada porque a gente sempre cedeu demais. Se ela tivesse metade da maturidade que você tem, já estaria ótimo.

Usei o resto das minhas forças para fechar a porta do quarto.

Meu corpo já estava ardendo.

Depois de ter ficado tanto tempo na chuva, acabei com febre alta. Mesmo assim, até tarde da noite, ninguém apareceu para perguntar nada.

Ninguém quis saber se eu estava doente ou com fome.

De repente, a tela do celular acendeu com uma nova mensagem.

Uma esperança pequena surgiu dentro de mim.

"Cami, seu pai tem razão. A gente te mimou demais."

"A partir de amanhã, vamos cortar sua mesada."

"Aprende um pouco com a Carolina. Senão, quando você entrar na universidade, como vamos ficar tranquilos?"

O pouco de esperança que ainda restava se desfez por completo.

Fiquei agachada no chão. De repente, eu já não tinha mais força nem para protestar.

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