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Uma Partida, Montanhas Entre Nós
Uma Partida, Montanhas Entre Nós
Author: Última Neve

CAPÍTULO 1

Author: Última Neve
Foi só quando alguém da equipe de bordo passou pelo vagão com o carrinho de bebidas que Rafael Duarte se lembrou de mim.

Ele escolheu um suco de melancia, abriu a tampa com cuidado e o colocou diante de Carolina Nunes.

Depois me entregou uma garrafa de água.

— Cami, eu não sabia o que você queria beber, então peguei água pra você.

Ele se lembrava de que Carolina gostava de suco de melancia, mas não sabia o que a própria namorada gostava de beber.

Senti os olhos arderem.

A alegria que eu vinha sentindo por ter ido muito melhor do que esperava na prova desapareceu num instante.

Não peguei a água. Chamei alguém da equipe de bordo e comprei um suco de melancia para mim.

Rafael ficou com a mão parada no ar.

Uma expressão de desagrado surgiu no rosto dele.

— Camila Azevedo, não foi você que insistiu nessa viagem de formatura?

— Eu realmente não entendo por que você está emburrada há dias.

Três anos antes, para me convencer a estudar no mesmo colégio que ele, Rafael tinha prometido que, depois da formatura, me levaria para viajar até Costa Serena.

Por isso, durante três anos, eu imaginei nós dois vendo o mar juntos e saindo de moto elétrica para ver o nascer do sol.

Agora, no fim, eu é que tinha insistido nessa viagem.

E eu só tinha descoberto pouco antes da partida que Rafael também levaria Carolina.

No primeiro dia em que chegamos ao litoral, Rafael pegou das minhas mãos o caderno com o roteiro de viagem que eu mesma tinha montado à mão.

Carolina se aproximou com uma expressão constrangida.

— Tem lugar demais pra visitar. Meu sapato não é adequado pra andar tanto.

Então Rafael cancelou todos os passeios que eu tinha planejado.

Ele jogou no lixo, sem pensar duas vezes, o roteiro que eu tinha preparado com cuidado depois de passar várias noites acordada.

— Camila, a gente veio viajar. Tenta fazer as coisas sem tanto planejamento.

— Não precisa seguir tudo desse jeito tão rígido.

Depois fomos à Ponta do Horizonte, um dos pontos turísticos mais famosos de Costa Serena.

Carolina, com o rosto corado, me perguntou:

— Cami, eu posso tirar umas fotos com o Rafael? Sozinha eu não sei fazer pose e fico morrendo de vergonha.

Antes que eu respondesse, Rafael colocou a câmera instantânea nas minhas mãos.

— Cami, não se preocupa comigo. Só tira umas fotos bonitas da Carol.

Soltei um sorriso amargo. Eu já nem tinha forças para recusar.

Eu tinha até praticado fotografia por um tempo, porque queria tirar uma foto nossa na praia e finalmente assumir o namoro.

Mas ali, na Ponta do Horizonte, a câmera acabou registrando meu namorado ao lado de outra pessoa.

Um movimento de Carolina interrompeu minhas lembranças.

Ela logo pegou a garrafa de água e deu um tapinha em Rafael.

— Rafael, a Cami deve estar assim porque não foi bem na prova.

— Você é namorado dela. Por que não tenta ser um pouco mais compreensivo?

— Pede desculpas logo!

Carolina sempre era assim, compreensiva e atenciosa.

Foi por isso que, desde que ela passou a morar na minha casa durante o ensino médio, nós duas vivíamos sendo comparadas o tempo todo.

Ela era obediente, sabia agradar e todo mundo gostava dela. Ao lado dela, eu passei a parecer uma garota problemática que nunca fazia nada direito.

Meus pais diziam que adoravam meu jeito.

Mas, depois que Carolina chegou, a frase que mais ouvi foi:

— Cami, você não consegue aprender um pouco com a Carol?

Nem mesmo Rafael, meu amigo de infância, foi exceção.

Ele se levantou e passou a mão pelos cabelos, sem jeito.

— Desculpa, Carol. Eu fiquei empolgado demais e não percebi o meu tom.

Ele realmente pediu desculpas.

Mas foi para Carolina.

Por um instante, eu já nem sabia pelo que ele estava se desculpando.

Carolina veio até mim e se agachou ao lado do meu assento.

— Cami, não liga pro que ele disse.

— Na pior das hipóteses, você estuda mais um ano e tenta a prova de novo. A gente espera você lá na Universidade J.

Rafael logo concordou com ela:

— Cami, você tem um pouco mais de dificuldade nos estudos, mas, se estudar mais um ano, com certeza consegue entrar na Universidade J.

— Aí eu e a Carol podemos te ajudar.

Não respondi. Apenas continuei mexendo no celular em silêncio.

Eu tinha ido muito melhor do que nas provas simuladas. Minha nota tinha ficado 80 pontos acima do que eu costumava tirar nos simulados.

Com aquele resultado, eu também podia escolher qualquer curso da Universidade J.

Mas agora eu não queria mais ir com eles.

Eu não queria mais viver sendo comparada com ela.

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