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last update publish date: 2026-08-30 17:09:06

Minha bochecha queima. Meus pais nunca, em dez anos, levantaram a mão para mim. Quando eu quebrava algo em casa, meu pai inventava uma piada ridícula para me fazer rir e minha mãe me ajudava a catar os cacos sem drama. Aqui? Aparentemente, quebrar a louça é um crime passível de pena capital.

Limpo uma lágrima rebelde antes que ela tenha a audácia de escorrer e me sento à mesa, engolindo o nó do tamanho de uma granada na garganta. É nesse momento que o tio Henrique entra pela porta dos fundos, sacudindo a poeira dos sapatos pesados de couro. Ele me encara com uma intensidade desconfortável — um olhar lento, calculado, do tipo que avalia o peso e o valor de uma mercadoria.

— Levante-se — a tia Clotilde ordena friamente, servindo uma tigela funda de sopa. — Meu marido come primeiro. Você espera a sua vez, como qualquer pessoa educada.

Eu me levanto em silêncio absoluto. A hierarquia desta casa acabou de ser desenhada com giz de cera brilhante: eu estou no patamar mais baixo da lista de coisas descartáveis.

— Gostou do quarto, Sofia? — o tio Henrique quebra o silêncio, puxando a cadeira de madeira e abrindo um sorriso que tenta transparecer simpatia paternal, mas falha miseravelmente em todos os níveis sociológicos.

— Sim, tio — respondo, mantendo a voz o mais neutra, plana e segura que consigo simular. — É bom ter um espaço só meu.

— Tenho um presente especial para você — ele diz, inclinando o corpo ligeiramente na minha direção por cima da mesa. O tom de voz dele, macio e cadenciado, faz todos os alarmes do meu cérebro apitarem ao mesmo tempo em uma frequência ensurdecedora. — Mas é um segredo nosso. Só vou te dar quando você comer absolutamente tudo o que eu colocar no seu prato.

Ele pega a concha e serve uma porção generosa de caldo de milho para mim, ignorando quase por completo a presença da esposa. Pelo canto do olho, vejo a tia Clotilde esmagar o guardanapo de pano na mão. O olhar que ela lança na minha direção é puramente venenoso. O mais bizarro? Ela não está brava com ele; ela está com raiva de mim por existir, por estar ali e por atrair a atenção do marido. A dinâmica psicológica desta casa é oficialmente doentia.

Engulo a comida morna sem sentir o gosto de absolutamente nada, sob a supervisão incômoda daquele par de lunáticos. Logo em seguida, lavo a louça na pia da cozinha, mergulhando as mãos em uma água tão gelada que perco a sensibilidade dos dedos em menos de dois minutos. Assim que a última colher é guardada, escapo para o meu microquarto, viro a chave enferrujada na fechadura com o máximo de cuidado para não fazer barulho e respiro fundo.

Troco de roupa rapidamente, vestindo minha camisola florida — o único tecido que ainda cheira vagamente ao amaciante que minha mãe usava —, e tento me convencer de que preciso apenas sobreviver um dia de cada vez.

De repente, sinto uma brisa gelada bater nas minhas costas nuas. Fico congelada no lugar.

Quando me virar devagar, vejo a porta do quarto entreaberta em uma fenda escura de dois dedos. Tenho certeza absoluta de que havia girado a chave naquela tranca.

Aproximo-me a passos lentos e silenciosos, o coração batendo com a violência de um solo de bateria de heavy metal na minha garganta.

— BU!

— Ah! — dou um salto de meio metro para trás, soltando um grito abafado antes que meu cérebro consiga processar a palhaçada.

O tio Henrique surge da penumbra do corredor, revelando-se com um sorriso imenso que não alcança os olhos.

— Você me assustou, tio — digo, forçando uma risadinha rápida e nervosa para tentar desarmar o clima e mascarar o pavor que faz minhas pernas parecerem feitas de gelatina.

— Como você está linda, Sofia — ele murmura, e o olhar dele desce lentamente da minha cabeça até os meus pés, fazendo todos os pelos do meu corpo se arrepiarem em protesto. — Espero que não arrume nenhum namoradinho na escola tão cedo, senão o seu tio vai ficar muito, muito ciumento.

O que há de errado com esse cara? Eu tenho dez anos de idade.

— Você... veio me entregar o presente, tio? — pergunto rápido, atropelando as palavras, desesperada para mudar o rumo da conversa e acelerar a saída dele do meu espaço.

Ele tira as mãos de trás das costas com um gesto dramático e revela uma bonequinha de pano totalmente nova, com cabelos feitos de lã amarela e um vestido azul cuidadosamente bordado.

— Muito obrigada, tio. Ela é linda — digo, pegando o brinquedo da mão dele e segurando-o contra o peito, usando-o quase como um escudo físico entre nós dois.

Ele dá um passo à frente, encurtando a pouca distância que nos separava. Inclina-se e me dá um beijo demorado no pescoço, seguido por um beliscão na minha barriga.

— Ah, tio, para com isso! — tento rir, me esquivando em um movimento rápido, fingindo que é apenas uma brincadeira de criança enquanto todo o meu sistema nervoso grita para eu correr e trancar a porta.

Ao fundo, na escuridão do corredor, consigo ver a silhueta da tia Clotilde. Ela está parada como uma estátua do mal, os braços rigidamente cruzados sobre o peito, exalando uma aura de rancor tão densa que quase dá para ver a fumaça.

— Vá dormir, Sofia. Está fazendo frio — ele diz finalmente, dando meio-passo para trás, embora seus olhos continuem cravados em mim com uma insistência desconfortável.

— Boa noite, tio.

Entro debaixo da coberta pesada de lã que cheira a poeira e tempo guardado. O tio Henrique continua parado no batente da porta por longos, angustiantes e intermináveis vinte segundos. O silêncio na casa é tanto que consigo ouvir o tique-taque acelerado da minha própria respiração descontrolada.

— Boa noite, pequena — a voz dele arranha a penumbra antes de ele finalmente puxar a porta de madeira.

Fico encarando as vigas do teto no escuro, totalmente paralisada. Cada pedaço desta casa parece uma armadilha prestes a ser disparada. Sinto uma falta dolorosa, quase física, do meu pai, da minha mãe, do meu quarto de verdade — de qualquer lugar onde eu não precisasse me sentir como um animal acuado em uma jaula.

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