LOGINMas quando virei o rosto, vi Isabella rindo de canto, aquele sorriso fingido que ela usa quando pensa que sabe mais do que devia. O problema não era Sofia. O problema ali era ela.— Você ouviu, Isabella. Nada de sair daqui com a minha mulher. — falei seco, como um estalo de chicote no ar.— Não precisa se preocupar, Rafael. Eu não sou nenhuma sequestradora... ainda. — ela disse, jogando os cabelos pro lado com aquela voz carregada de veneno doce.— Mas é fofoqueira e intrometida. Então cuidado. Aqui não tem espaço pra gracinha.— Eu não vou sair daqui, Rafael. — a voz da minha andorinha soou firme atrás de mim. — Prometo.— Que bonitinhos vocês dois... parecem até um casal de novela da tarde. — resmungeu Dmitri, encostado no batente da porta com aquele sorriso torto que só ele sabe fazer.Virei o rosto devagar e encarei o diabo do meu primo. Dei um passo até Sofia, cheguei perto o bastante pra sentir o cheiro do bolo no avental dela, e depositei um beijo no topo da cabeça dela, onde m
O barulho da engrenagem começou a ecoar do lado de fora. Mas que diabos esse traste tava fazendo aqui?— Patrão? Que foi esse barulho aí? — Benjamim perguntou, ainda na linha.— É o capeta chegando. — murmurei entredentes. — Vou desligar. Depois conversamos direito.Desliguei sem esperar resposta e enfiei o celular no bolso. Caminhei até a porta e a abri, sendo imediatamente atingido pelo ar frio do inverno. O vento cortava como navalha. O gramado lá fora tava ainda mais coberto de neve do que na noite anterior. E no meio de tudo aquilo... ele. O diabo em forma de gente. Dmitri. Vi ele fazendo palhaçada atrás do volante, balançando a cabeça como se tivesse dançando uma daquelas músicas malucas que só ele escuta. A caminhonete deslizou pela entrada com os pneus rangendo na neve. Ele parou o carro, abriu aquele maldito sorriso torto pra mim e desceu como se tivesse chegado no baile. Deu a volta e abriu a porta do carona com toda pompa. Isabella desceu com os cabelos arrumadinhos, casaco
O que importava agora... era ela. Me aproximei, ficando atrás dela. Encostei minha mão firme na cintura dela, sentindo sua respiração dar uma leve pausa. — Me diz... — sussurrei com a voz mais baixa, rente ao ouvido. — Tá mesmo tudo bem aqui dentro? — minha mão subiu devagar até o coração dela, sem apertar, só tocando, como quem escuta o que a boca não tem coragem de dizer.— Não... mas vai ficar. Se você continuar aqui... vai sim. — ela respondeu num fio de voz, e eu soube. Soube que agora ela era minha. Mesmo com medo. Mesmo machucada. Ela era minha.O toque do celular cortou o silêncio entre nós. Vinha de algum canto da casa, abafado, insistente. Olhei para minha andorinha ali, ainda perto das panelas, e antes de sair, curvei o corpo e depositei um beijo calmo no topo da cabeça dela.— Já volto, menina. — murmurei, com a voz mais baixa.Sai da cozinha, os passos pesados ecoando na madeira do chão. Passei pela sala, olhei pro sofá e lá estava o maldito aparelho, largado entre as a
RAFAEL MONTENEGROTerminei de fechar o zíper da calça com força, como se a raiva que eu sentia se concentrasse ali. Passei o cinto pelas presilhas, encaixando a fivela com um estalo seco, e comecei a colocar a blusa por dentro da calça, ajeitando com pressa. Eu não dormi. Não tinha como. Que cacete... como é que um homem consegue fechar os olhos depois de ouvir aquilo? Parece que, em vez de cansar, meu corpo ficou mais alerta. E agora, com o sangue fervendo nas veias, eu tinha certeza disso.Sai do quarto empurrando a porta com a palma da mão, a madeira rangendo como se até ela soubesse que o dia já ia começar pesado. Desci os primeiros degraus com o cenho franzido e os olhos varrendo o ambiente. Olhei direto pro sofá lá embaixo. Vazio. Franzi mais ainda a testa. Sofia tinha apagado ali, encolhidinha sob os cobertores, e eu não tive coragem de levá-la pro quarto — tava frágil demais pra ser tocada. Mas agora... agora não tinha nem sombra dela ali.Acelerei os passos, os degraus rangen
Era como se minha alma gritasse. — Você sabe onde ele tá agora? Ele ainda tá vivo? Ela me olhou. Seus olhos brilhavam ainda mais, lavados pela dor, pela lembrança. Eu precisava fazer algo. Esse demônio não podia andar livre por aí como se fosse um homem qualquer. Ele precisava pagar. Pela dor dela. Pela menina que ela foi. Pela mulher que quase não pôde ser. — Me diz, Sofia... onde é que ele se esconde? — Eu não posso falar... — a voz de Sofia saiu fraca, quase um sussurro, enquanto seus olhos fugiam dos meus. — Minha tia depende dele... por mais que ela não seja uma pessoa boa, era irmã da minha mãe... — E DANE-SE SE ERA IRMÃ DA SUA MÃE! — gritei, me levantando como um estouro, sem conseguir controlar a raiva que fervia no meu peito. — Quem bota a mão onde não deve tem que pagar, Sofia! PAGAR! Sentei de novo, o peso da revolta desabando nas minhas costas. Levei as mãos à cabeça, os cotovelos apoiados nos joelhos. Meus dedos cravaram os cabelos com força enquanto eu olhava
Fiquei em silêncio. Não sabia como reagir. Ontem mesmo, quando estávamos indo pra casa do Dmitri, ela cortou essa conversa no meio. Disse que não se sentia pronta. E eu respeitei. E ainda respeito. Não quero que ela sinta que tem que me contar nada. Só que agora ela estava falando, por vontade própria. Então apenas respirei fundo. — Você não precisa falar disso se não quiser. — disse, olhando direto nos olhos dela. — Não precisa provar nada pra mim. Ela suspirou, os dedos entrelaçados no próprio colo, mas o olhar firme, com aquele brilho que só surge quando se está abrindo uma ferida. — Eu preciso, sim. — murmurou. — Porque você é o primeiro homem que me olhou sem querer nada em troca. Que me deu um lar sem esperar que eu abrisse as pernas. Fechei os olhos por um segundo, como se aquilo tivesse me atingido com força. Engoli em seco e falei baixo: — Você não tem ideia do quanto isso me revolta. E então ela completou, sem piscar. — Eu sei que eu vim de um bordel. Não me







