MasukConsequênciasEu estava na cozinha, com o café fumegando na mesa, quando a Bela apareceu ali na porta, com uma das minhas revistas nas mãos, aberta no meio, os olhinhos brilhando de curiosidade.— Mãe.— Hm? — respondi, sem tirar os olhos da xícara.— Você sabia que a Mônica ideia o Cebolinha?ela bate nele sempre com o coelhinho azul.Olhei para ela por cima da borda da xícara, segurando o riso:— Como é que você observa essas coisas, hein?— Está aqui, ó bem grande! — apontou o dedinho para a página.— E por que você está lvendo essa revista de gente grande? — perguntei, secando a mão no avental.— Pesquisa ,mas o que Cebolinha e Mônica está fazendo na revista de gente grande?— Disse ela, com a seriedade de uma professora.— Eu não queria acabar com sua fantasia, mas a turma da Mônica e mais velha do que eu e você?__ Mas você é velha mamãe? É mais velha que o papai?__ Seu pai é mais velho que eu pouca coisa.__ Não acledito!__Entao tá ficando aí bobinha.Bela ficou séria, endire
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonista: LeandroA primeira coisa que ouvi naquela manhã foi o barulho da torneira pingando na cozinha.Ping.Ping.Ping.Fiquei deitado olhando para o teto durante alguns segundos, contando cada gota, como se aquele som ritmado fosse o único ponto firme num mundo que tinha virado de cabeça para baixo. A casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Levantei devagar, sem fazer barulho, sentindo o frio do piso nos pés descalços. Passei pela sala: a televisão de tubo continuava desligada, com a tela escura refletindo a luz fraca que entrava pela janela. Uma xícara esquecida sobre a mesa, ainda com um resto de café escuro no fundo. Uma camisa jogada numa cadeira, como se alguém tivesse tirado às pressas. Tudo parado. Como se a vida inteira tivesse parado para esperar alguma coisa. Ou alguém.Abri a geladeira. O ar frio me bateu no rosto. Peguei o leite, coloquei no fogo. Enquanto a panela esquentava, meus olhos des
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonistas: Leandro e RaquelNão consegui dormir aquela noite. De jeito nenhum. Depois que o Leandro falou sobre o carro parado observando a casa, alguma coisa dentro de mim ficou inquieta, remexendo, não deixando sossego. Fiquei deitada, de olhos abertos, ouvindo cada som da casa: o tic-tac do relógio na sala, o vento batendo forte na janela, os galhos das árvores raspando devagar no telhado como dedos curiosos.A Bela dormia profundamente ao meu lado, serena, abraçada na boneca que a tia Lurdes tinha dado. Às vezes virava para um lado, depois para o outro, sem soltar o brinquedo. Como eu queria ter dormido assim a vida inteira… sem medo, sem lembranças ruins, sem imaginar quem podia estar do outro lado da porta. Fechei os olhos com força, tentei descansar… mas a mente não parou.Quando amanheceu, levantei cedo. Muito cedo. Antes mesmo da tia Lurdes acender o fogo na cozinha. Antes do Leandro. Antes de todo mun
32📖 ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonistas: Leandro e RaquelAquela história da Lan house não saiu da minha cabeça o dia inteiro. De jeito nenhum. Raquel tinha voltado diferente naquele dia — mais calada, mais pensativa, com aquele olhar longe, como se estivesse vendo coisas que ninguém mais via. E conhecendo ela como conheço, isso só pode significar uma coisa: problema. E problema dos grandes.Eu estava sentado na varanda da casa da tia Lurdes, olhando a rua, quando os vi aparecerem. Raquel vinha na frente, carregando uma sacola nas mãos, com o passo devagar, pensativo. E a Bela vinha logo atrás, chupando um pirulito colorido, daqueles bem grandes que só vendem nas bancas do centro.— Onde vocês estavam? — perguntei, levantando um pouco da cadeira.Raquel parou na escada e me olhou:— Passeando.— Isso eu percebi — falei, notando o jeito dela.— Então por que perguntou? — rebateu, com um meio-sorriso.Mulher difícil. Mas eu gosto assim.
31Acordei com o cheiro de café passando por baixo da Parece que entra pra todo lado dei um pulo da cama, comecei a orar.Senhor meu Deus fortace nossa família dos opressores, obrigadaSentei na cama, avaliei minha pessoa, estou forte e fiquei olhando para o teto de madeira do quarto.Bella ainda dormia.Os cabelos loiros estavam espalhados pelo travesseiro.Como uma criança consegue dormir tão tranquila?Às vezes eu invejava isso nela.A capacidade de esquecer os problemas.A capacidade de acreditar que tudo vai ficar bem.Passei a mão devagar no rosto dela.Minha filha.Depois de tantos anos não acostumar com ela.Levantei devagar para não acordá-la.O corredor estava silencioso.A casa da tia Lurdes tinha uma calma que me deixava até desconfiada.Era tudo organizado.Os quadros antigos nas paredes.O piso encerado.As cortinas rendadas balançando com o vento da manhã.Na cozinha, tia Lurdes já estava fazendo bolo está usando um avental e passando a mão suja de trigo nele.O rádio peq
Fiquei olhando para Raquel depois que ela falou que não estáva mais sozinho. E muito estranho pra mim,e ver ela se desabrochar fico feliz tenho sensação que mulher larga o peso mais rápido ou é mais forte porque ela viveu os mesmos inferno do que eu..Pode ser que o dela seja pior, porque foi vendida para um homem ordinário feito meu pai.Aquele assassino da minha mãe,me largou sem mãe e nunca quis desapegar de mim.Que amor é esse papai que o senhor tem pelas pessoas que o senhor ama,ou é ódio? O senhor aprendeu a ser assim?O que lhe faltou.Eu devia odiá -lo.Mas toda vez que eu tento eu fico,eu não consigo seguir em frente. Me deixa triste,sem me conhecer,sem saber pra onde vou. Muito estranho eu sou.Passei a vida inteira confiando apenas em mim.E agora ela diz que não estou sozinho e se eu não mudar eu ficarei. Mas como confiar?Quando confiava em alguém, acabava levando uma facada nas costas. Meu pai era assim ele foi meu herói e ele é meu bandido.O único que conheci. Félix é as







