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last update publish date: 2026-08-30 17:09:34

Tento fechar os olhos e buscar o sono, mas cerca de vinte minutos depois, o silêncio da casa é quebrado por ruídos estranhos vindos do corredor. Primeiro, o som de passos arrastados. Depois, respirações pesadas e abafadas. E então, o meu nome projetado em um murmúrio bizarro.

— Sofia...

Meus olhos se abrem no mesmo instante. Meu sangue vira gelo instantaneamente. Ele está passando mal? Tendo um ataque do coração? O que diabos está acontecendo lá fora?

Sento na cama com o coração na boca. Antes que eu possa tomar qualquer atitude prudente, a voz da tia Clotilde explode no corredor como uma bomba de fragmentação.

— Por que você está gemendo o nome daquela fedelha?! — ela grita, a voz completamente descontrolada, rasgada, histérica.

Me jogo de volta na cama em um reflexo puro de sobrevivência, puxando o cobertor até cobrir a cabeça, tentando desaparecer do mapa, como se um pedaço de tecido grosso pudesse me tornar invisível para a insanidade daquela gente.

— Eu não gemei o nome de ninguém! Você ficou maluca da cabeça?! — o tio Henrique esbraveja de volta, mas a voz dele vacila no final da frase, entregando o pânico.

— Gemeu sim! Eu ouvi com estes ouvidos! Você é um imundo nojento e ela é uma dissimulada! Aquela garota vai me pagar caro por isso!

O barulho da porta do quarto deles batendo com tanta violência faz a estrutura de pedra da casa tremer. Passos pesados, rápidos e furiosos marcham na direção do meu quarto.

Não, não, não. Por favor, não.

A porta do meu quarto é escancarada com um estrondo que ecoa por toda a vila. A tia Clotilde surge na entrada como uma visão do próprio inferno: os cabelos completamente desgrenhados, os olhos saltados e selvagens de fúria, e um cinto de couro pesado de fivela larga dobrado na mão direita.

— Sua vagabunda! Sua fedelha nojenta! — ela avança na minha direção com a velocidade de um animal raivoso. — O que você acha que está fazendo sob o meu teto? Acha que vai me fazer de palhaça?

— O quê? Eu não fiz nada! Eu estava dormindo! — tento gritar, me encolhendo contra a parede de pedra congelante.

Ela me puxa pelos cabelos com uma violência cega, me arrancando da cama e me jogando no chão. O cinto de couro desce com força total contra as minhas pernas desprotegidas.

O som do couro estalando contra a minha carne é seco e a dor é uma explosão imediata de fogo líquido. Grito a plenos pulmões, tentando cobrir o rosto e a cabeça com os braços enquanto os golpes continuam caindo sem piedade.

— Você está tentando roubar o que é meu! — ela esbraveja, descarregando mais um golpe ardente nas minhas costas. — Quer chamar a atenção dele, não é? Sua dissimulada!

— Por que você está me batendo?! Eu não fiz nada! Por favor, para! — me debato no chão, chorando alto, sem conseguir processar a loucura surreal que tomou conta daquela mulher.

Pelo canto do olho, em meio às lágrimas e à dor cegante, vejo a silhueta do tio Henrique parado no batente da porta. Ele está perfeitamente ereto, subindo o zíper da calça com a calma assustadora de quem acabou de assistir a um comercial de TV sem graça.

Ele não diz uma única palavra. Não faz um único gesto para contê-la. Apenas me encara com um olhar frio, vazio, quase entediado.

Olho diretamente para ele, implorando por socorro com os olhos, mas não há absolutamente nada do outro lado. Ele é tão sociopata e monstruoso quanto ela.

A tia Clotilde me solta no chão, arfando de cansaço físico, e me lança um último olhar carregado de um ódio puro e visceral antes de agarrar o marido pelo braço e sair pisando fundo, batendo a porta atrás de si com força suficiente para soltar poeira do teto.

Fico encolhida no chão frio de cerâmica, minhas pernas e costas queimando como se tivessem sido banhadas em óleo fervente, meu peito sacudindo em soluços dolorosos e silenciosos.

Tenho dez anos de idade. Estou totalmente isolada em uma casa de pedra no interior da Sicília, sem meus pais, sem amigos e trancada com dois lunáticos perigosos.

Olho para a boneca de pano jogada a poucos centímetros da minha mão. Limpo o rastro de sangue do meu lábio inferior com a manga da camisola florida e encaro a escuridão do quarto.

As regras do jogo mudaram. Ninguém vem me salvar. Se eu quiser sair viva e inteira dessa casa, vou ter que aprender a jogar o jogo deles — e garantir que, no final, eu seja a única de pé.

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